Não, ninguém ache que está adentrando um teatro mal-assombrado. O assombro, na verdade, fica por conta da beleza deste lugar, que inspirou obras da realidade e da ficção mundo afora.
A Ópera Garnier em Paris, também chamada de Palácio Garnier (Palais Garnier) devido ao seu luxo, é mais bela por dentro do que você talvez imagine. Concluída em 1875 pelo arquiteto Charles Garnier, foi ela a “original” que deu o tom a tantos outros emblemáticos teatros mundo afora — como o Theatro Municipal no Rio de Janeiro, o Teatro Amazonas em Manaus, o Teatro Colón em Buenos Aires, e tantos outros — numa época em que a França era a grande referência cultural do mundo.
Essas foram obras da vida real. Na ficção, nenhuma obra inspirada aqui é mais famosa que O Fantasma da Ópera, que muitos conhecem através do musical de 1986 ou de canções, sem saber que se trata originalmente de um romance policial. O autor francês Gaston Leroux o publicou em 1910 depois de se inspirar nos livros de detetive de Sir Arthur Conan Doyle — especificamente a série Sherlock Holmes — e, evidentemente, neste teatro e nos rumores que aqui circulavam quando da sua fundação.
Vamos visitar estes interiores. Eu já havia vindo a Paris múltiplas vezes, visto a Ópera Garnier por fora e jamais entrado. Hora de mudar isso.

Estão vendo ali escrito Academie Nationale de Musique? Era para ser Academie Imperiale de Musique, mas havia uma pedra (alemã) no meio do caminho, e o nome foi trocado de última hora.

Paris em obras: 1874
Na postagem anterior sobre a primeira exposição impressionista, no ano de 1874, eu contei sobre como Paris estava em obras após a debacle francesa diante dos alemães. Foi a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), aquela em que o chanceler prussiano Otto von Bismarck se destacou e que basicamente “pariu” a Alemanha unificada — diante do medo de uma poderosa França, que décadas antes com Napoleão havia atropelado os alemães desunidos sem cerimônia.
Do lado da França, foi um trauma. Pela primeira vez em muito, muito tempo, outra potência na Europa continental não apenas lhe fazia frente como a superava. A reinvenção da França, do ponto de vista cultural, foi a Belle-Époque — uma época de grande fulgor cultural e efervescência intelectual. (Sim, tudo financiado com a exploração das colônias na África, no Caribe e na Ásia, mas a vida é assim complexa. O Carnaval com dinheiro de contravenção também é.)
Uma fatalidade, porém, foi o império francês enquanto organização política. O imperador Napoleão III, sobrinho do Napoleão original, e que havia sido eleito presidente da república de 1848 a 1852 antes de decidir recompor a monarquia e seguir reinando ao estilo do tio, acabou capturado pelos alemães em 1870 e deposto in absentia pelos franceses. Claro, a França não deixaria de ser um império de fato, com colônias mundo afora, mas isso agora se daria no esquema de uma nova república — como faz até hoje com posses ultramarinas como a Nova Caledônia e a Polinésia Francesa, e como fazem também os Estados Unidos com Porto Rico e, na leitura de alguns, o Havaí.
Só que daí não dava mais para chamar a Ópera Garnier de Academia Imperial de Música. Troca-se o nome, mantém-se o projeto. É um pouco como ocorre com os impérios após o nome cair de moda.
A ópera que já estava sendo levantada de 1861 finalmente seria inaugurada em 1875.


Paris em obras: 2024
Eu não sei quando me lês, mas neste momento em que escrevo o exterior da Ópera Garnier está todo coberto por tapumes. Certamente, estão restaurando essas fachadas a tempo dos Jogos Olímpicos de 2024. Quem quiser ver o prédio por fora em todo o seu esplendor, sugiro aguardar. As fotos externas foram da minha visita anterior a Paris. Já as internas são todas de agora.
Paris toda parece estar em obras, e até algo inusitado me tem acontecido desta vez na toada desses preparativos: os parisienses estão me respondendo em inglês quando meu francês dá uma fraquejada. Eu facilmente passo por francês (com algum sangue árabe, certamente, mas isso o universalismo da cultura social francesa evita trazer à tona no dia-dia). Meu francês, embora fluente, volta e meia dá umas derrapadas, e eu não me lembro de jamais alguém ter me voluntariado respostas em inglês — até este ano, e somente em Paris (não nas outras cidades da França). Vai ver houve uma decisão dos patrões de fazer Paris parecer mais acolhedora ao estrangeiro e tentar quebrar aquela pecha de que a sua gente é antipática.
Enfim, Paris em obras. Foi neste contexto que eu vim visitar o interior da Ópera Garnier.


Os interiores do Palácio Garnier
Quando você entra, não demora a entender por que alcunharam logo esta ópera de “palácio”. É um verdadeiro palacete, com suas escadarias de mármore, lustres grandiosos, esculturas e detalhes em ouro.
A visita, inclusive, é mais longa do que você pode inicialmente imaginar. Mesmo sem um guia conversando, é difícil completá-la em menos de 1h, sobretudo se for tirando fotos. Para além do auditório e das magníficas escadarias, há o salão social e todo um pequeno museu que fizeram ali nos andares superiores.
Logo na entrada, antes mesmo de ver a magnificência do teatro, você se dará com um dos pontos altos artísticos aqui: a Pítia ou Pitonisa, uma escultura em bronze inusitada. Inusitada porque é uma obra feminina, algo raramente contemplado à época. Adèle d’Affry, duquesa de Castiglione Colonna, acabava assinando seus trabalhos com o pseudônimo de Marcello. Aqui retratada, uma daquelas altas sacerdotisas de Apolo — deus inspirador das artes — no Oráculo de Delfos na Grécia Antiga.




