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Bahia Brasil

Voltas pela Salvador histórica: Santo Antônio Além do Carmo e Pelourinho (incluso o Balé Folclórico da Bahia)

(Este será um post longo.)

Não faltam belezas pelo Brasil histórico, e muitas delas estão em Salvador, a sua primeira capital.

Todo mundo conhece o Pelourinho — ou pelo menos já ouviu falar. Pelourinhos eram postes públicos em centros de praça onde transgressores eram chicoteados. “Ô, não eram os escravos?” Frequentemente, sim, mas pelourinho é algo medieval, que pré-data a escravidão africana e existe noutras partes. Vocês podem ter visto o pelourinho — ainda mais antigo que Salvador! — que eu lhes mostrei na Cidade Velha, em Cabo Verde, por exemplo.

Sim, acontecia de os transgressores merecedores de “punição exemplar”, na visão de quem mandava, serem geralmente os escravos. O Pelourinho aqui em Salvador é indissociável da diáspora africana, que fisicamente o construiu. As pedras do chão são testemunha, e os tambores também.

Já a arquitetura é portuguesa — quem quiser que perca seu tempo na África procurando “versões originais” do que há aqui e não encontrará, apenas de elementos esparsos, pois original aqui é a mistura. A comida tem muito de indígena (pergunte qual baiano passa sem farinha, algo inventado pelos índios), embora essa seja uma matriz cultural que faz back vocal na Bahia.

Sendo natural de Feira de Santana, essa esplendorosa metrópole a 108 Km de Salvador, eu perdi a conta das vezes que vim à capital. Quase nasci nela — diz a lenda que quando minha mãe começou a ter contrações, meu pai fez o trajeto em 55 minutos insistindo que eu nascesse em Feira (!). Enfim, eu gosto de ser do interior, e até hoje venho a Salvador como um turista. Desta vez, resolvi compartilhar algo do que vi.

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Eu adoro ir à parte histórica de Salvador, mas prefiro me hospedar na orla. Na Barra, você tem o mar e fica relativamente próximo de muitos pontos de interesse. Lá onde o sol se põe fica o afamado farol.
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O Farol da Barra, formalmente Farol de Santo Antônio, data originalmente de 1698. Esta torre atual é de 1839. Ele é o farol mais antigo das Américas ainda em operação!
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A praia do Farol da Barra e o mar com seus tons característicos.
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Você ainda ganha aquele drink de cortesia curtindo a brisa.

Na Barra, ou seja onde for na orla, você também aproveita um pouco da cidade real atual, não só seu seio turístico e histórico. 

Daí é fácil tomar o veículo da sua preferência e rumar para o Pelourinho — ou melhor, pode rumar primeiro para o menos visitado bairro adjacente de Santo Antônio Além do Carmo, e de lá ir devagarinho a pé para a área histórica mais conhecida. Sim, hoje em dia é seguro fazê-lo. 

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É possível que você passe pelo Dique do Tororó (ou Lagoa Vasco da Gama, há quem prefira) com as figuras dos orixás e a Arena Fonte Nova lá atrás.

Santo Antônio Além do Carmo

Santo Antônio Além do Carmo tem um nome engraçado, e um que só cheguei a começar a ouvir há poucos anos atrás. Não que o bairro seja novo — é do século XVI, e com certa alcunha já pré-definida pelo próprio governador-geral Tomé de Sousa, o fundador de Salvador em 1549. Ele foi quem definiu até onde a cidade iria.

Salvador tinha muralhas, embora hoje seja até estranho imaginar isso. (Estranho à época seria se não as tivesse). Circundavam o Pelourinho, que tinha uma de suas entradas na Igreja e Convento do Carmo, fundado em 1586. Para além do Carmo, todavia, haveria uma outra igreja fundada em 1595 e que viria a ganhar a alcunha de Igreja de Santo Antônio Além do Carmo

Ali, se daria uma das grandes resistências às invasões holandesas ao Brasil. (E ninguém me apareça com aquela cantilena velha de que teria sido melhor ser colonizado pelos holandeses. Quem quiser vá olhar o Suriname como é magnificamente desenvolvido, ou a Indonésia, que os holandeses colonizaram por 300 anos e cujas belezas se devem sobretudo ao que se conseguiu preservar de antes, não ao que os holandeses fizeram lá.)

