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Argentina

5 fatos e 3 mitos sobre câmbio (blue etc.) na Argentina na prática (2024)

Uma das perguntas mais feitas a quem viaja à Argentina é como entender a loucura dos câmbios (oficial, blue, tarjeta etc.) e não ficar desorientado na sua viagem. 

A internet tem certa inércia, e muito do que está aí afora data de 2023 ou antes, portanto antes das medidas do governo atual. Muito mudou.

Além disso, há alguns aspectos práticos que ninguém tinha me contado antes de eu ir neste verão de 2024 — e há poucas coisas que eu mais detesto na internet que artigo baseado no disse-me-disse, sem a pessoa ter realmente ido lá.

Eu vim, e lhes faço um resumo abaixo do que é preciso saber. Não vou saber a tarifa exata do seu banco nem fazer consultoria, mas lhe trago aqui os fatos. 

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O dinheiro aqui não vale muito hoje em dia. Lembra o Brasil dos anos 80. Um real valia na casa de 170 pesos argentinos no começo de 2024. Avalie aí portanto o valor destas cédulas.

O básico

Os economistas gostam de dizer que há quatro tipos de economia no mundo: avançadas, em desenvolvimento, Japão e Argentina. Portanto não sou eu que vou me meter a explicar como isto aqui (ainda) funciona. Só sei que a Argentina é um país belo, mas que requer uma atenção maior que o normal para navegar as finanças. 

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  • A Argentina vive uma inflação anual de 250%. (Para efeitos de comparação, ela foi de 4,7% no Brasil e 4,3% em Portugal). 
  • Na Argentina, não há câmbio flutuante como na maioria dos países. Para evitar choques de preços, os governos fixam artificialmente uma cotação oficial e o Banco Central deles se encarrega da diferença. Milei manteve esse câmbio fixo, com a mera diferença de que ele agora é um chamado crawling peg — um câmbio fixo que “engatinha” um pouco todo dia. Começou 1 dólar pra 800 pesos em dezembro de 2023 e chegava a 840 em fevereiro de 2024.
  • O governo atual fez uma maxidesvalorização em que de um dia para o outro o dólar foi de 366 para 800 pesos, daí muito do que você leu até 2023 estar agora defasado.
  • O câmbio paralelo — clandestino ou “blue” — existe porque ele é o que flutua de verdade, com base em oferta e demanda, e nele o dólar vale mais que no câmbio oficial.

Ok, já entendi que é uma bagunça. E para o viajante?“, pode perguntar o leitor. O viajante precisa levar em conta cinco coisas.


Fato 1: Você precisa usar uma combinação de cartão e dinheiro se quiser economizar.

dinheiro e cartoes

Há uma lei na Argentina que determina que hotéis pagos em espécie incorrem em 21% de IVA (imposto sobre valor agregado). Se quiser escapar do IVA, pague seu hotel com cartão. Se quiser escapar do IOF brasileiro, use cartão de débito global.

Os hoteis costumam anunciar seus preços em dólar, mas na hora H convertem aquilo — pelo câmbio oficial (mais barato) — em pesos argentinos.

As bandeiras de cartão hoje trabalham com uma cotação que, se não chega a ser tão vantajosa quanto o câmbio paralelo das ruas, é melhor que o câmbio oficial, e isso talvez seja suficiente para muita gente. (Experimente esta calculadora do Visa, por exemplo. Neste dia em que vos escrevo, R$ 1 oficialmente valia 168 pesos, mas nas compras com o Visa o seu real vale 196 pesos. Ou seja, um passeio de 50.000 pesos lhe sai R$ 250 em vez de R$ 300).

Afora hoteis, o mais quase todo você também pode pagar com cartão se quiser praticidade. Em Buenos Aires, você é capaz de passar a viagem toda sem pegar em pesos argentinos (já em Bariloche, Ushuaia e outras localidades pelo interior, vai encontrar lugares — uma sorveteria, uma lojinha, etc. — onde só se aceita dinheiro).

Porém, se quiser economizar ao máximo, troque dinheiro pelo câmbio paralelo (blue) e pague restaurantes, shows de tango etc. em dinheiro vivo. Traga dólares, euros ou reais para isso — não compre peso no Brasil.


