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França Occitânia

Conhecendo Carcassonne, cidadela medieval no sul da França

(Este será um post longo.)

Estamos não na famosa Provença, mas na Occitânia, que é basicamente a metade oeste do sul da França. Não é bem de “Ocidente” que vem a palavra Occitânia, mas nós chegaremos lá.

Caso alguém aí já esteja a se perguntar, a famosa rede de lojas L’Occitane en Provence quer dizer “A occitana na Provença” — ou alguém que saiu deste lado de cá do sul da França para ir ao outro, a mercar as coisas finas e boas que estas regiões do país tem, antes de começar a fazê-lo também com as coisas brasileiras na variante tupiniquim L’Occitane au Brésil, algo que nenhum outro país tem, diga-se de passagem. (Aceito patrocínio em espécie ou em produtos, Occitane.) 

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Aos que gostam de mapas, ali a região da Occitânia em roxo, vizinha à Provença em amarelo. São regiões administrativas atuais da França. Há outras mais ao norte, por supuesto. As linhas vermelhas destacam a área onde historicamente predominaram idiomas do sul francês, como o occitano — mas disso nós trataremos depois.

Hoje, estamos em Carcassonne, uma pitoresca cidadela medieval francesa talvez só comparável a Mont Saint-Michel aqui no país de Alain Prost e Victor Hugo. (Eu ainda devo uma visita àquela famosa fortificação costeira da Normandia, mas preferi começar por esta, que provavelmente é a segunda cidadela medieval mais visitada da França.)

Eu admito que nunca tinha ouvido falar em Carcassonne antes de vir morar na Europa. Curiosamente, tomei conhecimento dela através do jogo de tabuleiro homônimo, criado na Alemanha e que se tornou popular na Europa a partir dos anos 2000. (Existe no Brasil, onde se fazem até campeonatos.) Nele, você constrói uma paisagem medieval e erige fortificações com peças na mesa contra seus oponentes.

Quando eu joguei, num longíquo Natal entre amigos na Suíça (nada chique — ao contrário do que os brasileiros costumamos sempre imaginar ao ler a palavra “Suíça” —, só mesmo jogatina de tabuleiro entre amigos com uns fondues para alegrar o estômago), fiquei com aquela pulga de um dia vir a esta histórica cidadela francesa que inspirou o jogo. Mais de 15 anos depois, o dia chegou. Le jour de gloire est arrivé.

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Em Carcassonne neste relutante começo de primavera europeia, no sul da França.
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Carcassonne é pitoresca como poucas. Se ela parece saída de filme, os filmes é que saíram dela. Filmou-se nesta localidade, por exemplo, Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (1991), um clássico da Sessão da Tarde com Kevin Costner.

“Quem” é Carcassonne, afinal?

Eu poderia simplesmente lhes mostrar meu périplo por estas muralhas, mas prefiro dar primeiro uma contextualização. Assim se entenderá que Carcassonne não é meramente um cenário medieval genérico, mas um lugar específico com a sua história.

Estas já foram as fronteiras do Reino da França e lugar de uma Cruzada internas contra o que a Igreja viu como heresia, num prelúdio da Inquisição.

Voltando ao século XI

Voltemos à chamada Alta Idade Média, a Idade Média bem com aquela típica cara mesmo de como a concebemos — com os senhores feudais, seus castelos e as brigas de espada. Nem se sonhava ainda com pólvora na Europa, nem havia nada que desse pista do vindouro Renascimento dali a alguns séculos.

Arms of the Kingdom of France Ancien
Brasão medieval francês com a flor-de-lis sobre o azul.

A França já era um reino, mas um reino fraco e decentralizado. Na prática, embora os senhores feudais — duques, marqueses e condes — devessem fidelidade ao rei, alguns governavam mais terras e eram materialmente mais poderosos que Vossa Majestade. Portanto, faziam o que queriam. Seus domínios eram potentados praticamente autônomos.

