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Uruguai

Montevidéu: Lugares, bordejos e atrações na capital do Uruguai

Montevidéu pode não ser uma cidade eminentemente turística (não é), mas ela tem os seus charmes aqui e ali, alguns lugares bonitos e interessantes para ver e conhecer, e surpreende com ambientes e vizinhanças de repente agradáveis. 

Eu já havia vindo a Montevidéu nos anos 90, e — como todo mundo — notei o quanto a cidade era cinzenta.

A quem não sabe, isso havia sido política pública. Nos princípios do século XX, para assemelhar-se aos europeus e seu padrão estético à época, as autoridades uruguaias decretaram que só se poderia edificar em cores neutras ou dos materiais de construção. O resultado foi o concreto que você vê aí na foto de abertura com o Palácio Salvoobra histórica da década de 1920 e talvez a edificação mais emblemática do centro de Montevidéu. Depois o veremos mais de perto. 

Hoje, eu fiquei feliz de ver Montevidéu ganhando novos tons e aos poucos acompanhando os novos tempos. A cidade me pareceu mais colorida e com mais vida. “Si, está cambiando!“, disse-me alegre um coroa motorista de Uber que me levava até o centro desde a simpática vizinhança de Punta Carretas, onde fiquei hospedado. Nós passávamos pela agradável orla da cidade — la rambla de Montevideo — com suas pistas livres e gente correndo à beira do estuário do Rio da Prata.

No Uruguai, e sobretudo nesta época de festas de fim de ano e veraneio, tudo é tão tranquilo que todos os dias me parecem tardes de sábado. Já as próprias tardes de sábado me pareceram domingo, dada a tranquilidade das ruas. Venhamos dar umas voltas na capital uruguaia e experimentar um pouco mais de perto o que é que Montevidéu tem.

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As bem arborizadas, agradáveis e tranquilas ruas de Montevidéu no verão.
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As edificações mais recentes da orla da cidade, fugindo do antigo cinza que dominou — e ainda tem certa marca — na capital uruguaia.
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La rambla, como eles aqui chamam a orla.
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As pessoas fazendo atividades físicas ou simplesmente passeando à beira do estuário do Rio da Prata. Só começa a ser propriamente mar mais a oriente, em Punta del Este.

O centro de Montevidéu — sua História e suas atrações

Como surge Monte video

Permitam-me o breve pano de fundo antes de tratar das minhas andanças cá.

Montevidéu é uma cidade que surgiu com os portugueses, como outras partes do Uruguai. Sim, oficialmente é uma cidade de fundação espanhola, mas foram os portugueses que deram nome ao lugar nos idos de 1500, e é um forte português de 1700 e algo quem origina a cidade.

Montevideo no mapa
Montevidéu no mapa.

Vale lembrar que estes eram rincões do que era a colonização portuguesa e espanhola na América do Sul. Seus interesses estavam nas minas de prata da Bolívia, escoada precisamente por este Rio de la Plata (daí seu nome), o que levou à formação de Buenos Aires na outra margem. Isso enquanto Portugal produzia açúcar do Nordeste brasileiro e, mais tarde, extraía ouro das Minas Gerais.

Em 1680, começa um certo “vamos ver quem controla isto primeiro” entre Portugal e Espanha sobre estas terras mais afastadas e aparentemente sem recursos. Portugal funda Colônia do Sacramento, que visitamos no post anterior, e em 1723 o português Manuel de Freytas Fonseca funda aqui um Forte de Montevidéu.

É curioso porque o nome “Montevidéu” data de muito antes disso — de 200 anos antes, quando o navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521), da primeira expedição a circumnavegar o globo, passou por cá e alguém de sua tripulação avistou um monte naquela altura da costa da América do Sul. Monte video.

Há outras versões mais garbosas acerca do nome da cidade, que aos poucos as pessoas foram enfeitando, mas basicamente se trata de a tripulação de Magalhães ter visto um monte, que hoje é associado com a colina do Cerro de Montevideo na cidade.

