Bem-vindos a Bamberg no sul da Alemanha, no estado da Baviera, um Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO — e mais uma daquelas muitas cidades alemãs que os turistas (ainda) não conhecem tanto assim.
Aqui na Alemanha, como em alguns outros países europeus, vocês sabem que tudo depende de se a cidade foi bombardeada nas duas guerras mundiais ou não. Bamberg, por sorte ou pela Providência, escapou, e mantém hoje um centro histórico autêntico e lindo.
Foi lindo mesmo debaixo da chuva de outono que me acometeu neste dezembro, o outro gume dos encantos do período natalino — o risco de as temperaturas não estarem baixas o suficiente para nevar, e você tomar aquele chuvisquinho gostoso sob o céu de chumbo nublado. As belezas de Bamberg cá na terra compensariam — mas a cidade é bonita todo o ano, e você pode certamente vir vê-la cá no verão se preferir o sol e o furdunço maior de turistas, os poucos que a conhecem.
Com uma catedral romanesca de 1004 e uma encantadora prefeitura medieval ainda de pé de 1387, Bamberg deixa muitas cidades mais conhecidas no chinelo.


Bamberg em contexto
Antes de eu descer do trem e começar a lhes relatar as minhas andanças por Bamberg, permitam-me contar um pouco sobre quem ela é.

Bamberg foi estabelecida como cidade no século IX, após os “bárbaros” germânicos serem convertidos ao cristianismo e organizados num Sacro-Império que abarcava a Europa Central praticamente toda.
Quem o forma é Carlos Magno no ano 800 em comunhão com o papa em Roma, uma imensa colcha de retalhos com feudos dos mais variados tipos.
Uma curiosidade é que Bamberg já estava nos limites orientais dos domínios germânicos à época (e novamente agora). A leste estavam os eslavos (poloneses, tchecos, dentre outros), e Bamberg era predominantemente habitada por eles nos idos da sua fundação.
Os germânicos vieram como uma onda de leste a oeste, tomando o que Roma havia conquistado dos celtas, e na sua esteira vieram esses eslavos que chegaram mais ou menos até aqui. Nos séculos XII-XV, os germânicos fariam uma espécie de migração reversa para colonização áreas onde hoje fica a Polônia, chegando até os Países Bálticos e a Romênia.
Bamberg foi portanto um certo ponto máximo da expansão eslava a Ocidente, ainda que a administração se desse desde 902 pela família germânica nobre dos Babenberg — que, em última análise, deu origem ao nome da cidade.


Já entre 1007 e 1008, o sacro-imperador Henrique II junto com o Papa João XVIII transformam Bamberg numa diocese e num feudo hereditário — isto é, seria uma propriedade à parte com os seus próprios senhores, já não mais um puxadinho sob a influência do poderoso bispo de Wurzburgo. A vida na política sempre foi jogar esse equilíbrio de forças, mesmo entre os subordinados.
Consagra-se uma catedral em 1012, e se funda a beneditina Abadia de São Miguel numa colina próxima em 1017.
Entre brigas e mortes prematuras antes de deixar descendentes, os Babenberg acabam por desaparecer aqui. Continuariam, contudo, ainda por um tempo como Marqueses da Áustria, terra mais a oriente (Öster+reich) que lhes foi dada pelo imperador como recompensa pela ajuda contra o levante do duque da Baviera Henrique II, o briguento, e para conter os húngaros.