Assim era neste Condado de Toulouse, onde estamos. Ele levava o nome da principal cidade desta região da Occitânia, no sudoeste da França. Aqui, por sinal, se falava o occitano. O francês como uma língua padronizada é algo que só surgirá muitos séculos mais tarde, e com força mesmo apenas após Napoleão e com o nacionalismo no século XIX.

Carcassonne, uma colina já habitada desde pelo menos o tempo dos romanos devido à sua boa posição defensiva, era uma fortificação fronteiriça já nos limites sul do Reino de França. Do outro lado ficava o medieval Condado de Barcelona, que não era parte da França e em tempo (no século XII) se integraria ao vizinho Reino de Aragão (o qual mais tarde, em 1492, se uniria a Castela para formar a Espanha).

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A Cidadela de Carcassonne vista cá de baixo. Pode até parecer computação gráfica, mas é real.
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A Cidadela de Carcassonne vista do exterior das muralhas num dia nublado de início de primavera.
Carcassonne no mapa
Carcassonne no mapa da França atual. Se ela hoje está algo distanciada da fronteira contemporânea com a Espanha, é porque nos idos do século XVII os franceses comeram mais território. (Todavia, culturalmente o lugar se parece mais com Barcelona que com Paris — mas disso nós trataremos mais a seguir, em visitas Occitânia afora.)

Heresia e Cruzada em Carcassonne: O Catarismo

Se você acha que Carcassonne se trata apenas de um castelo como tantos outros, enganou-se. Aqui há ruas, casas, vendas, igreja medieval gótica dentro e tudo o mais, numa completa cidade medieval. Era impensável que uma cidade naquele tempo existisse sem muralhas de proteção, ainda mais numa região de fronteira.

Entretanto, o que torna Carcassonne famosa não é nenhuma heroica defesa da França contra os aragoneses, mas as querelas entre o próprio Conde de Toulouse e seu suposto senhor, o rei. O casus belli foi divergência religiosa, pois o conde occitano abrigava uma vertente algo heterodoxa do cristianismo aqui — dentre tantas várias que houve ao longo da História.

Tratou-se do catarismo, que nada a ver com o país árabe Catar e tudo a ver com a palavra grega katharós, que quer dizer “puro”. Era uma gente que se dizia mais pura, mais em harmonia com Jesus, e que tinha uma leitura distinta da religião cristã. A Igreja, obviamente, não gostou.

Aos que ficaram curiosos, os cátaros não acreditavam numa Santíssima Trindade, mas num Jesus deus-uno. Todavia, achavam que havia dois deuses, não apenas um: o Deus do bem, lido exclusivamente do Novo Testamento (não davam bola para o Velho), e um do mal, o capeta, que era associado às tentações terrenas.

Cruz occitana
Esta é a cruz cátara, que em tempo se tornaria o símbolo da cruz occitana, emblema desta região que você verá com frequência nesta região da França.

Como os antigos gnósticos — os quais, diga-se de passagem, às vezes pregavam que essa outra entidade malévola era o deus bruto e temperamental do Antigo Testamento —, os cátaros acreditavam que somos uma alma que reencarna para se purificar, e que as coisas do mundo material são pecaminosas.

Por isso, inventaram um rito que a Igreja romana nunca teve: o consolamentum, uma espécie de segundo batismo, geralmente dado no fim da vida.  

Após receber esse sacramento, a pessoa deveria viver uma vida de pureza (Katharós) e puro testemunho de fé — abdicando daí de sexo, da vida conjugal e de comer carne. (Eles comiam ainda peixe porque criam que estes surgiam por geração espontânea, não por copulação.)

Eles passavam assim à alcunha de “perfeitos” (parfaits) após esse “consolamento” da presença divina apesar dos pecados imanentes à vida terrena que haviam levado. A maioria recebia esse sacramento só quando estavam perto da morte, mas havia quem optasse por tal vida religiosa desde mais cedo.

A Igreja, claro, não achou nem um pouco interessante essa leitura alternativa do Evangelho. Mandou portanto matar todo mundo — algo mesmo mais alinhado com o Cristianismo — num prelúdio do que surgiria formalmente como a Santa Inquisição após 1478 com o aparecimento dos Protestantes.

