Júlio Verne (1828-1905) é aquele escritor francês de que já lhes falei na sua cidade natal Nantes e naquela onde viveu e morreu, Amiens, e autor de obras consagradas como Volta ao Mundo em 80 dias, Vinte Mil Léguas Submarinas, Viagem ao Centro da Terra, entre outras. Não vou dizer que não é uma pessoa cuja imaginação e mundialidade eu admiro.
Foi dessa imaginação que veio a noção de Farol do Fim do Mundo, que hoje você visita em Ushuaia — e bem possivelmente toda a ideia mais geral de que este é o “fim do mundo”, com o Trem do Fim do Mundo etc. Publicidade que obviamente carrega o viés europeu (já que isto não é fim de mundo a quem vivia aqui), mas que caiu como uma luva à promoção do turismo na Patagônia argentina.
Não dá para vir a Ushuaia e não fazer o passeio de barco até esse farol, passeio que circula algumas horas pelo Canal Beagle, que separa o Chile da Argentina neste extremo sul do continente — e outro lugar cujo nome vem da Europa, do navio HMS Beagle, que entre 1831-1835 trouxe o naturalista inglês Charles Darwin ao Brasil (ele passou em Fernando de Noronha, Salvador e Rio de Janeiro), além de Buenos Aires e esta Terra do Fogo. Ushuaia ainda não existia, nem tinha a gente branca ainda um nome para este canal. Os índios Yaghan o chamavam Onašaga. Canal Beagle ficou.
(Ao contrário do que você talvez imagine, não foi a raça de cachorro que também ganhou o nome do navio, mas o navio que foi assim batizado em homenagem à raça de cachorro, a qual existe já desde os princípios do século XIX. A Inglaterra vitoriana daquelas eras tinha a criação de cães como algo refinado e digno da boa sociedade — daí a expansão dos Kennel Club, ou “clube de canis”, inclusive no Brasil século XX adentro. A propósito, o hábito contemporâneo de se ter cachorro em casa como animal de estimação se deve a essa moda da aristocracia inglesa que nós adotamos.)
Voltemos ao fim do mundo.



Navegando no Canal Beagle
Ushuaia ia ficando para trás. Entrávamos nós, um grupo de suas 20 pessoas, num iate modesto. Não imaginem um catamarã nem um ferry grande neste passeio, mas um daqueles pequenos iates de rico — só que sem o luxo.
Ao menos assim foi o tour organizado pela Piratour — mas várias agências realizam este passeio. Sai coisa do equivalente a USD 60, e que vale reservar de antemão online para não perder do seu tempo em Ushuaia procurando. Dura cerca de 4h, no meu caso começando às 10h. (Tende só em mente que os argentinos não são tão respeitosos à sacra hora do almoço quanto nós brasileiros. Servem apenas café, chá ou chocolate quente de cortesia, mas almoço neste dia você só verá umas três da tarde após chegar de volta.)
Por ora todavia, não havia ainda preocupações gastronômicas — eu sabia o que me esperava. Tomava aquele vento frio no rosto, nunca muito leve aqui na região da Patagônia, e vias as nuvens dançando sobre o mar. Por ora, parecia termos um dia encoberto pela frente.
O famoso Farol do Fim do Mundo fica a exatos 17 Km da cidade, o que quer dizer uns 45 minutos de navegação inicialmente.




A primeira hora de viagem passou sem contratempos. O Canal Beagle estava calmo, e nem chovia nem fazia sol.
Quando Charles Darwin (1809-1822) — o autor de A Origem das Espécies e da teoria da evolução — passou por aqui, tinha nada mais que 22 anos. Não imaginem um cientista já maduro, mas um jovem imaginativo com ganas de conhecer — e compreender — o mundo.
O capitão da expedição era o vice-almirante Robert FitzRoy, com quem Darwin já tinha tido um desentendimento em Salvador quando o naturalista ficou chocado diante das condições da escravidão e o oficial o repreendeu, dizendo que já havia perguntado a escravos se queriam ficar por conta própria em vez de trabalhar para o senhor, e eles teriam respondido que não. Darwin retrucou que respostas dadas nessas condições não tinham valor nenhum — ao que o capitão ficou aborrecido e quase larga Darwin na Bahia.
Nós aqui não demoraríamos a avistar o pequeno farol listrado branco e vermelho no horizonte, conforme a paisagem começava a ficar mais selvagem.