Fernao de Magalhaes
Fernão de Magalhães (1480-1521) foi o capitão português que liderou a primeira expedição de circum-navegação do globo terrestre. Foi nessa expedição que Montevidéu ganhou seu nome. (Mais sobre ele você lê nas minhas postagens pelas Filipinas, onde ele morreu e foi enterrado.)

Voltando ao futuro no século XVIII, quando os portugueses estabelecem aqui o Forte de Montevidéu em 1723, não demora a eles serem expulsos pelos espanhóis já em 1724.

Como vimos em Colônia do Sacramento, os colonizadores espanhóis em Buenos Aires não queriam saber de portugueses deste lado de cá do Rio da Prata se metendo nem atrapalhando seus negócios.

Assim sendo, em 24 de dezembro de 1726 — considerada oficialmente a data de fundação desta cidade — os espanhóis estabelecem um assentamento permanente aqui no que se tornaria Montevidéu. Quem o faz é o espanhol Bruno Maurício de Zabala, considerado o pai fundador da cidade.

Você verá referências a ele, como também a João Pedro de Solis (1470-1516), considerado o primeiro europeu a chegar a este estuário do Rio da Prata, pelas praças e monumentos da cidade, mas não há mais quase nada desse tempo aqui.

Uma breve curiosidade acerca de João Pedro de Solis — ou melhor, duas. A primeira é que há uma disputa eterna entre Portugal e Espanha para saber se ele era castelhano ou português. Os documentos divergem, embora talvez a tendência mais estabelecida seja de que ele era português trabalhando para a coroa de Castela à época — como Magalhães e tantos outros. João Pedro Dias de Solis ou Juan Pedro Díaz de Solís, como for. Os uruguaios o chamam Solís, com acento no í, e batizaram seu belo teatro nacional em sua homenagem.

A segunda curiosidade é que Solís foi comido por índios. Sua missão era encontrar o caminho para o Pacífico, coisa que só Magalhães anos depois faria contornando o fim da América do Sul em 1520.

Solís, antes disso, em 1516 descobriu este vasto estuário do Rio do Prata — que na época chamaram de Mar Doce — e o adentrou. Lá adiante, desembarcaram na Ilha Martín Garcia no meio do rio e foram atacados por índios Charrua. Solís virou canja (ou churrasco, não se sabe), e uns poucos fugiram para contar a história. Foram resgatados por uns portugueses que iam passando.

Descubrimiento del Rio de la Plata
Os canibais índios Charrua e o desembarque da expedição de João Pedro de Solis (ou Juan Pedro de Solís) no Rio da Prata — foram os primeiros europeus a chegar aqui. Ilustração do século XIX do pintor espanhol Ulpiano Checa.

A Montevideo dos princípios do século XX — a que você vê hoje no centro

A chamada Ciudad Vieja de Montevidéu hoje corresponde à zona de habitação mais antiga, mas que tem todas as caras — e certos charmes — da Montevidéu dos princípios do século XX, não de antes.

No final do século XIX e princípio do século XX, talvez você não saiba, o Uruguai e a Argentina eram tidos como grandes potências emergentes — lugares promissores que muitos comparavam à Europa e aos Estados Unidos. Buenos Aires era uma meca em ascensão que alguns viam como uma Nova Iorque no hemisfério sul.

Montevideo não ficava muito atrás. Cerca de 30% da população da cidade nos idos de 1908 era estrangeira — sobretudo espanhóis, italianos, e outros europeus.

Foi aí que o Uruguai, que antes tinha uma população negra volumosa e muita mestiçagem fruto do período colonial, acabou embranquecendo e chegando ao que vemos hoje (87% da população é branca).

Por isso que quando nos falam em candombe ou noutras tradições afro-uruguaias, a maior parte dos visitantes franze o cenho para perguntar “Afro no Uruguai?” (Daqui a pouco a gente vê.)

Os Estados Unidos haviam passado por forte crescimento pós-Guerra Civil nos idos de 1875-1900, com a consolidação da jovem nação, e os argentinos e uruguaios seguiram um tanto na mesma esteira. (É também a época em que Argentina e EUA praticamente exterminam seus últimos índios que ainda viviam de forma soberana, mas não vou entrar nisso agora.)

