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Tomando o Trem do Fim do Mundo no Parque Nacional da Terra do Fogo, Argentina

O “Trem do Fim do Mundo” é algo de que os aspirantes a visitar Ushuaia cada vez mais ouvem falar. Pouca gente sabe que ele fica dentro de um parque nacional, o Parque Nacional da Terra do Fogo, com lagos e matas.

O trem é um resquício de quando Ushuaia foi uma colônia penal, e os presos eram levados regularmente a cortar madeira e depois de volta ao presídio na cidade. As condições eram tão insalubres que se conta que os presos preferiam ter que trabalhar — e respirar ar puro — que ficar nas celas frias e escuras.

O trem chegou a ser desativado em 1952, após o fim do presídio, mas ressurgiu como turismo em 1994. O que você tem hoje não é propriamente um trem convencional de passageiros (como os da Europa), mas uma locomotivazinha elegante que o leva pelas paragens desse passado de Ushuaia.

Se a parte humana é pouco luminosa, ouvindo do guia e de um áudio no trem sobre os fados dos presos, não falta luz à parte da natureza — se você vier no verão. Este que é o tour mais clássico saindo de Ushuaia tem várias paragens belas nesta natureza Patagônia, além de várias curiosidades como o posto dos correios mais austral do mundo, etc.

Venhamos descobrir melhor como é este tour na concretude da prática.

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Com o Ferrocarril Austral Fueguino, que é uma locomotiva pequena (ninguém espere que seja um Expresso Oriente da Patagônia).
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A natureza aqui é a campeã no Parque Nacional da Terra do Fogo.
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Um dos belos lagos do Parque Nacional da Terra do Fogo que observamos neste tour.

Os aspectos práticos deste tour

Deixem-me começar logo com a parte prática deste passeio. Assim deixamos isso claro e podemos então só curtir a paisagem e a experiência.

Este é um tour de só um turno, metade do dia, oferecido pela manhã ou pela tarde nesta época do verão — quando os dias aqui são longos, com o amanhecer às 6h e o anoitecer só depois das 21h, e as temperaturas ficam um pouquinho mais altas, geralmente na casa dos 5-12ºC.  

Todas as agências de turismo de Ushuaia o oferecem. Eu (é claro) só fiz com uma, mas não me pareceu que haja diferenças. Até o preço é meio padrão entre elas: 35 mil pesos argentinos pelo tour (o que neste começo de 2024 dava cerca de US$ 40) mais 29 mil da passagem de trem (uns US$ 32), que eles tratam como opcional — embora saibamos que moralmente não é — para decompor assim o preço total em fatores primos e não assustar o cliente com um número grande.

money with wings

Sai por fora também a entrada de 12 mil (US$ 13) no parque. Se tiver pesos argentinos em espécie, leve-os pois a guia costuma coletar o de todo mundo pra pagar tudo de vez e evitar que se pegue fila. Se não tiver, dar US$ 15 por pessoa costuma funcionar.

Quanto custa ao todo? 64 mil pesos à agência e mais 12 mil na boca da entrada do parque, totalizando aí 76 mil pesos ou coisa de US$ 85. Obviamente, não é barato, mas já que você veio até este fim de mundo, vale a pena fazer tudo o que puder. 

(Quem não quiser tomar tour, pode naturalmente entrar no parque por conta própria usando um carro alugado ou ver o que consegue com Uber, embora esta última opção não seja simples, já que não é uma área urbana. Dos custos da entrada no parque e do trem não tem como correr, são fixos, aí as agências discriminarem assim em partes, para que fique claro.)

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A tabela de preços da entrada no parque em 2024. Certamente, é uma questão de tempo até os preços nominais em pesos subirem — o papelzinho branco ali mostra que eles já estão habituados a fazer isso. A segunda coluna é para ingressos de dois dias, para quem estiver por conta própria.
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A bilheteria à entrada tem esta fila, mas no tour, o habitual é que a guia recolha o dinheiro em espécie de todo modo e nos resolva a vida com certa rapidez. Vale ter os 12 mil pesos da entrada em pesos argentinos em mão. Se não, US$ 15 costumam funcionar.
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O Parque Nacional da Terra do Fogo com suas paisagens patagônicas no extremo sul da Argentina.