O Farol do Fim do Mundo não é grande: são meros 11m de altura, a metade do Farol da Barra em Salvador, por exemplo.
Seu padrão listrado em vermelho e branco acontece de simbolizar perigo no código internacional de navegação, denotando as águas agitadas deste recanto do globo, mas essa não é a sua razão de ser. O curioso é que ele tem essa cara porque assim foi representado na capa do livro de Júlio Verne, O Farol do Fim do Mundo (1905). O livro, em verdade, foi uma publicação póstuma, lançado poucos meses após o autor falecer na França.
Júlio Verne nunca veio por aqui — como tampouco deu volta ao mundo em 80 dias nem viajou ao fundo do mar. O francês viajava bastante pela Europa, todavia. Chegou a ir aos Estados Unidos, e cada viagem dessas no século XIX estimulava sua imaginação acerca do que havia mais além.
Quando escreveu O Farol do Fim do Mundo, sua inspiração nem foi este farol aqui — que nem sequer existia ainda —, mas um outro na Ilha dos Estados, Atlântico afora, uns 200 Km a leste. Só que lá não se visita, nem há um farol assim com esta cara de farol.

É então em 1920 que se erige este farol hoje visitado, e que leva o nome francês de Les Éclaireurs. Por que? Esse nome se traduz por “os exploradores”, e já era usado para estas ilhotas do Canal Beagle antes de aqui haver um farol.
A alcunha data da expedição francesa La Romanche em 1882-1883, quando o navegador Louis Ferdinand Martial passou por aqui. Você daí conclui como a Argentina ficava insegura com tanto estrangeiro vindo aqui explorar o que tecnicamente era seu território — daí a fundação de Ushuaia em 1884 para asseverar a sua soberania.



Você não demora a se distrair do farol e começar a atentar — devidamente — a toda a fauna que se manifesta ali próximo. Estas ilhotas não são vazias, elas são pelas de vida costeira, desde aves migratórias a leões-marinhos que as povoam em abundância.
Quer ver? Parece cena de documentário da National Geographic.
(Dica: o iate balança e joga mais, mas permite chegar bem mais perto que os grandes catamarãs. Consulte sua agência para saber que tipo de embarcação é antes de fechar este tour.)






Descendo do barco no Canal Beagle
Muito embora tudo isso que eu via era lindo e significativo, o ponto alto em termos de beleza para mim ainda estaria por vir. (Note, a propósito, pelo pescoço que esses acima não são pinguins, são as mesmas aves voando. Pinguins você vê no outro passeio, que mostrei no post anterior.)
Nós demos a volta no farol Les Éclaireurs e tocamos como que de retorno a Ushuaia, só que não exatamente. Era a hora de sermos servidos chá, café e chocolate quente para deglutirmos e digerirmos tudo aquilo que havíamos visto, e em verdade nos encaminhávamos para uma paradinha que faríamos numa outra ilhota não tão pequena.

Foi quando o barco resolveu balançar. Se você mareia fácil (como eu), traga o seu dramin. Aqui o tempo vira com uma facilidade incrível, e pegamos o vento de sudoeste, que pelo visto é o mais forte da região. Por sorte, nosso capitão era bem experiente. “Christian is the best”, declarou tranquila aos turistas a nossa guia Maria José (uma jovem com ares de Arlequina), comentando que ele há 20 anos ia e voltava do mal-afamado Cabo Horn — a ponta extrema da América do Sul.
O capitão pelo visto não era só bom marinheiro, mas também zoeiro, porque resolveu ligar o rádio com uma trilha sonora que parecia escolhida a dedo para os sacolejos que cobriam de água todos os vidros ao redor. Do rock dramático de Silverchair, começamos a rumbear com o barco ao som de Have you ever seen the rain [Você já viu a chuva?]. Sim, eu via.
O barco jogava para cima e para baixo daquele jeito que quando sobe você só enxerga céu pelo vidro da frente, como se fosse alçar voo, e quando abaixa você só vê mar como se fosse adentrar as profundezas, e as águas lavavam os vidros com agressividade.
Dali a pouco, começa a tocar Sultans of Swing. Não era possível, esse timoneiro deveria ter uma trilha sonora preparada — não podia ser coincidência. “Way on down south”, cá no sul como diz a letra, nossas canecas subiam e desciam no ritmo da embarcação — as dos mais atrevidos como eu, com líquido dentro. Muita gente não ousou.
Como eu sempre digo: a realidade bate a ficção. Eu nem teria criatividade para ter imaginado essa combinação toda. Vejam uma palhinha no vídeo abaixo — e cuidado para não ficarem demais mareados juntos comigo.
Eram 12:45 quando aportamos na ilhota de nome desconhecido — um dos lugares mais belos onde já aportei. Estávamos na segunda metade do passeio, e aqui permaneceríamos meia hora. Ao menos em tese, pois o vento estava tão forte — ameaçando levar os mais leves — que teríamos que encurtar essa estadia.
Os Andes, que vêm 7.000 Km desde a Colômbia lá no norte até aqui, iam se destacando como a região mais panorâmica do planeta.