Nas décadas de 1920-1930, outra grande onda: levantam-se então os prédios cinzentos de arquitetura modernista como o Empire State Building em Nova Iorque ou o Palácio Salvo aqui em Montevidéu, e se expande aquela cultura urbana do início do século XX ainda com forte orientação Ocidental-europeia.

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O Palácio Salvo, erigido em 1928, é a edificação mais emblemática de Montevidéu — e chegou a ser o prédio mais alto da América Latina antes da inauguração do Edifício Martinelli em São Paulo no ano seguinte. Eu brinco que ele me lembra Gotham City ou aqueles filmes antigos. Hoje, é uma combinação de residências e escritórios.
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Não fosse tamanho sol e a rua vazia, este cenário poderia estar em Manhattan, Nova Iorque. São lugares contemporâneos. Esse da estátua, entretanto, não é nenhum Benjamin Franklin.

Aquele é José Gervasio Artigas (1764-1850), um dos comandantes da guerra de independência das províncias do Rio da Prata contra a Espanha na década de 1810. Você vê referências a ele em muitas partes da cidade.

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Este prédio de 1938, que poderia estar em Wall Street, é a sede do Banco da República, o histórico banco público uruguaio que é um pouco como o Banco do Brasil.

Os cafés de época

Eu cheguei numa manhã destas de sábado e fui bordejar por estas ruas vazias, até entrar num café. Há vários de época aqui no centro de Montevidéu.

Meu favorito, e onde entrei, foi o Café La Farmacia, um dos mais queridos entre os turistas quase todos brasileiros por ser tão pitoresco. 

Este lugar era uma farmácia ou botica nos princípios do século XX, e há alguns anos foi transformado numa cafeteria moderna. O décor, entretanto, continua o mesmo de 100 anos atrás, com jornais velhos em exposição, frascos de vidro colorido nas prateleiras, e piso de época. Parece um pouco cenário de aula de poções de Harry Potter.

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No Cafe La Farmacia, você beberica ou merenda algo neste ambiente de época. Não é exatamente século XIX, mas princípio do XX, com certos elementos do Art Nouveau que marcou a década de 1900 na Europa e teve seus elementos transportados para cá.
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Uma viagem no tempo.
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Olha só o charme antigo do lugar.
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Aos curiosos, as tinturas e outras fórmulas seguem nas prateleiras (mas, não, não dá para pedir nada disso no café).
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O piso da primeira metade do século XX.

Ali, uma simpática funcionária vestida feito Arlequina me atendeu. O menu, todavia, aqui é normal caso alguém esteja a se perguntar. Há cafés e quitutes por preços também razoáveis. (Acrescento que o Google estava um pouco louco sugerindo que o lugar passa boa parte da semana fechado. Eu fui em pleno sábado de manhã, e ele estava abertinho da silva.)

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O sinal do lugar continua a ser de uma farmácia.
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Outra cafeteria, esta mui tradicional, é o Cafe Brasilero, aberto em 1877 — como você vê ali no vidro com o meu reflexo tirando a foto.
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Seu interior. Ele chega a ser quase duas décadas mais antigo que a célebre Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro.
Eduardo Galeano Cafe brasilero
O Cafe Brasilero é famoso como lugar de escritores no Uruguai, como o saudoso Eduardo Galeano (1940-2015).

Lugares-chave deste centro de Montevidéu no fim de semana

Não sei se vocês já notaram, mas as ruas do centro de Montevidéu estavam um verdadeiro ermo neste sábado de manhã. Como bom centro comercial de cidade latino-americana, ele morre à noite e aos fins de semana — e não deixa de adquirir níveis não-ordinários de perigo, então fique alerta. Não me pareceu exatamente uma área boa onde se hospedar. Fruto de sua época no século XX, ele tampouco é lá muito arborizado.

A coisa começa a ficar mais viva e animada quando você se aproxima da Plaza de la Constitución, também conhecida por Praça da Matriz, onde fica a catedral.