A partir de 1580, Portugal numa crise de sucessão ao trono perde a sua independência e é anexado à Espanha, que também era senhora das terras baixas que viriam a ser a Holanda. Esta, a partir de 1568, rebela-se e começa a fazer frente à antiga senhora. Era uma questão de tempo até atacar — e tentar tomar para si — também os domínios ultramarinos portugueses, que agora eram oficialmente espanhóis.

Padre Antonio Vieira
O padre jesuíta Antônio Vieira (1608-1697) nasceu em Lisboa e morreu em Salvador. Era um itinerante, tendo passado a vida entre a Bahia, distintas outras partes do Norte e Nordeste do Brasil, Açores, Lisboa, Roma e Amsterdã como missionário, escritor e diplomata.

Os holandeses haviam sido investidores na agromanufatura açucareira no Brasil do século XVI, mas Filipe II de Espanha — como punição — proibiu todos os seus domínios de comerciarem com os rebeldes holandeses. Estes acabaram voltando seus olhos para o Oriente de especiarias, criando então a famosa Companhia das Índias Orientais em 1602.

Fortes e ricos, voltariam agora para tentar tomar o Brasil para si, e foi aqui em Santo Antônio Além do Carmo que se deu parte da resistência.

Em 1603, tomam a atual Indonésia das mãos dos portugueses. Numa escalada de sucesso econômico e militar, fundam em 1621 a Companhia das Índias Ocidentais, para repetir o feito. Em 1624, atacam Salvador da Bahia.

Salvador seria efetivamente tomada, até que no ano seguinte chegasse a maior armada jamais vista a sul da linha do equador, que entrou para a história como a Jornada dos Vassalos para a Restauração da Bahia (1625). O nome se deveu à quantidade de nobres vassalos do rei que vieram em meio aos mais de 12 mil soldados portugueses, espanhóis e napolitanos.

Que os holandeses mais tarde, em 1630, teriam sucesso atacando Olinda em Pernambuco todo mundo que estudou a História do Brasil sabe. De lá só sairiam em 1654 com a famosa Batalha dos Guararapes, eternizada no samba de Martinho da Vila Onde o Brasil aprendeu a liberdade, e que reza a lenda foi a primeira onde africanos escravizados, índios e portugueses combateram do mesmo lado. Guararapes segue sendo o nome do aeroporto do Recife.

De volta cá em Salvador da Bahia, a vida segue em Santo Antônio Além do Carmo. Os holandeses, depois de instalados em Pernambuco, tornariam a tentar tomar a capital da colônia em 1638, outra vez sem sucesso. É quando Antônio Vieira prega o seu sermão À beira das trincheiras que, por 40 dias, defenderam a cidade contra as tropas de Nassau. 

Passados quase 400 anos, a igreja hoje fica num lugar pacato com cara de bairro que eu vim visitar numa cálida manhã de verão.

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A Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, cujo desenho atual data do século XIX. O fato de ter uma torre só inspira muitos contos.
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Placa de mármore comemorativa da defesa de Salvador em 1638. Os líderes da defesa foram o napolitano Giovanni di San Felice, Conde de Bagnolo, e o brasileiro Luis Barbalho, que dá nome a um bairro aqui vizinho.
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A paz no Largo de Antônio Além do Carmo em Salvador.

Este pacato bairro ganhou atenção nacional depois de servir de cenário à novela Segundo Sol em 2018. O repentino interesse turístico levaria então a prefeitura a requalificar as ruas antigas do bairro, que hoje mistura ares residenciais e de visitação ao mesmo tempo.

