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França Île-de-France

150 anos do Impressionismo: Visitando a exibição Paris 1874 no Musée d’Orsay

Há 150 anos, em 1874, uma série de pintores franceses em Paris desafiaram as convenções da época para expor suas obras do que veio a ser conhecido como o estilo impressionista.

Não faltam representantes (hoje) famosos dessa escola: Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet, e uma série de outros franceses ou estrangeiros que levariam o estilo mais além — como o holandês Van Gogh.

À época, contudo, o que eles faziam com aquelas pinceladas grossas, falta de contornos precisos e ênfase em temas do cotidiano era um ultraje, considerado falta de disciplina artística. Era também um rompimento com a tradição europeia de pintar temas da Antiguidade greco-romana, da nobreza ou bíblicos. Pintar um sol nascendo por detrás de um porto industrial ou uma rua da cidade moderna? Ficou louco?

O bem-querido Musée d’Orsay em Paris — o maior repositório de obras impressionistas no mundo, que já lhes mostrei noutra ocasião — está em 2024 com uma exposição temporária sobre essa ocasião de 1874, quando os impressionistas se atreveram a entrar em cena, e suas obras.

Quem acontecer de vir a Paris até agosto, recomendo vir ver. Quem não, acompanhem-me pois eu vim visitar e mostro algo a vocês. 

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O Musée d’Orsay é dos mais benquistos de Paris e o segundo mais visitado da capital francesa. Algo menor que seu vizinho Louvre (que é o maior e mais visitado museu do mundo) do outro lado do rio Sena, o Musée d’Orsay pode ser visto todo em algumas horas. Sua ênfase está na arte francesa do século XIX, com especial atenção aos impressionistas. Eu mostrei algumas dessas obras da exposição permanente numa postagem anterior.
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Entramos. Bem-vindos ao Musée d’Orsay.

Como entrar no Musée d’Orsay

Algumas breves observações práticas aos navegantes. É imprescindível fazer uma reserva online com horário marcado para visitar o Musée d’Orsay. Você compra online o ingresso com dia e hora marcada, e dali tem direito a entrar dentro de meia hora a partir da hora escolhida. Não é obrigatório imprimir nada, basta mostrar no telefone.

A entrada custa €16, o que é aproximadamente o valor de uma refeição simples com bebida em Paris. R$ 80 também é o que se gasta fácil numa praça de alimentação de shopping no Brasil, e eu lhes garanto que o Musée d’Orsay será uma experiência bem mais memorável. (Menores de 18 não pagam, assim como menores de 25 com cidadania europeia, e todo primeiro domingo do mês o museu é gratuito, mas reservar online continua sendo preciso.)

Pagina do Musee d Orsay
A página oficial do Musée d’Orsay em espanhol com a exposição temporária Paris 1874 em destaque. Na parte de bilhetes, há apenas as opções inglês ou francês, mas não há mistério, e você pode usar a tradução automática do Google Chrome se tiver dificuldades.

Chegando: Paris neste começo de primavera

Paris estava nebulosa neste início de primavera — nuvens prateadas por sobre o rio Sena, chuviscos ocasionais e a temperatura ainda na casa dos 10 graus. Parecia mais um fim de inverno. A exceção ficou por conta das plantas, já a florescer. Já se via o verde das folhas e o róseo de algumas flores. O Jardim das Tulherias, na oposta margem do rio ao Musée d’Orsay, pululava de gente.

Ninguém ache que há mais tempo vazio em Paris. Parece não haver. Ao contrário, o Musée d’Orsay estava (in)devidamente abarrotado. Fila para os já insuficientes banheiros, fila para deixar os casacos no vestiário, fila para retirar o audioguia (pago à parte) e para entrar no museu mesmo que você já tenha o ingresso com hora marcada.

A gente vai tentar fazer vocês entrarem dentro de meia hora do seu horário”, disse-me a jovem funcionária francesa sem lá muita empatia quando vi a fila hedionda na minha frente e lhe perguntei se precisaria aguardar mesmo já tendo ingresso comprado com horário marcado. Todos ali aparentemente também tinham. A fila andava a conta-gotas, e fiquei com a óbvia impressão de que eles do museu estavam lidando com um número maior de gente do que conseguiam administrar. 

