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Alemanha Baviera

Wurzburgo e a chamada Rota Romântica na Baviera, Alemanha

Wurzburgo é aquela cidade alemã de que quase ninguém já ouviu falar, mas com certas belezas que eu poucas vezes vi iguais na Europa.

Ela faz parte — e, para muitos, é o ponto de partida — da chamada Rota Romântica (Romantische Straße ou Romantic Road), um percurso no sul da Alemanha que amalgama uma série de cidadezinhas pitorescas e “quintessencialmente alemãs”. Ou seja, têm aquela aura tradicional da antiga Germânia, ou encantada das tantas fábulas e histórias associadas a esta Europa Central, com grande riqueza artística. São emblemas da Alemanha de outrora.

Claro que há um quê de jogada promocional nisso daí. O rótulo foi criado na década de 1950 pela indústria do turismo para atrair o público estrangeiro — sobretudo inglês e norte-americano — numa Alemanha que havia sido arrasada pela guerra, mas na qual parte do patrimônio havia se salvado. Esses turistas anglófonos, muitos dos quais têm ascendência germânica, já eram o principal público a fazer turismo “de interior” na Alemanha nos anos 1920-1930, então a invenção de uma “Rota Romântica” foi uma forma de buscar atraí-los de volta.

Você não precisa necessariamente comprar a linguagem desses esforços promocionais se não quiser, mas que estes recantos do sul da Alemanha — sobretudo na Baviera, mas também no estado vizinho de Baden-Wurttemberg — têm suas belezas impressionantes, ah isso têm! Comecemos por Wurzburgo, antigo principado episcopal (já explico) na Idade Média, esplendor de arte barroca na Idade Moderna, e hoje uma cidade gostosa de visitar.

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A quem precise se situar.
Rota Romantica Alemanha mapa
Não há consenso sobre o que exatamente está incluído na Rota Romântica, mas via de regra, se começa em Wuzburgo e termina em Fussen, com seu famoso Castelo Neuschwanstein. Há certa praticidade em percorrê-la de carro, mas é perfeitamente possível fazê-la de trem — como eu fiz.
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Wuzburgo e sua paisagem urbana medieval, metade do que a cidade tem a oferecer.
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A outra metade é sua lindíssima herança barroca moderna. Aqui, a Residência do bispo-príncipe que governava a cidade. Ela é formalmente conhecida assim, como a Residência (Residenz em bom alemão).

Entendendo o Principado Episcopal de Wurzburgo na Francônia

Vamos a um pano de fundo breve para se compreender melhor este lugar — e o que veremos — antes de bordejar pela cidade.

Nós aqui estamos no norte da Baviera (Bavaria em inglês ou Bayern em alemão), mais especificamente na região da Francônia, que tem características e identidade próprias. A Alemanha atual era, afinal, uma colcha de retalhos com dezenas de reinos, ducados, principados e o que mais dentro de um Sacro-Império Romano Germânico desde 800 até 1806. Mil anos não se apagam assim, e como ela hoje é uma federação (como o Brasil), as várias regiões seguem distintas e ciosas de suas particularidades. 

Prince bishop Johann Otto von Gemmingen
A figura do príncipe-bispo era característica do Sacro-Império Romano Germânico. Bispos que desempenhavam também as funções de governante feudal.

Ninguém estranhe o nome “Francônia” em plena Alemanha, pois os francos — que dariam origem à França — eram povos “bárbaros” (do ponto de vista dos romanos) tal qual os alamanos, godos e tantos outros. Eu cheguei a explicar isso quanto tratei do nome Frankfurt na postagem lá naquela cidade.

Só com o tempo, ao longo da Idade Média, é que você a ir vendo uma diferenciação entre o Reino de França (com mais elementos culturais romanos, uma língua latina, numa monarquia centralizada) e a seu leste este vasto Sacro-Império (que usava o latim formalmente, mas com inúmeros dialetos germânicos — e eslavos — entre sua população, sem um rei só, mas sim de incontáveis nobres que, em última instância, respondiam a um sacro-imperador e ao papa).