Curiosamente, é todavia o filho de Henrique II, o briguento, quem mais tarde ascenderá ao trono como o sacro-imperador Henrique II, o exuberante. (Sim, são dois Henriques II, o pai na contagem dos duques da Baviera, o filho na contagem de sacro-imperadores.)
À época, ainda século XI, o próprio bispo aqui de Bamberg se tornaria papa — Clemente II —, o qual teve o exotismo de se manter bispo cá de Bamberg e papa em Roma ao mesmo tempo.
Tanto ele quanto o sacro-imperador Henrique II, o exuberante, estão enterrados aqui na catedral da cidade, que foi por um tempo considerada o epicentro do sacro-império.
Já a partir do século XIII, como tantas cidades germânicas, Bamberg passa então a ser governada por um bispo-príncipe: uma fusão da função eclesiástica de autoridade espiritual com a função secular de autoridade política. É como o caso do papa ainda hoje no Vaticano. Desses idos até sua dissolução em 1806 pela invasão napoleônica, o Sacro-Império Romano Germânico era pleno desses chamados principados episcopais.
Bamberg prosperou como um deles por mais de meio milênio, até ela — e toda esta região da Francônia — serem secularizadas e integradas ao Reino da Baviera na esteira da derrocada de Napoleão. Em 1870, o Reino da Baviera deixava de existir como ente soberano, passando a integrar a Alemanha enquanto país — agora um segundo Reich, sob o Kaiser em Berlim, já que o sacro-império já não era mais. Daí os nazistas terem falado num Terceiro Reich, pois que aquele segundo havia caído ao fim da Primeira Guerra (1914-1918).
Nisso tudo, para nossa sorte, Bamberg escapou dos bombardeiros aéreos e se preserva hoje como uma das maiores cidades alemãs ainda intactas e com suas edificações medievais e renascentistas originais. Daí ter se tornado Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO. Vamos agora vê-la de perto.



Visitando Bamberg hoje
Bamberg é uma cidade gostosa sobretudo se não estiver chovendo, com muita coisa histórica para ver, e que bem merece umas 2-3 noites, a depender do seu passo. Um bate-e-volta vindo de outro lugar é possível, mas seria uma visita bastante corrida.
Eu cheguei a plena época natalina, os mercados ainda em atividade nos seus dias finais antes da data propriamente dita. As temperaturas haviam subido um pouco desde a minha chegada à Alemanha em Frankfurt, e os resquícios de neve agora haviam se tornado uma generosa chuva — demasiado generosa. Poucas cidades se manteriam ainda assim uma visita agradável, e foi esse o caso de Bamberg.
Desembarquei na moderna estação ferroviária do que é hoje uma cidade com 70 mil habitantes — e desta vez sem surpresas desagradáveis da Deutsche Bahn. Você desce na parte moderna da cidade, de vias largas, construída do século XX para cá. A parte mais antiga aguarda mais adentro.
Sendo o Natal, as praças de casario do século XVIII mais ao centro estavam plenas das feirinhas natalinas com as suas barraquinhas de madeira vendendo coisas, e os dias estavam curtos. Logo escureceria nesta tarde. Deixamos as coisas no hotel, e fomos tomar uma — digo, experimentar do quentão natalino da cidade.






Poucas coisas são mais simpáticas que essas feirinhas.
A animação se dava bem centrada na Praça Maximiliano (Maximilianplatz, às vezes apelidada de Max Platz), em honra a um rei da Baviera do século XIX. Uma fonte de 1888 o marca ao lado de figuras como Henrique II, o exuberante, e outros personagens daqui. As pessoas não pareciam lhes dar muita bola, ocupadas mais umas com as outras e com as coisas do Natal.
Logo ali perto, eu fui conferir de perto a Igreja de São Martinho (Martinskirche), de 1693, uma das muitas igrejas históricas e belas da cidade — e a única barroca que ela tem.




Se você seguir adiante, você chega até a ponte do rio Regnitz onde fica aquela mágica prefeitura. É do outro lado que fica a parte mais antiga da cidade, com edificações como a catedral, a Antiga Corte e a Nova Residência dos bispos-príncipes. Isso tudo eu veria no dia seguinte, mas não resisti a dar logo uma olhadela em como estariam aquela ponte e a prefeitura medieval sob a luz do anoitecer.

As atrações em Bamberg
Durante o dia fica bem melhor ver os afrescos nas paredes da prefeitura de Bamberg sobre o rio — ainda que seja um dia chuvoso como seria este aqui. Era como se o tempo nos enxotasse de volta para casa, expulsando-nos das ruas, mas os olhos teimassem em aceitar e comandassem as pernas a permanecer dando voltas pela cidade. Assim se deu.
Passamos novamente pela Praça Maximiliano e retornamos àquela ponte para (re)ver a prefeitura, agora dispostos a ver e conhecer a parte antiga da cidade. Não espere uma coisa rústica transportada do medievo — Bamberg foi reformada diversas vezes durante o Renascimento e a Idade Moderna para chegar até a sua beleza atual.