Às alturas de 2019, os moradores queixavam-se das festas e do furdunço, mas aí veio a pandemia e arrefeceu tudo. Hoje há, sim, bares, pousadas e lojas claramente voltadas para os turistas, e onde não é difícil ver estrangeiros circulando, mas o lugar preserva suas tradições e continua a ter uma cara interiorana em pleno seio de Salvador.

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O bairro de Santo Antônio Além do Carmo preserva ares residenciais e certa cara interiorana. Ainda se reza, por exemplo, a trezena de Santo Antônio no mês de junho.
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O casario histórico de Santo Antônio Além do Carmo.
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O colorida Rua Direita, a principal em Santo Antônio Além do Carmo. Você pode percorrê-la até o fim, até chegar a outro marco-limite do bairro, a Cruz do Pascoal.

Eu não entrei na Igreja de Santo Antônio Além do Carmo porque estava fechada, mas dizem estar geralmente aberta à visitação pela porta lateral. Ninguém se preocupe, pois virão outros interiores de igrejas históricas aí mais abaixo. 

Desci toda essa rua pitoresca na maior tranquilidade com minha amiga Cláudia, em visita, até que ali pelos arredores da Cruz do Pascoal nos detivemos para almoçar algo típico e sem o zum-zum-zum do Pelourinho. Santo Antônio Além do Carmo é paz — paz e moqueca.

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Moquecar é preciso. Caso alguém se interesse em saber o lugar, foi o Cadê Q’ Chama?, bem despretensioso.
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Para lá você segue ao antigo Forte de Santo Antônio Além do Carmo, desativado.
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Para cá o casario da Rua Direita segue.
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…até chegar à Cruz do Pascoal, este monumento público de 1743 erigido aqui pelo português Pascoal Marques de Almeida em homenagem a NS do Pilar. Ele marca o fim do bairro de Santo Antônio Além do Carmo — até porque logo em seguida fica o Convento do Carmo.

Visitando a Igreja e Convento do Carmo em Salvador

A Igreja do Carmo, anexa ao antigo convento, é das mais belas e históricas que há em Salvador. Aqui ao que eram as Portas do Carmo (um dos portões de entrada nas extintas muralhas, por onde os holandeses atacaram em 1624), o convento e a igreja acabaram se tornando quartel de resistência. Na sacristia, em 1625, os holandeses assinariam sua rendição — para depois tentar de novo em 1638, como bem vimos.

Ao longo do século XVII, a igreja ganharia o embelezamento barroco que hoje a caracteriza.  

No século XVIII, ela ganharia sua irmã, a adjacente Igreja da Ordem Terceira do Carmo, levantada entre 1788 e 1860. Ambas são imperdíveis.

Já o convento deixou de sê-lo, como tantos América Latina afora. Há algumas décadas atrás, fizeram dele uma pousada, que em tempo se converteu no Pestana Hotel Convento do Carmo — que você pode pesquisar se procurar essa estadia histórica, mas não sei como ele anda de reformas no pós-pandemia.

Eu sei que cheguei ali tranquilo naquela calorosa manhã de sol, e fiz a mui fundamental visita desses interiores. Paga-se uma tarifa módica de seus R$ 10 (apenas em dinheiro). Se você quiser guia, há alguém disponível, com o custo negociável. Tínhamos o espaço quase todo só para nós em pleno verão na Bahia, e eu ficava — tolo — a me perguntar onde estavam os meus compatriotas que não estavam aqui apreciando esta beleza cultural e o nosso patrimônio histórico.

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A Igreja do Carmo em Salvador, fundada ainda no século XVI e embelezada em estilo barroco no século XVII. A entrada nela é gratuita. (Pela outra porta, mais à esquerda, é que você tem acesso à parte paga.)
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Interiores da barroca Igreja do Carmo em Salvador. Éramos muito poucos visitando.
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Registro da sua fundação ainda em 1580!
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Os detalhes da arte barroca no teto de madeira.

Agora vamos entrar, pois os interiores da Igreja da Ordem Terceira são ainda mais belos, e há aquela considerada uma das mais bonitas sacristias do Brasil, onde os holandeses assinaram sua rendição.

