Santo Antônio, azulejos e ruas de pedras que lembram Lençóis, Ouro Preto ou alguma outra cidade histórica brasileira. Bem-vindos a Colônia do Sacramento (Colonia del Sacramento), a cidade mais brasileira do Uruguai.
Estamos num Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO, a cidade mais histórica do nosso vizinho ao sul. Colônia data de 1680, fundada pelo português Manuel Lobo, quando a coroa portuguesa quis assegurar a sua presença — e domínio do território — até a boca do Rio do Prata, que hoje divide o Uruguai da Argentina.

Estávamos poucas décadas após Portugal recobrar sua independência da Espanha, perdida entre 1580 e 1640 (período da chamada União Ibérica sob liderança espanhola), e a América do Sul se tornava assim um campo de batalha e cabo de guerra entre Lisboa e Madri.
Veremos mais detalhes desse aspecto histórico. Hoje, Colônia é uma sossegada e agradável paragem que nem todos os brasileiros sabe que existe — esse posto mais avançado, no extremo sul do que foi a nossa História.
Eu chegava de barco vindo de Buenos Aires numa travessia rápida de 1h30 por sobre estas águas que tanto bando e contrabando já viu, escoando para sempre as mercancias da América do Sul.



Chegando a Colônia do Sacramento, Uruguai
Colônia hoje é uma daquelas cidades de médio porte que combinam um centro com infraestrutura razoável e a parte histórica meio ao lado. Não achem que Colônia hoje é apenas a parte histórica.
Você chega aqui de ferry vindo de Buenos Aires (1h30 de travessia sobre a qual contei neste post) ou de ônibus desde a capital uruguaia Montevidéu (2h30 no ônibus direto, com várias saídas ao dia). Há duas empresas fazendo este trajeto de ônibus: a COT, que dizem ser melhor que a Turil. Este portal lhe permite ver as saídas de ambas — mas recomendo ir comprar no próprio site da empresa, sem intermediários.
Note que há serviços diretos e outros pinga-pinga, que tomam 2h50. Nestes últimos, pegam gente que vai de pé no corredor do ônibus. Mesmo o direto pinga um pouco, mas não há dramas, e o ônibus funciona bem. Usei COT, e usaria de novo. Só tenha atenção para marcar “Receber Ticket por email” na hora da compra, pois a caixinha não fica marcada automaticamente. Marque E-ticket no final da página após selecionar o meio de pagamento, e não precisa imprimir nada.
Isso tudo seria para minha posterior ida a Montevidéu, mas por ora eu chegava a Colônia nesta tarde úmida de verão, os mosquitos a fazerem nascedouro nas barrentas águas do estuário do Prata. Qualquer amigo que vocês tenham que tenha também vindo cá neste verão lhes confirmará a pestilência de pernilongos que enfrentamos.



Colônia é um lugar que alguns visitantes apertam entre uma visita a Montevidéu e Buenos Aires, pois é possível sair de ônibus da primeira, chegar aqui, e no mesmo dia tomar um ferry à Argentina — ou sair da Argentina para cá, e daqui tomar um ônibus até Montevidéu.
É possível, contanto que você não compre um combo das empresas de ferry, em cujo caso você não terá tempo para bordejar por Colônia. Para bordejar aqui em Colônia, é preciso comprar passagens (de ferry e ônibus) separadas. Num turno — preferivelmente a tarde, pois de manhã tudo segue fechado até as 10-11h — você passeia bem pela cidade, mas 1 pernoite não cai mal. Mais do que isso pode ser demais, pois a área histórica de Colônia realmente é bem pequena, e é menos rica de coisas a fazer que suas contrapartes brasileiras (como as cidades do interior de Minas, por exemplo).
Há vários hoteizinhos bons o bastante na área semi-residencial que fica a poucas quadras do terminal de ferry, da rodoviária, e no caminho entre esses e o centro histórico. Tudo aqui é perto.
Nós chegamos de ferry naquela tarde, e setas logo lhe indicam o caminho a percorrer por uma área de terra até o centro histórico. Um quarteto de moças pernambucanas iam à nossa frente arrastando malas. Uma coisa que você logo nota por aqui é como o turismo é mais brasileiro que todas as demais nacionalidades juntas.

