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França Occitânia

Visitando Lourdes e seu santuário na França, ao pé dos Pirineus

(Este será um post longo)

Alto lá, quem achar que Lourdes é apenas o santuário católico. É, mas há mais aqui. Estamos ao pé dos Pirineus, as montanhas que dividem a França da Espanha. Mais precisamente na sua parte noroeste, pertinho do País Basco. Foi ali que, segundo a crença, Nossa Senhora apareceu à jovem Bernadette Soubirous em 1858, ela então uma adolescente.

Não esperem uma visita confessional aqui, ainda que apreço e respeito eu tenha. Como sempre, mostro o lugar como ele é — ou ao menos como eu o vejo. Tratarei do “mistério de Lourdes”, e é inegável que o grosso de quem vem aqui vem atraído por ele. A Igreja gosta de dizer que as pessoas chegam turistas e saem peregrinos daqui. Não sei se é bem assim — acho que há também quem venha peregrino e vire turista aqui.

Eu próprio vim porque quem me acompanhava queria já há alguns anos vir cá, e eu pessoalmente gosto de conferir de perto esses lugares de que a gente tanto ouve falar. Como são na realidade? Foi o que eu vim descobrir.

Cheguei de trem vindo de Paris — após visitar a exibição dos 150 anos do impressionismo no Musée d’Orsay e os interiores da Ópera Garnier, mas ainda antes de chegar a Carcassonne. Lourdes foi de certa forma a minha porta de entrada aqui do sul da França nesta viagem. O ar dos Pirineus me era agradável no último, quando cheguei naquela noite e encontrei uma portuguesa.

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Em Lourdes, com o riacho Ousse que cruza a pequena cidade ao pé dos Pirineus.
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O ambiente aqui é assim.

Localizando Lourdes

Eu até pouco tempo atrás sequer sabia que Lourdes fica na França, se querem saber a verdade. Há tanta Maria de Lourdes no Brasil, como referências também no mundo hispânico ou francófono, que eu nunca havia me dado ao trabalho de procurar ver, afinal, a origem. 

Quando finalmente descobri, recentemente, achei até fosse algum lugar próximo a Paris — como é o caso da também famosa Capela da Medalha Milagrosa, que fica em plena capital. Fiz aquela cara de “olha só, rapaz..“. quando achei no mapa que estaríamos cá quase na Espanha, em plenos Pirineus.

Lourdes no mapa

Há trens diretos de alta velocidade desde Paris, então com a acessibilidade ninguém precisa se preocupar. Levam-se 5h de viagem mais ou menos, algo que pode custar desde 60 até 120 euros a depender da antecedência com que você comprar. (Para os trens franceses, o caminho sempre é o aplicativo oficial SNCF Connect, que funciona muito bem.)

O ambiente é esse de beira de montanha. Não estamos no alto das montanhas, mas na sua vizinhança. Sente-se o ar, veem-se os picos no horizonte. Colinas abundam ao redor do que hoje é uma cidade de 15 mil habitantes. Pode soar como um vilarejo aos brasileiros, mas a sensação que ela passa é a de uma cidade pequena arrumadinha. É pequena, mas não é um ovo, nem está limitada ao santuário mariano.

Lourdes como lugar de peregrinação

Embora Lourdes já existisse enquanto cidade e tenha até hoje o seu castelo medieval — que visitaremos dentro de instantes —, a sua fama internacional começou após 1858, quando a jovem Bernadette então com 14 anos teve uma série de visões da Virgem Maria.

Bernadette Soubirous
Bernadette Soubirous (1844-1879), canonizada após visões que alegou ter em 1858 aqui em Lourdes.

Moça pobre, ela era filha de uma lavadeira, de uma família onde todos viviam de favor num mesmo cômodo na casa de um primo. Os Pirineus eram um lugar de pobreza, como era em geral característico do “povão” na mui desigual Europa do século XIX.

Bernadette sequer falava francês direito; a sua língua era o occitano, característico aqui do sul da França e ainda presente hoje, em menor medida.

Em 11 de fevereiro de 1858, vinham ela, uma irmã e uma amiga perto da Gruta de Massabielle, onde passava um córrego. Foi onde ela alegou ter a primeira de dezoito visões de uma figura luminosa de véu branco. A visão não falava nada demais, mas recomendava uma vida de oração e penitência, e que ali se fizesse uma capela.

