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França Occitânia

Béziers e o Languedoc na França: Charmes mediterrâneos interioranos

Entre os famosos campos de lavanda da Provença e os castelos do Vale do Loire, há o Languedoc, uma região ainda pouco visitada no meio do caminho. Pouco visitada em comparação às outras duas, isto é.

Estamos no Mediterrâneo francês, mas a sua parte oeste, mais próxima da Espanha que da Itália. Digo isso geograficamente, pois no aspecto cultural, pouco dá para distinguir. Vale lembrar que amplas porções do que hoje é a Itália estiveram por séculos e séculos sob coroas espanholas, de modo que distinção é mais um fenômeno moderno, do século XIX para cá. Do ponto de vista histórico-cultural, este canto do Mediterrâneo parece estar todo entrelaçado.

Carte du pays de droit coutumier et du pays de droit ecrit fr
O sul da França carrega uma tradição de direito escrito, advindo do direito romano. No norte, vigorava um direito de costumes, como na tradição anglo-saxã.

Estas são regiões que foram agregadas tardiamente ao Reino da França, veja você. Pertencem a uma outra matriz cultural que não aquela dos francos, centrados lá em Paris. A Provença só veio a fazer parte da França no século XV, e esta região cá do Languedoc, no século XIII, após a conquista de Carcassonne.

Pode parecer passado remoto, mas não é. Até os idos do século XIX, não existia nacionalismo, essa pulsão de homogeneizar tudo com um mesmo idioma, uma bandeira etc. Portanto, cada região seguia a sua vida cultural independentemente, falando até o seu idioma próprio. É só no século XIX ou mesmo no começo do XX que a maioria dos franceses aprendem francês.

O Languedoc vem precisamente disso, de uma terra onde se dizia Oc em vez de Oui para dizer “sim” nos idiomas locais. “Línguas d’Oc” (Langues d’Oc), daí assim ficou conhecido.

É um lugar de céu azul e edificações cor de ocre, que se contrastam com as plantas verdes. É mais arejado que o norte da França; amplo, com seus rios, e um ar de que espiritualmente pertence à primavera e ao verão mesmo quanto está no inverno.

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Note como é um lugar vivo, ainda que tranquilo.
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Bem-vindos a Béziers, uma das cidades históricas do Languedoc.

Béziers, cidade histórica no Languedoc

Béziers [lê-se Bê-ZIÊ] é uma das cidades mais antigas de toda a França. Data sabe de quando? De 575 a.C. 

Não se vê nada mais desse tempo aqui, mas não deixa de trazer uma estirpe à cidade. Ela ficava na estrada romana que ligava a Ibéria à Provença. Já exportava vinhos a Roma naquele tempo, e depois foi trocando de mãos. Chegou a ter décadas de domínio árabe no século VIII como parte da Al Andalus moura, antes de vir ficar sob os domínios de Carcassonne na alta Idade Média.

Béziers, por sinal, foi onde houve um massacre por parte dos cruzados sobre a população que havia se atrevido a tomar uma vertente diferente do cristianismo, considerada herética pela Igreja. Esses foram os cátaros, sobre os quais versei na postagem de Carcassonne. Na ocasião, estima-se que mais de 20 mil habitantes foram mortos nas mãos dos próprios cruzados ou dos bandos de mercenários que eles contratavam para engrossar seu caldo.

Arrasada a cidade em 1209, foi preciso reconstruir tudo, agora sob os ditames de Paris. É a cidade que você encontra hoje, produto dos últimos 700 anos. 

Languedoc no mapa
Languedoc e Béziers ali. Há também uma concepção mais ampla de Languedoc que inclui não só essa antiga região em vermelho, mas toda a atual metade sul da França, onde nos seus idiomas regionais se diz ou dizia mesmo oc em vez de oui. São línguas latinas outras, algumas já extintas e outras ainda faladas aqui e ali, assemelhadas ao italiano e ao catalão. Em 2016, na mais recente reforma administrativa, adotou-se oficialmente o rótulo de Occitânia para a região.
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A vista para os campos no entorno da cidade, do alto da Catedral de São Nazário, reconstruída após 1209.
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Feita essa introdução, é hora de virmos dar umas voltas por Béziers.