O lugar estava tão quieto que o moço cobrando as entradas teve que vir lá de longe para nos atender ao que bati palmas para chamá-lo, e depois foi acender as luzes para que pudéssemos fazer melhor a visita. (Triste Bahia, ó quão dessemelhante. Se fosse o exato mesmo lugar na Europa, haveria fila para entrar — com até turistas brasileiros nela.)

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Esta é a Igreja da Ordem Terceira do Carmo em Salvador (não deixe o Google confundi-lo com imagens outras, pois nem ele consegue tomar pé das igrejas históricas de Salvador). Fica imediatamente ao lado da anterior, só que esta tem duas torres.
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Olhem este interior barroco.
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O fundo com o órgão e os detalhes do teto pintado em verde. Esta igreja é produto da virada do século XVIII para o XIX.
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O interior da Igreja da Ordem Terceira do Carmo em Salvador da Bahia.

Vamos agora à sacristia, feita em estilo rococó após o incêndio que destruiu a anterior em 1788.

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A sacristia da Igreja do Carmo em Salvador, em estilo rococó. (O rococó veio depois e é mais leve que o barroco. O barroco domina o século XVII, em que a Europa se viu envolvida na Guerra dos Trinta Anos. No século XVIII, o chamado Século das Luzes, a coisa se areja. Este trabalha aqui começa em 1788.)
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Olhem a riqueza dos detalhes. Parece um tecido.
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Os interiores carmelitas.
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Catacumbas.
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A vista para a Salvador histórica — o Pelourinho lá adante.
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Sigamos, a descer a ladeira, Ladeira do Carmo, a qual nos entregará ao Pelourinho.

O Pelourinho

O Pelourinho é uma parte — o miolo —, mas não todo o centro histórico de Salvador, como você já compreendeu pelo que vimos de histórico até aqui, e que fica fora dele.

O Pelourinho começa informalmente quando essa Ladeira do Carmo acaba e você tem diante de si o Largo do Pelourinho após cruzar uma rua. Costuma ser onde o tráfego de carros termina, e onde há bom policiamento.

Curiosamente, ali numa das esquinas fica também a Casa do Benim, uma instituição de intercâmbio com aquele país da África Ocidental, de onde vieram muitos escravos para o Brasil e que eu lhes mostrei em detalhes na minha viagem por lá. (O engraçado foi que só depois de ir e ver a Casa do Brasil lá no Benim foi que eu soube que havia esta correspondente Casa do Benim cá.)

De todo modo, ao descer a Ladeira do Carmo, não deixe de ver a histórica Escadaria do Passo, que leva para a bela Igreja do Santíssimo Sacramento do Passo. De 1736, ela foi cenário do filme O Pagador de Promessas (1962), inspirado na peça do baiano Dias Gomes e único filme brasileiro a ganhar a palma de ouro no Festival de Cannes.

Escadaria o pagador de promessas
Cena de O Pagador de Promessas (1962), filme com Leonardo Villar, Glória Menezes, Antonio Pitanga e outros. Na trama, um homem simples faz uma promessa a Iansã e traz uma cruz desde o interior até a Igreja de Santa Bárbara, sua equivalente no sincretismo popular. O padre não o deixa entrar, e a população se vê envolvida no drama pessoal do pobre.
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A Escadaria do Passo hoje. A igreja, após 16 anos em restauração, foi reaberta à visitação em 2018.

Dizem que a sua torre tem das mais lindas vistas de Salvador.

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Sigamos.
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Homenagem ao mestre capoeirista Moa do Katendê, assassinado em outubro de 2018 por um bolsonarista fanático.
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A Casa do Benim, a quem ficou curioso.
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Estamos chegando…
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Eis o Largo do Pelourinho, que dá nome ao bairro, com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos aqui ao lado.

Tudo isto aqui é tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, faça-se saber. São muitos cantos, recantos, obras históricas e elementos culturais todos juntos.