Uma curiosidade particular, e de que nós nos países latinos nem sempre nos damos conta, é que no Sacro-Império o próprio clero era muitas vezes também a nobreza. Eis aqui os Principados Episcopais, quando bispos faziam as vezes ao mesmo tempo de líder local da Igreja Católica e nobres administradores das coisas do dia-dia — como príncipes.

O Principado Episcopal de Wurzburgo, estabelecido em 1168, era um deles.

Franconia with Bavaria and Germany map
A Francônia, em vermelho, foi anexada pela Baviera em 1803, e hoje faz parte desse estado. Você vê em verde o restante da Baviera, que tem Munique como capital. É o maior dos estados e aproximadamente 20% do território da Alemanha federada. Juntou-se à unificação liderada pelos prussianos de Berlim no fim do século XIX, mas preserva até hoje a sua identidade regional distinta. Os francônios fazem o mesmo dentro da Baviera. A Alemanha é como uma boneca russa com uma identidade dentro da outra — resquícios do tempo do império, quando todos eram independentes.

Eram vários os príncipes-bispos pelo império (como por exemplo em Salzburgo na Áustria), que nos seus principados episcopais se comportavam como monarcas absolutistas. O sacro-imperador, afinal, era uma figura distante e que pouco se envolvia no dia-dia desses feudos.

A Francônia como um todo não era um feudo em si, mas constituía um dos chamados Círculos Imperiais — o Círculo Imperial da Francônia —, uma espécie de organização administrativa de várias cidades numa região. Várias cidades conhecidas estavam aí, como Nurembergue e Bamberg. Informalmente, todavia, era o bispo-príncipe aqui de Wuzburgo que adotava para si o título de Duque da Francônia.

Se ele não mandava nos outros politicamente, dinheiro não lhe faltava, pois em 1720 ordenaria para si a construção da mais impressionante residência monárquica da região — nos moldes de Versalhes nos arredores de Paris e de Schönbrunn em Viena. 

Os alemães, como lhes disse em postagens anteriores, seguiam muito as modas dos franceses até o século XVIII (como fazia a Europa inteira, com exceção talvez da Inglaterra). Somente quando Napoleão conquista e desmantela todo o Sacro-Império em 1806 é que esse sentimento muda, e toma seu lugar um certo revanchismo anti-francês dominado pela cultura militar prussiana que deixa seus efeitos até hoje na sociedade alemã.

Vamos agora conferir de perto estes lugares aqui de Wurzburgo.

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O rio Main em dezembro, o mesmo que depois corta Frankfurt. Lá no alto, se vê a Fortaleza Marienberg, que era a residência medieval dos príncipes-bispos antes da construção da Residência barroca nos moldes de Versalhes e Schönbrunn no século XVIII.

Chegando à Wurzburg atual

Estamos na linha de trem que liga Frankfurt a Munique — outra forma de começar esta Rota Romântica sem ser de carro. A quem estiver ainda a debater a presença de romantismo aqui na Alemanha, não deixe de ver minha postagem em Frankfurt, cidade natal do poeta Goethe, para um pouco sobre como esse movimento começou aqui. Tratava-se de uma reconexão à natureza e um despertar do ser humano também imaginativo e emotivo, não só o homem racional do Iluminismo francês.

Hoje, portanto, é com muita imaginação e emoção que você fica a se perguntar o que mais pode dar errado numa viagem com a Deutsche Bahn, a sucateada companhia ferroviária pública alemã. Funciona, só que às vezes, não. Qual foi minha surpresa quando a comissária passa lendo o QR code das passagens de cada um e o meu, em pleno aplicativo da empresa, falha. Saudosos os tempos em que você tinha a passagem num papel e não havia o que questionar.

— “Você pediu reembolso dessa passagem?“, indagou-me ela. (Quem não adora quando eles criam um problema e você é quem aparece como suspeito de ser o culpado?)

— “Não. Tanto que, inclusive, baixei ela no aplicativo da Deutsche Bahn hoje de manhã mesmo“, respondi eu querendo ver no que iria dar.  

— “Espere aí. Eu vou tentar na leitora da minha colega“, disse ela, indo buscar a outra comissária que vinha mais atrás verificando as passagens de outros passageiros.