É a partir dali que você tem, à direita ou à esquerda, o início da grande escadaria da Ópera Garnier, que ascende três andares.


Por detrás, os lustres sustentados por estátuas como castiçais. No alto, outros pendentes. No teto, mosaicos com um quê de iluminuras, estilo neo-bizantino que era moda na França dos fins do século XIX, e que você viu também no interior da Basílica do Sacré-Coeur em Montmartre.
No alto do alto, sob um teto uma pintura do francês Isidore Pils intitulada O Triunfo de Apolo.







Aos leitores de plantão ou entusiastas da ficção e que porventura não tenham lido ainda O Fantasma da Ópera (1910), a obra se passa na década de 1880 em Paris. Nela, a jovem cantora sueca Christine Daaé (a protagonista) substitui num dia a soprano da casa, Carlotta, que caiu doente. A apresentação é estrondosa, e depois se descobre que ela mantinha contato com um fantasma, Erik, que a aconselha.
O caldo entorna quando o fantasma (que é perfeitamente visível, mas macabro e cheio de sortilégios) decide que quer que Christine se case com ele, isso no contexto de uma encenação de Fausto — aquela obra de Goethe em que o cara faz pacto com o Cão. Ela pede ajuda a Raul, um amigo de infância que a viu se apresentar, e aí a história continua. Não vou contar como termina. O livro é pequeno, e se acha traduzido em diversos idiomas.

O auditorium de espetáculos
O auditório, via de regra, não está acessível aos visitantes (e você verá placas dizendo isso), mas se você tiver sorte conseguirá dar uma olhadela lá do alto, de um dos andares superiores. Fique atento a alguma porta que esteja aberta — provavelmente haverá alguns outros curiosos como você já ali.
A saber, eu coloquei mais acima que esta ópera era a original (entre aspas) que inspirou tantos teatros similares no fim do século XIX e começo do XX. Entretanto, não há coisas na arte que não tenham encontrado inspiração n’algo que veio antes. Além do mais, muito da cultura francesa revela raízes italianas quando você inspeciona, e estes teatros não são exceção.
Isso não surpreenderá a ninguém do ramo do teatro ou da arquitetura, habituados a termos plenamente italianos como soprano, sotto voce, mezanino, e por aí vai. Foi da Itália que vieram estas tendências dos teatros com temas renascentistas e auditórios em formato de ferradura margeados de camarotes. (Mais sobre as influências italianas na cultura da França você lê nesta outra postagem no Château de Blois.)




O Salão Social (Grand Foyer)
Visitantes menos atentos talvez terminem a visita aqui, após ver o auditório, mas não seja esse você.
Se as escadarias são incríveis e o auditório é um pouco do mesmo nível dos demais teatros desse período, o salão social da Ópera Garnier — o seu chamado Grand Foyer — mostra mais uma vez por que esta ópera-mãe está um nível de luxo acima das outras.
No andar mais superior, onde andava a alta sociedade, você tem áreas embasbacantes. Algumas são relativamente simples, até que você chega ao luxo do salão social, um saguão dourado de mais de 150m de extensão.





Você, se deixar, fica ali um tempo só se embebendo de toda aquela beleza na penumbra.

Se quiser, dá para ter toda uma aula de Grécia Antiga ali, com as figuras das musas e as virtudes associadas. Calíope, musica da eloquência e da poesia épica, aqui associada à dianoia, termo grego para descrever a capacidade de articulação.
Erato, a musica da poesia lírica, associada a sophia, a sabedoria. Terpsícore, musa da dança, associada a phantasia, a capacidade de imaginação. Euterpe, a musa da música, associada a charis, a graça (à qual os teólogos cristãos depois dariam toda uma outra leitura). E assim vai.
(Você fica meio que com a impressão de que os gregos antigos entendiam melhor das coisas humanas e que a nossa sociedade emburreceu em certos aspectos, mas enfim.)



E assim mais de uma hora se passa fácil nestes interiores da Ópera Garnier de Paris. Quem quiser pode, naturalmente, vir cá também para assistir a algum espetáculo. A página oficial tem sempre a programação atualizada.
Estejam aí apresentados a este que é dos maiores símbolos da Belle-Époque francesa.





Uauuuuuu!……..
Que é. Que é isso , meus senhores e senhoras… Entramos um algum Conto de Fadas!… Será que nos transportamos para o Palácio da Rainha má da Branca de Neve…
Que espetáculo!…
Quanta beleza, arte, cultura, história!…Divinamente elaboradas, construídas e expostas.
Uma verdadeira Obra de Arte, toda a Ópera
Espetacular!… Estonteante a visāo que se apresenta aos olhos deslumbrados de quem chega!… Fantástica obra.!… Um primor!…
Dificil de imaginar tamanha beleza, arte e harmonia de tons, luzes, cores e decorações reunidas no mesmo espaço. Impar.
Uma ampla e bela aula de História.
Imagens e emoçōes indeléveis.
Maravilha!…
Amei.
Obrigada, jovem viajante por tanta beleza.
Os olhos e o coração agradecem penhoradamente.
quee venham mais belezas.