As duas amigas nada viram, e boa parte da gente de Lourdes achou que Bernadette estava louca. Recomendaram que ela fosse internada.

A água do lugar, porém, havia passado de barrenta a límpida sem explicação, e numa das visões se testemunhou Bernadette em transe expondo a mão à chama de uma vela por 15 minutos sem se queimar. Os crédulos começaram a crescer em número e a peregrinar até a tal gruta, correndo a notícia de que a tal água de lá era milagrosa. 

Ainda em 1858, dentro de meses, o prefeito de Lourdes mandou barricar o lugar para acabar aquela comoção.

Foi somente em 1862 que a Igreja oficialmente se debruçou sobre o caso e interrogou Bernadette acerca das visões. Acabaram por se convencer da sua convicção. Ela própria, pouco à vontade com a fama gerada, foi embora de Lourdes e admitida como “pensionista indigente” na Congregação das Irmãs da Caridade em Nevers, na Borgonha — leste da França —, onde faleceria aos 35 anos.

Bernadette havia tido cólera quando criança, ficou com sequelas, e não resistiria a uma tuberculose que a acometeu. A fama de Lourdes persistiu, todavia. Persiste até hoje. Acumulam-se aí mais de 70 casos estudados pelos médicos franceses de “curas inexplicáveis” vinculadas a Lourdes. Em 1925, quase 50 anos após a sua morte, Bernadette foi beatificada, sendo depois canonizada por Pio IX em 1933.

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A Gruta de Massabielle é o ponto alto da visita aqui a Lourdes, seja do ponto de vista do simbolismo ou da peregrinação.

De volta ao século XXI…

Corre água e corre vinho em Lourdes. Correm também muitos ibéricos. A portuguesa no hotel foi a primeira de duas que encontraríamos em menos de 24h em Lourdes. Lusófonos e hispanohablantes têm uma presença marcante nestas regiões fronteiriças da França.

A portuguesa de seus meros 30 anos tinha um ar daquelas pessoas que bebem muito e nunca parecem completamente sóbrias, aqueles olhos a passearem acima do sorriso. Tinha também uma voz raspada de quem fuma, e era uma simpatia.

Ele tinha o jeito espevitado de tantas portuguesas, e falava no que seria o nível C3 aos estrangeiros tentando aprender português. Com habilidade, demonstrava fluência em pelo menos quatro idiomas. Ouvi-a em português, inglês, francês e italiano, e provavelmente também falava espanhol. Atendeu-me em francês ao que cheguei naquela noite com minha mochila, e vendo o meu nome na reserva logo trocou para o idioma de Camões em velocidade que não sei se o poeta acompanharia.

Foi ela quem nos serviria, dali a uma noite, do vinho Madiran aqui da região. Não é bem exatamente de Lourdes, mas da região de Pau [lê-se Pô, se você resistir à tentação], a uns 60 Km daqui. “Eles aqui não percebem“, ainda me lembro da cara dela com o sorriso maroto e o olhar trocista ao que me servia o vinho comentando da sua proveniência.

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O vinho Madiran é uma recomendação e tanto para quem gosta de vinhos encorpados. Não é uma marca, mas um tipo de vinho com denominação de origem protegida, como os Chianti na Itália e outros.

Voltas por Lourdes, e indo ao Santuário

Deus sempre abençoe as padarias independentes na França. Se a rede Paul já é boa, as boas e velhas padarias independentes de esquina — que na França se mantêm vivas — são ainda melhores. Em geral abrem cedo, já às 6h ou às 7h, e muitas inclusive nos domingos e feriados.

Foi indo a uma delas no outro dia já de manhã que tive o meu primeiro contato diurno com o que é a cidade(zinha) de Lourdes. 

Você vê a paisagem urbana e tem a impressão de que tudo são — ou eram — hotéis. Eu me hospedei mais para perto da estação ferroviária que da área do santuário, mas já ali se começava a ver um ambiente urbano dominado por hoteis, restaurantes, e lojetas anunciando coisas religiosas. Muitos tinham ares malacabados de abandono, de cortiços que não sobreviveram à pandemia ou sabe-se lá o que.

No domingo de Páscoa, que foi quando estive aqui, a padaria aberta era um insólito brilho de vida numa cidade que, do contrário, estava fechada e vazia.