Se nas vazias ruas cinzentas — que tanto me evocavam uma Manhattan sul-americana — no centro velho eu só encontrei moradores de rua sospechosos e uma viatura da polícia abordando delinquentes, na praça já tínhamos alguns turistas às voltas com a bela Catedral Metropolitana de Montevidéu, um edifício neoclássico dos mais históricos e belos da cidade.

A catedral foi erigida entre 1794 e 1804, mas era inicialmente uma mera igreja matriz (daí o nome histórico da praça), sendo elevada ao nível de catedral apenas em 1897. (Para ser considerada catedral, precisa ser tornada sede de uma diocese pelo Vaticano e ter, assim, um bispo in loco.) 

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A Plaza de la Constitución, também conhecida por Praça da Matriz, é para mim o ponto de transição entre o centro velho ermo no fim de semana (habitado por desabrigados) e a área mais turística do centro.
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Bela fonte no meio.
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Feirinha hippie de sábado. Ou talvez não seja hippie, mas continha hippies — ou o afamado “pessoal de humanas” — vendendo sua arte.
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Vendedores de cuias para chimarrão.

Esta feirinha de fim de semana no centro da cidade chegou a me lembrar um pouco o que já encontrei em Curitiba e Porto Alegre noutras oportunidades. A atmosfera é similar, e em certa medida os produtos à venda também são semelhantes. Só que esta aqui é ligeiramente mais turística.

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A linda Catedral Metropolitana, de 1804 no estilo neoclássico.
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Seu interior. Os uruguaios, como os argentinos, gostam de pôr canto gregoriano tocando ao fundo. Cria um ambiente e tanto.
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O altar principal. Esta igreja é dedicada à Imaculada Conceição, como também a São Felipe e São Tiago — os patronos de Montevidéu, cujo nome completo é San Felipe y Santiago de Montevideo.
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Com a bandinha de dançarinas que começou a tocar ali na rua em busca de um trocado.

É engraçado porque muitos de nós brasileiros, ouvindo algum batuque à là Carnaval num país estrangeiro, prontamente pensamos que se trata de algum grupo brazuca ali se apresentando. Esquecemos-nos de que outros países latino-americanos e caribenhos também têm ritmos muito parecidos.

Aqui no Uruguai, eles são muito orgulhosos do candombe, que chegou a ser reconhecido pela UNESCO como patrimônio imaterial do país. Trata-se de um ritmo afro-uruguaio com música e dança — e, sim, a raiz etimológica é a mesma da palavra “candomblé”, originada no idioma quimbundo de Angola. Uns dizem que quer dizer lugar de oração, já outros que tem a ver com dança musicada.

Também vem do quimbundo a palavra milonga, usada para descrever um estilo musical mestiço, hoje gauchesco e presente tanto aqui no Uruguai quanto na Argentina. É curioso como, embora sub-representados hoje na demografia do país devido à maciça imigração europeia do início do século XX, a presença cultural afro se mantém.

A quem quiser uma palhinha, eu fiz um curtinho vídeo que posto abaixo. Verdade seja dita, com as trombetinhas o som se parece mais com algum cubano ou caribenho que brasileiro, mas mesmo assim eu confesso ter pensado que se tratasse de um grupo tupiniquim apresentando-se ali. Não era o caso. 

Você dá uns passos naquelas ruas de outras eras e não demora a avistar três lugares que eu diria serem essenciais neste centro de Montevidéu.

O primeiro deles é algo escondido, mas você deve entrar para ver.

Trata-se da Librería Más Puro Verso, a mais elegante de Montevidéu — e uma das mais das Américas. A quem se perdeu quando eu falei em Art Nouveau, aqui você tem mais um excelente exemplo do que se trata.

Esse estilo predominou na Europa da primeira década do século XX, e você o vê ainda em abundância pela França, assim como em Praga, Riga ou Barcelona. Trata-se de arte e decoração inspiradas em cores, formas e motivos naturais.

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A Librería Más Puro Verso no centro de Montevidéu.
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O interior da livraria com um belo café-restaurante vegetariano no cá alto.
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Vitral em estilo Art Nouveau do começo do século XX. (O dizer em latim significa “A verdade é filha da mentira”, mas esse tipo de coisa não se lê ao pé da letra como bula de remédio. É uma tirada poética. Há um livro com esse nome, mas não é um que eu tenha lido.)