Afora a segurança, os funcionários pareciam ser todos aqueles jovens de 20 e poucos anos em contrato temporário, chegados após a pandemia e agora “se virando nos 30” com o retorno das massas. Eu quero ver quando chegarem os Jogos Olímpicos, para os quais Paris inteira parece estar em obras.

(Se houver algum idoso no seu grupo, não hesite em buscar o acesso prioritário. Não é por lei como no Brasil, mas com persuasão se consegue. Essa fila é bem pequena precisamente porque poucos sabem que ela existe.)  

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Paris nesta Páscoa de 2024, nuvens prateadas sobre o rio Sena e o Musée d’Orsay lá do outro lado.
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O famoso Jardim das Tulherias, que fica entre a Place de la Concorde e o Museu do Louvre. O lugar é um charme que transporta você de volta ao século XVIII com aqueles arbustos bem podados e as estátuas.
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Paris seguia vivaz e pulsante como de costume, sob qualquer clima.

Paris 1874: Surge o Impressionismo

Foi numa dessas ruas como a que vocês viram acima que Monet e turma criaram coragem para apresentar suas obras.

Eram todos pobres. Se a França era uma potência pujante no século XIX, imperialista e tudo o mais, vale saber que à época a Europa tinha níveis de desigualdade econômica semelhantes aos da América Latina atual. O Estado de bem-estar social só apareceria depois; nós estávamos aqui na Europa de Os Miseráveis de Victor Hugo (1802-1885).

Paris, em especial, estava destroçada, física e espiritualmente. A França acabara de perder a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), que viu o kaiser alemão Guilherme I ser coroado em pleno palácio de Versalhes. Ela perdia as regiões fronteiriças da Alsácia e da Lorena para os germânicos, e parecia perder também o posto de primeira potência continental da Europa para agora uma Alemanha unificada e em ascensão. O efeito moral era profundo para o país que se via como o número um.

Paris apos a Guerra Franco Prussiana
Paris arrasada em 1871, após a Guerra Franco-Prussiana. Note que já havia os amplos boulevares do chamado estilo Haussmanniano atual.

(Aquelas regiões fronteiriças seriam recuperadas em 1945, e o posto de primeira potência do continente a França hoje parece a caminho de recuperar, devido à debacle alemã acelerada pela quebra de vínculos econômicos com a Rússia na esteira da invasão da Ucrânia — Mairon prevê.)

Paris entre 1853 e 1870 já havia sido redesenhada sob o Barão Haussmann — urbanista apelidado de “o artista demolidor”, que destruíra os bairros medievais de Paris para fazer da cidade o que temos hoje, com seus arrondissements, avenidas amplas e edifícios beges de cinco andares (do chamado estilo Haussmanniano). Após 1871, Paris e a França precisavam se reinventar de novo.

Claro, a França ainda era uma potência imperial — a segunda maior do mundo, após a Inglaterra —, e tal qual um solo fértil após a queimada, ela se recompôs.

Vieram os parques públicos da cidade, novos monumentos nacionais e religiosos como a Basílica do Sacré-Coeur em Montmartre (1875), a Ópera Garnier (1875) e a Torre Eiffel (1887), e surgiram novas expressões artísticas como o Impressionismo e o Art Nouveau a caracterizar aquela que depois seria chamada a Belle-Époque (1870-1914).

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Claude Monet, Boulevard des Capucines (1873-1874). O Boulevard dos Capuchinhos em Paris, próximo à Ópera Garnier. Uma das ruas principais da cidade, aqui retratada no seu movimento de cidade moderna. Note o burburinho e as pinceladas com contornos pouco claros.

Como surgiu a alcunha de arte “impressionista”

Não foi todo mundo que gostou dessa nova onda de se pintarem quadros sem contornos precisos e com temas tão ordinários. A crítica, na verdade, caiu matando. “Impressionismo”, inclusive, foi primeiro de tudo um termo satírico empregado pelo crítico de arte Louis Leroy após a exposição em 1874.

Tudo começou assim: os pintores vanguardistas se organizaram para expor suas obras no ateliê de um escritor e fotógrafo conhecido, de modo independente. O tradicional Salão de Pintura e Escultura de Paris havia mais de uma vez recusado expor aquelas obras tão heterodoxas, estranhas, e os artistas resolveram montar eles próprios sua exibição, entre 15 de abril e 15 de maio de 1874.

Para o catálogo, todos os quadros precisavam de nome. Monet tinha um mostrando o sol nascente visto do porto de Le Havre, no norte da França, e lhe perguntaram que nome tinha. Ele, sem saber ao certo, improvisou. “Ponha ‘Impressão’ “, respondeu. 

