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Argentina Patagônia argentina

Visitando Bariloche no verão: As paisagens, a experiência e o que fazer

(Este será um post longo.)

Bem-vindos a Bariloche, um lugar quase mítico para a classe média brasileira. Acho que, afora as cidades mundiais que são famosas por mais que razões turísticas (Paris, Roma…), Bariloche foi a primeira de que tomei conhecimento fora do Brasil — e me demorou tanto a ir, 30 anos depois de ter ouvido falar dela. 

Como é Bariloche, afinal? Contentei-me em descobrir, optando por vir aqui no verão e vê-la iluminada, até porque a pegada do inverno é “ver a neve”, e morando na Suécia eu não tenho falta disso. Como outros lugares de latitude alta, o lugar se transforma bastante a depender da estação do ano.

Cheguei num voo vindo de Buenos Aires para tomar um ventinho fresco, aquele verão seco de seus 20-25ºC que à beira do lago ou à noite exige um casaco dos mais sensíveis. É que faz um vento e tanto vindo das montanhas, os Andes ao nosso redor, com seus lagos magníficos e azuis.

Há seus poréns, mas Bariloche é de encher os olhos. Nesta época, ocupou-me por uns dias com suas várias excursõezinhas pelos arredores (não faltam tours, ou destinos a quem prefere alugar carro) e o seu centro arrumadinho. Ela parece uma versão de Gramado, só que mais bem dotada de entorno geográfico, com seu espetacular Lago Nahuel Huapi — a nos relembrar seu passado indígena — e os Andes ao redor.  

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O azulíssimo Lago Nahuel Huapi e as montanhas dos Andes ao redor de Bariloche, Argentina.
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A beira-de-lago no centro de Bariloche com o seu impressionante entorno.
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O Centro Cívico, como é chamado este centrinho simpático do início do século XX. Ainda estava com a decoração natalina neste princípio de janeiro.
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A região aqui é assim, de estupenda beleza.

San Carlos de Bariloche, quem é você?

Bariloche no mapa da Argentina
A localização de Bariloche nos Andes, no que eles aqui já consideram a Patagônia argentina. Fica a 2h de voo de Buenos Aires, mas agora há também voos diretos de São Paulo.

San Carlos de Bariloche é uma cidade de fins do século XIX, começo do XX. Muito do que se vê construído de mais antigo data da década de 1930, quando houve certo “boom” de ricaços de Buenos Aires querendo um refúgio de férias.

Antes de tudo isso, é claro, havia os índios, que na Argentina foram exterminados à mesma medida que nos Estados Unidos — salvo que, aqui na Argentina, há muito mais miscigenação, e você vê o comprido nariz andino na cara dos hermanos. Mas em termos de indígenas vivendo autonomamente e guardando a sua cultura, como ocorre no Brasil, na Bolívia ou no México, os argentinos se assemelharam aos ianques.

Houve em fins do século XIX uma campanha chamada La Conquista del Desierto, que o governo da Argentina já independente empreendeu para assegurar sua soberania sobre o território. Viam isto aqui como um deserto a ser ocupado e mataram milhares de mapuches, expulsando tantos outros, numa clima de Velho Oeste semelhante ao que ocorreu na América do Norte. Milhares foram confinados na Ilha Martin Garcia, no Rio da Prata perto do Buenos Aires, no que alguns consideram um campo de concentração instrumento de um genocídio.

Como lá, sobraram os nomes (Chicago, Miami, Massachussetts). Aqui, Nahuel Huapi (“Ilha do Puma”) é o nome da ilha principal que acaba dando nome também ao lago na frente de Bariloche. O próprio nome “Bariloche” vem do indígena vuriloche, que significa algo como “povo de detrás das montanhas”.

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A neogótica Catedral de Nossa Senhora do Nahuel Huapi data de 1947, e é das edificações mais antigas de Bariloche hoje. Ela é um charme e bastante agradável por dentro.

Houve missões aqui antes, mas nada que rendesse povoamentos permanentes que não fossem os dos próprios indígenas.