A trilhinha era estreita. Uns arbustos baixos ameaçavam fechá-la, e raspavam as nossas calças, mas eram tratados com certa indiferença. Impossível era estar indiferente à imensidão que nos rodeava. Vento, sol, mar. Nada que ver com essa combinação quando ela ocorre no Nordeste, ou noutro lugar de praia. Tudo que ver com o vento patagônico forte e frio, o mar proibido e o sol intermitente, presente só quando queria.







Epílogo: Outros tours?
Ushuaia havia se revelado uma paragem fantástica, muito acima do que eu havia imaginado antes de vir. Relatei-lhes das minhas visitas pela cidade, pelo Parque Nacional da Terra do Fogo com o Trem do Fim do Mundo, e fazendo a chamada Pinguinera Terrestre. Havia mais?
Sim, há mais coisas a ver aqui — embora esses passeios acima, mais este no Canal Beagle, sejam realmente os principais e essenciais.
A quem quiser mais coisa, e gozar de mais tempo, o principal que eu quase fiz foi a trilha da Laguna Esmeralda. Ela dura cerca de 4h ao todo, e é a mais popular de Ushuaia. Só que seu início fica a uns bons 20 Km da cidade, então para chegar lá você normalmente precisa estar com um carro alugado ou pegar algum transporte de ida e volta. Albergues como o Antarctica Hostel fazem isso por um preço módico, e — se você deixar — as agências lhe cobram 100 dólares por pessoa uns pacotes (desnecessários) de visita com guia, seguro caso você quebre a perna, pipoca e sei lá mais o que para justificar esse preço.
Só não fui porque o transporte só rodava no meado do dia, de modo que inviabiliza a combinação dela com outro passeio na mesma data. Alguns reclamam que ela fica cheia de gente, e que é melhor chegar lá antes das 10h. Fica a dica. Os mais dispostos podem então emendar com a subida na geleira Ojo del Albino — embora esta seja mais avançada e, de acordo com alguns, requeira um guia experiente.
Eu me despedia de Ushuaia e região com gosto de querer ficar mais. Mas retornar a Buenos Aires era preciso — trocar estes 10 graus, com o vento que quase levava minhas malas embora ao descer do Uber na chegada ao aeroporto, por 32 graus de um verão verdadeiro lá. As memórias daqui serão eternas. Nos revemos lá na capital, chicos.






Essas são algumas das fotos mais bonitas que já vi no seu blog.
Obrigado! Foi dos lugares mais belos onde eu já estive.
Magnifico passeio… Belíssimas paisagens….Indescrítiveis as belezas da região…. E que belas histórias… Envolvente a postagem…
E que mares e ares revoltos…..
Surpresa com a fauna… Imaginei que era deserta ou semi-deserta a região.
A vegetação é linda!… Amei essas flores amarelas….
Corajoso, o senhor, meu jovem… Parece ser onde o vento faz a curva hahaha como se diz…. E pelo visto há mais de 100 km por hora…. Jisuis hahah
Belíssimo o tom das águas e a sua diferenca quando ddoce ou salgada. Divinos os tons…
E as montenhas, dispensam comentários de tão belas e soberbas.
Fantástica a região….
Embora ariscada.
Amei…