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Alemanha Hesse

Conhecendo o lado turístico e histórico de Frankfurt, Alemanha

(Este será um post longo)

Dem Wahren, Schönen, Guten. “Ao verdadeiro, belo, bom”. São as palavras ali gravadas na fronte da Antiga Ópera (Alte Oper) de Frankfurt, uma cidade muito mais conhecida pelo seu poderio econômico — sendo o coração financeiro da Alemanha e, como se isso não bastasse, também a sede do Banco Central Europeu — que por qualquer dote artístico ou histórico.

Porém, essa é uma leitura contemporânea deveras parcial. Afinal, o noticiário escolhe do que vai tratar e, por conseguinte, aquilo que fica sem ser falado. Por exemplo, que Frankfurt tem um centro histórico simpático e é nada menos que a cidade natal de Goethe, considerado o maior escritor e poeta de língua alemã de todos os tempos.

Eu próprio demorei a fazer esta visita a Frankfurt propriamente dita, tendo de outras vezes apenas passado pelo aeroporto (que é o mais movimentado da Alemanha).

Às vésperas de Natal, eu resolvi finalmente conferi-la. Esta é sempre uma época especial para visitar a Europa Central, quando as feirinhas natalinas ocupam as praças, criando uma atmosfera inigualável. Esta região da Europa é, definitivamente, onde estar nesta época do ano.

Dito isso, e em respeito também às célebres palavras gravadas ali na Antiga Ópera, eu preciso tratar do bom, do belo, e também do verdadeiro, ainda que este nem sempre seja bom ou belo.

Como vocês já sabem, eu relato o que vejo — sem cortes. Vamos, portanto, à Frankfurt às vezes boa e bela (nem sempre), mas sempre verdadeira. É o início de um breve périplo pré-natalino aqui pelo interior germânico. Willkommen!

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Frankfurt mistura incrivelmente o antigo e o moderno, talvez mais que qualquer outra cidade alemã.

Chegando a Frankfurt

No meu vespertino voo desde Estocolmo, naquela tranquilidade de se estar finalmente a bordo, as botas pretas de cantora de metal gótico da aeromoça da Lufthansa chamaram-me a atenção. Do outro lado, pela janela, um pôr do sol vermelho se derramava sob o céu escurecendo no sul da Suécia.

Estávamos a caminho de Frankfurt, a mais rica cidade da Alemanha. São mais de 110 mil milionários e 14 bilionários na cidade, segundo as estimativas.

Frankfurt, entretanto, não costuma figurar nos circuitos turísticos — exceto pela passagem pelo aeroporto — porque foi severamente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Só muito recentemente ela concluiu um longo trabalho de restauração do seu centro histórico (Altstadt). Levado a pó pelas bombas britânicas em 1944, ele renasceu das cinzas pela mesma mão do ser humano em 2018, mais de meio século depois.

A demora se deu porque a reconstrução foi em etapas, e somente com a atual ascensão do turismo mundial é que surgiu maior interesse em preservar os espaços antigos como eles eram. Nos idos de 1950-1970, muito do que era reerguido era feito naquele estilo brutalista moderno — sem graça nem decoro algum — no nu concreto. E olhe que aqui estávamos na Alemanha Ocidental, capitalista. (A falta de gosto era geral).

A Guerra Fria até 1989 tampouco permitia muito espaço à nostalgia alemã. Ainda hoje, a maioria dos alemães ficam cheios de dedos para qualquer grandiloquência sobre seu passado. Somente após a Copa do Mundo de 2006 é que se atreveram a permitir-se algo mais de espírito nacional. Apenas em 2013 se reconstruiu o palácio do imperador (kaiser) em Berlim, por exemplo, reinaugurado em 2020 como um museu.

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O voo desde Estocolmo (onde atualmente moro) até a Alemanha ao pôr do sol.

A chegada: “Causos” e caos

Permitam-me começar pelo realismo contemporâneo antes de lhes trazer o romantismo alemão de Goethe.

A “fila” para o embarque na Suécia já havia sido uma desorganização completa — no estilo bolo de gente para ver quem entra primeiro, e o desembarque do avião foi na base de gente se levantando antes da hora para já retirar a bagagem de mão sob os ineficazes gritos de “Sit down!!” da comissária lá ao fundo. O tipo de coisa que, no Brasil, deflagraria aquele vira-latismo típico “só podia ser no Brasil” ou que brasileiro é isso ou aquilo. Viajar pelo mundo mostra a você que a coisa não é bem assim.