Assim surgiu Impression, soleil levant, a alcunha que daria origem ao nome do estilo.

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Impression, soleil levant (1872), por Claude Monet. O pintor aqui dota de poesia as chaminés, a fumaça e as gruas do porto francês de Le Havre sob o alvorecer da modernidade.

Impressão eu tive mesmo“, escreveria Louis Leroy no jornal satírico Charivari sem saber que precisamente essa crítica o faria entrar para a História. “Eu me dizia também que, já que eu estou impressionado, devia haver alguma impressão ali — e que liberdade, que facilidade na feitura! Até um papel de parede em estágio embrionário é mais terminado que aquela marina ali.”

A crítica era que os quadros pareciam inacabados. As cores, por demais bagunçadas. As pinceladas, pouco nítidas. Enfim: nada a ver com as normas acadêmicas da pintura europeia desde o Renascimento.

Tudo estava errado, inclusive a temática desconexa com os temas clássicos, mas Monet dizia que a pintura precisava acompanhar a vida moderna e tratar dela, que agora era a realidade francesa num país em crescente urbanização e industrialização. A cidade moderna agora havia se tornado tema.

Essa era também uma sociedade mais globalizada, a França a aprontar das suas quatro continentes afora e a trazer certas influências. Por exemplo, aponta-se que há certa influência da arte japonesa nos tons de soleil levant acima.

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Baile no Moinho de la Galette [Bal au Moulin de la Galette], Pierre-Auguste Renoir, 1876. Os citadinos, artistas e boêmios num baile naquela Montmartre clássica em formação, que viria a ser consagrada em tantas obras da música e do cinema (mais recentemente, em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Meia-Noite em Paris).
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Le Havre, barcos de pesca saindo do porto [Le Havre, bateaux de pêche sortant du port], Claude Monet, 1874. O porto de Le Havre, da França agora em industrialização, pleno de gente, barcos e fumaça.
É claro que nem tudo era a cidade, e você não deve achar aí que há uma romantização da poluição. O que há é uma impressão subjetiva do que se via.

Em verdade, o movimento romântico europeu décadas atrás, desde os fins do século XVIII, já fustigava a modernidade fria, excessivamente racional, reclamado um retorno às origens, com romantização do medievo. É quando surge o neo-gótico, etc.

Camille Pissarro (1830-1903), por exemplo, um dos impressionistas que apresentaram obras nessa exposição de 1874, preferia muito mais a França campestre. Ele não estava sozinho. Em tempo, Monet ganharia ainda mais fama pintando seus lírios e jardins de Giverny (que eu lhes mostrei ao vivo na postagem de lá). 

O paisagismo era um estilo já consolidado. A inovação impressionista, afora o aspecto visual dos quadros, era que o pintor se punha lá no lugar uma boa parte do tempo, ao contrário da tradição acadêmica de pintar essencialmente nos ateliês.

Começa aquela coisa arquetipicamente francesa do pintor com a boina na rua, pintando o que tem diante de si. Era a escola chamada de “ao ar livre” (en plein air), algo que virou uma expressão cotidiana nas línguas latinas e muita gente nem sabe de onde vem.

Essencial era captar a sensação, um quê de subjetividade de como o pintor percebia aquele mundo em movimento, fosse ele o burburinho da cidade ou o movimento dos campos e ciclos da natureza. Desse modo, quem vê a pintura tem não só um registro de um lugar, mas também uma impressão da impressão do pintor. Esse é o espírito do Impressionismo.

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Pomar em flor [Verger en fleurs], de Camille Pissarro, 1872.
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Os campos no mês de junho [Les champs au mois de juin], de Camille Pissarro, 1874. Os campesinos a trabalhar, paz, harmonia e quiçá felicidade no ápice da primavera do hemisfério norte.
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Estação ferroviária Saint-Lazare [Gare Saint-Lazare], por Claude Monet, 1877. Monet novamente rompe com a tradição ao registrar a sua impressão de uma das principais estações de Paris, essas catedrais da era industrial que os artistas convencionais viam como indignas de serem pintadas. Monet viajava por aqui com frequência. Que impressões tinha?
Eu já abordei noutras ocasiões esse período do mundo europeu se abrindo e em transformação.

