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Alemanha Baviera

Nurembergue, “a mais alemã das cidades alemãs”

Nurembergue é uma cidade dual.

Por um lado, possui todo o charme de ter sido por um tempo a capital imperial do Sacro-Império Romano Germânico na Idade Média. É das mais românticas cidades alemãs — não sei se no sentido contemporâneo que a palavra “romantismo” adquiriu, neste sentido de ser lugar aonde casal ir passar a lua de mel, mas definitivamente no sentido original da palavra, do romântico como algo dos sentimentos e dos sentidos em vez da pura razão, algo do estar em meio à natureza, contemplando-a e se deixando inspirar e encantar.

Eu recomendo, en passant, o livro mais recente de Andrea Wulf, Rebeldes Magníficos: Os Primeiros Românticos e a Invenção do Eu, já disponível em português em Portugal e que espero breve ter tradução publicada também no Brasil. Tratei mais sobre esse movimento na visita recente a Frankfurt, terra natal de Goethe.

Nesse sentido, não falta romantismo de conto-de-fadas no ambiente histórico de Nurembergue.

Ao mesmo tempo, Nurembergue é daquelas poucas cidades alemãs com nomenclatura muito bem estabelecida no português — e deveras bem conhecida noutras línguas — por causa do Tribunal de Nurembergue de 1945, para julgar os crimes cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Faça-se saber, e pouca gente sabe, que Nurembergue não foi escolhida à toa. Ela foi escolhida porque os nazistas a tinham quase como o centro espiritual do seu nacionalismo exacerbado. Diziam-na a mais alemã das cidades alemãs, portanto seria também aqui que a Alemanha teria sua expiação espiritual que molda a História e o caráter dos alemães até os dias de hoje.

Que tal virmos conhecê-la de perto? Há mais aqui do que se supõe.

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O charme de Nurembergue com seu casario típico.

Nurembergue na História: um resumo

Nurembergue (dita Nürnberg em alemão) é considerada a capital extra-oficial da Francônia, esta sub-região do que é hoje a Baviera — o maior dos 16 estados da Federação Alemã. 

Sim, a Alemanha atual é uma federação (exigência dos vencedores da Segunda Guerra, para dificultar que uma Alemanha centralizada voltasse a ameaçar a Europa). Isso acaba dando certa vazão ao espírito já regionalesco que havia ao longo de 1000 anos do Sacro-Império Romano Germânico (800-1806), uma colcha de retalhos de feudos sob um sacro-imperador. Assim era a Europa Central, e assim ela meio que ainda é com seus regionalismos fortes.

Voltaire, sagaz, depois diria que isso era um amalgamado e não um império, nem germânico, nem muito menos sacro. De fato, viviam diversos povos aí, entre eslavos, húngaros e italianos do norte em meio aos germânicos de diversos matizes.

Nesse contexto pré-nacional, Nurembergue era das mais importantes cidades, e chegou a ser uma espécie de capital do império, por assim dizer.

Kurien des reichstages des Heiligen Romischen Reiches
As chamadas Dietas Imperiais (de onde vem o uso original da palavra, que hoje ganhou significado alimentar) eram assembleias da nobreza do Sacro-Império Romano Germânico. Chamavam-nas Reichstag em alemão, e ocorriam em diversas cidades, tipicamente Frankfurt ou Regensburg, mas a partir de 1356 se tornou obrigatório que um novo sacro-imperador sempre realizasse a sua primeira dieta aqui em Nurembergue.

O Sacro-Império Romano Germânico não tinha capital fixa; cada novo imperador eleito pelo colegiado escolhia de onde governaria. As cidades principais, portanto, se alternavam: Frankfurt, Aachen, Praga, Regensburg, Palermo, Nurembergue e outras.

Nurembergue, sendo bastante central, vinha a calhar tanto como capital ocasional quanto como lugar de encontro para a reunião dos nobres vindos de todas as partes para a Dieta Imperial (Reichstag).

Mapa sacro imperio dietas imperiais
O mapa do Sacro-Império Romano Germânico, abarcando toda a Europa Central, e as cidades que foram palco do maior número de dietas imperiais. Note como Nurembergue era bastante central no que era o império.
Map of Nuremberg in Germany today
A Alemanha é uma pequena parte do que era o Sacro-Império. Nurembergue ali na parte norte da Baviera (Bavaria em inglês), no que é a região da Francônia.

Ainda hoje, uma das principais atrações em Nurembergue é o castelo onde o imperador se albergava quando aqui estava — o Kaiserburg, cidadela imperial.

