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Bahia Brasil

Fazendo a trilha da Cachoeira do Sossego na Chapada Diamantina (BA)

Bem-vindos à Cachoeira do Sossego, “porque você chega lá cansado da trilha e sossega“, nas palavras do nosso guia.

De fato. A trilha da Cachoeira do Sossego cansa antes de deixar você sossegar. É uma trilha de nível intermediário, quase avançado, eu diria. Você salta feito cabra de uma rocha para outra, pedras grandes feito ovos pré-históricos, para usar o linguajar de Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão, seguindo num leito quase seco do rio pela maior parte dos 7 Km que o separam da cachoeira. Não é uma distância imensa, mas é que pouco há de plano nesse percurso. 

A Cachoeira do Sossego dificilmente é das primeiras que o visitante faz aqui na Chapada Diamantina, no interior da Bahia, um lugar sobre o qual já escrevi outras vezes. Afinal, para mim é quase um quintal de casa, aonde dou um pulo quando venho visitar a família e trago os amigos.

Aqui eu dou os detalhes da experiência. Depois de ter já visto a Cachoeira do Mosquito e a Cachoeira da Fumaça, eu queria uma experiência nova — e, de preferência, uma cachoeira que não fosse só para ver, mas também para se banhar. Consegui.

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O tamanhico das pessoas em meio às rochas nesse leito de rio que constitui boa parte do percurso até a Cachoeira do Sossego.
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A trilha começa na simpática — e colorida, e animada — cidade de Lençóis, interior da Bahia. Com aquele ar de Sucupira, a cidade de Odorico Paraguaçu, ou de outras obras da nossa literatura e dramaturgia.
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O jantar da noite anterior à trilha. (E que ninguém me venha com aquele nutricionismo cansativo da moda, de que na véspera precisa se alimentar assim e assado. Precisa é comer as comidas da Bahia — e fim, o resto se vê depois. A vida precisa ser vivida. Bobó de camarão, moqueca, e aquele maravilhoso arroz no azeite de licuri divinamente santo.)

Rumando ao sossego da cachoeira

Organizando o passeio

Eu na manhã seguinte estava numa disposição incrível. Já havia organizado de véspera com o pessoal da @mamut.agency a logística. O passeio à Cachoeira do Sossego é um que você pode fazer por conta própria se quiser — não precisa nem de carro, basta sair andando a partir do centro de Lençóis —, mas ter um guia costuma ajudar. A sinalização não é exatamente das melhores, nem a trilha é tão povoada assim que você possa simplesmente seguir as outras pessoas. Fica a seu critério, mas eu gosto de fomentar o ecoturismo e ajudar a economia local.

O WhatsApp deles, caso alguém se interesse, é (75) 9 9935 9150. Lá tem catálogo etc. O passeio dura basicamente o dia inteiro, você sai de manhã umas 8h e retorna umas 16h.

A pergunta aí portanto é o almoço. Esse é por sua conta. Boa parte do pessoal leva coisas compradas do supermercado, mas se você preferir ter algo já pronto, o duo irmão-irmã do Lucas Lanches (75 9 9948 7544) oferece almoços embalados de diversos tipos, praticamente para todas as restrições alimentares que existam, e com preços bem camaradas. Tem tapioquinha, suco de manga etc., e entregam até de madrugada no seu hotel.

(E ainda tem que abra a boca pra falar que brasileiro é preguiçoso… Eu moro na Suécia e ainda estou para ver o dia em que algum sueco me atenderá com prontidão no WhatsApp às 8 da noite na véspera ou me trará algo direto no hotel às 6h da manhã.)

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Será que vai chover? O verão aqui é uma das altas estações, mas trovoadas e pancadas de chuva são comuns nesta época. Estamos a 400 Km de Salvador, no interior, e o clima aqui não é aquele “só sol” que é na costa.
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Os arredores de Lençois, por onde se passa para ir à Cachoeira do Sossego.
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A chamada Rua dos Quilombolas naquela manhã.

O caminho do sossego

Eram 8:15 quando nós deixamos a ruela principal de Lençóis — tudo a pé, sem carro. Ali nos esperava Felipe, o nosso guia, uma figura sossegada e divertida. 

Você passa um tempo ainda andando por estes arredores peri-urbanos de Lençois antes de propriamente entrar na trilha. Depois daquelas ruas que lhes mostrei acima, chegamos ao último lugar aonde é possível vir de carro, onde estes ficam estacionados e é preciso seguir a pé por um caminho relativamente estreito. Ali, como de praxe, havia um tio vendendo cocos. Um dos carros estacionados era dele.

— “E essa água de coco?“, indaguei eu. Conversamos que na volta ela viria a calhar.

— “Se não chover, eu espero por vocês.“, decretou ele quase meu amigo. “Se começar a trovejar, aí eu risco a pista — eu vou-me embora. Se não trovejar, eu espero vocês voltarem“, completou ele, o mago de Lençois, figuras daquelas de telenovela com o facão na mão.