Conforme os espanhóis iam conquistando as costas do Chile, os mapuches então atravessaram os Andes para se refugiar, mesclando-se aos nativos araucanos, que já habitavam a atual Argentina. (É a mesma raiz do nome “araucária”).

A partir dos idos de 1840, colonos alemães no lado chileno das montanhas já tinham um frutuoso comércio de couros com os índios desde lado de cá — algo que as autoridades argentinas também queriam desbaratar, temendo perder o território para o Chile.

Entre as décadas de 1870 e 1890, Buenos Aires então enviou legiões armadas para fazer uma limpeza étnica: trucidar os índios, expulsar daqui os sobreviventes, e dar as terras a colonos brancos que obedecessem ao Estado argentino e pagassem impostos. Aos poucos, os próprios chilenos de origem alemã foram encorajados a trocar de lado e se assentaram aqui.

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O chamado Centro Cívico de Bariloche é uma formosura. Ele foi edificado nos anos 1930 propositadamente com um aspecto europeu, para combinar com o apelido que se dava aqui à época de “Pequena Suíça”. Trouxeram também pinheiros, assim como flores de fora.

Chegando a Bariloche hoje

Bariloche é aquele lugar de férias, mas não ache por isso que encontrará apenas turistas aqui. A cidade tem até um porte razoável e mais de 100 mil habitantes — você verá estudantes argentinos pelas ruas e toda uma certa cultura que se vê voltada para quem mora aqui.

Já a área turística se faz em torno da rua Mitre, que parte daquele Centro Cívico e que margeia (quase) a catedral. Aquele é o ambiente onde o chamarão a todo momento perguntando se não quer trocar dinheiro, onde há as lojas para turista, etc. Sugiro passear por ali, pois é gostoso, mas também circular um pouco pelas ruas mais afastadas para ter um gosto do que é Bariloche fora dali.

O aeroporto, Teniente Luis Candelaria, mas popularmente chamado mesmo de Aeroporto de Bariloche, fica a seus 15 Km e cerca de 25 minutos de carro a partir do centro.

Tem Uber em Bariloche? Tem, mas ele não é muito fiável aqui. (Não espere serviços relativamente fáceis como em Ushuaia ou Buenos Aires.) Ao que eu cheguei numa simples tarde, um cidadão — o único que aceitou vir me buscar no aeroporto — me fez esperar 15 minutos para depois cancelar a corrida.

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O Aeroparque, segundo aeroporto de Buenos Aires, naquela manhã em que eu tomava meu voo doméstico com as Aerolíneas Argentinas até Bariloche. São aproximadamente 2h15 de voo.
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Após o desembarque em Bariloche, você vê ali a fila de táxis esperando.
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Para os mais “raiz”, você pode atravessar aquela rua coberta logo na saída e descer aqui até a parada de ônibus, onde a Linha 72 o leva até o centro — ele só passa de hora em hora, às vezes menos frequentemente que isso, e é preciso já ter o cartão SUBE de transporte coletivo na Argentina.

Já no saguão de esteiras de bagagens, não faltam janelinhas de locadoras de veículos, como a Localiza, Avis, Hertz e outras. Alugar um carro parece ser a opção de muita gente.

A quem não dirige ou não quer dirigir, alguns chapas abertamente chamavam parados na pequena área de desembarque. “Táxi. Táxis. Servicio de táxi!”, até o pleno cansaço. “Táxi. Traslado”.

Ainda sobre o Uber, o serviço começou a funcionar apenas em 2023, mas ainda há poucos veículos. Se você for perguntar nos hotéis, lhe dirão que “ainda não estão habilitados”, mas isso é uma meia verdade. Ele funciona dentro da cidade e inclusive para a rodoviária. Não tive grandes problemas, exceto pelo tempo maior que a média de espera. Os poucos carros geralmente vêm de longe. Não é raro você ter que esperar 15-25 minutos até o motorista chegar, e às vezes ele cancela no meio. Cuidado se estiver com o tempo apertado (ex. indo pegar ônibus ou avião).