Lançou-se, então, uma cruzada contra os cátaros aqui na Occitânia e, especificamente, em Carcassonne. O papa Inocêncio III determinou que o rei de França, Filipe II, o apelidado “Dádiva de Deus”, desse um jeito naquilo. 

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A zona da presença do Catarismo no sul da França, com 5 dioceses (heréticas ao olhar de Roma) aqui na Occitânia. Carcassonne era uma delas.

A cruzada contra os cátaros: 1209-1229

É preciso entender este conflito religioso também num sentido político. O sul do que era o Reino da França não se via assemelhado a Paris. Pelo contrário, a afiliação política era um respeito herdado dos tempos de Carlos Magno (800 d.C.), mas culturalmente os occitanos se viam muito mais próximos dos italianos e espanhóis — algo que o bom observador notará ainda hoje, em pleno século XXI.

Os occitanos não entendiam o francês parisiense, e as pessoas do norte da França não entendiam o occitano. Os do norte achavam que estes do sul eram uns folgados, interessados demais em gracejos sociais, pompa, e imiscuídos com gente suspeitosa, como advogados, comerciantes e judeus. Já os occitanos julgavam que os francos ou franceses propriamente ditos — aquela gente do norte — eram uns brutos sem cultura, agressivos e sem sofisticação.

Sendo assim, o conde de Toulouse, Raimundo VI (1156-1222), não dava a menor bola ao rei lá em Paris. Dava bola ao papa, mas não muita, pois na minha terra mando eu. Raimundo e o papa chegaram a trocar afagos após este último denunciar que o conde estava sendo muito tolerante com heréticos nos seus domínios, mas não deu outra: o conde acabou excomungado, e o papa determinou que as pessoas estavam dali em diante livres dos juramentos de fidelidade porventura feitos a Raimundo sob o olhar de Deus.

Em 1208, o emissário papal enviado a este Condado de Toulouse não voltou pra casa — acabou misteriosamente morto —, e Inocêncio III conclamou então uma cruzada de nobres contra Raimundo e os cátaros que ele abrigava. Foi quando se marchou contra Carcassonne.  

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As muralhas e meandros da Cidadela de Carcassonne, um deleite aos fãs da Idade Média.

Carcassonne caiu em agosto de 1209, já num primeiro ano avassalador desta que ficou conhecida também como Cruzada Albigense — devido à cidade de Albi, reduto de cátaros aqui perto.

Os cruzados vinham de cometer um massacre na vizinha cidade de Béziers, onde se diz que o líder das tropas, arcebispo Amalric Arnaud, cercou as muralhas e conclamou que todos os católicos saíssem, deixando só que os cátaros permanecessem. Ninguém se atreveu.

O resultado? “Caedite eos, novit enim Dominus qui sunt eius”, credita-se que o cruzado tenha dito. Tradução: “Matem todos, pois o Senhor sabe quem são os seus“. Puseram fogo em Béziers com todo mundo dentro e dezenas de milhares indiscriminadamente sob o fio da espada, segundo as estimativas da época. Trabalho fino.

Caedite eos, novit enim Dominus qui sunt eius”, credita-se que o cruzado tenha dito. Tradução: “Matem todos, pois o Senhor sabe quem são os seus“.

Carcassonne já estava plena de refugiados, e acabou estrangulada quando os cruzados cortaram seu suprimento de água.

A disputa entre o conde de Toulouse e os cruzados continuaria por mais 20 anos, pois ele depois pediu ajuda ao cunhado, o vizinho Rei de Aragão, assim como também ao Rei da Inglaterra, ensaiando já as disputas que se escalariam à Guerra dos Cem Anos (1339-1453) mais tarde. De todo modo, os cátaros enquanto cristianismo alternativo organizado em plena Europa encontrariam o seu fim em 1229.   

