Bem-vindos à Cachoeira do Sossego, “porque você chega lá cansado da trilha e sossega“, nas palavras do nosso guia.
De fato. A trilha da Cachoeira do Sossego cansa antes de deixar você sossegar. É uma trilha de nível intermediário, quase avançado, eu diria. Você salta feito cabra de uma rocha para outra, pedras grandes feito ovos pré-históricos, para usar o linguajar de Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão, seguindo num leito quase seco do rio pela maior parte dos 7 Km que o separam da cachoeira. Não é uma distância imensa, mas é que pouco há de plano nesse percurso.
A Cachoeira do Sossego dificilmente é das primeiras que o visitante faz aqui na Chapada Diamantina, no interior da Bahia, um lugar sobre o qual já escrevi outras vezes. Afinal, para mim é quase um quintal de casa, aonde dou um pulo quando venho visitar a família e trago os amigos.
Aqui eu dou os detalhes da experiência. Depois de ter já visto a Cachoeira do Mosquito e a Cachoeira da Fumaça, eu queria uma experiência nova — e, de preferência, uma cachoeira que não fosse só para ver, mas também para se banhar. Consegui.



Rumando ao sossego da cachoeira
Organizando o passeio
Eu na manhã seguinte estava numa disposição incrível. Já havia organizado de véspera com o pessoal da @mamut.agency a logística. O passeio à Cachoeira do Sossego é um que você pode fazer por conta própria se quiser — não precisa nem de carro, basta sair andando a partir do centro de Lençóis —, mas ter um guia costuma ajudar. A sinalização não é exatamente das melhores, nem a trilha é tão povoada assim que você possa simplesmente seguir as outras pessoas. Fica a seu critério, mas eu gosto de fomentar o ecoturismo e ajudar a economia local.
O WhatsApp deles, caso alguém se interesse, é (75) 9 9935 9150. Lá tem catálogo etc. O passeio dura basicamente o dia inteiro, você sai de manhã umas 8h e retorna umas 16h.
A pergunta aí portanto é o almoço. Esse é por sua conta. Boa parte do pessoal leva coisas compradas do supermercado, mas se você preferir ter algo já pronto, o duo irmão-irmã do Lucas Lanches (75 9 9948 7544) oferece almoços embalados de diversos tipos, praticamente para todas as restrições alimentares que existam, e com preços bem camaradas. Tem tapioquinha, suco de manga etc., e entregam até de madrugada no seu hotel.
(E ainda tem que abra a boca pra falar que brasileiro é preguiçoso… Eu moro na Suécia e ainda estou para ver o dia em que algum sueco me atenderá com prontidão no WhatsApp às 8 da noite na véspera ou me trará algo direto no hotel às 6h da manhã.)



O caminho do sossego
Eram 8:15 quando nós deixamos a ruela principal de Lençóis — tudo a pé, sem carro. Ali nos esperava Felipe, o nosso guia, uma figura sossegada e divertida.
Você passa um tempo ainda andando por estes arredores peri-urbanos de Lençois antes de propriamente entrar na trilha. Depois daquelas ruas que lhes mostrei acima, chegamos ao último lugar aonde é possível vir de carro, onde estes ficam estacionados e é preciso seguir a pé por um caminho relativamente estreito. Ali, como de praxe, havia um tio vendendo cocos. Um dos carros estacionados era dele.
— “E essa água de coco?“, indaguei eu. Conversamos que na volta ela viria a calhar.
— “Se não chover, eu espero por vocês.“, decretou ele quase meu amigo. “Se começar a trovejar, aí eu risco a pista — eu vou-me embora. Se não trovejar, eu espero vocês voltarem“, completou ele, o mago de Lençois, figuras daquelas de telenovela com o facão na mão.
Às vezes, o mais divertido destes lugares são as pessoas. Dali a pouco encontraríamos outro, trilha adentro, o último sinal de habitação que veríamos: um casebre simples com um barracão de cobertura de palha defronte, com galinhas a ciscar entre um e outro. Ali, um homem magro e moreno de seus 50 anos vendia de tudo: cafezinho, frutas, balas de mercearia, rochas típicas, mudas de plantas e cartões-postais. Eu lhe comprei um geladão de manga de R$ 5.


“Isso aqui é televisão 3D“, disse ele sem alterar, uma daquelas pessoas que parece passar metade da vida dentro da própria cabeça e só se comunica com os outros usando a outra metade. Comentava sobre os galos e galinhas como se fossem da família.
Quando o cachorro levantou a cabeça para olhar lá adiante no mato, ele se aproximou e acendeu um isqueiro. “É porque o vento tá pra lá, mas isso aí é bicho grande. Veado ou alguma coisa. Até a 15 Km ele aí sente“, disse se referindo ao cachorro.
A prosa estava divertida, mas era hora de tocar pra frente. Perigava chover, e era preciso aproveitar enquanto Brás era tesoureiro.
O caminho era como vocês verão aí à frente, subindo o chão de pedras.



Fazia calor, embora não pareça. Minha camisa não demoraria a estar encharcada de suor.



Às 10:40, portanto algo mais de duas horas após o início da caminhada, estávamos na fonte de água pura a reencher nossas garrafas.
Pelas 10:50 chegamos ao leito do rio, com pedras sobre as quais daríamos passos largos e às vezes saltos feito cabritos. A trilha pelo menos parava de ser só subida. Até ali, era mais subida que descida, um sobe muito e desce um pouco, após apenas o trecho inicial ser relativamente plano.
Umas 11:10 o sol abriu, e às 11:30 chegávamos finalmente à cachoeira.





