Bem-vindos a Villa La Angostura, que os argentinos leem Vixa e chamam de Jardim da Patagônia. Eu prefiro Capital das Rosas, pois nunca vi tanta rosa na minha vida. Se daqui a uns anos mudarão as flores, não sei, pois já houve um tempo em que eram tulipas, então quem gostar de rosas venha logo.
Estamos nos arredores de Bariloche, uma das mais turísticas e bem-quistas cidades argentinas, escondida (até ser “descoberta” e turbinada com o turismo) no sopé dos Andes e margeando os seus lindos lagos. Mais especificamente, Angostura fica a 80 Km de estrada, o que na concretude da prática leva cerca de 1h30-2h00 de trajeto em ônibus. Você pode fazer um bate e volta, vir num tour que inclua outras coisas, ou até pernoitar aqui. Eu não pernoitei aqui, mas depois fiquei com vontade de tê-lo feito.
Eu vou lhes dizer abertamente que gostei mais de Villa La Angostura (e, mais adiante, de San Martín de los Andes) que da própria Bariloche. Mais autêntica, menor, mais pitoresca. Bariloche cresceu e está um tanto comercializada demais, o que lhe tirou algo da singeleza — singeleza essa que estas cidadezinhas conservam muito bem.
Angostura é uma cidade pequena, com praticamente apenas uma curta avenida central e três a quatro quadras com suas casas de pedra, madeira e vidro. Bem movimentada, essa área pulula de gente no verão, com uma feirinha e plenas coisas para turista. Por outro lado, preserva ainda um lado “de raiz”, com artesanias locais e produtos da terra vendidos às vezes só no dinheiro (em pesos argentinos). É um lugar obviamente de visitantes, mas que não está descaracterizado por estes. Pelo contrário, se cria uma atmosfera bem gostosa que vim experimentar.



Villa La Angostura, um pouquinho sobre ela
Lindo, não é? Eu também acho, mas eu não gosto desse “Eva viu a uva” instagrâmico de hoje em dia, das coisas só visualizadas soltas, sem contexto. Deixem-me falar um pouquinho, portanto, sobre quem é Villa La Angostura antes de eu contar da minha chegada e passagem por aqui. Acho necessário, pois não é um lugar que caiu assim do espaço, nem teleportado dos Alpes europeus.
Eu cheguei a discorrer no post anterior em Bariloche sobre como o governo argentino dos anos 1870-1890 organizou uma campanha para eliminar daqui os indígenas, que à época já tinham um comércio de couros bem estabelecido com os chilenos do outro lado da cordilheira.
Esses indígenas, pelo que se sabe, não tinham neste exato lugar assentamentos permanentes, mas eram nômades que — tal qual os índios da América do Norte — tinham nesta região um território de caça e coleta. (Existia agricultura, e por exemplo a batata — que hoje o mundo todo come e que já se teve o desplante de apelidar de “batata inglesa” — é um cultivo andino com um dos seus centros de endemia perto daqui, mas este exato lugar era área de caça.).

Permitam-me aqui lhes apresentar Modesto Inacayal (1833-1888), um dos que mandavam por aqui no século XIX. Foi um dos líderes da resistência nativa que acabou sobrepujada nas expedições militares argentinas.
Inacayal e outros caciques renderam-se em 1888, sendo então deportados daqui e aprisionados em Buenos Aires ou vizinhanças.
Graças à intervenção do Perito Moreno — de quem também lhes falei no post anterior e famoso por dar nome a muitos lugares da Patagônia argentina — Inacayal foi solto, pois o geógrafo lhe tinha gratidão pela hospitalidade e assistência que os índios lhe deram nas suas viagens pelo sul argentino no século XIX.
De toda maneira, restou ao cacique terminar seus dias como porteiro do Museu de La Plata, na província de Buenos Aires, dirigido por Moreno.
A tônica do governo argentino, a partir da década de 1880, foi então chamar colonos germânicos, muitos dos quais já haviam se radicado no vizinho Chile, para se assentarem na região.
Começaria então toda a transformação do ambiente de Villa La Angostura e região — salvo pelo lindo entorno geográfico, que já havia. Introduziram-se espécies exóticas, como muitos pinheiros e as próprias rosas, além de cervídeos europeus para caça esportiva, e introduziu-se um urbanismo alpino que fizessem alemães e suíços se lembrarem da sua terra ancestral.