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As livrarias aqui abundam de livros sobre o catarismo. Há também sobre os trovadores, aqueles músicos e poetas da corte na Idade Média que, a quem não sabe, ganharam proeminência primeiro aqui na Occitânia. (Fazia parte quiçá daquilo que os parisienses viam como frivolidades aqui do sul.)
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Prontos para percorrer Carcassonne?
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Aqui na cidadela. (Caso alguém esteja a se perguntar o que eu ouvia no fone, pus Light of the Seven para tocar enquanto percorria as muralhas, o que deu um grau e tanto. Recomendo.)

Vindo a Carcassonne hoje

Carcassonne hoje não é mais apenas a cidadela fortificada. Já a partir de 1247 — portanto depois das cruzadas — com este Condado de Toulouse passando a integrar mais firmemente o Reino de França, estabelece-se uma Cidade Baixa (Ville Basse) às margens do rio Aude.

Hoje, essa Cidade Baixa forma basicamente o que é a Carcassonne moderna, com estação ferroviária própria e tudo. O aeroporto mais próximo é o de Toulouse, a 1h de trem daqui. Barcelona e Bordeaux, cada uma a 3h, são outras grandes cidades de referência.

Eu cheguei vindo de Narbonne, uma das mais agradáveis cidades históricas da Occitânia, e que escolhi como base para visitar esta região. Não há razão para se pernoitar em Carcassonne — ela é perfeitamente visitável num bate-e-volta, e é o que eu recomendo fazer.

Era um sábado de manhã, e no primeiro fim de semana do mês na França há passagens promocionais por €1. Só que, se quiser se beneficiar disso e ainda escolher horário, reserve-as com antecedência de vários dias (senão semanas), pois muita gente se interessa e, excepcionalmente, nessas datas os trens regionais lotam e ficam indisponíveis. (Resolva tudo pelo aplicativo oficial SNCF Connect).

Fazia um vento frio sob o céu nublado, e a primavera supostamente já iniciada parecia ser um mero formalismo. A sensação era de fim de inverno. 

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A parte moderna de Carcassonne, uma cidade simples e de pequeno porte. Tudo o que é de mais histórico — medieval — fica na Cidadela de Carcassonne (Cité de Carcassonne), a 20 minutos de caminhada da estação de trens.

Não há muito o que ver na Carcassonne moderna — isto é, na Cidade Baixa. A exceção fica por conta da Catedral de São Miguel (Cathédrale Saint-Michel). A igreja, toda em estilo gótico, começou a ser construída precisamente em 1247, ano da fundação desta Cidade Baixa.

Por mais de 500 anos ela teve papel secundário na cidade, até que em 1803 a sede episcopal de Carcassonne saiu da (mais antiga) Basílica de São Nazário e São Celso no interior da cidadela medieval e passou a ser aqui. Essa catedral anterior segue lá, e nós a veremos daqui a pouco. 

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As vias hoje na Carcassonne moderna, com ares da França dos séculos mais recentes.
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A Catedral de São Miguel (Cathédrale Saint-Michel) fundada em 1247 em Carcassonne, fora da cidadela murada, na Cidade Baixa.
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Gárgula numa das paredes.
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Seu lindo interior gótico com estas iluminadas cruzes tridimensionais. Se a forma simétrica que lembra a cruz cátara é por algum regionalismo nostálgico que o Vaticano hoje ignora, eu não sei.
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Um dos lustres em forma de cruz com o órgão da catedral atrás. Note também como as arcadas da igreja são coloridas e decoradas. Nesse aspecto, ela nos lembra mais o florido gótico italiano que o de uma Notre-Dame de Paris, estilo nortenho no qual as arcadas de pedra são sóbrias e sem enfeites.

O ambiente todo era para lá de pacato. Parecia até domingo. Se dentro da cidadela há um evidente ambiente turístico, pleno de coisas voltadas aos turistas e de estrangeiros a conversar em inglês ou espanhol pelas ruas, aqui parecíamos estar numa cidadezeta qualquer sem expressão. 