A experiência da visita pelo Parque Nacional da Terra do Fogo com o Trem do Fim do Mundo

Agora vamos ao que interessa. Era começo de tarde, e eu havia almoçado umas empanadas pelo centro de Ushuaia antes de zarpar da frente da agência na Avenida San Martín às 14h. (Via de regra, não são todas as empresas aqui que vão buscar no hotel — não é tão de praxe quanto em outros lugares.)

Não demoramos a tomar o microônibus e rumar estrada à frente com direção ao parque, numa tarde que ainda não havia se decidido se seria nublada ou de sol. Fazia uns 10 graus agradáveis neste dia.

Conforme você se afasta deste centro de Ushuaia, logo vê o que quanto que a cidade é grande. Não chega a ser uma metrópole, mas tem vários bairros residenciais com pequenos prédios nos arredores. Muitos são pré-fabricados, feios iguais aos parecidos com os que eu havia visto em Ilulissat na Groenlândia. Dizem ser bons de isolamento térmico contra o frio.

A beleza, claro, está na natureza ao redor. As montanhas já se fazem presentes no horizonte muito antes de se deixar a cidade, e os braços de mar às vezes se confundem com os lagos, de modo que o observador desatento nunca sabe à primeira vez se o que está mirando é água salgada ou doce.

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Isto é água salgada, um dos braços de mar que nos acompanham na saída de Ushuaia, com as montanhas (chilenas) lá no horizonte. Eu tratei um pouco melhor sobre estas fronteiras no post anterior.
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A beleza dos prédios pré-montados a que me referi, dos quais há muitos nos subúrbios de Ushuaia, em belas cores vivazes para contrastar com o longo inverno. Troque já o seu apartamento por um destes aqui.
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O primeiro mirante onde nos detivemos. Chega a ser uma violência a beleza natural aqui da Patagônia.

Este é um tour bem panorâmico, deixem-me lhes dizer. A graça dele realmente está nas vistas. No mais, os argentinos gostam de colecionar curiosidades — como o fim da Ruta n.3, rodovia nacional que se estende desde Buenos Aires, ou o posto dos correios mais austral do mundo —, mas isto em si é um pouco bobo, se tais curiosidades não fizerem a sua cabeça.

No mais, o que você ouve bastante — primeiro da guia no ônibus e depois no audioguia dentro do trem — é sobre a História de Ushuaia, especialmente o seu tempo como colônia penal, de 1896 a 1947.

O envio de pessoas para cá era menos por crueldade e mais por interesse de estado da Argentina de assegurar a sua soberania sobre estas regiões extremas do continente, que ela sentiu o risco de caírem nas mãos do Chile ou dos britânicos (que já estavam nas Ilhas Malvinas e que tinham missionários há décadas trabalhando aqui com os índios). Eu expliquei um pouco mais sobre isso no post anterior em Ushuaia.

A enseada Zaratiegui, com as selvagens montanhas chilenas do outro lado e o último posto dos correios neste sul do mundo, foi a nossa primeira parada dentro do parque. Lá ficamos uma meia hora, das 14:45 às 15:15, tendo saído 14h do centro de Ushuaia.

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Aquele muquifo ali é a agência dos correios mais austral do mundo.
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Este lugar é uma coisa praticamente folclórica entre os argentinos e, hoje, entre muitos turistas.
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Uma certa muvuquinha do lado de dentro, com alguns tentando apenas se abrigar do frio e outros formando fila para enviar cartão postal daqui ou obter um carimbo no passaporte.
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O melhor é a figura pitoresca do senhor funcionário daqui, parecendo sair de Harry Potter.

Eu um dia já fui de colecionar esses carimbos “falsos” no meu passaporte (tenho um da Mitad del Mundo no marco da linha do equador, no Equador), mas depois meus passaportes começaram a acabar por esgotarem as páginas, nunca por passar do prazo de validade, então passei a ser mais econômico.

Esta enseada Zaratiegui está conectada ao Canal Beagle, a derradeira fronteira entre Chile e Argentina cá neste extremo sul.