Eu gosto da Alemanha, mas acho ela um lugar nervoso. A Suécia é tão mais tranquila. Já no Aeroporto de Frankfurt, eu desembarquei inocentemente em direção às malas — passando por dentro das salas de embarque, como é comum na Europa — e já me deparei com aglomeração de passageiro agoniado, a polícia ali presente por razões que não fiquei para ver, alguém com um megafone e sabe-se lá o que mais. Na agonia, passou um cidadão com um carrinho de oferta grátis de Twix, de que todo mundo foi pegando. Apanhei um, e segui rumo.

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Caos pouco é bobagem com a infraestrutura alemã de transportes hoje em dia.

Eu partir daqui precisaria exercitar toda a minha paciência búdica com a logística da Alemanha cada vez mais em frangalhos. Bateram todos os meus recordes de tempo de espera aguardando as bagagens despachadas  — mais de duas horas e meia após o avião aterrissar. A fama da eficiência alemã ficou mesmo só nisso, na fama. Aqui jazera os que já jaziam.

Ao que eu aguardava à beira da esteira, uma portuguesa de seus 40 anos passou ao telefone para garantir meu entretenimento neste lento começo de noite. Continuo à espera da merda da mala“, lançou em bom português à pessoa do outro lado da linha “E sabe o que diz lá? ‘Tenha paciência’. 

Já tinha gente até sentada no chão jogando baralho. Não havia qualquer balcão ao qual recorrer. Só um sistema de som repetia mensagens gravadas para esperar, falando em dificuldades logísticas que, na verdade, eram também falta de pessoal.

Por razões que só Deus (e talvez a seguridade social) explicam, as pessoas aqui na Alemanha ficam doentes com uma facilidade quase mística — que lá na Bahia resultaria em recomendações para benzimento coletivo ou banho de sal grosso. É o único país do mundo onde regularmente vejo trens e demais serviços sem funcionar porque todo mundo ficou doente. Há algo de podre na República da Alemanha, e não é em si o Estado de Bem-Estar Social o culpado, pois na Suécia ele é ainda mais generoso, e em mais de meia década morando lá eu nunca vi isso ocorrer.

Enfim. Após termos aterrissado às 17:40, às 20:20 as malas se dignaram a aparecer, para alívio geral. A paciência compensou, pois tenho certeza de que seria uma novela mexicana (alemã?) para obtê-las de volta na burocracia do aeroporto no dia seguinte se tivéssemos ido embora sem elas. Vários foram, mas eu apreciei passar meu dia seguinte aqui visitando, não correndo atrás de bagagem.

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Do aeroporto, se toma fácil um transporte até Frankfurt Hauptbahnhof, a estação central de trens.

Munido das bagagens, desembarquei nesta estação no que era uma noite deveras fria de dezembro. Ao menos não chovia. 

Eu acabei começando, sem querer, pelo “lado B” de Frankfurt. Não o submundo, mas o imundo, pois o lixo se acumulava com fartura nos arredores da estação. Tampouco faltavam viciados, pedintes nem deficientes físicos de toda sorte morando aqui pelas rua desta cidade de 100 mil milionários. Aviso-lhes que este não é exatamente um ambiente muito “família”. Vi rapazes morenos na algazarra e prostitutas de todas as cores ao que desci as ruas na noite. 

Passado esse banho de realidade, achei o caminho para o hotel, que ficava numa área de ar residencial já com outra ambiência. A vizinhança era escura e vazia, o pequeno hotel um luzeiro quase encantado. No interior, uma mulher alemã à recepção — com aquele ar rigoroso de supervisora de colégio interno, mas de bom humor — nos recebeu tranquila, indicando-me o frasco de biscoitos natalinos de cortesia.

São a melhor coisa nesta época do ano“, comentei eu casual ao que pegava um ou dois. “Eu penso a mesma coisa“, decretou ela como se estivéssemos ali chegando às mesmas conclusões numa argumentação moral, o imperativo categórico dos biscoitos de Natal.

Amanhã seria um novo dia. Lindo, da mais louca alegria que se possa imaginar.

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Os biscoitinhos natalinos são um elemento sine qua non do Natal na Europa Central — tanto na Alemanha quanto em alguns vizinhos, como a Tchéquia.
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Este cenário pode lhe parecer uma coisa assim desolada, meio pós-armageddon, mas é o entorno da estação central de Frankfurt — que à noite serve ao baixo meretrício da cidade. Desigualdade você encontra também aqui no coração financeiro da Europa. Sobre as contradições e crises da Alemanha de hoje a gente irá falando aos poucos.
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A Alemanha também tem seu lado fofinho. Eles aqui amam estas gominhas estilo Ursinhos Carinhosos, e havia um pacotinho destes de “Feliz Natal” de cortesia na cama do hotel quando cheguei.