Sendo sábado, afora os raros carros — impróprios e incômodos nas ruas estreitas, que deixam quase nada para o pedestre espremido rente à parede —, movimento só vimos quando nos aproximamos da tradicional feirinha, algo característico das cidades europeias no sétimo dia da semana. 

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São servidos escargot? Sim, aquele senhor de vermelho animadamente mexia caracóis — com concha amarronzada e tudo — num caldo temperado. (Eu sei que meus leitores portugueses não verão problema nenhum nisso, quem sabe até achem a coisa apetitosa, mas a olhos brasileiros, é visão que dá até um ginge.)
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Havia outras coisas, todavia. Servi-me de uns quitutes de maçã, por exemplo, e não faltavam frutas, nem verduras, nem cogumelos diversos, nem franceses comprando leite em frascos de vidro como outrora.
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Idosos a circular, e um dos portões da Cidade Baixa de Carcassonne. Ela também tinha muralha, embora desta restem apenas fragmentos.
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Dali, do fim da Cidade Baixa, uma ponte sobre o rio Aude o leva rumo à Cité de Carcassonne — a cidadela medieval murada.

Cruzei essa ponte tomando vento, passando as mãos naquela pedra rugosa e plena de liquens. Seguia algo úmida pelo inverno.

Adiante eu tinha a cidadela — como disse, a uma caminhada de seus 15-20 minutos desde a cidade nova.

Eu a essa altura estudava qual entrada tomar, das mais de uma que há. A quem não se dispuser a caminhar, há um trenzinho turístico que pode levá-lo até a entrada principal, a Porte Narbonnaise, por onde também eu acabaria entrando. (Como alguns suporão, ela recebe esse nome por ficar na direção da cidade de Narbonne.)

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Cruzando a chamada Ponte Velha (Pont Vieux) em Carcassonne, rumo à sua cidadela.
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A caminho, já do outro lado da ponte sobre o rio Aude, você ainda trafega um pouco por estas ruas até se aproximar das muralhas. Várias pessoas claramente faziam a marcha.
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Contornando as muralhas de Carcassonne.

Pelos interiores da Cidadela de Carcassonne

À Porte Narbonnaise, un trenzinho acabava de chegar. Turistas desciam às dezenas. No corredor de chão de pedra que cruza o portão, uma criança brincava sem qualquer noção do passado combativo que aquele lugar havia visto. 

Perto de mim, ainda antes de entrar, ouvi alguém dizer que não se interessava muito porque era apenas uma fortaleza vazia. Nada disso. Como coloquei, Carcassonne é uma cidade medieval inteira aí no interior das muralhas. (Depois, uma vez do lado de dentro, presenciei a pessoa maravilhada com o tanto de coisas que ali havia.)

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Diante da Porta Narbonense (Porte Narbonnaise), a principal entrada para a Cidadela de Carcassonne, aqui com o marco indicando seu reconhecimento pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Caso você esteja a se perguntar sobre essa figura feminina ali, se trata de Carcas, uma figura folclórica, que teria sido uma princesa sarracena do século VIII, quando os mouros tomaram a Península Ibérica e ameaçaram conquistar também a França. Eles chegaram a ocupar Carcassonne e aqui se instalar por anos, até serem expulsos pelos francos.

Segundo a lenda, essa viúva Carcas regia a cidade quando Carlos Magno a sitiou. O nome Carcassonne adviria daí de “Carcas sonne“, sonne sendo o verbo soar em francês, em referência a quando ela ordenava que badalassem os sinos.

Trata-se de uma lenda, pois sequer Carlos Magno jamais sitiou Carcassonne: a cidadela foi retomada ainda pelo seu pai, Pepino, o breve (714-768 d.C.). Carcas provavelmente nunca existiu, mas ficou aí a lenda.

Vamos entrar.

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Os caminhos ao interior da cidadela. O acesso é livre, 24h.