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O ambiente de Lourdes é este, de cidadezinha montanhesca. De onde eu me encontrava perto da estação ferroviária, descia esta rua para o centro, mas não sem passar antes pelo bar l’epsylone, sempre vazio, e que eu era incapaz de ver sem me recordar de Luiz Gonzaga cantando o ABC do Sertão.
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Tudo são, ou eram, hoteis. Não se via um pé de gente junto deles. Eu me perguntava se ainda funcionavam ou se eu estava a ver cascas falecidas.
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Lojas com cartazes de filmes religiosos. Por detrás dos ares de “superprodução”, entretanto, se via um comércio com ares de baixa renda.
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Lourdes tinha assim seu ar meio deblaclé.

Ao que cheguei à padaria, a alegria instalou-se no meu coração. Comprei-me pain-aux-raisins (aquele caracol com passas, praticamente um artigo religioso para mim sempre que venho à França), uns quiches maravilhosos, tortinhas salgadas, assim como um sacristão de chocolate (un sacristain), artigo típico daqui feito de massa folheada com chocolate. Há o sacristão puro também, mas eu não o quis. 

Ao que eu me sentia feito uma criança dentro da Fantástica Fábrica de Chocolates diante daquelas tantas guloseimas a preços acessíveis, uma família de turistas espanhóis estava perdida tentando perguntar o que havia dentro das coisas. Nessas horas, como lampejos, sou assaltado pela percepção claríssima de como nós de raiz ibérica somos distintos dos franceses, tão mais reservados e escondidos por detrás da politesse, dos seus modos e maneiras tão enrijecidos como uma armadura que parecem deixar pouco espaço à espontaneidade.

Ajudei com a interpretação e ganhei um sorriso cálido de agradecimento da moça espanhola, seguidos de outros dos que pareciam ser seus pais. Demorei-me ainda só o breve suficiente para escutar uma senhora francesa chegar empunhando uma nota de 5 euros por cima do balcão e pedindo para trocar “para poder ir à missa”, antes de eu sair. Voltei, caminhando de volta por Lourdes vazia com seu ar de montanha dos Pirineus. 

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Este é o sacristão, um folhado típico daqui. Há o natural e o com chocolate. (Não é mau, mas tampouco é algo do outro mundo. Tem o sabor simples de uma boa massa folhada.)
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Lourdes neste Domingo de Páscoa. Quieta, com alguns carros, mas pouquíssima gente na rua — pelo menos aqui neste centro civil, por assim dizer, fora do perímetro do santuário.
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Pelo chão, por toda parte, você vê estes botões reluzentes indicando a rota para o Santuário de Lourdes. Lourdes é considerada parte do Caminho de Santiago — a depender de onde você o iniciar.

Indo ao Santuário de Lourdes

Pão na barriga, era hora de finalmente rumar ao Santuário de Lourdes, o ápice da visita à cidade. Pessoas diversas vinham no sentido contrário arrastando malas como num mutirão rumo à estação ferroviária — uma família aqui, dali a pouco outros três, outros cinco mais adiante. Fiquei a supor que deviam ter feito vigília pascoal ou coisa parecida, e agora estavam indo embora.

Você provavelmente ficaria surpreso com a quantidade de indianos e srilanqueneses aqui. Sim, há milhões deles que são cristãos. Podem ser minoria dos seus respectivos países, mas em termos absolutos, são numerosos. Muitos africanos francófonos ou franceses de origem africana, além de muitos mui católicos filipinos. A Igreja fala que há cada vez mais brasileiros também, mas eu não os vi.

Passei perto do museu que fizeram da casa onde a jovem Bernadette vivia (a Maison Paternelle de Sainte Bernadette ou Casa Paternal de Santa Bernadette), e seguindo os botões dourados que marcam o chão eu prossegui como que numa estrada de tijolos amarelos. Em algum momento, começa-se a ver também uma linha azul no chão. Todos os caminhos levam a Roma.

Verdade seja dita, não demora à coisa ganhar um ar meio suburbano, indiferente aos Pirineus e que, em vez disso, me recordava um pouco as ruas do comércio de Feira de Santana — que não é muito distinto daquelas de tantas cidades brasileiras.