Fato 2: Você terá que andar com bolos de dinheiro se quiser pagar as coisas em espécie.

Carregado de dinheiro

Você verá que muitas lojas — e inclusive albergues — têm daquelas máquinas de contar cédulas. Chega a ser uma coisa constrangedora, que desperta piedade, você assistir a alguns pagamentos com maços e mais maços de dinheiro desvalorizado.

A nota que mais circula é a de 1000 pesos argentinos, o que dá pouco mais de R$ 5 (!). Isso mal dá um dólar, então imagine você pagando coisas em espécie.

É, entretanto, o que muitos turistas de orçamento mais cauteloso fazem. 

Existe a nota de 2.000, mas eu levei mais de uma semana para vê-la circular. Deve ser tipo a nota de R$ 200 no Brasil, que deve servir muito bem a quem faz falcatrua em dinheiro vivo, mas que a maioria dos brasileiros nunca viu.

O atual governo anunciou que lançaria notas de 20 mil e de 50 mil pesos em 2024. Resta ver se elas circularão mesmo.

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A nota de 2.000 pesos existe, mas eu levei uns 10 dias na Argentina até uma passar pela minha mão. Ela circula muito pouco.
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Na prática, o que ocorre é que você vai trocar 100 dólares na casa de câmbio e sai assim, com estes maços de notas de 1000 pesos (U$1 ou R$5) na mão.

Fato 3: Dá para pagar certas coisas diretamente em dólares, mas evite cédulas velhas ou menores de U$50. Notas menores de U$50 nem sempre são aceitas, ou recebem uma cotação menor.

Uma coisa que ninguém tinha me dito: como ocorre em alguns outros países (não todos), a cotação varia de acordo com o valor da cédula de dólar que você está querendo trocar.

Verificando notas de dolares
Mulher verificando uma nota de 10 dólares.

Quando você vê ou pergunta quanto está o dólar, a informação que recebe se refere a notas de US$ 100 — a mais valorizada. Às vezes, aquilo se estende também a notas de US$ 50, mas se estiver com notas de US$ 20 para baixo, a cotação já fica bem pior. Coisa de 5-10% pior.

Como em certas outras partes do mundo, as pessoas aqui também são frescas atentas quanto ao estado de conservação das cédulas. Se seu dólar estiver riscado, rasgado, ou tiver sido emitido antes de 2009, prepare-se para recusas. Venha portanto com bilhetes novos, e de preferência de US$ 100. 

É possível pagar coisas diretamente em dólar? Sim. Os hoteis eu já disse acima (Fato 1) que embora anunciem na internet os seus preços em dólar, na hora H eles convertem em pesos. Porém, sobretudo se não quiser andar com os maços de pesos argentinos, os tours você costuma poder pagar direto em dólar. Isso porque algumas agências dão desconto se você pagar em espécie ou no débito (pechinche e verá). Mas não se espante se aceitarem exclusivamente notas de US$ 50 ou 100.  


Fato 4: As cotações são bem melhores em Buenos Aires que noutros destinos turísticos como Bariloche ou Ushuaia.

Taxas de cambio

Se você está disposto a trocar dinheiro e pagar as coisas em espécie, troque logo um montante volumoso (desculpem o duplo sentido) em Buenos Aires. Outros lugares da Argentina têm bem menos oferta de casas de câmbio, e as cotações costumam ser piores.

Buenos Aires tem casas de câmbio por toda parte. Ponha “cambio” no Google Mapas e verá. Elas às vezes fecham fim de semana — funcionam na mesma semana inglesa do Brasil, até sábado meio dia.

Ushuaia tem uma única casa de câmbio (Jupiter), enquanto que Bariloche tem uma casa de câmbio no centro e uma tropa de fulanos na rua oferecendo câmbio informal — todos com cotações piores que as que você encontra em Buenos Aires. Tomem nota.


Fato 5: É perfeitamente possível pagar tudo no cartão em Buenos Aires, mas não no interior da Argentina.