Como turistas experimentados já devem imaginar, o interior da Cidadela de Carcassonne hoje está um pouco “Disneylândia”. De certa forma, acho que isso é até desejado por alguns turistas. Há portanto sorveterias, cafés, restaurantes e lojas de souvenirs em abundância por aquelas estreitas ruas de pedra. Nem tudo é autêntico daqui; a lavanda, por exemplo, é algo da Provença, a região vizinha, mas poucos pareciam se importar. 

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Casas de souvenirs e coisas à imagem da Idade Média abundam pelo interior de Carcassonne.
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A meninada corre, e um grupo de turistas norte-americanos adolescentes pareciam fazer uma excursão da escola ou algo do tipo, naquela animação característica.
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Alguns cantos são mais movimentados que outros, ainda que todo o lugar hoje exale uma clara aura turística.
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Há tours guiados saindo do bureau de turismo na cidade. Os horários variam de acordo com a época do ano. Você pode ver mais no site oficial deles. Não diria que é essencial, mas fica aí para quem gosta saber que existe a opção. Há em francês, inglês ou espanhol.

Por conta própria, em menos de 1h você é capaz de ter percorrido todas as ruas. O lugar é pequeno para os padrões urbanos modernos.

Há alguns pontos específicos a conhecer. Um deles é a Basílica de São Nazário e São Celso, gótica completada em 1337, portanto logo após a escaramuça sobre catarismo — talvez também como uma forma de sedimentar o catolicismo romano aqui. Outro, que eu quase visitei e que talvez interesse mais a uns que a outros, é o Museu da Escola (Musée de l’école), que se propõe a mostrar como era a escola pública francesa desde os anos 1880 até a atualidade.

Por fim, claro, há as fortificações, torres e muralhas onde se pode subir e entrar.

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A Basílica de São Nazário e São Celso, que foi a catedral de Carcassonne até 1803. Ela foi primeiro feita ainda no século XI, mas depois reconstruída neste estilo gótico no século XIII.
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O interior da Basílica de São Nazário e São Celso.
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Os vitrais são o que mais lhe dá beleza.
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Uma das rosáceas da basílica.

Se você voltar pela rua por detrás da igreja — dando-lhe a gostosa sensação de estar numa cidadela de video game à là Zelda — passará num Campo Medieval, que acredito ser mais animado no verão.

Hoje, ele estava meio desanimado, com cara de feira de ciências na véspera da abertura. Havia apenas algumas tendas vendendo joias (?), mas dizem que no verão há oficinas, jogos, e até justa — aquela competição medieval em que dois cavaleiros investem com suas lanças um em direção ao outro para ver quem é derrubado. 

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Campo Medieval, uma área com tendas de época vendo algumas coisas. Pareceu-me um espaço bem “família”.
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Neste dia, estava meio minguado assim, ainda que fosse fim de semana. Acredito que no verão isto “bomba” mais.
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Pelas vias mais quietas desta Cidadela de Carcassonne.

Pausa para o almoço — e algumas curiosidades gastronômicas

Pausa para o almoço. Essas mesas postas começavam a atiçar minha fome, pois que já era começo de tarde e os aromas dos restaurantes começavam a exalar.

Verdade seja dita, é uma certa roubada deixar para fazer refeição aqui na cidadela murada. Os preços de almoço são bem altos, e eu sugiro verificar as avaliações dos restaurantes no Google antes de entrar, pois alerto que há uns pessimamente avaliados — sobretudo os que têm menu fechado a 15 euros. Na maioria, um prato individual sai pelo dobro.

Por toda parte, verá aviso de cassoulet, que é O prato típico aqui de Carcassonne. Do que se trata? Algo muito familiar: feijão cozido na panela com linguiças, carne de porco e ervas — a irmã occitana da feijoada.

Feijoada que é, aviso aos navegantes, um prato português com claros liames com o restante do Mediterrâneo, e que não tem absolutamente nada de particularmente brasileiro — ao contrário do que se costuma crer. Pelo contrário, que o “prato nacional” brasileiro seja um inventado em Portugal evidencia quem mesmo nos pariu. (Momento para aquele meme em que Luke Skywalker ouve de Darth Vader “Eu sou o seu pai“.) 