Na literatura, as obras do também francês Júlio Verne (Volta ao Mundo em 80 Dias, O Farol do Fim do Mundo, registrado em Ushuaia, entre tantos outros), de quem já lhes falei mais em Amiens e em Nantes, cutucavam a imaginação tanto acerca dos quatro cantos do globo quanto das possibilidades da ciência. Ganhava tração o gênero da ficção científica e toda aquela estética steampunk de máquinas fumacentas que o levam ao futuro ou o fazem voar.

Com a subjetividade também cada vez mais em evidência, não demoram a ganhar atenção os trabalhos de Sigmund Freud já nos anos 1890. Vincent van Gogh, que produz muito de sua obra no fim da década de 1880 (portanto 15 anos após a exposição impressionista de 1874), já é considerado pós-impressionista, pois traz temas mais abstratos nos seus quadros e certo exagero proposital de formas. E aí a gente começa a ver como vai ganhando corpo o que surgiria depois como Arte Moderna. 

Foto de Monet colorida 1920
Claude Monet já um senhor em 1920, em Giverny, França.

A exposição comemorativa de 150 anos no Musée d’Orsay

Esta exposição dos 150 anos de Impressionismo no Musée d’Orsay em Paris trata portanto do momento em que tudo isso aí começou. Ou se não “começou” do zero — o que na arte nunca existe —, deu um salto artístico de rompimento com a tradição e abertura para novas formas de expressão visual. Essas obras que eu lhes mostrei acima são algumas das principais.

Não ache que será dos poucos a se interessar. Quase não havia espaço para o número de visitantes que abundavam pelos saguões da exposição. Eu sugiro evitar os fins de semana, assim como as terças (quando o Louvre fica fechado e as hordas de turistas vêm para cá). Às segundas, é o Musée d’Orsay quem se fecha, então de quarta a sexta é o ideal.

Eu não tenho medo de gente — não vou lhe dizer que gosto de multidões, mas não deixo de fazer as coisas que eu quero por causa disso —, então ali eu me imiscuí e circulei, aproveitando também para rever algumas obras da coleção permanente de que eu me lembrava da visita anterior. O ticket de entrada é o mesmo e dá acesso a tudo.

A única coisa que necessita de um ingresso à parte é um show de 45 minutos com óculos de realidade virtual no que eles chamam de “experiência imersiva” sobre a exposição impressionista de 1874. Tem um certo aspecto de video game, mas fica aí a seu gosto. Ela custa outros €16, ticket que pode ser adquirido online ou in loco, com entrada apenas até as 16h.

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Experiência imersiva em realidade virtual reconstruindo o que foi aquela exposição em 1874.
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Tem um certo ar de video game, mas não deixa de ser interessante que eles utilizem estes recursos.
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A materialidade obra em si, todavia, não deixa de ser irreproduzível. Este é um quadro de Renoir, La Balançoire [o balanço ou a gangorra], de 1876.
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O charmoso saguão principal do Musée d’Orsay em Paris.
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Na exibição dos 150 anos, você vê também as obras que estavam sendo expostas naquele mesmo ano de 1874 no prestigioso Salão de Pintura e Escultura de Paris.
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Pululando de gente na exposição comemorativa dos 150 anos do Impressionismo em Paris.

Você leva uma boa hora só nesta exposição temporária. Não é difícil se transportar de volta àquele tempo através da imaginação.

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O lindo quadro de Jules Breton que vocês viram na foto de capa, ele que antecede os impressionistas, mas já aborda temas camponeses. Aqui, em A Falésia [La Falaise], temos a jovem da zona rural que deixou seus afazeres a fitar o mar. Esperava alguém? Contemplava a vida?
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150 anos da primeira exposição impressionista.
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Bem-vindos a Paris, sempre.

A quem curte o burburinho cultural da capital francesa, saibam que esse de 1874 foi dos momentos altos dos últimos séculos. As obras seguem aí para todos nós apreciarmos.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “150 anos do Impressionismo: Visitando a exibição Paris 1874 no Musée d’Orsay

  1. Maravilha das maravilhas, meu jovem viajante!…
    Que espetáculo magistral!…
    Uma explosão de arte, de inovação, sensibilidade e atrevida\corajosa manifestação do ser artístico, protagonista das mudanças percebidas, sentidas e vistas como oportunas.
    Uma beleza!…
    Curiosa , embora previsível, a postura da crítica da época…
    Linda postagem.
    Amei

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