Frankfurt, um mergulho no seu passado

Há pelo menos mil anos Frankfurt é uma cidade importante no oeste alemão.

Se voltarmos àquela era, os povos germânicos — inclusos aí os francos e os alamanos — pouco haviam se dissociado da forma como os vemos hoje. Afinal, foi o rei dos francos, o imperador Carlos Magno (748-814), o criador do Sacro-Império Romano Germânico, que abarcava toda a Europa Central.

O nome Frankfurt vem de Frank (franco) e furt, que é o mesmo ford em inglês, vau em português: o ponto de um rio que é raso o suficiente para se atravessar. (Vocabulário pouco usado por nós nos dias de hoje, eu sei).

Daí haver esta, Frankfurt am Main, no rio Main justo aqui, e outra Frankfurt lá no extremo oeste da Alemanha, Frankfurt am Oder, já na fronteira com a Polônia. Os francos tinham vários vaus por onde atravessar diversos rios, afinal.

Quando os romanos chegaram aqui, fundaram um entreposto militar que se torna a cidadela de Nida entre 69 e 79 d.C., sob Vespasiano, mas breve os ditos “bárbaros” os expulsariam. Os mesmos bárbaros cujos descendentes se associariam à Igreja Católica para criar um Sacro-Império, numa certa vitória política para Roma. Ao mesmo tempo, na esfera cultural, o estilo gótico — associado aos bárbaros godos — tomaria o lugar do estilo clássico nas artes medievais.

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Frankfurt na década de 1610, com a grande igreja gótica de São Bartolomeu no centro. Notem o rio Main aqui à direita, com a finada Velha Ponte (Alte Brücke).
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A ponte atual sobre o rio Main em Frankfurt. Não é o charme da antiga ponte velha com seus arcos, mas é o que temos. Primaram aqui pela praticidade, pois esta ponte nova se levanta para a passagem de embarcações grandes. A antiga era toda naquela pedra calcária avermelhada, com vários arcos.
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A Catedral Imperial de São Bartolomeu, completada neste estilo em 1550. Ela foi destruída na Segunda Guerra Mundial, e restaurada na década de 1990.

O Reino da França se dissociaria destas outras terras germânicas logo no princípio da Idade Média, deixando ainda assim imensas terras sob este Sacro-Império. Ele abarcava tudo desde Roma, a Viena, até estas bandas cá do noroeste alemão — onde os sacro-imperadores eram frequentemente coroados.

Do século IX ao XVI, essa coroação se dava normalmente em Aachen, cidade que os franceses chamam Aix-la-Chapelle, já na fronteira alemã com a Holanda e a Bélgica. Porém, em 1562 — logo após a conclusão dessa Catedral de São Bartolomeu, Frankfurt já em franca ascensão como entreposto comercial — ocorre a primeira eleição de um sacro-imperador aqui.

Falo em “eleição” porque o sacro-imperador era de fato eleito, selecionado de uma nata da mais alta nobreza do império. Ela era escolhido pelos ditos 7 “eleitores”: o rei da Boêmia, o marquês de Brandemburgo, o duque da Saxônia, o conde paladino do Reno e os arcebispos de Trier, Mainz e Colônia.

Via de regra, o sacro-imperador era uma distante figura. A governança do dia-dia era feita por nobres locais, mas já desde 1372 Frankfurt gozava de privilégios como uma “cidade livre” ou cidade imperial. Isto é, ela respondia diretamente ao sacro-imperador apenas, sem conde, rei ou duque que a controlasse.

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Arte medieval do século XV ainda preservada no interior da Catedral de São Bartolomeu em Frankfurt, sobre a vida desse apóstolo.

Em 1764, coroa-se aqui dia 3 de abril nesta Catedral de Frankfurt o imperador José II de Habsburgo — José Benedito Antônio Miguel Adão de Habsburgo, para que ninguém continue achando que esse costume de longuíssimos nomes era algo especialmente português. Era um costume católico da nobreza europeia de modo geral.

José II, nascido em Viena no vistoso Palácio de Schönbrunn, veio coroar-se aqui para o que seria um longo reinado até 1790, ele que era adepto à ideia do despotismo esclarecido. Ou seja, defendia um absolutismo em que o monarca abraçasse os ideais da racionalidade neste século das luzes, o século XVIII.