Nada. Mesmo erro. Imagina se um jovem homem moreno feito eu não estaria com alguma artimanha.

— “Não lê. Sua passagem não está válida“, disse ela com ar de “infelizmente”. “Sai mais barato se você for online e comprar uma passagem nova do que se eu lhe der uma multa“, completou com candura.

Mas que maravilha, Alemanha! Obrigado pela oportunidade. Faz o que, “chama pelo governador?”, como às vezes provocava minha avó? Chama pelo príncipe-bispo de Wurzburgo? Ela era a próxima parada, por sinal, dali a uns 10 minutos.

Comentei com a moça que não sabia se daria tempo — afora ser injusto ter que comprar novamente uma passagem que eu já tinha comprado. Abri o aplicativo do banco e mostrei, na cara dura, a ela que não havia chegado ali reembolso nenhum da Deutsche Bahn. Ela olhou e, com certa tranquilidade indiferente, disse que eu poderia depois prestar uma queixa à empresa e solicitar um reembolso. (Claro, o que eu mais ansiava era torrar meu tempo com a burocracia alemã ao chegar na cidade.) “Não se preocupe, ainda dá tempo“, completou ela ali de marcação mulher-a-homem de pé aguardando ver se eu conseguia comprar a nova passagem pelo celular ou se precisaria me dar a multa.

Na pressa, a compra não ia, pois no sistema alemão até para uma compra online de uma passagem eles querem saber seu endereço, e se o seu endereço for no exterior, aí é que complica… Até que eu fui salvo pelo gongo. O trem chegava a Wurzburgo. “Você conseguiu comprar?“, perguntou-me a moça já aparentemente cansada de estar ali. “Não“, respondi com franqueza, salvo da ineficácia alemã pela ineficiência alemã. “Tudo bem“, disse-me ela finalmente, num momento de bondade com quem merecia.

Eu finalmente chegava a esta rica terra, para conhecê-la hoje assim como os seus legados de outros tempos. Bem-vindos a Wurzburgo.

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Meio dia e meia num dia de meados de dezembro em Würzburg Hauptbahnhof. Desçamos.
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Você não demora a ver figuras bispais na paisagem urbana.
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E, como em outras cidades da Alemanha ou da Áustria, a estação ferroviária fica numa área mais moderna de Wuzburgo, a uma breve caminhada de 10-15 minutos até o centro histórico. Vale hospedar-se entre um lugar e o outro.

As ruas de Wuzburgo eram esse frio quieto de meados de dezembro que você vê nas fotos. O fato de ser fim de semana apenas agravava a quietude. Ainda que as feirinhas de Natal se mantivessem, fora delas é como se não houvesse vida — como se fosse um deserto vital, um deserto emocional, onde só sopra o vento frio por calçadas semi-vazias e lojas fechadas.

Segui galhardo com minha mochila até alcançar o fino hotel onde seria recebido com uma taça cortesia do vinho branco da região. É que aqui, nas Europas Central e do norte, dezembro é sobretudo uma época para se estar do lado de dentro, a curtir o aconchego e os vários prazeres da língua.

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Olha que delicia de interior. A quem me perguntar, este é o Hotel Würzburger Hof em dezembro.
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Gostosa é a praticidade de mochilar e, depois, se permitir certos confortos quando possível.
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Só vou ficar devendo o nome do vinho, mas é da uva silvaner, tradicional aqui na Alemanha. Procurem por esse nome e por Wurzburgo e vocês acharão.

Visitando a Residência barroca do bispo-príncipe

Não se engane: por mais que Wurzburgo tenha um centrinho simpático, com edificações pitorescas que remontam à Idade Média (e que veremos daqui a pouco), a Residência do bispo-príncipe com sua incrível capela anexa (a Hofkirche) é a atração sine qua non de Wurzburgo — aquela que você não pode deixar de ver.

Por fora, ela lembra o Palácio de Versalhes ou tantos outros Europa afora que quiseram imitar a suntuosidade da corte de Luís XIV. A essa altura, as funções defensivas estavam ficando obsoletas, e a ideia é que tais moradas fossem uma explosão de arte, luxo e requintes. Diria-se ostentação social também, o que os reis e demais nobres faziam sem modéstia.