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Lourdes começa a ganhar este aspecto conforme nos aproximamos do Santuário.
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O caminho que não é de Santiago (ou, melhor dizendo, pelo visto também é). Não deixem de notar dos muitos restaurantes indianos e srilanqueses que há, com direito a coisas escritas em Tâmil e tudo.
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As lojas com produtos do lado de fora abundam, quase todos Made in China (desculpem se parece desmerecimento, mas é só uma constatação objetiva; eu não achei muita coisa de qualidade, salvas algumas exceções por detrás das vitrines). Muitos dos donos destas lojas são italianos, e não ache que não entenderão o que você diz. Frequentemente, há atendentes portugueses.

Eu não vou mentir fingindo que não me surpreendi. Eu, francamente, havia imaginado Lourdes um lugar algo mais… contemplativo talvez. Definitivamente menos internacional e menos comercial a esta moda meio Terceiro Mundo.

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O que mais se vê à venda são destes utensílios, garrafinhas para encher com a água milagrosa que flui na gruta.
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Tem que prefira logo o garrafão. A menos que você faça questão da ilustração, eu sugiro trazer a sua própria garrafa de casa — sai bem mais barato.

Eu depois fiquei a imaginar se é essa parada de “água milagrosa” — no mesmo espírito da famosa água do rio Ganges para os seus compatriotas da religião hindu — que tem tanto apelo cultural e traz os sul-asiáticos até aqui em tamanhos números, bem mais do que já vi noutros santuários católicos mundo afora.

Ninguém se equivoque achando que deles eu não gosto, pois dentro em breve eu bem que estava de volta ali num daqueles restaurantes a aproveitar a deixa para comer um bom prato asiático no almoço; eu só não imaginava ver estas cascas de prédios com cara do Mediterrâneo — e que tampouco têm a cara de Paris — como que deixados para trás e tomados hoje pelos meus congêneres do Sul Global. 

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Os prédios com ares do Mediterrâneo, que mais lembram a Itália que o norte da França. Nós estamos, afinal, numa parte do país onde os vínculos culturais são muito mais fortes com a Espanha e a Itália que com Paris. De qualquer maneira, as ruas parecia tomadas por uma congregação de todos aqueles que a Igreja Católica cativou mundo afora ao longo dos últimos 500 anos: latinos, filipinos, sul-asiáticos convertidos, e bastantes africanos.
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Pelas ruas de Lourdes hoje.
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Os entornos do Santuário, com os dizeres em Tâmil ali acima.

Nossa, Mairon, e o Santuário de Lourdes? Cadê ele, afinal?“. Calma, que estamos chegando. É que a caminho foi preciso passar por todo este entorno comercial.

Atravessando uma ponte você tem a Porte Saint-Michel, uma das entradas do perímetro do Santuário de Lourdes. Por debaixo dela, corria o riacho verde que eu cheguei a lhes mostrar acima numa das fotos. A água seguia, transmitindo o que ainda há de Pirineus em meio a esta Babel.

Você não demora a destacar ao longe a basílica principal, que é linda à sua maneira e lembra em algo o castelo de Cinderela no Magic Kingdom da Disney. (Não é mera comparação jocosa, o estilo é o mesmo neogótico do século XIX, com o fake da Disney imitando o castelo Neuschwanstein na Alemanha.)

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Avistando o Santuário de Lourdes ao longe.
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Aqui uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, e mais adiante a basílica neogótica.
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Flores deixadas junto da imagem de Nossa Senhora de Lourdes.

Aquela igreja neogótica cinzenta que você avistou é, na verdade, uma dupla de basílicas: uma em cima e outra embaixo. 

Chegaremos lá, mas eu vou levá-los primeiro no caminho que eu fiz ao que é — verdade seja dita — o coração de Lourdes: a Gruta de Massabielle. Afinal, como teria dito Jesus segundo o apócrifo Evangelho de Tomé: “Corte um pedaço de madeira e lá estarei, levante uma pedra e me encontrará”. (dito 77).

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As basílicas diante de nós, na ampla praça principal do Santuário de Lourdes.
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Quando você contorna as basílicas, deste ângulo fica mais evidente que elas são duas, e seu aspecto de castelo gótico fica mais evidente. Ao lado, este lindo riacho verde descido dos Pirineus. A gruta está logo aqui.

A Gruta de Massabielle

A Gruta de Massabielle é o coração espiritual de Lourdes — o lugar onde a aparição se deu e também o foco do interesse popular aqui.