Uma volta por Béziers na primavera

Chegando na cidade e ao Platô dos Poetas

Eu vim aqui num bate-e-volta desde Narbonne. Gostei de fazer assim, e recomendo. Béziers fica a um pulo (cerca de 15 minutos) em trem regional, que não requer reserva, e Narbonne me pareceu melhor de hospedagem.

Béziers era quase como um passeio no campo de ar interiorano francês. Ainda que se trate de uma cidade de pequeno ou médio porte, não de um vilarejo, havia uma tranquilidade quase bucólica no ar. 

Era início de primavera, as folhas das árvores começando a brotar. O meu nariz identificava os primeiros sinais de pólen.

Logo diante da estação há um pequeno parque que não recomendo a ninguém perder, o Plateau des Poètes, que começa com um lindo monumento — pleno de bandeiras francesas — aos mortos durante as duas guerras mundiais e continua vegetação adentro, num lugar onde as árvores chamam mais a atenção que as pessoas.

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Bem diante da estação de trem, à entrada do Platô dos Poetas, este monumento em escadaria.
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O monumento honra os mortos durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais — os “artesãos da vitória”, diz a “reconhecedora” cidade de Béziers.

O Parque dos Poetas recebe este nome em homenagem aos diversos poetas de língua occitana.

Porém, não espere hagiografias aqui. Talvez elas existam em algum canto do parque, mas na prática você se ocupa dele e só vai saber quem ele homenageia se olhar na internet. A natureza é quem rouba a cena. (Talvez os próprios poetas preferissem assim).

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O Plateau des Poètes, onde se ouvia o som de água e, de longe, alguém tocar uma espécie de harpa. Parecia um lugar suspenso no tempo e retirado do mundo.
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As árvores chamavam mais a atenção que as pessoas.
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Caminhando pelo Platô dos Poetas, relativamente amplo.

A depender do quanto você caminhar, sai do outro lado. Do outro lado, fica a Alameda Paul Riquet, que há tempos eu não via igual. Imagine o grande calçadão La Rambla de Barcelona, só que tranquilo, interiorano, sem turistas.

Pessoas circulavam, e havia homens árabes aqui e ali proseando à sua maneira (com ares de nada fazer) pela alameda, mas sem quebrar a tranquilidade.

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A Alameda Paul Riquet em Béziers, sul da França.
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A alameda é extensa e das mais impressionantes que já vi. Bastante larga, ela num dado momento começa a ser margeada por alguns restaurantes, mas nada muito turístico.
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Este olhando as moças passarem é o senhor Pierre Paul Riquet, que dá nome à alameda.

Paul Riquet, Barão de Bonrepos (1609-1680) — não confundir com seu compatriota o filósofo contemporâneo Paul Ricoeur — não tem uma fama que tenha cruzado o oceano, mas é dos filhos mais pródigos de Béziers. 

Eu sei que a nobreza francesa passa uma imagem de gente folgada e bon vivant, uns boêmios aristocratas que não faziam nada, mas isso é uma meia verdade. É uma visão parcial, sobretudo do século XVIII (quando a coisa descambou para exageros) e estereotipada pelas obras de ficção.

Muitos nobres eram homens de letras ou das ciências. Basta lembrar que boa parte dos grandes nomes das humanidades ou das descobertas, como Isaac Newton, David Hume, Montesquieu ou Montaigne eram nobres. Já Paul Riquet foi o engenheiro responsável pela construção do Canal du Midi durante o reinado de Luís XIV. 

Pierre Paul Riquet 1604 1680
Paul Riquet em 1650, o engenheiro de Luís XIV responsável pela obra do Canal du Midi.

Canal do que? O Canal Real no Languedoc, senhoras e senhores, que os revolucionários em 1789 decidiram rebatizar de Canal du Midi, Midi sendo a alcunha informal dada ao sul da França, um tanto na mesma toada como o sul da Itália é apelidado de Mezzogiorno.