De ou para o aeroporto é que dá problemas. Não consegui mesmo esperando bastante, nem numa direção nem noutra. Pareceu-me que os motoristas simplesmente não querem, ou há algum receio.

Um táxi entre o aeroporto de Bariloche e o centro atualmente está cerca de 11.000 pesos argentinos (vs. 6-9 mil no Uber que não vem). Paga-se um adicional de 10% para pagar com cartão de crédito. C’est la vie. Topei com Claudio, um taxista, e simbora. 

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As vistas para o Lago Nahuel Huapi na estrada desde o aeroporto até o centro de Bariloche.
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A vista para o Lago Nahuel Huapi na estrada desde o aeroporto até o centro de Bariloche. (A parte final na placa tem escrito Capital de Los Lagos del Sur).

O centro de Bariloche

Bariloche é um lugar onde, na realidade, a maioria das atrações estão fora da cidade. Eu lia sobre o teleférico, sobre este e aquele lugar, e nunca tinha ficado claro para mim que tudo isso está nos arredores de Bariloche, não na própria cidade. Então, se você estiver sem carro, um tour será o caminho (muito bom, por sinal) para aproveitar dessas outras coisas.

Chegaremos lá, mas antes foi o centro de Bariloche a minha primeira experiência da cidade. Instalei-me num hotel três estrelas onde do salão do café da manhã já se via o lago. As vistas, francamente, superam muitas da Europa — já que o Velho Continente é sempre a inspiração e referência dos argentinos.

Digamos que o centro de Bariloche — sua área mais turística — se estende desde a Plaza Cidades Hermanas até a catedral, com o Centro Cívico e a rua Mitre ali no meio. Nessa rua, você dá dois passos e há mais um cidadão parado ofertando “cambio, cambio, dólares.”  

Turistas abundam. Uns tanto à terra, outros tanto ao lago. Essa área fica a uma ou duas quadras da beira da água, e não haverá falta de gente ali olhando a paisagem, tirando fotos, uns espichados nos pedregulhos que fazem as vezes de praia, e pouquíssimos realmente dentro da água. Sites promocionais que falam das “praias” de Bariloche estão sendo um tanto sonsos — a vista é linda, mas mesmo no verão a água é gélida demais para a maior parte das pessoas, claramente.

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Convenhamos que uma vista destas já no salão de café da manhã vem muito a calhar.
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A simpática praceta do chamado Centro Cívico em Bariloche. (A bandeira estava a meio mastro porque havia falecido uma personalidade local.)
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Você desce os jardins, cruza uma rua, e tem esta costa. A beleza, realmente, está nas paisagens.
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Aquele cidadão detrás das flores vendia churros. Estes são lupinos, também chamados tremoceiros, flores que você verá em abundância nesta região no verão. São nativas das Américas.
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Aceitam um churro? Eles vendem aqui à dúzia ou meias dúzia (embora se negociem quantidades menores). Foram das raras ocasiões em que só pude comprar no dinheiro.

Negociei a compra de três churros (¼ de dúzia) e fiquei ali tomando o vento frio de verão que parecia soprar desde as montanhas do outro lado do lago. No verão, os dias se estendem até perto das 22h, e as pessoas ficam realmente ali até bem tarde.

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Alguns começando a voltar para casa no fim de tarde em Bariloche.
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Sim, há quem entre na água, mas a grande maioria me pareceu simplesmente ficar ali descansando e apreciando.

O Centro Cívico, que você vê ali perto, é um faz-de-conta. Como lhes disse, nos anos 1930 ele foi propositadamente erigido com um aspecto alpino para dar a impressão às pessoas de que elas estavam na Suíça. Não sei se foi nostalgia de imigrante ou aquela eterna pretensão argentina de se achar um exclave europeu na América Latina.

É claro que não é a Suíça. A arquitetura se parece, mas a atmosfera é bastante outra. (Se querem que eu seja franco, falta um certo lastro de autenticidade, além de o ambiente social ser completamente diferente. É como se você estivesse a olhar para um simulacro, uma miragem, uma Chinatown sem chineses numa outra parte do mundo.)