Tendo as basílicas diante de si, você vira à direita e lá no flanco da igreja terá a formação de pessoas em fila, já às torneiras agora postas saindo da parede ou alinhados para ir ver de perto o breve interior da gruta.

Nem todas as torneiras funcionavam, mas não eram poucas as pessoas com seus garrafões plásticos ali a pacientemente esperá-las encher com uma água que caía quase a conta-gotas.

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Agora há torneiras na parede lateral das basílicas em Lourdes, de onde sai da água que se crê ter propriedades milagrosas. Não faltavam fiéis enchendo seus garrafões.
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Mais adiante, a fila para chegar ao breve interior da gruta. É mais uma reentrância na rocha que propriamente uma caverna.

A fila não demorou tanto. Andava com relativa rapidez. Tenho certeza de que é uma daquelas coisas variáveis, que às vezes é enorme, e outras vezes não tem ninguém. Acho que peguei um meio termo.

As poucas pessoas organizando a fila (e dizendo aos fiéis que não se demorassem lá na gruta, pois a fila precisava andar) foram basicamente os únicos funcionários da Igreja que vi pastoreando as pessoas, no que se revelaria um lugar bem à là volonté — igrejas abertas, fontes ali, cada qual viesse, entrasse, e fizesse o que quisesse e fosse embora quando bem entendesse.

Mais tarde, de toda maneira, haveria missa, e muitos se congregavam espontaneamente nos bancos postos ali diante da gruta por detrás de uma corda de separação.

A rocha era fria ao toque, com olhos d’água a escorrer silenciosos, quase imperceptíveis. Muitos musgos cresciam. Cheguei a ver um ou dois papeis enfiados, certamente por alguém que quis fazer daqui uma espécie de Muro das Lamentações, mas no geral se tinha ali um ambiente ainda bem rústico, ainda que agregado de alguns buquês de flores deixados no chão.

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O contexto da Gruta de Massabielle é assim. As pessoas vêm de lá em fila para visitar esta breve reentrância na rocha, diante da qual fieis se sentavam em contemplação.
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A gruta é assim, com um altar, vela e crucifixo ali.
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Buquês de flores deixados no espaço da gruta, pessoas com as mãos na rocha.
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O lugar, hoje protegido por vidro, onde jorra a água. (Imagino que a proteção seja para ninguém jogar nada nem se pôr ali a tentar colher daquela água).

Apesar de haver uma quantidade razoável de pessoas, o espaço é amplo, e não havia a sensação de multidão. Tampouco burburinho, pelo contrário: a simplicidade do lugar com as rochas, o vento que batia e a chuva de inverno que ameaçava parecia, de alguma maneira, invencível. Era como se, ali, a natureza dos Pirineus se mostrasse imperturbada — e algo também indiferente àquela movimentação de pessoas.

Era hora agora de finalmente dar a volta e visitar o interior das igrejas.

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Se você olhar direito, vai ver que a mais alta está mais para trás. Nela você chega subindo as rampas circulares ou escadas bem íngremes que há ali à entrada.
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Mosaicos neobizantinos que há ali na parte externa, no pátio.
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A frente da basílica mais externa, dedicada a Nossa Senhora do Rosário.
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Os detalhes.

Os interiores das basílicas no Santuário de Lourdes

Há três basílicas aqui no Santuário de Lourdes, e curiosamente nenhuma delas chamada “Igreja de Nossa Senhora de Lourdes” ou coisa assim. Como a visão que Bernadette Soubirous teve se identificou (após muita insistência, só na 16ª aparição!) como a Imaculada Conceição, uma destas basílicas leva esse nome: Basílica da Imaculada Conceição. Ela é a basílica alta, que fica em cima, a que mais chama a atenção por fora. 

A outra, esta baixa onde primeiro entramos, é a Basílica de Nossa Senhora do Rosário. Elas ficam, basicamente, uma em cima da outra, como se fosse uma igreja de dois andares.

Ambas são relativamente recentes, para os padrões europeus.

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O interior da neobizantina Basílica de Nossa Senhora do Rosário no Santuário de Lourdes, França. Foi consagrada apenas em 1901, e segue o mesmo estilo que se vê na bela Basílica de São Martinho de Tours, em Tours, e na Basílica do Sacré-Coeur em Montmartre, Paris.
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O altar-mor com iluminuras que têm uma certa influência bizantina, mas claramente moderna também, e que acabam por me lembrar mesmo em algo o muralismo latino-americano do começo do século XX.
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A nave central é envolta de arcadas redondas que guardam detrás de si ilustrações bíblicas da vida de Cristo.
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A ressurreição.

