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Argentina

A virada de Ano Novo em Puerto Madero, Buenos Aires

Bem-vindos a 2024, e bem-vindos também à mais brasileira celebração de Ano Novo fora do país. Oi?

É, assim são os novos tempos de gente fina, elegante e sincera sobre os quais cantou Lulu Santos — e que, ele se esqueceu de adicionar, fala português.

Estamos em Buenos Aires, a capital argentina, mas que segundo um amigo que me acompanhava poderia logo mudar de nome para República Transplatina ou algo assim — como o Uruguai já foi Província Cisplatina nos áureos tempos do Império. Precisávamos pensar logo num novo formato (República Unida do Mercosul, ou sei lá o que) que atenda a realidade transfronteiriça de hoje.

Quanta blasfêmia! Se nos escutassem os argentinos que vimos protestar em massa — massas como se fossem a torcida do Boca e a do River Plate juntas — durante o dia, cobririam-nos de pau. Por sorte, não nos ouviram, pois sabe-se lá onde estavam os argentinos hoje. As ruas de Buenos Aires pareciam-me brasileiríssimas neste réveillon, a ponto de as pessoas se dirigirem a estranhos em português na rua e pedirem desculpa se fosse um estrangeiro — dito, um nativo — que não compreendesse.

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Arte de rua em Puerto Madero, a área mais badalada de Buenos Aires no réveillon.

Onde passar o réveillon em Buenos Aires?

Essa pergunta nos assaltou de jeito. 

Eu já queria há um tempo revisitar a Argentina — e visitar paragens dela nunca ainda vistas por este par de olhos meus, como Bariloche e Ushuaia. Fazia décadas desde que eu havia estado em Buenos Aires, ademais, e era hora de retornar para vê-la contemporânea, não mais a lembrança que eu tinha dela dos anos 90.

Dentro em breve eu lhes relatarei minhas andanças pela cidade, mas primeiro vamos ao réveillon, que eu resolvi passar aqui (por que não?) porque queria um destino quente de hemisfério sul que fosse fora do Brasil e não muito longe, ou seja, que não exigisse passagens caras de avião para voar naquele ínterim mágico entre o Natal e o Ano Novo, após eu passar o Natal com a família.

Só que onde passar a virada de ano em Buenos Aires não tinha resposta tão óbvia quanto o é em cidades brasileiras litorâneas como Salvador ou o Rio de Janeiro, onde há um show da virada com fogos à beira-mar e toda aquela estrutura montada — pelo governo e pela sociedade. Quanto mais tempo eu passo fora, mais descubro o Brasil. 

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O centro de Buenos Aires fica um tanto à míngua na noite de réveillon — talvez como fique o centro de São Paulo, só que com menos ladrões, e substituindo a cracolândia por apenas alguns desabrigados.

Palermo? Puerto Madero?

Quando perguntei a argentinos onde passar a virada de ano — e comecei a fazê-lo já de meses, desde que soube que a passaria aqui —, olhavam-me às vezes com aquela cara de “sei lá, meu”, como eu tivesse lhes perguntado “onde passar o domingo de Páscoa”.

Palermo“, alguns chutavam assim meio que por eliminação, mencionando o bairro hipster cool de Buenos Aires, pleno e restaurantes, parques, e certa atmosfera de boa vida.

Eu cogitei ir lá, mas perguntando sobre fogos e festa de rua — pois eu queria uma coisa que fosse pública —, falavam-me que os argentinos são mais de passar tal festa em casa, reunidos com amigos e familiares, ou na gandaia dentro de algum clube, ou ainda num restaurante, mas não exatamente na rua, e que fogos eram proibidos por uma questão de barulho e de compreensão com os animais de estimação. Achei justo e compreensível, ainda que quisesse fogos assim mesmo, num belo episódio de dissonância cognitiva. 

Fogos havia antigamente, mas não tem mais“, disseram-me um e outro, até eu conseguir extrair a informação de que, sim, em Puerto Madero haveria fogos e agitação de rua, no mínimo os promovidos pelo hotel Hilton e pelo garboso Madero Tango. 

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Puerto Madero, antiga área portuária de Buenos Aires que entre os anos 1990 e 2000 foi revitalizada como distrito de entretenimento, com hotéis, cassino e restaurantes à beira da água. Foi a inspiração para a Estação das Docas em Belém do Pará, que criou uma estrutura parecida.

Como fica Buenos Aires na véspera de Réveillon?

Estejam já avisados os marinheiros que muito nem sequer abre dia 31 de dezembro. Teatros a serem visitados não funcionam, tangos e bares estarão com programação especial, muitos lugares turísticos estão fechados, e Buenos Aires parece já cerrada para balanço, a reabrir só no outro ano. No muito, acham-se alguns supermercados — com turistas como eu a se estocar com vinho e espumante — e aquelas lojetas 24h estilo chinês, com que se pode sempre contar.