(Ademais, os suíços tremeriam de febre se provassem daquele açúcar com gosto de ovo de Páscoa caseiro que passa por “chocolate fino” aqui em Bariloche, como em certos outros lugares.)

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O portal do Centro Cívico que leva à rua Mitre, coração do turismo em Bariloche.
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Os enfeites de Natal ainda postos. É fofo, mas uma fofura meio Magic Kingdom, o parque da Disney que tem o castelo da Cinderela.
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A rua Mitre não carece de vendedores de artesanias, cambistas, hoteis, nem restaurantes de comida rápida. Ela é a artéria principal dos turistas.

Embora a comida argentina não faça a minha cabeça nem, para parafrasear Roberto Jefferson, “desperte em mim os instintos mais primitivos” da fome, há até um lugar ou outro com dignidade aqui onde se comer. Argentinos vivem de asados, milanesa e fritas, além de pizzas de qualidade comparável às pizzarias de bairro lá em Feira de Santana (e olha que, se bobear, as de Feira são melhores). Entretanto, se você perscrutar aqui, você acha uns bons licuados (sucos) e uns sanduíches bem criativos, com ovo, abacate (que eles aqui chamam de palta, não de aguacate como noutras partes do mundo hispânico), etc.  

Aliás, eu sou uma pessoa relativamente tradicional em matéria de comida, e não gosto muito de modinhas gourmet, mas quem salva você aqui na Argentina são os restaurantes vegetarianos ou naturalistas. (Um beijo grande!). São os únicos que parecem usar tempero neste país. Saia umas quadrinhas do centro e busque o Rico Vegetariano ou o Chimi Deli Cocina Natural. Já se você é do time do café e está passando maus bocados na Argentina, o Café El Barco — de donos colombianos — é tido como o melhor da cidade. 

Ok, parei de desabafar. Vou agora à igreja confessar o pecado de ter dito a verdade.

Seguimos pela calle Mitre até avistar, entre ela e o lago, a bela Catedral de Nossa Senhora de Nahuel Huapi. A entrada é franca e vale a pena, inclusive pelos vitrais. (Segundo algumas fontes, ela fecha na hora da siesta, como fazem as igrejas italianas. Tende isso em conta se quiser vir visitar.)

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O interior da neogótica Catedral de Nossa Senhora de Nahuel Huapi, edificada nos anos 1940.
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Seu nome advém da missão jesuíta iniciada desde o Chile nos idos de 1700-1730, onde os missionários cruzavam a cordilheira com ajuda dos índios mapuches para catequizá-los. Os índios haviam sido, desde o século XVI, usados como escravos pelos espanhóis, que pouco recorreram à mão-de-obra negra africana. Com essa tensão, vários frades foram martirizados, e a missão não perdurou.
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Os vitrais são lindos, ainda que retratem aquela visão convencional da “missão civilizatória” (bem século XIX) levada pela Pátria e pela Igreja. (As coisas na vida são multifacetadas, você pode admirar a beleza sem necessariamente concordar com a abordagem.)
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A vista dos arredores da catedral com o seu simpático jardim de rosas.
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Ali assentado.

Circuito chico – o tour a se fazer para ver as belezas dos arredores de Bariloche

A cidade de Bariloche propriamente dita pode distraí-lo por uma tarde ou talvez por um dia, mas não demora a ser necessário sair além de suas margens urbanas.

O principal tour a se fazer aqui para isso é o chamado Circuito chico, que se traduziria por “circuito pequeno”. É um tour de meio dia, realizado pela manhã ou pela tarde, e que praticamente todas as agências na cidade oferecem diariamente. Via de regra, basta reservar de um dia para o outro.

É realmente aí, nessas paisagens dos seus arredores, que mora a beleza desta região de Bariloche. Você, de quebra, acaba aprendendo bastante sobre as origens da cidade, pois o(a) guia vai explicando.

Antes de eu passar “aos finalmentes” do tour, deixem-me apenas dizer que pode valer a pena você deixar para negociá-los pessoalmente nas agências, se tiver tempo suficiente. Eu consegui pechinchar descontos de até 15% pagando em dinheiro ou no débito. São tours cotados em pesos argentinos, mas geralmente se aceitam dólares — só nem sempre em cédulas menores que USD 5o, esteja ciente.