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A enseada. Estes são braços de mar entre ilhas. Estritamente falando, nem um lado nem o outro aqui são mais continente.
Zaratiegui Embayment Tierra del Fuego National Park T ierra del
Notem ali o Canal Beagle. A linha preta tracejada é a fronteira entre Chile e Argentina, na vertical cruzando esta Ilha Grande da Terra do Fogo, e depois o próprio Canal Beagle é a fronteira. O continente acaba no Estreito de Magalhães um pouco mais ao norte daqui.
Ushuaia no mapa da Argentina
Aos mais curiosos. Ushuaia em vermelho, e o Estreito de Magalhães é aquela passagem um pouco mais ao norte.
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No fim do mundo, com a bandeira da Argentina e a desta Província da Terra do Fogo.
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Mares bravios.

Saindo daqui, fomos ver a placa do fim da Ruta n.3, a rodovia que se estende desde Buenos Aires até aqui. Ela integra também a rodovia Panamericana, que chega se estende por 22 mil Km até o Alasca. (A título de curiosidade, em 2023 o ciclista brasileiro Leandro Carlos da Silva quebrou o recorde de velocidade fazendo esse percurso em 95 dias. Uma média de 200 Km por dia na bicicleta!)   

Como eu disse, são mais estas curiosidades que qualquer outra coisa o conteúdo do tour. A curtição depende aí da sua apreciação das paisagens, sabendo-se cá neste rincão da América do Sul e do planeta Terra.

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Fim da Ruta n.3, fim de linha da rodovia que se estende desde Buenos Aires.
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Aqui é onde estamos. (O nome da província é porque Argentina reivindica não só as Ilhas Malvinas, mas também parte da Antártida, como mostrei no post anterior.)
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Frodo na Argentina, contemplando deixar o Condado numa aventura.

Um quiproquó de baixo calibre teve lugar neste estacionamento. É que havia um trailer criminosamente oferecendo café, chocolate, e até vinho quente sem contudo tê-los. Você chegava — e ali atendia um daqueles argentinos metidos a galã — e o cidadão dizia que só tinha água e cerveja.

Eu cheguei a reagir dizendo que aquilo era propaganda enganosa era um crime, um ultraje, ao que uma senhora brasileira do grupo — presumivelmente também interessada num café, num chocolate, num vinho quente ou nos três — bradou que, se ele não tinha nada, deveria já fechar a barraca e ir pra casa. A guia argentina olhava atônita àquele leve barraco e ao esquentar dos ânimos.

Fazia frio afinal, e acalentar era preciso. Eu fui então percorrer por 10 minutos os caminhozinhos panorâmicos de madeira que fizeram aqui.

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Você caminha por umas estruturas assim para apreciar a vista.
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Sósia de Eduardo Galeano passeando aqui na Patagônia.
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O lugar que dizia ter tudo, mas que não tinha mais quase nada, a quem quis ver o palco do quiproquó. Vino caliente, chocolate e café todos eram propaganda enganosa. Cabe processo por danos morais quem anuncia isso sem ter.
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Com os campos, lagos e montanhas da Patagônia.
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Damos uma volta por esta linda paisagem antes de retornar ao microônibus.

Por fim, a última parada antes de irmos ao trem: uma pausa diante do lago Acigami, que numa das línguas nativas daqui quer dizer cesto ou bolso alargado. 

Esse lago provavelmente foi a paragem mais bonita feita aqui no parque.

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O lago Acigami, nome nativo da língua dos indígenas Yaghan (ou Yamaná). Ele se estende Chile adentro nesta que é a Ilha Grande da Terra do Fogo, e por muito tempo era chamado pelos sobrenomes de presidentes argentino (Julio Roca) e chileno (Federico Echaurrén) do século XIX. O nome original indígena foi restituído oficialmente aqui na Argentina em 2008.
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As tias ali deitavam sem cerimônia nesta areia grossa à beira do lago. A água era fria, mas menos do que você talvez imagine.
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A fila da boletería para entrar no trem.