Não vi sinal de que fosse haver missa nem nada. As pessoas, quase todas morenas de 50 tons, circulavam a gosto tirando suas fotos ou vendo as imagens de mais perto.

Saindo da igreja, não demorei a desbravar as escadas íngremes até o topo, para adentrar então a Basílica da Imaculada Conceição, de aspecto neogótico, e onde estão as relíquias — os restos mortais — de Bernadette Soubirous.

Essa estava ainda mais quieta. Tinha um certo ar de penumbra como tantas das igrejas góticas na Europa. Ela data de 1876, e foi a primeira grande igreja edificada aqui, cerca de duas décadas após as visões de Bernadette e uma após seu reconhecimento oficial pela Igreja.

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Subindo as escadas, temos esta visão.
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O povo lá embaixo — e, bem mais adiante, você vê o medieval Castelo de Lourdes, que vale ser visitado.
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O interior da Basílica da Imaculada Conceição, a mais antiga em Lourdes. Data de 1876 em estilo neogótico.
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Sua beleza interna está nos vitrais.
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A imagem da Imaculada Conceição que ficou conhecida como Nossa Senhora de Lourdes, na cripta da basílica.
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Numa sala lateral, as relíquias — isto é, os restos mortais — de Santa Bernadette. A imagem da moça simples permanece.

Circulei por aqui, e não me demorei a descer. Lá embaixo, retornava aos fieis que se mexiam lá e casa, pequenos grupos ou famílias, às vezes a olhar um painel que há à entrada do perímetro do santuário indicando os diversos horários de missa ou celebração nos diferentes idiomas. 

No entorno, viam-se várias casas e áreas com ares que de foram alojamento para peregrinos, mas hoje vazias e com o mato crescendo — pela altura, certamente desde pelo menos antes da pandemia.

Debaixo ali da terra, escondida dos olhares, você ainda tem a terceira basílica de Lourdes, a chamada Basílica São Pio X, inaugurada nos anos 1950 para o centenário das visões de Bernadette. Esta é imensa (talvez até demais), em estilo moderno. 

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O interior da Basílica São Pio X em Lourdes. Subterrânea, foi feita durante os anos 1950 para o centenário das visões de Bernadette Soubirous. As três basílicas feitas pelas Igreja tem cada qual a sua beleza, mas é interessante observar como é a gruta quem continua sendo o centro espiritual e do interesse popular em Lourdes.
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O painel mostrava os horários das diferentes celebrações em idiomas diversos.

Se você sai um pouco, de volta está logo ao subúrbio comercial das lojinhas de traquitanas e lembrancinhas religiosas Made in China. Foi onde retornamos a um dos muitos restaurantes srilanqueses para comer. A coisa era tão autêntica que nem sequer aceitam cartões, e éramos os únicos ocidentais na clientela.

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De volta ali ao entorno suburbano do Santuário de Lourdes. Ameaçavam chuviscos naquele começo de tarde.
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Os meandros.
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Meu autêntico biryani, emblemático prato de arroz do sul da Índia. Já estive por lá e lhes digo que talvez nunca tenha comido um tão autêntico em solo europeu.

Uma sensação inevitável neste tudo era de como os franceses parecem ter dado as costas ao lugar, que exala um ar semi-abandonado. Muitas estruturas com mato crescendo, precisando de uma boa reforma. Outras fechadas com o ar de que para sempre. A Igreja sem quase ninguém em vista, a igreja lá aberta a quem quiser entrar, mas tão diferente de uma Guadalupe ou Aparecida ou o Bonfim em Salvador, onde sempre há vários funcionários, e que exalam um outro astral. Em Lourdes, no muito uns voluntários a organizar a fila para a gruta.

A gruta, verdade seja dita, estaria melhor posta no ambiente dos Pirineus que nesta balbúrdia comercial. Mas assim caminha a humanidade.

The day after e o Castelo de Lourdes

Para fechar, eu tive algumas horinhas no dia seguinte para revisitar a padaria e subir ao Castelo de Lourdes antes de ir embora — algo altamente recomendável, mais do que eu imaginaria.