O cassoulet occitano é portanto nosso tio, meus compatriotas brasileiros. (Quem quiser algo essencialmente brasileiro, procure nas coisas feitas a partir da mandioca, planta nativa da Amazônia. A culinária paraense, por exemplo, está plena de pratos deliciosos que não tem nada a ver com a Europa — a quem estiver à procura de algum gastro-nacionalismo.)

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Cassoulet à venda! O conhecido feijão com linguiça. Aqui se usa desse feijão branco — afinal, não é idêntico à feijoada, senão seria ela própria. Está como o Scooby Dão está para o Scooby Doo.
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Scooby Dão era o primo branco de Scooby Doo.
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Havia coisas que só mesmo aqui na França, como chocolate & foie gras (aquele patê imoral de fígado de ganso, em que o bicho é alimentado à força) com o menino lambuzado na mesma imagem.

“O cardápio sou eu”

Você comeu? Não, porque não ia pagar 25 euros num prato desse — nem eu tampouco como carne —, então ficam meus préstimos históricos aí ao cassoulet. Com o foie gras eu não quero conta, nem com os escargot que lhes mostrei antes, então note que esta região da França pode ser meio pauleira para alguns.

Foi quando eu encontrei, por sorte ou dádiva divina, Le Seneschal, lugar despretensioso e que eu muito recomendo. Serve pratos bretões, leia-se crèpes (doces) e galettes (salgados). Não aquela coisa hiper básica de banquinha de rua, mas uns bem caprichados, plenos de ingredientes, que enchem o prato e o bucho. Come-se de garfo e faca.

Sei que tradicionalmente se toma sidra para acompanhar esses crepes salgados (gallettes) aqui na França, mas eu hoje estava a fim de vinho, e perguntei ao dono, que parecia um daqueles que trabalha sozinho no restaurante. “Não tem regra“, deu ele de ombros, evocando o lado mais cínico dos franceses.

Você tem uma carta de vinhos? No cardápio que você me deu, eu não vi“, indaguei-lhe. “O cardápio sou eu“, respondeu antes de ir me explicando garrafa por garrafa algumas opções que eu tinha. Quem diria que a famosa frase famosa de Luís XIV — com este breve ajuste — viria tanto a calhar. “Senescal”, de fato, aqui no contexto francês era o que vinha a mando do rei assegurar que os nobres o obedeceriam. Acho que, afinal, foi bom Carcassonne tomar dessas outras influências do Reino de França.

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Minha galette — que [e como os franceses chamam estes crepes salgados de prato inteiro. Por debaixo desse morrete de folhas havia queijo, cogumelos e monte de coisas a serem cortadas com esta faca com ares de cena de crime medieval.
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Voltando da pausa do almoço…
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As muitas vias de Carcassonne e seu casario.

Acessando as fortificações dos Trencavel

Ali naquela placa na foto acima você verá uma referência ao sobrenome Trencavel, parentes da Tintagel do Rei Arthur e dos Abravanel de Silvio Santos.

Brincadeira, Trencavel era a família do Visconde de Carcassonne à época do ataque aqui em 1219, Raimundo Rogério — ou Raymond Roger Trencavel, se você achar que “Raimundo Rogério” soa muito popular, feito nome de agricultor familiar, ainda que essa seja precisamente a tradução.

Ele era o senhor de Carcassonne, vassalo do Conde de Toulouse, como seu título de visconde sugere. Vivia aqui no chamado Castelo Comtal (Château Comtal), a única parte paga nesta cidadela. A entrada custa em torno de €10 para um adulto (menores de 26 com cidadania europeia têm desconto), e dá acesso também ao alto das muralhas de Carcassonne.

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Aqui é onde se acessa a parte paga de Carcassonne, o Castelo Comtal (Château Comtal). As cidadelas medievais, afinal, tinham estas muralhas internas para a área do nobre, dentro das muralhas da cidade.
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Estão prontos?
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De outro ângulo, o acesso ao castelo medieval do Visconde de Trencavel no interior da cidadela de Carcassonne.
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Adentremos.