O passeio no Trem do Fim do Mundo

Era chegada finalmente a hora. Já eram 17h no meu relógio quando, afinal, a guia nos trouxe ao lugar de onde ele sai. Neste verão patagônico, essa hora é ainda o meio da longa tarde, mas mesmo assim já se percebia certa impaciência no grupo. Ao menos o tempo era agradável — estava quentinho debaixo do sol, e fazia um friozinho na sombra.

Levamos um certo mofo inesperado ali, já que a guia — mui segura — havia dito que já estava tudo providenciado, etc. Acho que perdemos o das 17h, e foi preciso esperar o outro. Eu sei que mais de meia hora se passou até finalmente embarcarmos no trem às 17:40. 

O trenzinho é uma locomotiva quase de brinquedo — não espere um trem em tamanho real. Ele é de verdade, mas bem pequeno e estreito. Os presidiários antigamente o usavam por 14 Km, e aqui se percorrem ainda 7 Km do trajeto antigo.

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A turista ali já cansada de esperar.
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Finalmente, chegou a hora. Foram uns 30-40min de fila aqui.
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Vamos há. Há um trenzinho verde e outro azul.
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Hora de adentrar o Trem do Fim do Mundo. Você mostra o bilhete ali ao moço e senta onde bem quiser.
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Atenção, você está entrando numa área agreste!
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O meu trem seria este verde.
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O Trem do Fim do Mundo é assim, estreitinho, meio parque da Disney.

Ao longo de todo o trajeto, que dura cerca de 1h, você vai ouvindo (se quiser) um audioguia disponível em vários idiomas (português brasileiro incluso) contando a história deste povoamento de Ushuaia como colônia penal na primeira metade do século XX.

Eles tratam bastante das condições de vida insalubres dos prisioneiros, de como preferiam vir cá ao ar livre trabalhar, e de como as fugas eram raras — pois estamos num terreno agreste, como bem a placa vos avisou, e não há muito pra onde correr aqui. De quebra, isto é uma ilha, eu vos recordo. Os fugitivos morriam, eram recapturados ou retornavam voluntariamente por falta de opção melhor.

Eles não abordam o Genocídio dos Selk’nam, quando entre 1880 e 1910 houve aqui uma política de extermínio desse povo indígena para liberar o território à criação de ovelhas, mas eu não posso deixar de observar, pois que esta não era uma terra nullius — de ninguém — como gostavam de dizer alguns. 

Às 18h paramos na chamada Estação Macarena, onde os presos antigamente coletavam água. Hoje, há uns bobos com roupa antiga de presidiário — daquelas listradas e com boininha, do tempo de Os Três Patetas — oferecendo-se para posar para fotos. Nada de comes e bebes, o que achei uma perda de oportunidade.

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A Estação Macarena é a única parada intermediária do trajeto, onde antigamente os presos coletavam água e materiais. Hoje, há esses presos fake aí para tirar foto.
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Eles hoje dão um tempo aqui para todo mundo descer e tirar fotos antes de prosseguir.
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Vagões ilustrando as toras de madeira e as pedras que vinham pegar aqui. Muito do trajeto é por esta paisagem de desmate. Você ainda vê alguns tocos de décadas atrás. (Não é assim a paisagem mais deslumbrante do mundo, mas há algumas vistas belas.)
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A beleza fica mesmo por conta das montanhas.

As locomotivas são fofas, embora pareça mais mesmo um trem de brinquedo que de verdade. Não há nem de longe comparação com o extinto Andean Explorer que tomei no Peru — este aqui do Fim do Mundo é algo bastante mais simples.

Cerca de 18:40, dez minutos após partirmos da Estação Macarena (e dando aí 1h de passeio no total), nós chegamos à estação final, onde eles então lhe vendem as fotos profissionais que porventura tiraram de você com aqueles presos de mentira. O passeio se encerra com tranquilidade, retornando ao ônibus para daí voltar a Ushuaia.

Este foi um passeio de que eu gostei, mas na proporção fama versus encanto ele talvez goze de certa fama desproporcional se comparado a outros passeios daqui que eu achei mais encantadores, como vocês verão nas próximas postagens.

No dia seguinte, era dia de ver pinguins bem de pertinho e de caminhar entre eles.  

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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