Se você, como eu, fica órfão de gastronomia quando viaja pelo Uruguai ou Argentina e não aguenta ver só milanesa ou carne em todo lugar, neste andar superior da livraria há um digno restaurante vegetariano que eu recomendo. Fica a dica.

O segundo lugar que não pode deixar de ser visto é a Plaza de la Independencia, a principal de Montevidéu. Ali você tem um resquício das antigas muralhas da cidade com a dita Puerta de la Ciudadela, assim como — no centro da praça — uma estátua equestre de José Artigas que, na realidade, é o mausoléu do homem, onde ele está enterrado. 

Toda a praça é pitoresca por revelar aquela Montevidéu antiga, dos princípios do século XX com seus prédios.

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A Plaza de la Independencia com o mausoléu de José Artigas ali sob sua estátua equestre. É o coração da Montevidéu antiga.
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O Palácio Salvo, o prédio mais emblemático do Uruguai, fruto da criatividade (pouco colorida) dos anos 1920. O nome advém do sobrenome dos italiano que compraram o lugar onde ficava a confeitaria La Giralda — onde, por curiosidade, se compôs em 1916 La Cumparsita, talvez o tango mais famoso de todos, que muita gente gratuitamente supõe ser argentino, mas que é uma obra uruguaia.

O terceiro lugar que não pode deixar de ser visto é o Teatro Solís, em homenagem ao navegador comido pelos índios que encontrou o estuário do Rio da Prata para os ibéricos.

Ele costumava ser chamado Teatro de Solís, até que encurtaram. Trata-se de um teatro neoclássico inaugurado já em 1856, portanto décadas antes dos mais vistosos Theatro da Paz em Belém do Pará (1878), Teatro Amazonas em Manaus (1884), para não falar do Teatro Colón em Buenos Aires (1908) ou no Theatro Municipal no Rio de Janeiro (1909). 

Você pode — e deve — fazer uma visita guiada por seu interior, só é preciso atentar à logística um tanto antiga da coisa.

A compra de entradas para a visita guiada no Teatro Solís é algo meio anos 90. Não há vendas online — você só compra pessoalmente e em dinheiro. Como era sábado de tarde, as casas de câmbio ali já estavam todas fechadas, e eu tive que de repente ir sacar dinheiro no caixa automático. Acabei nisso nem me dando conta de que ali mesmo dentro do teatro havia um.

No site oficial você pode ver os horários disponíveis, pois eles variam a cada mês. No momento, há gratuidade às quartas. Nos demais, precisa rebolar para pagar em dinheiro, exclusivamente em pesos uruguaios.

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O Teatro Solís no centro de Montevidéu.
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Neoclássico, ele foi inaugurado em 1856 — bem antes da maioria dos teatros na América Latina.

Os guias, apesar de tudo, são bem simpáticos. O nosso tour durou coisa de 1h10min, com detalhes sobre a história do lugar, os mármores europeus que vieram e cada detalhe.

Há grupos em português, mas estes lotam fácil e de repente, aí só sobra espaço nos grupos em espanhol.

O engraçado é que mesmo esses grupos com guia em espanhol ficam plenos de brasileiros — no meu caso, a bonitinha guia foi perguntando de onde vínhamos, e diante das respostas “Brasil”, “Brasil”, num dado momento ela pediu que levantasse a mão quem ali não fosse brasileiro. Um casal colombiano sozinho levantou, dois num grupo de uns 25.

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Os interiores do charmoso Teatro Solís em Montevidéu. Vale fazer a visita guiada.
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Seu teto em forma de ferradura, como era o padrão europeu no século XIX.
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Os detalhes de Apolo com sua lira e o ano de inauguração do teatro (1856) em algarismos romanos. A obra é do artista uruguaio Carlos Maria Herrera, pintada em 1909. Note que Cupido, ao lado de Apolo, já está sem flecha. Tudo indica que acertou o casal ali adiante.