Quem assistiu de perto a essa coroação — e depois a descreveu — foi nenhum outro que não o mais pródigo de todos os filhos de Frankfurt: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

À ocasião, Goethe era ainda um rapazote de 14 anos. Em tempo, ele se tornaria o maior escritor e poeta em língua alemã e um dos precursores do movimento romântico, que se alastraria pela Europa e mais tarde chegaria também ao Brasil.

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A Coroação de José II como Rei dos Romanos na Catedral de Frankfurt, 3 de abril de 1764, obra do pintor sueco da corte austríaca Martin van Meytens.
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Retrato de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) já na maturidade, na casa onde ele viveu e que hoje é parte de um Museu do Romantismo Alemão em Frankfurt. Ele é considerado o maior escritor e poeta em língua alemã de todos os tempos. Dentre muitas obras, foi o autor de Fausto, adaptado de lendas populares germânicas.

Goethe e o movimento romântico alemão

Ninguém hoje associa alemão a romantismo, mas isso é em parte culpa dos estereótipos que a mídia reproduz. Talvez tenha também certa responsabilidade a acepção atual de romantismo, entendido como paixão de casal ou apenas como aquela coisa melosa das novelas. Ainda há, sim, o fato de a psiquê social alemã ter mudado bastante no século XIX, quando o romantismo dos contemporâneos de Goethe foi substituído pelo militarismo prussiano que até hoje faz dos alemães uma gente obcecada por regras, disciplina e hierarquia. (Não é achismo, há tratados sociológicos sobre isso.)

Se o chanceler Otto von Bismarck (1815-1898) mais tarde liderou a Unificação Alemã em 1870 disposto a fazê-la “a ferro e sangue”, do ponto de vista dos nacionalistas alemães do século XVIII isso foi um sequestro e perversão daquilo que muitos almejavam.

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A escola romântica alemã envolve uma reconexão com a natureza e um resgate dos motivos germânicos primevos, com valorização da cultura popular (folklore) como elemento unificador da nação.

Num século dominado pela frieza de um crescente racionalismo — um “desencantamento do mundo” pela modernidade, como viria a dizer mais tarde Max Weber —, o movimento romântico surge como uma reação do coração à mente.

Sua ideia era de uma nação enquanto gente irmanada por um sentimento de solidariedade e herança cultural comum, não aquela coisa chovinista de hino, bandeira e “pátria ou morte” que o nacionalismo militaresco de Estado depois viria a criar.

É naquela toada romântica do fim do século XVIII e início do XIX que os Irmãos Grimm e tantos outros olham com nostalgia para o medievo popular, para o folclore, e registram por escrito os contos que viriam a depois se tornar clássicos modernos, como Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, João e Maria, Cinderela, e A Branca de Neve — dentre tantos outros que não chegaram a virar (ainda) desenho da Disney.

Enquanto isso, o naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859) ia à Amazônia brasileira e percorria o que eram rincões do mundo, da perspectiva europeia, para reacender a paixão nacional alemã pelo seu passado “bárbaro” de bosques e florestas.

Se hoje você tem um pinheiro de Natal em casa, deve-se a esse período de resgate alemão romântico das tradições antigas. Que Nietzsche, Heidegger e os nazistas depois tenham corrompido isso num chamado à superioridade ariana foi uma infeliz perversão. Noutros lugares, os chamados dos românticos alemães a uma visão amorosa do mundo deram frutos mais doces. Quem sabe que frutos ainda não têm por dar.

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Famoso quadro de Goethe na Itália, feito em 1787 pelo pintor Johann Tischbein. O poeta alemão passou anos viajando pela Itália, no que ele chegou a dizer ter sido o tempo mais feliz da sua vida.
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Estátua de Goethe na Frankfurt atual, na manhã em que saí do hotel.

Voltas por Frankfurt no Natal e a Casa de Goethe

Vocês podem ver bem, ali na foto, os prédios modernos. Essa Frankfurt eu acho que ninguém que vem aqui estranhará.

Era uma manhã invernal digna, com céu azul e gelo no chão. Chegou a bater -7ºC neste dia, e a experiência de remover as luvas para fotografar com o celular era sempre uma “alegria”. (A quem conhece essas temperaturas, a mão arde com o frio.)