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Saindo da cidade de Bariloche.
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O teleférico (que eles aqui chamam aerosillas) no Cerro Campanário, talvez o carro-chefe do Circuito chico em Bariloche. É um dos locais mais cênicos da região.

Eu escolhei por ir à tarde, pois as temperaturas estariam mais interessantes. A quem não sabe, nestas regiões temperadas as manhãs costumam ser mais frias (mesmo no verão), e o pico de temperatura não é ao meio dia, mas no final da tarde. 

“Pico de temperatura” nestes dias que passei em Bariloche significava 25-26ºC seco — uma delícia. Chegava a ser até engraçado ouvir as pessoas daqui reclamando do “calor”. Já pelas manhãs, era coisa de 12-15ºC. (Esteja ciente, todavia, de que isso varia de semana para semana. Pode também chover. (Nem todos os dias são de sol nem todas as sextas-feiras são de festa, como sabiam Shakira e Alejandro Sanz.)

Eu fui com Corina, uma senhora de cabelo curto platinado. Corina com cara animada e ar de Corina mesmo, e que chegou ao hotel procurando por Mairon Bustos em vez de Bastos. (As pessoas selecionam dentre os meus sobrenomes a gosto do freguês, e eu coleciono os erros.)

Corina nos explicou que tudo isto aqui é um parque nacional, o Parque Nacional Nahuel Huapi, o terceiro mais antigo das Américas (após Yellowstone nos EUA e Banff no Canadá), datado de 1934 e dentro do qual a cidade de Bariloche fica.  

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O Parque Nacional Nahuel Huapi, o mais antigo da América Latina, e dentro do qual se encontra Bariloche. (Merecia aquele jingle do Instagram: “Seriously, what is this place? This is paradise”.)

Nossa, como a Argentina foi avançada em proteger já esta natureza com um parque nacional já na década de 1930.” Sim e não. 

Há méritos, mas o mérito principal aqui não foi do então governo argentino, mas do pesquisador, cientista e explorador Francisco Pascasio Moreno (1852-1919) — mais conhecido pela sua alcunha de Perito Moreno. (A gloriosa geleira mais ao sul, El Calafate, foi batizada em sua homenagem.)

Ele foi o especialista que defendeu os interesses argentinos numa contenda com o Chile para saber onde seriam firmadas as fronteiras entre os dois países. A coisa acabou arbitrada pela Inglaterra, maior potência da época, e que acatou a proposta argentina. Como recompensa, o governo lhe deu terras, que ele então cedeu para fossem postas sob status de área protegida para a conservação. Foi, portanto, do Perito Moreno essa iniciativa de proteger Nahuel Huapi.

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A gloriosa vista daqui.

O teleférico do Cerro Campanário

O tour do Circuito chico vai parando em vários lugares com mirantes, de onde você pode deleitar os olhos diante destas paisagens. Eles falam que tudo isso é parte do município de Bariloche, mas na prática você se distancia algumas dezenas de quilômetros da cidade propriamente dita. O tour como um todo dura cerca de 4h30.

A principal parada é mesmo o teleférico no Cerro Campanário, cuja entrada (atualmente em 7.000 pesos, ou coisa de 7-8 dólares) você em geral precisa pagar à parte, e de preferência em pesos em espécie. Traga-os consigo se puder, pois embora se aceite cartão na bilheteria, os guias geralmente preferem coletar o dinheiro de todos e comprar os ingressos todos de uma vez sem pegar fila.

As cadeirinhas vão devagar, e levam coisa de 10 minutos para levá-lo até o alto do cerro (morro). Cuidado com o celular, pois não há selfie sem a adrenalina da derrubada do aparelho aqui.

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Aqui se tomam as “aerocadeiras” (aerosillas), como eles chamam teleférico aqui.
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Para o alto e avante. A subida é leve e demoradinha — toma uns 10 minutos até o topo.
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As lindas vistas ficarão por conta da volta, quando você desce de frente para esta bela paisagem de lagos andinos.