Voltas históricas por Colônia
Instalamos-nos numa das várias alamedas de Colônia do Sacramento — uma de suas muitas ruas margeadas de árvores. São do que há de mais belo na cidade, afora sua parte histórica.
Dali, ao abrigo temporário dos mosquitos, fomos a um dos vários restaurantes com certo ar de boteco no centro novo da cidade — onde podíamos fazer uma refeição à tardinha, depois que os lugares de almoço já tinham fechado e os de jantar não tinham aberto ainda.
Ouvi relatos de brasileiros de que a cerveja de marca Pilsen uruguaia é água pura, mas pegue para saciar a própria curiosidade se quiser. No mais, a comida uruguaia parece sofrer mais (boas) influências brasileiras e é mais diversa que a argentina. Até restaurante do tipo buffet a quilo você acha em Colônia.
Numa praça do outro lado do restaurante, quatro cidadãos com ares de aposentados proseavam no mesmo banco no fim da tarde. As calçadas desta parte mais nova e comercial da cidade, por sua vez, estavam plenas de cavaletes, mesas, e produtos chamando as pessoas a entrar nas lojas.






Eu gostei dos uruguaios, eles relativamente sossegados, mais simpáticos e menos cheios-de-si que os argentinos. Curiosamente, pareceram-me até chiar mais que os portenhos do outro lado na pronúncia. Aqui, mayonesa é “maxonesa”, e assim vai.
Eu me diverti os ouvindo, até que fui bordejar pela área histórica de ares portugueses. Há inúmeros museuzinhos, mas nenhum deles assim uma Brastemp. O mais notável é, precisamente, o Museu Português com azulejos e mobiliário da época.
Já a cidade como um todo é muito bonitinha, mas bem mais quieta e pouco movimentada que suas equivalentes noutros países da América Latina, como uma Antigua na Guatemala ou as do México — uma Bernal da vida ou San Cristóbal de las Casas, plenas ainda de vida social típica.
Aqui, você circula por aquelas ruas no fim de tarde, vê jovens e visitantes outros, mas é mais o vento pelas ruas e a água do rio mais lá adiante que qualquer outra coisa.

Cidade portuguesa ou espanhola? Brasileira ou uruguaia?
Que Colônia é hoje uma cidade uruguaia, não resta dúvidas, mas antes disso ela já foi muita coisa.
A cidade portuguesa que nasce em 1680 com Manuel Lobo — o então Governador da Capitania do Rio de Janeiro, incumbido pela coroa de expandir os domínios de Portugal na fronteira sul do Brasil — mal dura uns poucos anos. Os espanhóis logo a incendeiam.
Os espanhóis tinham Santa Maria del Buen Aire (vulgo, Buenos Aires) do outro lado do Rio da Prata controlando tudo o que saía do continente por ali, e não gostaram nem um pouco deste posto avançado português já tão além do que previra o vetusto Tratado de Tordesilhas (1494), que dividiu o mundo a explorar entre Portugal e Espanha. (Ele só assegurava domínios portugueses até o que se tornaria o litoral de Santa Catarina, e ponto. Portugal, malandro, foi pondo as suas asinhas de fora.)
Entraram os ibéricos então num acordo de deixar o assentamento português aqui ser refeito a partir de 1683, mas daí ela voltou a cair sob domínio espanhol de 1705 a 1715. Essa própria devolução a Portugal em 1715 foi sob a condição de que o assentamento não se expandiria mais do que o raio de um tiro de canhão (de até onde a bala caía).

Quando Portugal recobra esse controle sobre Colônia do Sacramento no século XVIII é que decidem fortificá-la com a muralha que vimos. É também desse século as casas mais antigas ainda de pé, como aquelas junto do farol e as da Rua dos Suspiros (cujo nome não se sabe de onde vem, mas se cogita que pela prostituição).