O teatro teve início como um empreendimento particular da alta sociedade, mas nos anos 1930 passou a ser propriedade pública da intendência — como eles aqui chamam o governo municipal. Cabem 850 expectadores no teatro, 1100 se for para um concerto de música, segundo nossa guia.

É uma visita bem bacana a se fazer.

Punta Carretas, onde se hospedar em Montevidéu

Como eu lhes disse no princípio desta postagem, não me hospedei no centro de Montevidéu — nem recomendo, pois seria semelhante a se hospedar no centro de São Paulo, guardadas certas diferenças e proporções. 

Punta Carretas foi um bairro que muito me agradou. É a principal zona hoteleira da cidade, mas a sensação realmente é a de um bairro de classe média numa cidade aprazível. Há franquias de redes internacionais (McDonald’s, Starbucks…) assim como deliciosas padarias independentes (Medialunas Calientitas é uma recomendação!). Há uma igrejinha daquelas de bairro e um grande shopping, além de vias arborizadas e com movimento.

Eu cheguei ali de Uber vindo de ônibus pelo Terminal Tres Cruces, a rodoviária maior de Montevidéu. Uber funciona maravilhosamente bem na cidade (e melhor que em Buenos Aires, por exemplo). Pelo menos essa foi a minha experiência.

Ao que cheguei naquela tarde de sol de verão oriundo de Colônia do Sacramento, quem veio nos buscar na estação foi Lorena, uma motorista de Uber dessas descoladas, uma moça de 40 anos com ar de 30 e poucos e aquele charme de surfista jovial — só que trocando o que seria um sotaque carioca por um sotaque portenho gostosamente carregado. (Homem é um bicho bobo, não pode ver uma motorista de Uber bonita e carismática, e já parece que tirou na loto.)

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O simpático bairro de Punta Carretas em Montevidéu, a meu ver o melhor lugar onde se hospedar na cidade. Melhor que no centro. Requer um Uber para se deslocar até a parte histórica, mas isso é fácil.
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Ar de bairro residencial de classe média, mas com todas as amenidades comerciais de que você pode precisar.
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Igrejinha de bairro.
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Ela formalmente é a a Paróquia de Punta Carretas, dedicada ao Coração de Jesus. Foi terminada em 1927.
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No fim de tarde em Montevidéu.

Tudo no Uruguai me parecia mais organizado que no Brasil, mas talvez fosse uma romântica primeira impressão (ou talvez fosse verdade mesmo). As coisas aqui eram mansas, naquele clima de fim de semana numa vizinhança bonitinha e sem problemas.

O que me “apertou” foram as opções de comida. A comida desta parte do mundo — centrada em carnes grelhadas e milanesas, quase sem tempero — não me encanta tanto, verdade seja dita, e a praça de alimentação do shopping me lembrou aquela coisa do Brasil dos anos 90, de antes de se ter a ideia de que shopping também poderia servir pratos com sustância e não só sanduíche ou pizza (como fazem as redes norte-americanas). Penei. Até Burger King e McDonalds, que em outras partes do mundo são mais criativos e diversos, aqui pareciam ter parado no tempo que eu era criança. Nem opção vegetariana tinham.

Cedi a um angu sob o nome de hambúrguer vegetariano numa rede local chamada Mostaza, que existe também na Argentina. Na casa vizinha, umas empanadas bonitas — mas não dá para vivermos de empanadas a cada refeição.

Quem me acompanhava, de todo modo, queria empanadas, então pedi. Foi quando, depois de eu pagar, chamou-me bem sorridente a simpática uma das moças detrás do balcão, com franca simpatia no olhar a perguntar:

Posso lhe perguntar uma coisa?”, indagou-me ligeiramente encabulada. Eu disse que sim. “No hay empanadas en Brasil?”, perguntou curiosa. “Porque todos os brasileiros aqui procuram empanada.

Não tive como não rir com aquela pergunta tão franca. Respondi a ela que há, sim, empanadas no Brasil, mas que não era assim algo típico como cá no Uruguai. Ela pareceu entender — mas no olhar continuou a achar exagerada aquela fixação do turista brasileiro por empanada aqui. (Em parte é também pela falta de outras opções que há no Brasil, mas eu não quis entrar por aí.)