Apesar de tudo, era um dia lindo. Como já disse antes: antes isso à chuva. O casario cor de creme que marca tanto as cidades alemãs estava iluminado, assim como os pinheiros. Café tomado no hotel, era hora de eu bater perna um pouco. Ir ver o que o centro de Frankfurt tem, e dar uma conferida antes do almoço na Casa de Goethe.

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O sol nesta manhã tranquila em Frankfurt, na zona meio residencial onde meu hotel ficava.
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Frankfurt hoje é uma cidade assim moderna, sem necessariamente muito charme em todas as partes, mas com alguns marcos (olhe a Antiga Ópera ali) e um centro histórico renovado.
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A Antiga Ópera (Alte Oper) de Frankfurt, que mostrei no começo.
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A quem não tinha visto os dizeres em detalhes. Ao Verdadeiro, Belo, Bom.

Você não demora a esbarrar nas feirinhas de Natal nesta época do ano. Como em outras grandes cidades da Europa Central, há não apenas uma, mas várias feirinhas pelas principais praças. 

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As barraquinhas de madeira vendendo vinho quente (quentão), quitutes fritos ou artesanias marcam as cidades da Europa Central durante as semanas do Advento, em geral a partir dos últimos dias de novembro até o Natal.
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Frankfurt em dezembro. As praças ficam assim decoradas.

Como ainda era um pouco cedo para começar com o vinho, fui ver primeiro a Casa de Goethe, parte do Museu do Romantismo Alemão (Deutsches Romantik-Museum).

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Estão vendo esta casa? É onde Goethe morava aqui em Frankfurt.
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…e esta aqui ao lado é a entrada moderna do Museu do Romantismo Alemão. Como parte dele é que se pode conhecer o interior da antiga Casa de Goethe. Vamos lá.

Este é um museu bastante moderno, com áreas interativas (e as habituais excursões escolares), além de pinturas muitas e poesia desse período. Claro que poesia traduzida nunca é a mesma coisa, mas há legendas em inglês por toda parte.

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Os habituais retratos no Museu do Romantismo Alemão.
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O pai de Goethe, Johann Caspar von Goethe, já era um grande colecionador de arte na cidade. Aqui, obras do pintor alemão Justus Juncker.
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Paisagem Ribeirinha Ideal (1785), ou Ideale Flusslandschaft, de Jacob Philipp Hackert, trazendo o bucolismo dos românticos. O romantismo vem dizer que o ser humano não é só razão, mas também sentidos, sentimento, imaginação e  emoções. Essa introspecção, por sua vez, abre caminho para os estudos do “eu” que os germânicos Freud (austríaco) e Jung (suíço) farão um século depois.
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O pátio interno da adjacente Casa de Goethe, do jeito que era no século XVIII.

A Casa de Goethe foi restaurada após os danos causados pela Segunda Guerra Mundial, mas as peças e parte da estrutura seguem sendo as originais. Quem mandava aqui não era o poeta Johann Wolfgang von Goethe, mas seu pai Johann Caspar Goethe (1710-1782).

Quem já pegou aí o jogo do 1 erro? O Goethe pai era jurista e conselheiro real, um homem rico da burguesia, mas não um nobre. Somente em 1782 — ano da morte do pai — é que o Goethe poeta é enobrecido, isto é, transformado em nobre pela realeza alemã (devido ao seu genial trabalho) e ganha o “von” no nome, que é exclusivo da nobreza entre os germânicos. (O mesmo não se aplica ao van holandês, que qualquer um tem. Ambos querem dizer oriundo “de”.)

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A Casa de Goethe é um encanto para quem gosta de ver mobiliário antigo, aqui com os papeis de parede em tons claros característicos do século XVIII. Ele é chamado de “O século das luzes” não somente pelo Iluminismo, como também porque a arte se clareia após os escuros tons barrocos do sombrio século XVII, em que a Europa foi arrasada pelas guerras entre católicos e protestantes.
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A cozinha simples da casa no térreo.
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Sala com janelas e uma lareira.
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Eu costumava achar que tinha muitos quadros em casa, até que vi a Casa de Goethe.
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Johann Caspar Goethe (1710-1782), o pai do poeta e dono desta casa, com uma daquelas perucas características do século XVIII antes da Revolução Francesa. Até meados do século XIX, os germânicos seguiam as mesmas modas da França. Só depois é que vão ganhando forma os contrastes e que surge a conhecida rivalidade entre eles.

Voltas pelas ruas de Frankfurt à tarde, em meio às feirinhas de Natal

Era quase hora de ir dar umas voltas pelas feirinhas de Natal e conhecer melhor este centro histórico restaurado, mas não antes de almoçar.