Se você é do tipo que prefere praticidade e não se importa muito em não pagar sempre o mínimo, é perfeitamente possível passar semanas em Buenos Aires sem pegar num peso. Conheço gente que (não é rica e) fez isso, não se arrepende, e faria o mesmo de novo.

Caipira do interior

Já no interior, há circunstâncias em que ter pelo menos um pouco de dinheiro em espécie consigo será premente. Dou exemplos concretos que ocorreram comigo:

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Agora vamos a três breves mitos que habitam a cabeça de muita gente, e que vale dispersar desde logo.

Mito 1: Você precisa escolher entre trocar dinheiro num banco pelo câmbio oficial ou em casas clandestinas pelo câmbio blue. 🥸

Balela. Muitos sites brasileiros ficam com essa coisa de “cueva” pra lá, “cueva” pra cá, como se suas únicas opções fossem trocar no câmbio oficial do governo num banco público (quem faz isso pelo amor de Deus?) ou na surdina em algum fundo de galeria clandestinamente, no chamado câmbio blue.

Não é exatamente assim que a banda toca. Há várias casas de câmbio normais onde fazer câmbio na tarifa blue sem precisar parecer que está fazendo algo ilegal. Novamente, basta procurar “cambio” no Google Mapas e várias aparecerão — sobretudo no centro de Buenos Aires.

Em Bariloche, a coisa depende mais dos tipos que ficam de pé na rua, mas há casa de câmbio normal também onde trocar na tarifa blue. Pronto.


Mito 2: Vão te dar peso argentino falso 😱

Quem vai se prestar a falsificar notas de um dinheiro que vale tão pouco, pelo amor de Deus?

Existem relatos? Existem, mas eles são sobretudo de mais de 10 anos atrás, antes dessa inflação cavalar que a Argentina sofre. Chega a ser engraçado ver os “contos” envolvendo cédulas de 100 pesos, sendo que hoje isso não vale nem 1 real.

O mito não é que existe falsificação de dinheiro na Argentina (por isso não, no Brasil também há), mas que seja um risco tão significativo a ponto de você ficar receoso de fazer câmbio.  

O risco de receber dinheiro falso na Argentina é sobretudo para quem vai adquirir dólar — estes sim, às vezes falsificados. É, portanto, um problema mais para os argentinos que para turistas estrangeiros que trazem dólares verdadeiros para trocá-los por pesos. 


Mito 3: O câmbio clandestino tem uma cotação melhor 🤔

Ninguém ache que por ser clandestino o câmbio de rua necessariamente paga mais. Em Bariloche, houve até quem me oferecesse abaixo do câmbio oficial do governo!

Na Argentina, é raro a cotação estar divulgada num painel — você geralmente precisa perguntar. Quando é uma casa de câmbio normal, via de regra o câmbio é melhor que o oficial, mas com os caras de rua eles dão a cotação que bem entendem.

Verão logo que você é estrangeiro e vão tentar se aproveitar. O segredo é estar informado — e, novamente, optar por converter tudo o que quiser logo em Buenos Aires, preferivelmente numa casa de câmbio séria.

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Por fim, para saber por curiosidade a cotação do câmbio blue na Argentina, você pode verificar no periódico El Cronista. De toda maneira, as casas de câmbio de Buenos Aires costumam ser razoáveis quanto a essa tarifa. Via de regra, ninguém cobra comissão.

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Pronto. Agora é só vir e curtir a viagem — ou ir ali na Casa Rosada protestar caso você tenha queixas sobre esta complicação toda.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “5 fatos e 3 mitos sobre câmbio (blue etc.) na Argentina na prática (2024)

  1. Legal, Mairon! Já estive na Argentina algumas vezes e essa negociação de câmbio ficou mais comum com os anos. Como você disse, em Bariloche tem muita gente oferecendo câmbio.

    Agora uma pergunta, e aí, no frigir dos ovos, a Argentina tá barata ou cara pro turista? Na minha primeira visita (em 2004), achei tudo muuuuito barato. Depois deu uma encarecida. Na minha última viagem (2018, talvez), percebi uma baixa no custo, ficando semelhante aos custos do Brasil.

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