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Um cafezinho no Uruguai, em Montevidéu, Punta Carretas.
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Medialunas Calientitas está recomendadíssima como opção para lanche ou café da manhã. Medialunas são do que o uruguaio também vive, além de empanadas. Lembram croissants, mas têm menos manteiga (portanto se pode comer mais).

Montevidéu me revelou ser o tipo de cidade onde em um bom dia inteiro você vê o grosso do que a cidade tem. Duas noites, portanto. Mais que isso é se você quiser “se assentar” mais e curtir um pouco a atmosfera como se vivesse aqui. Eu, de todo modo, retornaria no dia seguinte a Buenos Aires usando o ferry direto entre as duas capitais.

Lá, iria mais adentro no que este Cone Sul tem a oferecer. Bariloche vem aí.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Montevidéu: Lugares, bordejos e atrações na capital do Uruguai

  1. Nossa, como está bonita, Montevideo!… limpa. organizada, bem arborizada e com avenidas largas, praças bonitas, áreas aprazíveis, e lindos conjuntos arquitetônicos . E até orla arrumadinha. Desenvolveu bastante.
    Quando estive ai há uns anos atrás só lembro dos tons cinzentos e de um monumento “A Carreta”. Nào sei aonde fica. Lembro ser em uma ampla praça. era uma homenagem aos primeiros imigrantes, creio eu.

    Magnífico o Rio da Prata… que imensidão.. Um rio-mar!…

    Adorei esse Café Farmácia. aprecio bastante esse ambiente retrô. Gosto muito dessa arquitetura antiga, sobretudo do início do sec XX para trás.
    Acho as boticas lindas!… Esta é cheia de charme!…
    O piso chama a atenção de tao bonito…Belos tambem os vitrais voloridos, como que amarelados pelo tempo, os buinhões ( como eram chamados antigamente) coloridos com seus diversos conteúdos com rótulos envelhecidos, suas belas estantes de madeira, tudo parece sair do passado. Uma riqueza !…

    Ahhh.. Galeano.. grande escritor… comprometido com a Latino-américa, disposto a denunciar suas “Veias abertas”pela exploração das suas riquezas ,e destruição do seu povo, explorado, abandonado e muitos mortos..

    Muito bonita e agradável a Plaza de la Constituicion . Ótima arborização.
    Interessante a feirinha. Boa oportunidade de ver os produtos da região.

    Uau… Magnífica a Catedral!… Bela…Estilosa. imponente. Linda a arquitetura…
    Não sabia o nome completo da Cidade.

    E que maravilha essa Libreria…Pelo visto históorica… Belissimo estilo arquitetônico, bela fachada espelhada, lindas escadarias
    Tem traços , embora pareça mais moderna e mais clara, com uma linda que há no Porto, em Portugal.
    Seu interior é Monumental…Cheia de charme.
    Belo vitral.

    Coitado do viajante… Ainda bem que conseguiu comer algo mais nutritivo…Que horror… Imagino… Não aprecio carne…

    E essa praça da Independência é belíssima. Uma maravilha de conjunto arquitetônico, embora sem colorido. De toda forma impressiona pelo porte e harmonia, sobretudo o imponente Palácio Salvo.

    Uau… que deslumbre de Teatro…Nossa… parece que estamos na Europa… Não fica a dever.. Belíssimas linhas arquitetônicas, interior suntuoso, deslumbrante, rico e espetacular para a época. Quanta beleza… Que elegância e Bom gosto. Parabéns a quem projetou e construiu..
    Linda a igrejinha. O viajante parece ter acertado. O Bairro é muito agradável pelo que se observa. Tranquilo e aprazível.
    E as comilanças parecem apetitosas…

    Ora ora, Montevideo, tem , com certeza, locais atraentes, belos monumentos, praças, recantos ,bairros, orla, patrimônios culturais, arquitetônicos de monta, o que a tornam importante parada turística .
    Gostei.
    Não a conhecia como agora, meu jovem.
    Obrigada.
    Vale visitá-la.
    Valeu

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