A Igreja, e sobretudo estes bispos-príncipes, não queriam ficar atrás, e foi então que aquele de Wurzburgo, a eminência Johann Philipp Franz von Schönborn (1673-1724), mandou construir o que — segundo dizem — Napoleão Bonaparte classificou como a maior residência eclesiástica da Europa. Não à toa, ela é hoje Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO, devido à sua exuberância artística.

Não é necessário reservar nada pela internet, pois os turistas em sua maioria ainda não descobriram Wurzburgo. Basta chegar e adquirir um ingresso pessoalmente na bilheteria, com o pessoal que às vezes nem inglês fala. Você terá o prazer de estar praticamente sozinho em alguns salões.

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A Residência barroca dos bispos-príncipes de Wurzburgo, completada em 1744 à moda de Versalhes e outros. Só que esta era a um membro da Igreja.
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Aqui na entrada, na chamada cour d’honneur (esta parte para dentro que tais palácios barrocos quase sempre têm), a Fonte da Francônia (Frankoniabrunnen) com uma representação feminina da região. Obra de 1894 do escultor bávaro Ferdinand von Miller.

A capela episcopal Hofkirche

A estonteante capela episcopal dessa babilônia foi o primeiro lugar que visitei aí dentro. É preciso tomar cuidado, pois sua entrada é separada, por outra porte. Portanto atenção para não visitar o palácio e se esquecer de passar na capela. Por segurança, eu resolvi visitá-la logo para evitar aquela coisa de “a gente ainda tem que passar na capela”.

Ela é das obras mais notáveis do barroco alemão. Como era hábito, chamaram pintores italianos para levar a cabo o principal da ornamentação: o veneziano Giovanni Battista Tiepolo e seu filho Domenico. Já a parte arquitetônica foi liderada pelo alemão Balthasar Neumann, acompanhado do austríaco Lukas von Hildebrandt e do italiano Antonio Bossi. Os estilos e técnicas que dominavam a Europa naquele século XVIII desconheciam fronteiras.

Ao que tomei aquela entrada lateral do palácio, adentrei um corredor onde uma alemã de meia idade e ar ranzinza lia detrás de um balcão de venda de souvenirs para passar o tempo. Nada dizia a quem não lhe perguntava. Uma pesada porta à esquerda então levava ao interior da Hofkirche, a igreja desta corte episcopal. 

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Ecce a Hofkirche da corte do bispo-príncipe de Wurzburgo.
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Abundância de ouro e mármore rosa.
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O teto da igreja, com afrescos pintados pelo suíço Johann Rudolph Byss mostrando a Assunção de Maria.

Você fica ali um tempo contemplando aquele desbunde luxuoso. (Não sei se contemplação de riqueza era o propósito original de uma igreja, mas deixa pra lá).

Saí, pois ainda havia bastante palácio pela frente. À saída, espremi meu alemão rudimentar para à tia se ela falava inglês e poder me orientar melhor acerca da porta que levava ao palácio. Ela negou com tamanho susto, velocidade e ênfase que teria feito inveja a Pedro negando Cristo aos soldados romanos. Fui lá eu então arriscar mais uns quebrados na língua de Goethe, ao que ela prontamente orientou com deferência.

Os interiores do palácio barroco

Esta Residência, eu lhes digo com franqueza e a experiência de alguém viajado, foi talvez o mais garboso palácio que visitei sem nunca ter antes ouvido falar dele. Ao menos não antes de procurar saber o que iria ver em Wurzburgo.

É um verdadeiro desbunde, a começar já pela Grande Escadaria desenhada pelo arquiteto Baumann. Preciso dizer que este palácio foi reduzido a ruínas quase totais pelos britânicos em 1945, e foi depois restaurado (incrivelmente) ao seu esplendor. A Grande Escadaria foi dos elementos originais que resistiram ao bombardeio.