Dizem que durante o verão pode ser prudente fazer reserva online desta entrada com antecipação, mas fora da alta estação não houve a menor necessidade, mesmo num fim de semana. Eu pouco tive que esperar na fila, acho que só duas ou três pessoas.

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O pátio interno do o Castelo Comtal (Château Comtal), o núcleo da Cidadela de Carcassonne.
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As torres e estruturas antigas.

Há um audioguia disponível, mas você também pode perfeitamente circular sem ele. Como lhes disse, eu priorizei o sentimento épico e escolhi circular ouvindo Light of the Seven. Há painéis explicativos com as informações escritas.

Tudo depende do seu passo, mas eu diria que normalmente se leva 45-60 minutos para percorrer tudo. Não há requintes de palácio aqui, pois estamos numa fortaleza medieval de paredes e salas nuas. Portanto, não se toma tanto tempo com detalhes.

O que mais me encantou mesmo foi o todo — as vistas do alto, para a paisagem ao longe e para a própria fortaleza em si, além da sensação de estar ali.

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O pátio interno do Castelo Comtal, dos Trencavel.
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Os interiores aqui são assim. Há bastante sobe e desce, como você há de imaginar.
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Efígie medieval de pedra de um cavaleiro.
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Passadiço.
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Caso você esteja a se perguntar sobre o bom estado de conservação daqui, vale uma pausa.

Carcassonne não estava exatamente assim 200 anos atrás. O que houve foi que, no meado do século XIX, naquele misto de nostalgia com a Idade Média advindo do romantismo e surgimento do nacionalismo, um arquiteto chamado Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879) tomou a frente de projetos de restauração do patrimônio medieval francês. 

É graças a ele que conhecemos Notre-Dame e a Saint-Chapelle em Paris, assim como Mont Saint-Michel e Carcassonne, em bom estado de conservação. Ele liderou projetos de restauro com fundos do Estado e nos legou o que encontramos hoje. Você vê bastantes referências a ele nos painéis explicativos aqui. 

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Carcassonne vista do alto de suas muralhas. Aquela torre redonda é o que os franceses chamam de donjon, onde se abrigavam os Trencavel.
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As restauradas muralhas da cidade.
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Naquela torre ficava o tesouro.

Raimundo Rogério era Visconde de Carcassonne, portanto devia fidelidade ao Conde de Toulouse, mas quando os cruzados ameaçaram atacar, ele ficou criando dificuldades.

Aceitou, e teve um fim triste. Vendo que sua cidade ia cair naquele agosto de 1219, foi negociar. Só que ainda antes de retornar ao interior das muralhas, ele foi sordidamente preso pelos cruzados (gente muito boa). Detido no próprio calabouço, morreria de disenteria dentro em pouco, embora alguns suspeitem de envenenamento.

Os Trencavel perderiam o domínio sobre Carcassonne, que agora passava a responder mais diretamente ao rei. Começava naquele século XIII um esforço de re-centralização da monarquia francesa, que chegaria ao seu cúmulo 500 anos depois, passando pelo absolutismo e descambando na Revolução Francesa.

Aqui, de volta ao futuro, eu sentia aquele vento frio por entre as pedras, pedras silenciosas que nada diziam além de exalar um pouco do que um dia foram. Não é um lugar de plena atmosfera medieval — talvez pela quantidade de turistas e pela nudeza do lugar — ainda que os olhos digam o contrário. Talvez o sexto sentido saque que é um lugar que foi reconstruído e já não tenha tanto daquela energia velha impregnada ali. É, de toda forma, um lugar emblemático da França. 

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Pelas fortificações de Carcassonne.
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Saindo pela Porte d’Aude, do outro lado. Cara medieval ela tem, não resta dúvida.

Descemos e tomamos rumo. Um trem nos esperava de volta a Narbonne, que ainda lhes mostrarei. Há bastante a conhecer nesta Occitânia, como vocês verão. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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