De Bariloche a Villa La Angostura
Eu penava neste dia de manhã, como penam tantas almas gastronômicas aqui na Argentina.
“Mataram os índios, que sabiam cozinhar, e quem veio pelo visto não trouxe receita nenhuma“, ouvi vaticinar uma brasileira que estava ali perto. Você nunca é o único tupiniquim nos hotéis argentinos.
Sempre expresso que sou fã da culinária alemã até o meio-dia — isto é, amo os seus maravilhosos pães, quitutes, bolos e geleias —, ainda que a sua dieta post meridiem de carnes no sal, batatas e repolhos não me faça a cabeça.
Engana-se muito, entretanto, quem achar que aqui vai encontrar um café colonial à moda dos que se acham no interior do Rio Grande do Sul, por exemplo. Não sei o que houve com os alemães que vieram para cá, se tomaram algum chá que lhes apagou a memória.
O café da manhã na Argentina dificilmente passa de café (muitas vezes fraco e morno), pão ordinário, queijo, presunto, e bolo daqueles de supermercado. Abusam do doce de leite como se este fosse a única coisa de que a pessoa se nutre. É comum que não haja nada quente, nem nenhum quitute particularmente saboroso. (Hoteis de 4 estrelas para cima podem ter ovo mexido, mas esqueça as benesses de hoteis brasileiros que lhe fazem omelete na hora, etc.)
Meu café da manhã ruim com a vista maravilhosa para o lago parecia um desrespeito para com a natureza ali. O amigo que me acompanhava — e que mora há uns anos em São Paulo e começou a olhar o mundo também à maneira paulista — olhava indignado a coisa do ponto de vista do empreendimento: “O cara paga pra ter um lugar deste e não investe num café melhor.”

Vida que segue? Seguiríamos num tour chamado 7 lagos, que eu recomendo por passar em algumas das paragens mais deslumbrantes desta região. Você passa por Villa La Angostura duas vezes, na ida e na volta, com algum tempo para perambular pela cidade.
Eu preciso dizer, a propósito, que achei os argentinos daqui bem mais simpáticos que os de Buenos Aires. Não dá para generalizar da capital para a Argentina inteira. Há certos traços nacionais, sem dúvida, mas via de regra achei que quanto menor o lugar, melhor foi o tratamento.


Voltas por La Angostura
Desembarcamos ali perto da rodoviária com o informe da guia de que tínhamos um tempo certo para estar de volta ao ônibus, que havia banheiros públicos na rodoviária e não nos perdêssemos demais.
O nosso primeiro instinto foi tomar um cafezinho ou um chocolate, pois era meado de manhã, e após as 10h bate aquela vontade insuspeita.
Fazia um sol abundante iluminando as rosas também abundantes de Villa La Angostura. Eu acho que nunca tinha visto tantas na vida. Enormes, lindas, impressionantes, ainda que — como quase todos os cultivos modernos — mais notáveis visualmente que pelo aroma.
Há um letreiro da cidade num morrete de frente para a avenida que irriga a cidade, a sua artéria aorta, a sua espinha dorsal. É um lugar pequeno que, se você quiser, percorre inteiro em coisa de uma ou duas horas — mas o deleite consiste justamente no fazê-lo devagar, pois eita atmosfera gostosa.





A vila por vezes pode parecer espalhada — e ela tem um certo entorno peri-urbano com cara quase de zona rural de montanha —, mas na avenidazinha, a Avenida Sete Lagos, há uma área comercial bem adensada, com muitas lojas e praticamente tudo de que o visitante pode precisar.





Não há um lugar específico a ser conferido em Villa La Angostura — o mérito da cidade fica mesmo no seu ambiente geral, gostoso de curtir. Todavia, um lugar legal a ser conferido é o Paseo de los Artesanos, uma feirinha coberta onde encontrar artesanias, doces caseiros, e todas essas coisas originais e que fazem a gente feliz. Só tenha em conta que muitos só aceitam pagamento em espécie, em pesos argentinos.


Este foi um gostinho de rosas em Villa La Angostura. Nós agora seguiríamos a ver os todos 7 lagos, além de San Martín de los Andes, outro lugar pra lá de agradável e onde me daria vontade de ter pernoitado.





Nossa, que cidadezinha linda!… Quantas rosas e quão belas são!… Parece encantada!… Coisa de cinema!… É uma cidade -jardim. E que belos e variados tons… Um espetáculo!… Fofa a cidade.
Parece que foi toda montada e planejada, e, claro, mantida e protegida. Uma graça…
Amei. Tudo é lindo ai…
Aos olhos da sua amiga aqui, mais interessante que Bariloche . Concordo com o senhor, meu jovem amigo viajante.
Mais acolhedora, mais bela e mais cativante.
Lindos e floridos recantos, lugarezinhos agradáveis, aprazíveis, Chalés ajardinados, varandas e ambientes gostosos. Uma festa para os olhos, corações e alma.
As rosas e a Cordilheira dão o tom, e tornam a Villa encantadora .
Parece que entramos em algum filme idílico ,tendo como ponto alto a Natureza prodigiosa e seus encantos..
Essa foto do senhor, com esse jardim de rosas coloridas, diante da pujante Cordilheira, esta soberba. Um encantamento.
Parabéns pela escolha dessa vila para visitar e nos mostrar seus encantos… Muito interessante… Adorei.
E coitados dos Indígenas com essa perseguição. Que história triste… Ainda bem que conseguiu se salvar com a ajuda desse ser humano protetor, embora, certamente ,triste e descaracterizado, após ser expulso de suas terras e ver seu povo dizimado. Só Manitu para os consolar …
Uma tragédia, ainda pouco conhecida. Muito a ser reparado.
Obrigada, jovem viajante brasileiro por tanta beleza e importantes informações.
Gosto muito das contextualizações históricas, geográficas e culturais dessas postagens/viagens.
Parabéns.
Que venham mais.