Sob um imenso afresco no teto, os corrimãos das escadas são pontuados por estátuas barrocas em pose. Os degraus são até pouco íngremes, como a fazer estas escadarias longas e compridas mais que o necessário, a dar tempo de o visitante sentir o impacto daquela beleza e apreciá-la. No meio vestindo os degraus, um tapete vermelho; e em redor de tudo, paredes de estuco branco decorado — os tons claros do século XVIII se fazendo presentes neste palácio que combina o barroco e o rococó. 

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A Grande Escadaria da Residência do bispo-príncipe de Wurzburgo e seu charme. Esse no teto é nada menos que o maior afresco do mundo, senhoras e senhores. Obra do veneziano Giovanni Battista Tiepolo.
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A decoração é deslumbrante. Notem as brancas paredes. Vamos subindo.

Cada saguão parece impressionar mais que o anterior nesta Residência do bispo-príncipe. Poucas vezes eu vi algo tão bonito em matéria de arte europeia barroca.

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O Hall Branco com seus detalhes de estuco enfeitados no teto e nas paredes — obra de Antonio Bossi. (Para você observar e mandar fazer na próxima reforma da sua casa.)
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O Hall Imperial (Kaisersaal), um imenso saguão de 400m² e um teto de 16m de altura. Aqui eram realizadas recepções e banquetes.
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Os detalhes. Aqui, um afresco do casamento do sacro-imperador Frederico Barba-Ruiva com Beatriz da Borgonha em 1156.
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Vamos seguindo palácio adentro.

Como em outros palácios barrocos do século XVIII, há esta sequência de salas contíguas, cada qual decorada de uma maneira. Aqui, tudo culminará no Gabinete dos Espelhos, resultado de um trabalho incrível de restauração.

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Tapeçarias nas paredes e relógio de carrilhão na Residência do bispo-príncipe de Wurzburgo, Alemanha.
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O Salão Verde, talvez o meu preferido.
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Pintura de Domenico Tiepolo (o filho), de 1752. Cristo e Maria Madalena na casa de Simão o Fariseu.
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O chamado Gabinete dos Espelhos (Spiegelkabinett), com paredes que são verdadeiros quebra-cabeças espelhados. Incrível que tudo isso tenha sido estilhaçado e cuidadosamente posto novamente no lugar com base em registros antigos.

À saída, você pode ainda dar uma olhada nos jardins episcopais ao fundo do palácio. A depender da época do ano, terá impressões distintas dele.

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Os fundos da Residência de Wurzburgo em dezembro com neve.
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Os jardins de estilo francês, bem geométricos e com as plantas bem podadas — como em Versalhes. Como lhes disse, até início do século XIX os germânicos se viam como rivais políticos mas não culturais dos franceses. Ao contrário, seguiam as modas da França. Isso era distinto do estilo dos jardins ingleses, mais ao natural, e que se tornariam moda Europa afora no século XIX.
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A fonte semi-congelada.

O centro histórico de Wurzburgo

Essa Residência do bispo-príncipe ficava um pouco fora do que era a cidade de Wurzburgo naquele século XVIII — como era habitual. A nobreza (e pelo visto tampouco o alto clero) não gostava de estar exposta demais aos humores do populacho.

Como houve o bombardeio da Segunda Guerra, não temos mais um centro propriamente medieval de ruelas como em Praga, mas um centro histórico um tanto eclético, com uma mistura de edificações antigas e outras mais modernas, separado em duas partes pela Antiga Ponte sobre o rio Main (Alte Mainbrücke), que parece uma versão menor — e menos antiga — da Ponte Carlos na capital tcheca.

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A Antiga Ponte sobre o rio Main (Alte Mainbrücke), o mesmo que corta Frankfurt mais adiante. Parece uma versão menor da Ponte Carlos em Praga, com suas estátuas sacras nas laterais.
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Figura episcopal, o rio Main, e a fortaleza de Marienberg lá ao fundo — ela que era a antiga morada dos bispos-príncipes de Wurzburgo, antes da construção da Residência no século XVIII.
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O centro histórico de Wurzburgo é esta mistura de edificações modernas e antigas. Esta é a catedral da cidade, completada em 1075.
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Meandros de Wurzburgo.