Não dá para “ver tudo”, pois até quem mora aqui vive descobrindo coisas novas. Até nós baianos vivemos aprendendo sobre a História de Salvador com o querido jornalista José Raimundo (hoje em @zeraimundooliveira, que eu recomendo a todos seguir). O que a gente sempre faz quando vem aqui é ir ver alguns pontos altos e imperdíveis, como a Igreja de São Francisco ou o Balé Folclórico da Bahia.    

Nem tudo a UNESCO mostra, todavia. Por exemplo, não está tombado (ainda), mas você não deve deixar de comprar um “bolinho de estudante” com uma daquelas baianas do acarajé. É um delicioso bolinho de tapioca frito com açúcar e canela por cima. É vida.

Inclusive, os acarajés aqui provavelmente serão melhores que os da orla. Se aqueles lá que às vezes ganham fama (e preço) de acarajé da fulana ou da beltrana, nem sempre fazem jus à fama, e por vezes traem as origens africanas do quitute. Estes aqui no Pelourinho são muito mais autênticos.

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Minha amiga Cláudia com uma das simpáticas baianas aqui.
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A Igreja de São Francisco, uma das mais belas expressões do barroco no Brasil. Foi edificada ao longo do século XVIII.
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Esta igreja era também um convento.
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Azulejos portugueses. Este lugar, talvez você não saiba, foi eleito uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.
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O mui dourado interior da Igreja de São Francisco em Salvador.
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A figura de São Francisco da Misericórdia, retratado ao lado de Jesus na cruz.
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O teto.
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Os detalhes da arte barroca.
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Igreja de São Francisco. Se tiver de escolher uma, esta talvez seja a mais bela de todo o Pelourinho.

Estávamos por volta das quatro e meia da tarde quando fizemos essa visita. O sol já começava a querer cair na Bahia. 

Como tínhamos o plano de assistir ao espetáculo do Balé Folclórico da Bahia às 19h, fomos logo comprar ingressos. Essa é, a meu ver, uma das outras atrações imperdíveis aqui no centro histórico de Salvador. Vale até você programar a sua vinda aqui de acordo com a agenda deles — sempre às segundas, quartas e sextas nesse horário das sete da noite.

A apresentação se dá no pequeno Teatro Miguel Santana. Não há um sistema de vendas online, mas você pode enviar um e-mail para eles e pagar via Pix para garantir seu ingresso ou vir cá comprar pessoalmente a partir das 15h. Via de regra, não há problema comprar no mesmo dia; mas se quiser garantir 100%, escreva-lhes. A página com os emails é esta, mas para notícias sobre a agenda, como se tornou praxe no Brasil, a página do Instagram (@bfdabahia) tem mais informações.

Como ainda tínhamos um tempo até o espetáculo começar, fomos ver o pôr do sol do alto do Elevador Lacerda, outro ponto símbolo de Salvador, e tomar um sorvete de mangaba na Cubana, também essencial. Eu não sei se o pessoal da UNESCO chegou a experimentar dele, mas realmente precisamos tombar o sorvete de mangaba.

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As pitorescas ruas do Pelourinho.
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Sorvete de mangaba em cima com ameixa embaixo = vida.

Há uma sorveteria Cubana pequena na entrada superior do Elevador Lacerda e outra (maior) mais próxima do Largo do Pelourinho. O Google Mapas — ou a boca — lhe ajuda a encontrar. Ela só perde em tradição na cidade para a Sorveteria da Ribeira, em atividade desde 1931. As dezenas de sabores de frutas são de enlouquecer.

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O Elevador Lacerda na outra ponta do Pelourinho com vista para a Baía de Todos os Santos e o Mercado Modelo lá embaixo, um espaço com artesanato e comidas. Eu recomendo. O elevador, em operação desde 1873 e com esta cara desde 1930, custa meros 15 centavos. É o vínculo histórico entre a chamada cidade alta e a cidade baixa de Salvador.
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Na parte alta, o Elevador fica na Praça Tomé de Sousa onde está este Palácio Rio Branco, sede histórica de governo na Bahia, onde o próprio Tomé de Sousa, governador-geral do Brasil, despachava no século XVI. Este edifício de inspiração francesa data de 1919.