A Espanha, descontente ainda com esta presença portuguesa aqui no século XVIII, encorajou povoamento no atual Uruguai e, inclusive, os seus jesuítas espanhóis a estabelecerem os chamados Sete Povos das Missões no atual Rio Grande do Sul —precisamente para também interromper a presença territorial portuguesa.
Até que, na altura de 1750, as duas coroas concordam em fazer uma permuta: Portugal lhe entregaria Colônia do Sacramento, e a Espanha legaria aos portugueses as terras gaúchas dos Sete Povos.
Não deu certo, todavia. Houve a Guerra dos Sete Povos na década de 1750, envolvendo os índios Guarani, e Portugal acabou por segurar Colônia para si. A Espanha atacaria de novo, múltiplas vezes na década de 1760 e outra vez em 1777. Portugal, entretanto, havia conseguido segurar tanto este destacamento às margens do Rio da Prata quanto os territórios gaúchos das Missões.
Como a Espanha, sob Napoleão, acabou também derrotada enquanto Portugal saía por cima como aliado dos ingleses, ele segurou tudo isto no século XIX, de modo que o Brasil fica independente tendo esta Província Cisplatina (isto é, do lado “de cá” do Rio da Prata) como parte de seu território. Isso seria o caso até 1828, quando a maioria do povo hispanohablante daqui luta para ser um país soberano: a República Oriental do Uruguai.


Voltas na Colônia do Sacramento hoje
Eu não vou lhes mentir dizendo que Colônia tem um ar especificamente português — não tem. Tem, contudo, o ar colonial semelhante ao Brasil, sobretudo do sul do Brasil, de que toda maneira já tem um jeitão assemelhado aos vizinhos falantes de espanhol.
A exceção fica por conta de uma rua ou outra (como a Rua dos Suspiros) e um casa ou outra, feitas no tempo português e que poderiam estar em qualquer lugar brasileiro. De modo geral, tampouco difere muito das cidades coloniais espanholas nas Américas. São todas frutos do mesmo período e colonização ibérica.




A igreja matriz estava fechada quando eu vim, e parte dos museus também. Talvez fossem as vizinhanças do Ano Novo.
Não vou lhes dizer que “pirei o cabeção” com a cidade — achei-a talvez quieta demais, meio sem vida exceto por um café de esquina ou outro e uns turistas tirando foto nesta ou naquela paragem histórica. Já visitei várias cidades contemporâneas, no Brasil como noutras partes da América Latina, bem mais animadas; mas como cada lugar é único, valeu a pena conhecer Colônia do Sacramento de perto.





Circulei e tomei um sol nesta manhã do dia seguinte à minha chegada, mas também não me demorei muito. Não à toa algumas pessoas passam apenas algumas horas no meio do caminho entre Buenos Aires e Montevidéu. Pernoitar vale a pena se você quiser sentir desse sossego de que lhes falo.
Eu, já logo após almoçar num restaurante a Kg de certa influência brasileira no centro da cidade, com umas senhoras uruguaias simpáticas e conversadeiras, toquei para tomar o meu ônibus COT a Montevidéu. Era hora de conhecer a capital — no meu caso, reconhecê-la, após ter vindo a ela há mais de 25 anos atrás.






Meu amigo que lugarzinho lindo, que riqueza!… Nossa ,quanta beleza em tão pequeno espaço. Parece coisa de cinema.
Começa pela chegada , com cara de filme de far-west do sec XIX.
Ao adentrar a cidadezinha como que voce entra e continua no túnel do tempo e volta ao passado. Que sensação interessante….. Tudo é belo e acolhedor desde o simpático Bienvenidos a Uruguai, inclusive tambem em português….
A linda plaquinha de azulejo português em homenagem a Santo Antônio, artísticamente decorada e em português arcaico; a romântica rua dos Suspiros, que evoca grandes emoções; a imponente Basílica do Santíssimo; o majestoso Portal de Armas; as belas alamedas de frondosas árvores; seu charmoso Centro Histórico; os gostosos e aprazíveis jardins, onde velhos amigos se encontram para papear e recordar o passado; suas ruas movimentadas e alegres da zona comercial, suas lojinhas; seus marcos históricos; seu calçmento antigo, suas ladeiras, sua vetusta muralha, seu antigo farol, suas ruelinhas floridas e aprazíveis; sua orla arrumadinha e sua bela e agradavel rodoviária, a fazem única , impar, inesquecível, parada obrigatória.
Isso para não falar da sua história tão achegada à nossa história. Um monumento a ser preservado e visitado.
Respira a paz….
Destaque para esse senhorzinho placidamente sentado em frente à sua casa, debaixo da sombra de sua árvore, com seus 2 amiguinhos. Bela imagem da paz e da tranquilidade. Um sonho.
Obrigada, amigo, pelo presente. Bela escolha.
Valeu.
Amei.
Majestoso esse estuário do Rio da Prata. Parece mais um Mare Dulce.
Linda orla…
Tudo respira História.