A Cachoeira do Sossego
Como disse, por volta das 11:30 chegávamos à Cachoeira do Sossego, em bom tempo para tomar um bom banho demorado ali, depois almoçar e descansar antes de começar o regresso. O programa fazia jus ao nome.
Essa cachoeira não é enorme, mas ela é alta e forte o bastante para você ter uma boa área (relativamente funda) onde nadar e uma pancada d’água boa de lhe fazer massagem nos ombros.
Como de praxe, a água é super fria no início, mas daquelas com que o corpo depois acostuma. Os primeiros cinco minutos são os mais difíceis.
Acabaríamos por ficar ali nos banhando ao longo de toda uma hora. Quase não havia mais ninguém — só dois casais e seus respectivos guias —, o que garantia à Cachoeira do Sossego um ambiente mesmo bastante tranquilo. Nada da muvuca que se vê em alguns lugares hiper visitados.



Nadadores não terão problema, mas uma das vantagens de vir com o guia da Mamut foi que ele trouxe coletes salva-vidas, então dava para ficar ali à toa boiando.




Eu, inicialmente, não imaginava que fosse ficar quase duas horas aqui “de boa”, mas a verdade é que o tempo passa rápido e que, depois de caminhar por horas subindo pedras, este descanso vem a calhar.
Saímos da água umas 12:40 para encontrar Felipe espichado dormindo na pedra. Ele parecia já ter esse cochilo como parte estratégica do seu pacote pessoal. Trazia o seu próprio almoço, ao que Cláudia e eu comíamos a opção sem glúten de Lucas Lanches — não que qualquer de nós seja celíaco, mas é que a opção sem glúten era tapioca em vez de pão!
Felipe despertou, olhou para o relógio, e num dado momento disse que antes das 2h era bom irmos indo. Tínhamos várias horas de retorno ainda diante de nós, e permanecia incerto se aquela chuva cairia ou não. Era melhor nos prevenirmos.

A volta na trilha e o retorno a Lençois
“Eu só saio da minha casa pra vir buscar turista perdido depois que eu olhar o Pix entrando na minha conta“, comentou Felipe mais adiante na trilha, ao que víamos um ou outro com cara de perdido, sem guia, ainda vindo na medida em que já voltávamos. Há quem opte por vir por conta própria, mas, segundo ele, volta e meia alguém se perde, ou torce o joelho, e acaba tendo que algum guia vir aqui resgatar o ser humano.
A volta, como se praxe, é sempre mais rápida. Neste caso, não são pela impressão, mas sobretudo porque aí você desce tudo aquilo que subiu. Os joelhos “agradecem”, e foram aí cerca de 2h de retorno até estarmos de volta à barraca do Geladão do Ribeirão.
As nuvens nos pouparam, e o sol até abriu, mas foi chegarmos à barraca e o toró caiu. Despencou um temporal respeitado, como diria minha avó. O notável vendedor, agora vestido com uma camisa branca, seguia incólume, inabalado.
“Ói aquele lá como vem feito um pinto molhado“, comentava conosco de um outro turista que se aproximava encharcado uns 10 minutos depois de nós. Aproveitamos para tomar outro geladão, é claro.

Permanecemos ali um tempo assistindo à chuva e às galinhas que ciscavam, e os galos que se perseguiam uns aos outros em ciúmes, depois que a chuva parou.
Subimos o caminho de volta ao estacionamento, e qual foi a minha surpresa ao encontrar ainda lá o tio dos cocos.
— “Eu falei o que? Que se trovejasse, eu ia embora. Não trovejou…“, observou ele meticuloso, pois de fato trovão não houve. Por que a preocupação dele era a trovoada e não a quantidade de chuva, eu não sei.
Pedimos dois cocos por R$ 10 para Cláudia e eu. Era mais caro cada coco, preço de turista, mas ele não tinha troco.
Gradualmente, começamos a completar o nosso caminho de retorno a Lençois. Despedimos-nos de Felipe, isso já perto das 5h da tarde, e entramos para ver por dentro a Igreja do Rosário, que estava aberta. Lá, um gato se assentava plácido sobre um dos bancos, a igreja de outro modo vazia.


A cara de cansado não negava que eu estava podre. Retornaríamos dali ao miolo da cidade para um belo açaí, e em seguida a chuva retornaria com força enquanto Cláudia e eu estávamos no supermercado. Foi aquele acaba-mundo.


Vida que segue. Na manhã seguinte, daríamos ainda umas voltas pelas mui simpáticas lojinhas de Lençóis antes de partir de ônibus.
Deixo vocês com pérolas de sabedoria para a vida, e os reencontro na próxima paragem.






Linda a chapada.. Ai tudo é bonito..
Adoro cachoeira mas ja não tenho joelhos para as trilhas hahaha coisa para jovem.
Belíssimas as paisagens. Espetaculares os descampados , os montes, os desfiladeiros e as aguadas. Pura natureza.
E que beleza essa comilança… viva o leite de coco, o dendê e os outros temperos da saborosa comida bahiana… Uma glória.
Com certeza uma das mais saborosas MUNDO. Além se altamente cheirosa e de ótima aparência. Uma verdadeira perdição.
Linda aventura.
E Lençóis é uma fofura.
E que chuvarada, heimmm?Guma está perdendo hahahaha
Adorei a folga do bichano hahahaha
Gostou do viajante ahahaha
A cara de cansado do viajante diz tudo.
Otima viagem, jovem e aventureiro viajante.
É isso ai.
Valeu.
Beleza é pra ser vista, apreciada, mostrada e curtida. E na Bahia/NE é o que não falta,
Que venham mais belezas,
Amei.
Que texto bacana! Cativante, li todo! Um abraço e obrigada por retratar bem um pedacinho de Lençois!