Em tempo, Nurembergue também seria a principal sede do chamado Renascimento alemão. Não se trata ainda do despertar (ou criar?) de uma consciência nacional, mas do florescimento das artes aqui. O pintor Albrecht Dürer (1471-1528), expressão máxima desse período, nasceu e morreu em Nurembergue, com o sacro-imperador Maximiliano I como seu mecenas e criando para toda a nobreza da época.

Albrecht Durer Selbstbildnis mit 26 Jahren Prado Madrid
Autorretrato de 1498 do pintor Albrecht Dürer (1471-1528), expressão máxima do Renascimento alemão. Original atualmente no Museu do Prado em Madri.

Dessa época são a Igreja de Nossa Senhora (Frauenkirche) e a Igreja de São Lourenço (St. Laurentz), que marcam o centro histórico de Nurembergue. A primeira, católica romana, foi completada em 1398 e recebeu adornos até o princípio do século XVI. A segunda, luterana, foi consagrada em 1477. Nesse encontro de denominações, Nurembergue prosperava antes de eclodir a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) entre protestantes e católicos.

Adiantemos a fita até o século XIX, e temos o fim do Sacro-Império em 1806 com as invasões napoleônicas. Nurembergue deixa de ser cidade imperial para ser anexada ao Reino da Baviera, que prosperará autônomo até ser integrado num segundo império — o Segundo Reich — com sede em Berlim na Alemanha unificada a partir de 1871.

Ainda mesmo disso, estabelece-se aqui em 1852 o Museu Nacional Alemão (site oficial), o primeiro do seu tipo, em Nurembergue como lugar natural para contar a saga deste povo.

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A vista do centro histórico de Nurembergue, Baviera, Alemanha.
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A gótica Igreja de São Lourenço (St. Laurentz), testemunho do passado medieval de Nurembergue. Completada em 1477, ela hoje é luterana.
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A Igreja de Nossa Senhora (Frauenkirche), ainda católica, completada em 1398.
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A Frauenkirche numa noite natalina em que visitei a cidade.
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O Kaiserburg, ou cidadela imperial, com a sua distinta torre.
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O Kaiserburg, também chamado de Castelo Imperial. Você pode dar umas boas voltas.

Foi diante de toda esta herança cultural e histórica que os nazistas a partir de 1933 quiseram fazer de Nurembergue seu centro espiritual.

É preciso, primeiro, dar-se conta de como a História alemã advém muito intimamente dessa História do Sacro-Império. A saber, quando a Alemanha se unifica como um (novo) Império Alemão sob Guilherme I e seu chanceler Otto von Bismarck em 1871, tinha-se uma dieta imperial — Reichstag — nos moldes da antiga. Mesmo com o fim da monarquia, diante da derrocada germânica na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o estabelecimento da República de Weimar (1918-1933), o novo parlamento manteve o mesmo nome.

Não contentes com aquela derrocada foi que os nazistas inventaram que fariam um Terceiro Reich, este a durar (outros) 1000 anos como durou o Sacro-Império, e centrado culturalmente aqui, na “mais alemã das cidades alemãs”, ainda que a capital política fosse Berlim.

Foi por isso que aqui tinham lugar as marchas e principais encontros anuais dos nazistas nos anos 1930, e que Hitler ordenou a construção de um gigante congresso — feito nos moldes do coliseu romano — e de que você possivelmente nunca ouviu falar.

Hoje, essas chamadas áreas do congresso do partido imperial (Reichsparteitagsgelände) são talvez o museu mais impressionante da cidade.

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O prédio do Congresso que Hitler imaginou para o Terceiro Reich, em Nurembergue. Uma espécie de coliseu modernista, ele nunca foi derrubado.

O museu interessantíssimo conta em detalhes minuciosos a ascensão do Partido Nazista, como o movimento febril tornou-se um frenesi na sociedade alemã da época, e os usos simbólicos e culturais que faziam de Nurembergue — assim como os encontros de juventude aqui realizados.

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Conteúdo que vi dentro do museu, com as tias loucas no frenesi nazista da década de 1930.

Sendo assim, quem se surpreenderá por Nurembergue ter sido escolhida como cidade-sede para o tribunal dos crimes cometidos na Segunda Guerra?

Você hoje pode visitar — noutra área da cidade — o chamado Palácio da Justiça, onde os julgamentos ocorreram após 1945. É uma visita histórica e tanto.