Chovia neste centro de Wurzburgo. Um chuvisco leve, sinal de que as temperaturas degelavam e começavam a subir um pouco. (Breve, pegaríamos chuva para valer — revezes possíveis desta linda época natalina na Alemanha.)

A praça principal, chamada Praça do Mercado (Marktplatz) como em tantíssimas cidades europeias, fazia jus ao nome e abrigava a feirinha natalina característica desta época. Ali, a simpática Marienkapelle — ou Capela de Maria — fazia sua presença gótica em tons de vermelho e branco.

Como talvez já possam ter percebido, estes recantos da Baviera tradicionalmente são bastiões católicos romanos numa Alemanha onde o protestantismo luterano surgiu e carrega de certa forma as cores de religião nacional. (Aos fatos, segundo as estatísticas, um quarto dos alemães são católicos, outro quarto são luteranos, e a metade restante é predominantemente sem religião.)

Para além das igrejas, você tem a simpática Prefeitura de Wurzburgo, com uma torre medieval do século XIV.

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O centro de Wurzburgo e sua histórica prefeitura gótica.
Torre gótica em Wurzburgo
Este prédio medieval era um antigo celeiro que passou a albergar a prefeitura de Wurzburgo em 1316. Hoje, é a estrutura civil gótica mais antiga da cidade. (Chamam-na Grafeneckart em alemão.)
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O charme da Praça do Mercado com a Marienkapelle em vista. Ela foi levantada a partir de 1377.
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Os floreados prédios barrocos no centro da cidade.
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O interior gótico da Marienkapelle em Wurzburgo, Alemanha.
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Um quadríptico (pintura em quatro partes) medieval no altar-mor.

Essa, todavia, não é a catedral. A catedral é dedicada a São Quiliano (Killian ou Kylian, o primeiro nome do jogador Mbappé, a quem nunca reparou), que foi um missionário irlandês do século VII tido como “o apóstolo da Francônia”, por ter vindo catequizar esta região.

Ela é mais antiga e, ao mesmo tempo, de aspecto mais novo que a Marienkapelle. A sua arquitetura é romanesca, portanto anterior ao gótico, mas seu interior data do mesmo século XVIII da Residência, com estuco branco feito pelo suíço (da região de língua italiana da Suíça) Pietro Magno nos idos de 1701-1704.

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A Catedral de São Quiliano em Wuzburgo, Alemanha, erigida em estilo romanesco em 1075.
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Seu interior com o revestimento de estuco branco feito pelo suíço Pietro Magno entre 1701 e 1704.

Nessa catedral é que foram enterrados os bispos-príncipes de Wurzburgo.

Ali perto, quase adjacente, a Neumünster, também com requintado interior barroco de estuco da década de 1720, pelos irmãos Johann e Dominikus Zimmermann. 

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Reparem nos detalhes que fazem a arquitetura parecem um rendado branco. É uma argamassa feita de gesso e cal.
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O teto sobre o altar, senhoras e senhores.
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O afresco sob a cúpula da igreja Neumunster.

Note-se portanto que a corte francesa pré-revolução não era a única pomposa da Europa — também o eram estas terras do Principado Episcopal de Wurzburgo, de que muita gente mundo afora sequer havia ouvido falar.

A festa acabou quando Napoleão, entronado pela Revolução Francesa, invadiu o Sacro-Império Romano Germânico, com todos os seus feudos, para com sucesso desmanchá-lo em 1806. Não haveria mais Principados Episcopais.

Quando Napoleão termina derrotado em 1815, o que ocorre é que estas terras da Francônia passam então a fazer parte do futuro Reino da Baviera, que passaria independente quase todo o século XIX até as mancomunações de Bismarck para unir os germânicos todos contra os franceses e se tornar a nova potência número um da Europa continental. Resta ver se os problemas estruturais atuais — com sintomas como a bagunça que virou a Deutsche Bahn — lhe permitirão manter esse posto ou o devolverão à França neste século.

A História segue. Wurzburgo preserva muito do seu charme, original ou restaurado, no que é hoje uma cidade de médio porte. Eu também seguia, Rota Romântica adentro, buscando agora paragens menores. 

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Wurzburgo, Alemanha.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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