Quem gosta de terminar o ano com menu especial da virada n’algum restaurante precisa reservar com antecedência, é o que reza a lenda, mas isso francamente não me interessava. Sou por demais perscrutador da coisa pública para ficar limitado a uma mesa. Puerto Madero seria, então. 

Comprei meu espumante antes, e tomamos ele já no hotel antes de sair (quem sabe faz a hora, não espera acontecer), pois eu não ia ficar dependente do que achasse na rua, nem o queria sem estar gelado. Já era mesmo 2024 na maior parte do globo naquela altura da noite.

Quando tomamos então as ruas do centro rumo a Puerto Madero, eu sabia que não seria exatamente Copacabana, mas estava disposto a saber afinal o que é que Buenos Aires tem. 

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Espumante a preços populares em Buenos Aires. Pagamos a bagatela de R$ 14 neste. Eu gosto do ecletismo: às vezes Champagne na França, outras vezes o da mercearia argentina.
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Buenos Aires fecha as portas dia 31 de dezembro já desde cedo. Estoque-se de comida e bebidas se não tiver reserva em restaurante. As ruas do centro à noite ficam este ermo…
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…até que você chega a Puerto Madero.

Brasileiros abundavam de branco já pelas ruas que levavam a Puerto Madero, entre uma gota e outra da água usada pelos argentinos no seu hábito — segundo eu ouvi dizer — de lavar as janelas com rodo na véspera do Ano Novo. Ouvi sotaques de várias regiões e orientações políticas diversas, incluso um fã brazuca de Milei a repetir seu “libertad, carajo” com juvenil animação de classe média.

Se os brasileiros estavam quase que invariavelmente de branco (eu ali incluso), os poucos argentinos ou estrangeiros outros que eu via nas ruas eram mais ecléticos. Vi até uma família toda de negro, o que me dava certo ar de Família Adams ao réveillon, e fiquei a me perguntar se havia alguma tradição argentina a esse respeito.

Muitos bares estavam fechados — bem mais do que seria o caso no Brasil. Um ou outro funcionava como ilha de animação em meio ao que de outro modo parecia um centro de cidade em noite de Natal. Um carro ou outro passava, mas não muitos; era perfeitamente possível atravessar as ruas sem atentar aos semáforos.

O português era, sem sombra de dúvida, a língua mais ouvida, seguida do espanhol e do francês, com o inglês num distante quarto lugar. Estávamos, definitivamente, na América Latina, no que me parecia um puxadinho do Brasil para além das nossas fronteiras.

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A zona de Puerto Madero nesta noite de réveillon.

Puerto Madero: das 22:30 à 01:00

Eram umas 22:30 quando cheguei por ali, a começar a circular para ver até onde a folia se estendia.

Eu já lhes aviso que venham bem munidos de comes & bebes se forem querê-los, pois a oferta aqui é bastante escassa. Esqueça aquela abundância criativa de vendas que há no Brasil. Aqui, havia pessoas já no chão fazendo uma espécie de piquenique de Ano Novo, com espumante etc., mas na maior parte do percurso não há ambulante nenhum — nem barraca, nem ninguém vendendo nada.

Achei um tanto higienizado demais, pois não se sabia onde comprar algo fora dos já lotados restaurantes. Na atmosfera já bem lusófona, presenciei brasileiros perguntando onde ficava o McDonalds — em bom português — a aleatórios na rua, que não entenderam. Depois eu veria a rede de fast food Mostaza com uma imensa fila a dar volta.

Em tempo, passei a ver algumas pessoas de fisionomia indígena — que bem podem ter sido bolivianos, paraguaios, ou simplesmente argentinos de origem mais pobre — vendendo latinhas de cerveja na surdina. Porém, tampouco demorei a ver também um policial chegando numa dessas moças e mandando fechar o isopor, pois aparentemente era proibido. 

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Esta lanchonete de fast food Mostaza era dos poucos lugares que vi vendendo algo para quem estava pela rua — a quem se dispusesse a pegar uma fila quilométrica.
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Este cidadão fazia este desenho no chão, ao que passávamos.
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Puerto Madero estava bonito e iluminado, com muita gente ali já instalada da Puente de las Mujeres para ver logo mais os fogos que houvesse.

Andando até mais adiante dessa ponte, encontrei o que chamei de o “quintal” da festa, onde a hiper-presença brasileira parecia algo substituída por uma presença mais “latina”, na acepção coloquial da palavra. Não sei de onde eram, mas eram várias as famílias hispanohablantes de aspecto meio andino com suas músicas em espanhol a tocar, algumas delas sentadas no chão a comer.