No alto do Cerro Campanário, via de regra você tem um tempo para circular, ver os mirantes, usar os banheiros, ou tomar alguma coisa.

As vistas são, francamente, das mais belas que já encarei na face desta Terra. Já valem a vinda a Bariloche.

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A vista ampla para a paisagem dos lagos nestes arredores de Bariloche, Argentina.
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O mirante.
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Os lagos e os figurantes que contratei para posarem ali.
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As vistas são de embasbacar.

Você demora a absorver tudo aquilo. Sente o vento fresquinho no rosto, o sol, olha para cada pico de montanha. Os lagos quietos lá embaixo, e você inevitavelmente a pensar como era isto aqui antes da chegada dos espanhóis, como devem ter ficado maravilhados todos aqueles que viram isto aqui pela primeira vez.

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Os tons de azul na água.
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Com Corina, a nossa guia. Uma figuraça.
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Salve Nahuel Huapi.
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…e suas incríveis paisagens.

Depois de se deleitar ali, descemos e retornamos ao microônibus para uma parte ligeiramente mais humana deste passeio. Como em quase todo tour, há aquela paradinha estratégica numa loja com a qual eles têm convênio, para ver se os turistas compram algo. Em todo caso, frequentemente se aprende algo. Neste caso, foi uma casa com produtos feitos de rosa mosqueta, muito cultivada aqui. Havia desde o óleo essencial até chás, doces e geleias feitas de rosa.

Ela é nativa da Eurásia, faça-se saber, mas como tantas espécies vegetais foi trazida com a colonização. O mesmo se deu com os muitos pinheiros que se veem aqui, e que não são nativos. Nativa é a araucária e seus similares. 

É que, como observei, os europeus queriam fazer desta terra uma certa imagem e semelhança do que conheciam. A partir dos anos 1930, quando se estabelece aqui o Hotel Llao Llao (se lê xao-xao, e faz referência a um cogumelo nativo conhecido popularmente aqui como pão-de-índio) para os ricaços de Buenos Aires virem conduzir negócios em segredo, introduzem também cervos de origem europeia para poderem caçar. Até hoje essas são espécies invasivas com a caça liberada. (Nativo aqui é o guanaco, um parente da lhama e da alpaca.)

Esse Hotel Llao Llao segue sendo o hotel mais tradicional e de maior referência em Bariloche, a ponto de ter se tornado um ponto turístico que este Circuito Chico visita.

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Parada comercial para ver uma lojinha com produtos de rosa mosqueta no tour.
Rosa mosqueta
A rosa mosqueta (Rosa rubiginosa), uma das várias espécies de rosa, é nativa da Europa e da Ásia, mas trazida aqui pelos colonos europeus. O óleo é extraído do seu fruto, e dizem servir para remover manchas na pele, etc.
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Lá adiante, o Hotel Llao Llao, o mais famoso de Bariloche. 
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Ele fica bem afastado da cidade, pois era um refúgio de negócios para a elite argentina dos anos 1930-1940, época de vacas gordas.
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A frente do Hotel Llao Llao, que segue em atividade e é um dos cartões postais de Bariloche.

As flores brotavam lindas, e um calor ameno se fazia presente. Eram módicos 25 graus, mas, como disse Corina nesta tarde, “Para nosotros hace calor. Yo estoy sudando como testigo falso.” (Testigo é testemunha em espanhol).

Paramos ainda para ver a Capela de São Eduardo (Capilla San Eduardo), edificada em madeira no estilo neogótico em 1938 junto com o Hotel Llao Llao — para os negociantes poderem se sentir cristãos. 

Ela estava sendo reformada por fora, repleta de andaimes, então lhes mostro a foto dela por dentro, bastante singela.

A curiosidade, realmente, é que a capela não tinha dedicação específica quando o então presidente Agustín Pedro Justo veio aqui. Seu filho Eduardo, entretanto, acabava de falecer num desastre de avião, e lá foi o presidente procurar para ver se não havia um Eduardo que fosse santo e que pudesse ser homenageado, para fazer honras ao seu filho. Acharam um antigo rei medieval inglês canonizado St. Edward e que obviamente nunca teve a ver com isto aqui para homenagear.