Às vezes, o mais divertido destes lugares são as pessoas. Dali a pouco encontraríamos outro, trilha adentro, o último sinal de habitação que veríamos: um casebre simples com um barracão de cobertura de palha defronte, com galinhas a ciscar entre um e outro. Ali, um homem magro e moreno de seus 50 anos vendia de tudo: cafezinho, frutas, balas de mercearia, rochas típicas, mudas de plantas e cartões-postais. Eu lhe comprei um geladão de manga de R$ 5.

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O Geladão do Ribeirão, onde se vendia de tudo. Eu nunca soube se é porque há algum ribeiro aqui debaixo desta mata ou se Ribeiro é o sobrenome dele.
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Olha a vista daqui.

Isso aqui é televisão 3D“, disse ele sem alterar, uma daquelas pessoas que parece passar metade da vida dentro da própria cabeça e só se comunica com os outros usando a outra metade. Comentava sobre os galos e galinhas como se fossem da família.

Quando o cachorro levantou a cabeça para olhar lá adiante no mato, ele se aproximou e acendeu um isqueiro. “É porque o vento tá pra lá, mas isso aí é bicho grande. Veado ou alguma coisa. Até a 15 Km ele aí sente“, disse se referindo ao cachorro.

A prosa estava divertida, mas era hora de tocar pra frente. Perigava chover, e era preciso aproveitar enquanto Brás era tesoureiro.

O caminho era como vocês verão aí à frente, subindo o chão de pedras.

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O intrépido Felipe, nosso guia, que com suas meias cor-de-rosa era fácil de avistar na mata.
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Muito do caminho é assim, por entre plantas e rochas. Ali à frente ia minha amiga Cláudia, piracicabana da gema, esalqueana de espírito e primeira do seu nome. Vive no alto de uma montanha nos Andes, perto do céu, e portanto encarava estas subidas aqui mais facilmente que eu, verdade seja dita.
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Uma das poucas partes planas do trajeto.

Fazia calor, embora não pareça. Minha camisa não demoraria a estar encharcada de suor.

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O glorioso era chegar nas partes altas, com a vista para a paisagem.
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Lá no alto já suado após as primeiras horas de trajeto.
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Após umas 2-2,5h de caminhada, você alcança esta cascatinha com água mineral onde pode recarregar suas garrafas e suas energias.

Às 10:40, portanto algo mais de duas horas após o início da caminhada, estávamos na fonte de água pura a reencher nossas garrafas.

Pelas 10:50 chegamos ao leito do rio, com pedras sobre as quais daríamos passos largos e às vezes saltos feito cabritos. A trilha pelo menos parava de ser só subida. Até ali, era mais subida que descida, um sobe muito e desce um pouco, após apenas o trecho inicial ser relativamente plano.

Umas 11:10 o sol abriu, e às 11:30 chegávamos finalmente à cachoeira.

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O caminho no leito do rio. Felipe nos avisava que era melhor nos apressarmos, pois se chovesse viria tromba d’água e seria preciso retornar imediatamente.
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O caminho no leito do rio, na trilha à Cachoeira do Sossego.
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Passamos por alguns espaços exíguos assim. Como você já deve ter percebido, não havia mais quase ninguém na trilha.
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O caminho, a verdade e a vida no cânion.
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A característica água escura pela matéria orgânica nesta região.

A Cachoeira do Sossego

Como disse, por volta das 11:30 chegávamos à Cachoeira do Sossego, em bom tempo para tomar um bom banho demorado ali, depois almoçar e descansar antes de começar o regresso. O programa fazia jus ao nome. 

Essa cachoeira não é enorme, mas ela é alta e forte o bastante para você ter uma boa área (relativamente funda) onde nadar e uma pancada d’água boa de lhe fazer massagem nos ombros.

Como de praxe, a água é super fria no início, mas daquelas com que o corpo depois acostuma. Os primeiros cinco minutos são os mais difíceis.

Acabaríamos por ficar ali nos banhando ao longo de toda uma hora. Quase não havia mais ninguém — só dois casais e seus respectivos guias —, o que garantia à Cachoeira do Sossego um ambiente mesmo bastante tranquilo. Nada da muvuca que se vê em alguns lugares hiper visitados.

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A Cachoeira do Sossego lá adiante.
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Ei-la.
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Você, no começo, se intimida um pouco pela água fria, mas depois é só alegria.

Nadadores não terão problema, mas uma das vantagens de vir com o guia da Mamut foi que ele trouxe coletes salva-vidas, então dava para ficar ali à toa boiando.

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Aquele momento Guma, como gosta de me chamar a minha goiana amiga de trabalho.
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Porque banho de cachoeira é vida.
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Ficar ali debaixo tomando aquela pancada de água é a glória, creiam-me.
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Você pode ficar ali sossegando um bom tempo enquanto escuta o tombo da Cachoeira do Sossego.

Eu, inicialmente, não imaginava que fosse ficar quase duas horas aqui “de boa”, mas a verdade é que o tempo passa rápido e que, depois de caminhar por horas subindo pedras, este descanso vem a calhar.