Esse Palácio tem uma varanda épica com vista memorável para a Baía de Todos os Santos — que faz até você voltar no tempo e imaginar como deviam se sentir aqueles portugueses dos primeiros séculos do Brasil aqui. 

Entretanto, em 2022 o Palácio foi cedido por 35 anos à iniciativa privada para a instalação de um hotel de luxo. Como no Brasil o dinheiro vai para outras coisas e não sobra para a preservação do patrimônio cultural (vide o incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro), o governo diz que é a forma de a restauração e manutenção do palácio ser bancada.

Eu espero que ao menos a varanda com vista para a Baía de Todos os Santos continue acessível aos não-endinheirados. Quando vim aqui, estava ainda tudo cerrado para a reforma.

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Esta é a Praça da Sé, logo ao lado da Praça Tomé de Sousa. No centro, vê-se aqui um busto de Dom Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil — ele que foi comido pelos índios Caetés em 1556.
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A quem se perguntava qual dentre tantas igrejas era a catedral de Salvador, ei-la. Essa é a Igreja da Sé, consagrada em 1672. Formalmente, é a Catedral-Basílica Primacial de São Salvador, onde até hoje fica o arcebispo primaz do Brasil.
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Esta praça no Pelourinho em frente à catedral é o chamado Terreiro de Jesus.

Ao contrário do que muitos pensam, o nome do Terreiro de Jesus nada tem a ver com o candomblé. A referência é aos Jesuítas. Já “terreiro” é um pedaço de terra — palavra portuguesa que no tempo colonial ainda não tinha a conotação que tem hoje, como lugar de culto das religiões de matriz africana.

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Nessa praça fica a mais antiga instituição de ensino superior do Brasil, a Faculdade de Medicina da Bahia, inaugurada em 1808 quando da chegada da família real portuguesa. (Fica sempre um pessoal ali jogando capoeira, mas já saiba que se tirar foto de perto, eles virão pedir dinheiro. É lugar turístico.)
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O Teatro Miguel Santana no Pelourinho, aonde afinal chegávamos para assistir ao espetáculo do Balé Folclórico da Bahia.

Demos as nossas voltas, tomamos o nosso sorvete, vimos o sol cair ali à beira do Elevador Lacerda por sobre a Baía de Todos os santos e, é claro, fomos abordados pelos matutos de rua que ficam a oferecer isso ou aquilo. Você já saiba que qualquer coisa de brinde, ou de graça, virá seguida de um pedido disso ou daquilo. É o mesmo que ocorre em tantos lugares turísticos mundo agora. Até eu, de Feira de Santana, conheci um cidadão que dizia que andava por lá e queria que eu lhe comprasse isso ou aquilo. Despiste.

A noite cai rápida no Pelourinho, e as luzes da rua se acendem. Você não demora a sentir certo zum-zum-zum como se a energia do lugar se convertesse logo em ambiente de noitada — não necessariamente num mau sentido, mas no sentido de que as lojas e o casario histórico aí dão lugar aos bares e à música como protagonistas. As ruelas aí, naturalmente, requerem maior atenção da sua parte.

Nós não nos demoramos a chegar ao Teatro Miguel Santana. Como não há assentos marcados, vale a pena ser dos primeiros a entrar. O espetáculo dura 1h e custa R$ 100 por pessoa. É um dinheiro bem investido se você gosta de cultura autêntica. (É capaz de sair mais barato que a conta de uma refeição no restaurante).

A atração não é um balé no sentido clássico da palavra, mas segue a tradição dos muitos balés folclóricos mundo afora. Ou seja, se trata de uma apresentação cultural com aquilo que é típico de um povo. Já lhes mostrei o balé folclórico nacional equatoriano Jacchigua em Quito e o Balé Folclórico Mexicano em outras ocasiões. Agora é a vez da Bahia, que traz um misto de devoção aos orixás e tradições populares.