Como eu não sou exatamente tão fã da culinária alemã de almoço (amo os quitutes de café da manhã, mas já não acho que os pratos salgados sejam esse balaio todo, com suas variações de repolho, salsichas, carne e batata), fui ao delicioso restaurante tailandês Suvadee. Eu sugiro esquecer aquela mania brasileira de chegar a terras estrangeiras e ir almoçar no McDonald’s e afins. Dê-se um presente aproveitando da boa e fácil comida asiática que há na Alemanha de hoje. Por 10 euros você faz uma refeição extremamente digna.

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Meu almoço hoje foi tailandês. Está a anos-luz daquela pseudo comida asiática de shopping servida aos incautos no Brasil.

Pronto. Agora alimentado, nós podemos prosseguir — e tomar um vinho quente depois, que é pra rebater.

O centro histórico reconstruído de Frankfurt fica uma fofura nesta época, com seu casario de armações de madeira (enxaimel) e suas igrejas de época circundadas pelas barraquinhas que eu lhes mostrei.

Claro que junta bastante gente, sobretudo nos fins de semana, mas imiscuir-se é preciso.

As fotos talvez sejam a melhor forma de lhes mostrar como minha tarde foi caindo e se transformando em noite.

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As feiras já começam mesmo antes de adentrarmos o centro histórico.
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A paisagem urbana vai ficando assim. Esta é a Igreja Luterana de Santa Catarina.
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Até que você assim, ao miolo da festa, com o casario de armações de madeira restaurados.
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Todo o lugar é bem “família”.

Quando o frio começa a apertar, basta se refugiar um tempinho numa das igrejas aqui do centro. Das mais impressionantes é a católica Igreja de Nossa Senhora (Liebfrauenkirche) original do século XIV com suas arcadas góticas e magnífico órgão.

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O interior gótico da Igreja de Nossa Senhora (Liebfrauenkirche) em Frankfurt.
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O sol ainda pelos vitrais.
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O magnífico órgão.
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As figuras dos apóstolos.

O sol ia devagarinho caindo já no que seria ainda, em tese, o meado da tarde. Efeito do outono-inverno com seus dias mais curtos aqui nas regiões temperadas do globo.

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Uma das praças principais, com o casario restaurado da Frankfurt antiga.
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As casinhas parecem de brinquedo — ou de biscoito.

Antes de o sol terminar de cair, fui à Catedral de São Bartolomeu, e quando saí de lá já parecia que o dia havia terminado.

O lugar todo de arenito vermelho impressiona. Ainda que ela não seja tão imensa quanto faz parecer aquela pintura da coroação de José II em 1764, grande ela é.

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A Catedral de São Bartolomeu em Frankfurt, completada em 1550.
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O interior desta catedral.
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Seu órgão e a decoração barroca.
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Aqui o sacro-imperador José II foi coroado.
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O sol lá fora parecia querer já se esconder.

Frankfurt ia gradualmente se iluminando, e o movimento nas ruas só fazia aumentar.

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Feirinhas de Natal em Frankfurt em dezembro. O movimento é grande, mas vale a pena.
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A Antiga Prefeitura (Alte Rathaus) da cidade, originalmente de 1415 e recentemente restaurada, ao lado da árvore de Natal iluminada.
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A feirinha de Natal em luz na praça principal do centro histórico de Frankfurt.
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A Igreja de São Nicolau, outro dos marcos da cidade, e a massa de gente.

Lutei por meu quentão (glühwein) ali na massa, resistindo à tentação de adquirir uma xícara de cada cor. A quem não sabe, de praxe você deixa um depósito pela xícara reutilizável que lhe dão (cada ano tipicamente com seu design novo, às vezes em várias cores), e se quiser levar a xícara para casa como recordação, é só não ir buscar o depósito. É a tradição. 

Quem mora aqui, geralmente, já não tem nem mais onde botar xícara, mas aos turistas essa é uma recordação simbólica e autêntica.

Por ora, eu até me esquecia que Frankfurt é o coração financeiro da Alemanha e da Europa. De repente, vi seus lados mais singelos.

No caminho de retorno ao hotel, quis a fortuna que eu passasse em frente à sede do Banco Central Europeu. Por ali passei, e no dia seguinte eu tocaria adiante este périplo alemão para conhecer Hanau, a cidade de origem dos famosos Irmãos Grimm.

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A sede do Banco Central Europeu em Frankfurt, Alemanha.
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A Frankfurt outra, que nem sempre se vê.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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