Saímos da água umas 12:40 para encontrar Felipe espichado dormindo na pedra. Ele parecia já ter esse cochilo como parte estratégica do seu pacote pessoal. Trazia o seu próprio almoço, ao que Cláudia e eu comíamos a opção sem glúten de Lucas Lanches — não que qualquer de nós seja celíaco, mas é que a opção sem glúten era tapioca em vez de pão!

Felipe despertou, olhou para o relógio, e num dado momento disse que antes das 2h era bom irmos indo. Tínhamos várias horas de retorno ainda diante de nós, e permanecia incerto se aquela chuva cairia ou não. Era melhor nos prevenirmos. 

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Felipe iniciando o nosso retorno — a metade de volta da trilha.

A volta na trilha e o retorno a Lençois

Eu só saio da minha casa pra vir buscar turista perdido depois que eu olhar o Pix entrando na minha conta“, comentou Felipe mais adiante na trilha, ao que víamos um ou outro com cara de perdido, sem guia, ainda vindo na medida em que já voltávamos. Há quem opte por vir por conta própria, mas, segundo ele, volta e meia alguém se perde, ou torce o joelho, e acaba tendo que algum guia vir aqui resgatar o ser humano.

A volta, como se praxe, é sempre mais rápida. Neste caso, não são pela impressão, mas sobretudo porque aí você desce tudo aquilo que subiu. Os joelhos “agradecem”, e foram aí cerca de 2h de retorno até estarmos de volta à barraca do Geladão do Ribeirão.

As nuvens nos pouparam, e o sol até abriu, mas foi chegarmos à barraca e o toró caiu. Despencou um temporal respeitado, como diria minha avó. O notável vendedor, agora vestido com uma camisa branca, seguia incólume, inabalado.

Ói aquele lá como vem feito um pinto molhado“, comentava conosco de um outro turista que se aproximava encharcado uns 10 minutos depois de nós. Aproveitamos para tomar outro geladão, é claro.

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Eu acho que nada no Brasil tem tanta diversidade de nomes quanto isto aqui. Dindin (Amazonas), chopp (Pará), sacolé (RJ), e por aí vai. Em Piracicaba, eu soube que chamam de juju. Na Bahia, é geladinho — ou geladão.

Permanecemos ali um tempo assistindo à chuva e às galinhas que ciscavam, e os galos que se perseguiam uns aos outros em ciúmes, depois que a chuva parou.

Subimos o caminho de volta ao estacionamento, e qual foi a minha surpresa ao encontrar ainda lá o tio dos cocos.

— “Eu falei o que? Que se trovejasse, eu ia embora. Não trovejou…“, observou ele meticuloso, pois de fato trovão não houve. Por que a preocupação dele era a trovoada e não a quantidade de chuva, eu não sei.

Pedimos dois cocos por R$ 10 para Cláudia e eu. Era mais caro cada coco, preço de turista, mas ele não tinha troco. 

Gradualmente, começamos a completar o nosso caminho de retorno a Lençois. Despedimos-nos de Felipe, isso já perto das 5h da tarde, e entramos para ver por dentro a Igreja do Rosário, que estava aberta. Lá, um gato se assentava plácido sobre um dos bancos, a igreja de outro modo vazia.

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O interior da Igreja do Rosário em Lençois, Bahia.
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Claro que deu nisso. E olha que eu sou uma pessoa que preferes cachorros.

A cara de cansado não negava que eu estava podre. Retornaríamos dali ao miolo da cidade para um belo açaí, e em seguida a chuva retornaria com força enquanto Cláudia e eu estávamos no supermercado. Foi aquele acaba-mundo.

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Só para a curiosidade vossa. Nós da porta do supermercado no centro de Lençois.
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Você não tenha a menor dúvida de que foi uma questão de tempo até a enxurrada levar todos aqueles vasos feito peças de dominó. Acho que esta foto minha foi o último registro deles.

Vida que segue. Na manhã seguinte, daríamos ainda umas voltas pelas mui simpáticas lojinhas de Lençóis antes de partir de ônibus.

Deixo vocês com pérolas de sabedoria para a vida, e os reencontro na próxima paragem. 

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Fazendo a trilha da Cachoeira do Sossego na Chapada Diamantina (BA)

  1. Linda a chapada.. Ai tudo é bonito..
    Adoro cachoeira mas ja não tenho joelhos para as trilhas hahaha coisa para jovem.
    Belíssimas as paisagens. Espetaculares os descampados , os montes, os desfiladeiros e as aguadas. Pura natureza.
    E que beleza essa comilança… viva o leite de coco, o dendê e os outros temperos da saborosa comida bahiana… Uma glória.
    Com certeza uma das mais saborosas MUNDO. Além se altamente cheirosa e de ótima aparência. Uma verdadeira perdição.
    Linda aventura.
    E Lençóis é uma fofura.
    E que chuvarada, heimmm?Guma está perdendo hahahaha
    Adorei a folga do bichano hahahaha
    Gostou do viajante ahahaha
    A cara de cansado do viajante diz tudo.
    Otima viagem, jovem e aventureiro viajante.
    É isso ai.
    Valeu.
    Beleza é pra ser vista, apreciada, mostrada e curtida. E na Bahia/NE é o que não falta,
    Que venham mais belezas,
    Amei.

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