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As dançarinas no Balé Folclórico da Bahia em Salvador, a figura de Iemanjá ali no centro.
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Oxum, a orixá das águas doces, figura feminina suave e maternal. Contrasta-se com Iansã, a orixá guerreira.
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Capoeira.
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Samba de roda, a origem do samba que depois prosperou no Rio de Janeiro.

Eu sempre trago visitantes aqui, e até hoje não houve quem não gostasse — nem quem gostasse pouco. Abaixo, um vídeo curto de 1 minuto.

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O Largo do Pelourinho ao cair do dia no centro histórico de Salvador.

Epílogo: A Igreja do Bonfim

As fitinhas do Bonfim tornaram-se símbolo de Salvador e da Bahia nesta época tão imagética em que vivemos. Não são coisa de hoje — as fitas com a medida exata de 47cm do braço direito da imagem do Senhor do Bonfim é uma tradição católica antiga que nos anos 1960 caiu no gosto do povo como indumentária, e que se renovou nesta era do Instagram.

Não há como passar pela Salvador histórica e simbólica sem essas Lembranças do Senhor do Bonfim, com a igreja mais benquista de todo o estado.

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As famosas e coloridas fitas do Bonfim.

A Igreja do Bonfim fica um pouquinho longe do centro histórico de Salvador, a uma boa meia hora de carro (a depender do trânsito). (Usuários de aplicativo, favor verificar que se trata da Igreja do Bonfim na Praça do Bonfim no bairro Bonfim, não outras homônimas em bairros outros de Salvador).

Ela fica num lado mais afastado e popular da cidade, perto do bairro da Ribeira que dá nome à sorveteria e da Ponta de Humaitá, “pedra preta” em tupi-guarani. Foram bandas aonde eu vim no dia seguinte, após aquela jornada por Santo Antônio Além do Carmo e pelo Pelourinho.

O Bonfim, faça-se saber, é uma tradição católica antiga — não é uma invenção da Bahia, ainda que a Bahia o tenha de muitas maneiras reinventados. (“Lavagem do Bonfim” só tem aqui.)

O “fim” não tem a ver necessariamente com as navegações portuguesas, mas com o fim de Cristo na cruz, a figura do Ecce Homo com a coroa de espinhos — daí a imagem ser a de Jesus crucificado. É, portanto, uma das muitas figurações tradicionais de Jesus Cristo. Os portugueses já a cultuavam desde pelo menos os idos de 1600, muito antes de o capitão Theodózio Rodrigues de Faria trazer para cá uma réplica da imagem de Setúbal para cá em 1745. 

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A Igreja Nosso Senhor do Bonfim em Salvador foi completada em 1772 com este aspecto bastante português e interior rococó.
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O interior da Igreja do Bonfim em Salvador.
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O teto.
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Os azulejos portugueses do século XVIII.
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A imagem de Nosso Senhor do Bonfim sobre o altar.
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No lado de fora do gradil pleno de fitinhas coloridas, não faltam os praticantes das religiões de matriz africana a oferecer seus benzimentos.

Aos curiosos, a famosa Lavagem do Bonfim — que ocorre todos os anos na quinta-feira que antecede o segundo domingo do ano após o Dia de Reis — começa em 1773, quando mandam os escravos lavarem a igreja para a Festa do Senhor do Bonfim, que se dá no domingo subsequente, geralmente o segundo domingo do ano. 

É então que os escravos passam a associar Jesus a Oxalá — cuja figura vem mesmo do Inshallah islâmico levado pelos árabes à África Ocidental na Idade Média, e que os iorubás construíram como a imagem do deus criador do mundo. A cor branca se associa à pureza que se vê nas roupas dos pais ou mães de santo, do Jesus essênio, assim como da sexta-feira sagrada aos muçulmanos, então junta-se tudo.

Feliz Bahia, ó quão dessemelhante! És original na mistura. 

Eis aí uma pitada da Salvador histórica e sua riqueza cultural.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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