O Castelo de Lourdes, que precede em muitos séculos qualquer manifestação religiosa aqui, é hoje um museu simpático, bem sinalizado, e com magníficas vistas para o entorno nesta região. Ele mostra bastante coisa tradicional desta cultura dos Pirineus.

De quebra, passei para visitar a dita Igreja Paroquial, que fica no centro.

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O amanhecer sobre Lourdes no dia seguinte, com os Pirineus lá atrás.
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O Castelo de Lourdes ali adiante. Ele data do século XIV.
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A Igreja Paroquial no centro de Lourdes e as montanhas, vistas de longe, da varanda do meu hotel.

A igreja paroquial é simples, mas bonita. 

Oficialmente, ela é a Igreja do Sagrado Coração, ou Église du Sacré Coeur de Lourdes. Data de 1936. Tudo aqui cheira mesmo um tanto ao século XX.

À entrada, nada mais que um mendigo e um jovem croata que queria uma foto sua com a igreja estendendo sobre a cabeça uma faixa de pano azul, vermelha e branca escrito “Dubrovnik”.

— “Hrvatska?”, indaguei eu a ele sorrindo, usando o nome da Croácia em croata. Ele se empolgou. Tirei a foto, ele agradeceu, eu disse molim (“de nada” em croata), e ele saiu extasiado, certamente depois a dizer que o francês que o ajudou sabia até as palavras em croata. 

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A Igreja Paroquial do Sagrado Coração no centro de Lourdes.
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Seus interiores com elementos tanto românicos quanto góticos. Data de 1936.
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Para não dizerem que eu não mostrei os quitutes da padaria hoje. Note mais um típico daqui ali, o pyrénéen, amanteigado com pistache.
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Aqui do centro você tem o acesso ao castelo.

Se alguém aí temeu a visita ao castelo achando que seria preciso escalar a montanha, nada tema. Assim era na Idade Média, quando seu propósito era precisamente ser impregnável enquanto fortaleza, mas hoje há um elevador providencial bem dentro daquela estrutura vertical que você vê.

O lugar é bastante organizado. Faz as vezes de fortaleza e de Museu dos Pirineus (Musée Pyrénéen) ao mesmo tempo. Paga-se um ingresso de € 8 para visitar, o que a meu ver valeu muito a pena.

Atenção apenas para a sesta no horário de funcionamento. Há uma pausa para o almoço, como ocorre por outras partes no sul da França. Dentro, há um percursos com setas bem marcadas, e você leva coisa de 1h de visita mais ou menos. O museu é muito bom, abrangente, afora as belas vistas lá do alto. 

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Os interiores mostram elementos do que era a vida nesta região dos Pirineus no século XVIII. Até poucas gerações atrás, a vida aqui assim era bastante simples.
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Os meandros do castelo lá em cima.
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Mais coisas de como eram as moradas aqui, com a mobília de época conservada.
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A fortificações do castelo.

Este castelo teve parte importante na Guerra dos Cem Anos (1339-1453), quando caiu sob domínio inglês. Verdade seja dita, foi somente após o fim daquela guerra que Lourdes e esta região vieram a fazer parte do Reino de França. Até então, estávamos aqui no Reino de Navarra, mais próximo dos espanhóis que dos franceses. Ainda hoje, como sempre observo, este sul francês lembra mais seus vizinhos do Mediterrâneo que Paris. A bandeira occitana vermelha e amarela está sempre a flamular.

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Bandeiras hasteadas e os Pirineus lá adiante.
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Lourdes lá embaixo.

Aqui em cima, parecia haver uma turma daqueles grupos católicos de jovens visitando. Uns adolescentes entoavam no jardim o que aos meus ouvidos pareceu “Erguei as mãos” do Padre Marcelo Rossi, só que noutro idioma. Não sei quem copiou de quem.

Afora esses grupos e um ou outro turista (sobretudo os ocidentais), não me pareceu que a maioria dos peregrinos que estão lá pelo comércio subam aqui. Uma pena, pois as vistas são gloriosas — e Lourdes não é fora do seu contexto, da moça que falava occitano e vivia aqui entre as montanhas. Acho até que o espiritual está mais aqui do que lá, mas aí já sou eu dando opinião. 

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A vista para o Santuário de Lourdes, França.
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Tomar rumo era preciso, França adentro e afora.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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