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O chamado Palácio da Justiça, um complexo modernista construído no princípio do século XX (ainda antes de todo o movimento nazista) para albergar cortes regionais. Acabou sendo a sede do Tribunal dos Crimes de Guerra cometidos pelos nazistas. Hoje, você pode visitá-lo como um museu.
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Com um audioguia na Sala 600, onde os julgamentos de 1945 se deram.

Visitando Nurembergue

Quem acompanha minhas postagens recentes sabe que eu não tenho mais essa cara tão juvenil aí acima. Uns bons 10 anos se passaram desde essa foto, numa das minhas três visitas à mais alemã das cidades alemãs. (Eu me dou conta de que está na hora de retornar.)

Eu vim cá duas vezes no verão e uma no outono, quando a cidade ganha ares bem distintos. Nurembergue é uma cidade bastante gostosa onde passear — em verdade bem mais cênica, pitoresca e de aspecto histórico que cidades como Berlim, HamburgoFrankfurt, ou Munique aqui perto. Quem procura a Germânia romântica de outras eras precisa vir é aqui mesmo.

Foi assim que eu me encantei quando cheguei de passagem numa viagem de carro Alemanha adentro com duas amigas. Estávamos na estrada desde Leipzig até Augsburgo, onde minha amiga alemã tinha um amigo que nos hospedaria — daquelas viagens de estudante, em que todo mundo faz de tudo para não gastar.

Foi uma passagem rápida, mas que permitiu que eu me encantasse pelo centro histórico desta cidade e decidisse retornar.

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O simpático centrinho histórico de Nurembergue.
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Por ali no verão, quando todo o lugar de fato ganha um ar festivo e mágico.

Não demoramos a ver um senhor de chapéu e calças de couro (lederhosen), parecendo um personagem de cartas de tarô, ao que minha amiga saxã disse mesmo que era sinal de que estávamos na Baviera, já que esse hábito é coisa daqui e da Áustria.

As comidas, claro, me puseram de escanteio como vegetariano, já que o frenesi aqui é em torno das salsichas e coisas afins. Já nem me lembro o que comi.

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Priscas eras que bem longe vão no centro de Nurembergue, num verão.

Passamos de carro pela tal área de desfile do Partido Nazista, e eu fiquei chocado em descobrir algo que eu não fazia sequer ideia de que existia.

Compreensivelmente, os alemães de hoje fazem pouco alarde daquilo, e o lugar sequer está listado entre os museus da cidade — vai numa categoria à parte, que chamaram de “compromisso com o passado”, no sentido de documentar, analisar, e não esconder o que ocorreu.

Foi uma passagem rápida, e no ano seguinte eu voltaria a Nurembergue no outono, para vê-la agora sob o espírito natalino e fazer a visita ao Tribunal de Justiça, da foto na Sala 600 que lhes mostrei acima.

Nurembergue no outono — como toda a Europa Central e do norte — fica beeeeem diferente do verão. Não se encontra mais daquele ar pirilampo nas ruas, com as pessoas a comer ou beber sob o sol e a circular animados. Substitui-se essa atmosfera semi-campestre por algo mais sombrio, frio, ventoso, que o convida a ficar do lado de dentro dos lugares. A exceção, como sempre, são as feirinhas de Natal que começam com o início Advento a quatro domingos do Natal no final de novembro.

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Feirinha de Natal em Nurembergue com a Frauenkirche ali atrás.

Lembro que estava um frio potente para o que era ainda a primeira metade de dezembro — o que chamamos de “frio fura-luva” na ocasião, porque a indumentária de mão pouco resolvia. E nisso, ficamos impressionados em ver como um cidadão tocava trombeta com as mãos nuas numa bandinha de Natal aí na praça. 

Foi também a primeira e única vez em que presenciei a combinação de neve e trovões — justo ao sair do Palácio de Justiça, onde tinha visto de perto os lugares do tribunal dos crimes de guerra. Não faltou carga dramática em pôr os pés para fora daquele prédio e ouvir de imediato o ribombar no céu.

Eu retornaria uma terceira vez então, noutro verão, já ali habituado a circular pelas paragens do antigo Kaiser e a ver aquele cenário “das antigas” vizinho às lojas e calçadões comerciais modernos no centro de Nurembergue.

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Na fortaleza do Kaiserburg, com as folhas no fim do verão querendo trazer já o outono, num longínquo setembro.
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Ali em meio ao casario típico.
Torre medieval e casa de enxaimel em Nurembergue
O aspecto romântico-medieval da Germânia antiga em Nurembergue.

Aguarde-me, Nurembergue, uma hora dessas eu volto para um reencontro. A quem cogitar vir, eu diria que duas noites aqui são muito bem passadas se você quiser visitar tudo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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