Aqui, a venda de bebidas rolava solta e desimpedida. Mulheres e homens posavam com o que eram carrinhos de supermercado plenos de caixas de latas de cerveja além de água e refrigerante. Eram também eles os fornecedores de uns copázios de bebida com suco com que eu via várias pessoas circulando. 

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Um vendedor era brasileiro. “Aceito Pix!!

20 minutos para a meia-noite

Eu acho que este foi o primeiro lugar do mundo onde eu vi queima precoce de fogos. Pareceu até aula sobre livre iniciativa, a tal da mão invisível do mercado, e o papel das regulamentações para assegurar o interesse coletivo. 

Às 23:40, A, B e C já começaram livremente a queimar os fogos que queriam, sem contagem regressiva nem organização nenhuma. Tudo a migué, talvez seguindo o estilo libertário de Milei. 

As luzes se faziam no céu antes mesmo de 2024 se materializar. As pessoas começavam a olhar para os relógios, e brasileiros perto de mim perguntavam “que horas são?” uns aos poucos em tom existencial.

Quando os ponteiros foram se aproximando das 12h, coube a nós brasileiros também entoar a contagem regressiva que foi então ganhando coro. Não sei sincronizada com o quê, já que não havia telão nem palco nem mostrador. Só sei que ao fim explodiram mais fogos. 

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Os fogos antes da meia-noite. Na coisa meio anárquica aqui na Argentina, não se esperou nem chegar a 0h.
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Depois, aí sim, os fogos vieram — ou melhor, continuaram — com maior fulgor.
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Fogos por detrás da Ponte das Mulheres em Puerto Madero, Buenos Aires.
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Dando as boas-vindas a 2024 na Argentina.

Mô, tem tanto brasileiro aqui que eu tô achando até que tô no Brasil”, declarou a moça ao seu mô perto de mim. De fato, era notável. Eu mesmo não imaginava que seríamos tantos — claramente mais que qualquer outra nacionalidade, inclusos os argentinos, e possivelmente tão numerosos quanto todos os não-brasileiros somados.

Os fogos enquanto isso seguiam em modo “livre”, sem nenhuma sequência organizada nem tampouco aquela apoteose no final. Aumentava, diminuía, parecia que ia parar, aí continuava, aí pausava e depois vinha outro de outra direção.

Fomos aos poucos voltando, até que o desejo de ir ao banheiro nos levou ao Hilton — a primeira ida ao banheiro de 2024, em fino estilo. (Não importa se você está hospedado ali ou não; precisando, entre.)

Ao final, todos tivemos a mesma ideia — eu incluso — de chamar um Uber. Já não era a primeira vez que eu via como essa dependência de aplicativo fica problemática quando se trata de muita gente assim de uma vez em final de evento. Esperei em vão por minha corrida inflada que nunca sequer apareceu, como faziam outros tantos — na sua maioria, outros brasileiros.

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As pessoas esperavam Uber por todo lado nas praças do centro de Buenos Aires nas adjacências de Puerto Madero. Todos tivemos a mesma ideia mais ou menos no mesmo horário.

A noite de Buenos Aires era uma criança — e uma criança brasileira, com os compatriotas a circular e a pedir licença e a trocar comentários pelas ruas ao que regressávamos cada qual a seu canto. Voltei portanto a pé até ao hotel a uns 2 Km dali.

Quem quiser garantir retorno, acho bom ter um plano B ao Uber nesta noite. Estejam avisados.

A quem quiser ver um pouco mais da queima de fogos em Puerto Madero neste réveillon, fiz um breve vídeo abaixo.

Eu depois retorno com as andanças por Buenos Aires e lugares próximos. Por ora, que entre um 2024 maravilhoso para todos nós.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “A virada de Ano Novo em Puerto Madero, Buenos Aires

  1. Adorei essa postagem e amei ver essa festa na bela capital Portenha. Linda Festa. Belas imagens. Belas fotos, linda iluminação e movimento.
    Bem que parece o Brasil.
    Maravilha essa constatação: O Brasil precisa ser redescoberto.!… Com certeza, e valorizado, e reconhecido como uma nação rica em cultura, arte, ciências e GENTE, como um todo, principalmente do N-NE, com suas riquezas étnicas ,culturais, históricas e por ai vai…
    E estou de pleno acordo em relaçao à formação de um bloco social, cultural, integrativo etc e tal, latino-americano , já que temos tantos pontos em comum. Seria ótimo. Quem sabe uma hora dessas um abençoado /iluminado, vê os pontos de união e não de divisão entre nos e los hermanos? Seria maravilhoso.
    Com certeza ja era ano Novo em quase todo o mundo, hahah
    Hahahah adorei a alusão à Familia Adams.
    hahahah olhe o Hilton ai, gente.hahahah Que chic…hahah
    Adorei…
    Animada para ver a viagem toda, meu jovem amigo hahaha vamos que vamos…

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