Para ter essa vista lateral, é preciso atravessar e fazer um contorno até uma outra ponte.

Sigamos em frente, deixando a prefeitura para trás.
Fui logo ver a Igreja Paroquial de Nossa Senhora, também apelidada “Igreja de Cima” (Obere Pfarre Unsere Liebe Frau), igreja gótica de 1375 por fora e com decoração barroca de 1711, rica em obras de arte no seu interior, incluso um “Ascensão da Virgem” de Tintoretto do século XVI. É uma séria candidata a ser a mais bela de Bamberg — talvez até mais que a catedral.





A Catedral e a Nova Residência dos Bispos-Príncipes
A Catedral de Bamberg , dedicada a São Pedro e São Jorge (formalmente a Bamberger Dom St. Peter und St. Georg), é um mamute romanesco do século XIII, de antes do gótico.
Seu interior, todavia, mistura influências. Tem arcadas góticas, assim como ornamentos barrocos inseridos posteriormente.
Ela fica bem no miolo da Bamberg antiga, como seria de se esperar.




Vamos entrar.





Você é capaz de passar um bom tempo aí, sobretudo se quiser ver se perto os detalhes. Quando estávamos no interior, também houve uma oração coletiva ao meio dia em que todos eram livres para participar.
Sendo hora de almoço, pausa breve para se alimentar antes de seguir à Nova Residência dos antigos bispos-príncipes. Não faltam menus de almoço (mittagsmenu) com comidas indianas, orientais e de todo os tipos por menos de 10 euros no centro de Bamberg se você procurar. Come-se bem, e sem necessariamente embarcar todos os dias naquele cardápio bávaro de carne com batatas.
Acabei indo num indiano após visitar a Antiga Corte (Alte Hofhaltung), que lhes mostrei antes.


De 1251 a 1553, os bispos governavam do castelo de Altenburg nas vizinhanças da cidade, onde ficava a beneditina Abadia de São Miguel. Entretanto, já no bojo das guerras entre católicos e protestantes, naquele ano de 1553 o lugar todo foi destruído por Alberto Alcibíades, Marquês de Brandemburgo (onde fica Berlim).
Os bispos-príncipes da mui católica Baviera mudaram-se então para essa Antiga Corte que lhes mostrei acima, mas breve — já em 1602 — criariam para si algo muito mais suntuoso.
A chamada Nova Residência (Neue Residenz) foi o primeiro grande palácio da Era do Absolutismo aqui na Baviera. Como já disse de outras vezes, a França nessa época dava o tom, e a Alemanha seguia o mesmo tom até no século XIX procurar divergir e antagonizar culturalmente os franceses.
O lugar é um esplendor, ainda que fique talvez atrás da Residência dos Bispos-Príncipes de Wurzburgo — ainda mais suntuosa.





Se você vier nos meses mais quentes do ano (leia-se, entre abril e setembro), pode visitar também o Jardim de Rosas desta antiga Nova Residência dos bispos. Você encontra toda a informação logística sobre horários e preços no site oficial. Não me pareceu o tipo de lugar onde se precise comprar nada antecipadamente online, até mesmo porque poucos estrangeiros sabem de Bamberg e suas belezas.
A Abadia de São Miguel, secularizada por Napoleão no início do século XIX, hoje é um museu, e o velho castelo Altenburg (de onde os bispos-príncipes governavam na Idade Média e destruído em 1553), foi adquirido por um nobre e depois restaurado, mas estava fechado para reforma neste momento.
Sendo assim, eu completava por ora este meu périplo breve pela Alemanha, descobrindo a beleza da Baviera e desta sua região da Francônia. É uma boneca russa esta Alemanha, a lembrar do velho sacro-império.
Estejam apresentados à bela Bamberg. Vida que segue.





Belíssimo e detalhado texto sobre Bamburg e por esse motivo escolhi visitar essa linda cidade.