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O interior da Capela de São Eduardo, de 1938, próximo ao Hotel Llao Llao.
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A vista com o Hotel Llao Llao ali e os grandiosos lagos destes Andes.

Aos poucos retornaríamos a Bariloche para um fim de tarde tardio, já quase às dez da noite. As pessoas sumiam da beira do lago conforme o sol se escondia. Via-se a luz do sol agora somente às montanhas lá ao longe, formando um entardecer formoso. Formoso mesmo, todavia, era o nascer do sol, quando o ângulo permite maiores peripécias da luz solar nesta paisagem.

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O entardecer (ou o atardecer, como eles dizem em espanhol) sobre o Lago Nahuel Huapi em Bariloche.
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O nascer do sol com seus raios fulgurantes, prêmio de quem despertar cedo aqui.

Esta é um pouco de Bariloche no verão, época preterida por tantos brasileiros em favor do inverno nevado, mas que achei recompensadora pelas flores e paisagens todas. Quem vem no inverno vai ao Cerro Catedral, estação de esqui, e a programação pode ser bastante outra. Nessa época, os argentinos apelidam a cidade de Brasiloche. (Corina me falava chocada, e risonha, das brasileiras andando de salto alto na neve.)

No verão, contudo, a beleza não para por aqui. Vale a pena deter-se um ou mais dias extras em Bariloche como base para ir conhecer — em bate-e-volta — algumas fofas cidades menores e pitorescas desta região, como Villa la Angostura e San Martín de los Andes. Eu tive a chance de ir a ambas, e não me arrependi. Nos reencontraremos lá.  Bariloche 1 37

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Visitando Bariloche no verão: As paisagens, a experiência e o que fazer

  1. Meu jovem, que espetáculo essa Natureza soberba, magnífica, pujante, autêntica , impar, que se nos apresenta esta bela postagem !…
    Indescritivel a emoção de ver a Majestosa e Altaneira Cordilheira dos Andes, patrimônio da nossa latinoamérica do Sur, com seus picos muita vezes nevados, desafiando a imensidão do infinito ,refletida, diáfana, no belo azul das águas do lago !…
    A beleza é estonteante1… Que maravilha, quanta Paz, quanta tranquilidade, um presente para os olhos, coração e espírito! …
    Os olhos tem dificuldade de se afastar do cenário encantador!…

    A cidadezinha é uma graça!.. Assemelha-se à Gramado brasileira, como tambem a um dos Parques temáticos da Disney, sim.
    Destaque para os belos e bem cuidados jardins cheios de belíssimas e delicadas roseiras, carregadas de rosas as mais diversas, dos mais vários tons, simplesmente encantadoras. Uma riqueza.
    Belíssimo o templo gótico!…

    Surpresa de sabê-la grande e até certo ponto com uma populaçao jovem e autoctone. Com vida própria. Imaginava-a uma estação de esqui com arredores.
    Belissimos os cenários que se descortinam ao longo dos tours. Coisa de Deus, como diz o povo!… Lindos, lindos!…
    Emoções mis nas cadeirinhas que voavam com os que na aventura embarcaram…
    Muito bonitos os passeios.
    Com certeza, meu amigo viajante, tomar café ,com um cenário magnifico desse, é um privilégio. Lindíssimo.
    Amei. Uma maravilha de passeio e de postagem.
    Obrigada por nos descortinar tanta beleza.
    Amo a Natureza e me encanta a Cordilheira.

    E o senhor parece o mangangão da cidade, esparramado numa bela e rústica poltrona , sob o olhar da linda paisagem . Muito bom … hahahaha. É isso ai.

    Que venham mais belezas.

  2. Hahahahah …Os erros ao pronunciar vosso nome, parece mesmo homéricos hahahah
    E que curioso andar de salto alto na neve hahahaha Como será que conseguem ????? Olhe seu menino… é muita coragem hahahah… Quel’ hourreur!…

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