Ambos os termos têm a ver com a direção para a qual o sol fica quando é meio-dia. Lembrem que aqui estamos no hemisfério norte, não nos trópicos, então o sol não fica a pino na sua cabeça, mas na direção da linha do equador — neste caso, o sul.

Vocês já perceberam como é o mapa da França? Nunca lhes ocorreu que seria super útil ter uma conexão entre o Atlântico e o Mediterrâneo?

Pois é, isso ocorreu aos franceses já no século XVII. Além de poder transportar as mercadorias pela prática e barata via hidroviária sem precisar dar toda a volta na Península Ibérica, evitava ainda a pirataria espanhola. Pirataria no sentido clássico do termo, por supuesto.

Canal du Midi mapa
O Canal du Midi ainda existe. Construído da engenhosidade de Paul Riquet entre 1667 e 1681, ele se estende por 240 Km e conecta o Mar Mediterrâneo a um outro canal ligado ao rio Garonne. Juntos, eles compõem o que os franceses chamam de Canal dos Dois Mares (Canal des Deux Mers). Pega aí o rio Garonne, que desemboca no Atlântico na região de Bordeaux.

As pessoas aqui em Béziers e região, inclusive, são impressionadas e orgulhosas das comportas (écluses) feitas e que ainda modulam a passagem da água do canal. Fora do centro da cidade ficam as 9 Comportas de Fonseranes, que os franceses tratam como atração turística.

Eu não fui lá (fica meio fora de mão, e eu não piro demais em obras de engenharia a esse ponto), mas mostro a vocês. 

Comportas Fonseranes
As 9 Comportas de Fonseranes (9 Écluses de Fonseranes), que não sei por que recebem este nome, são nove comportas escalonadas quando o Canal do Midi passa aqui em Béziers.
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Apresentados a Paul Riquet, voltemos à sua alameda, que culmina num teatro do século XIX.
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Este é o Teatro Municipal de Béziers, inaugurado em 1844. Note que ele, portanto, antecede aquela onda de teatros grandiosos e cheios de luxo que apareceriam cinquenta anos mais tarde, como a Ópera Garnier de Paris.
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Bonjour, Béziers.

Pelo centro histórico de Béziers

O centro histórico de Béziers faz o estilo pacato, mesmo num dia animado de primavera. Eram uns 21 graus no ar, mas isso parecia ainda pouco à gente local. Uma atendente de loja com quem conversei comentou risonha que “para a gente isso ainda é frio“. Eu comentei com ela que morava na Suécia e que lá 21ºC já era um espetacular dia de verão. Ela fez aquela cara de “Deus me livre”, e se entusiasmou muito mais por eu ser do Brasil.

Aliás, os brasileiros geralmente não sabem o quanto que a França morre de amores pelo Brasil enquanto país, cultura, natureza, musicalidade. Fez-se aquela zoação toda das fotos estilo ensaio de casamento entre Lula e Macron, mas — independentemente de quem sejam os presidentes — a realidade é que há uma afetividade e interesse cultural bastante grande. Bobos seremos se ignorarmos isso pra ficar babando certos outros países que não nos fazem caso.

Às ruas de Béziers, em alguns becos passavam alguns idosos e outras gentes com ares de morar ali. Uns gatos pingados nas mesas desta ou daquela cafeteria ou restaurante, e às paredes os nomes das ruas em francês a se contrastarem com seus nomes estampados também em occitano — às vezes um nada a ver com o outro.

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Tua cor não nega tua origem, ó Béziers! Estes tons pêssego são muito mais típicos da Itália que da França.
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Os nomes das ruas são todos nos dois idiomas, em francês e em occitano. Como eu disse, este último se parece muito com o vizinho catalão. Frequentemente, os dois nomes não são tradução um do outro, mas alcunhas diferentes.
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Algumas poucas pessoas pelas estreitas ruas deste centro de Béziers.

Eu circulei por ali, tendo já almoçado um macarrão frito de estilo asiático servido por um simpático cara árabe lá na Alameda Paul Riquet, e tomando aquele ventinho gostoso que se misturava com o sol neste comecinho de primavera, fui dar com a Catedral São Nazário, a alma maior de Béziers.

Aliás, a catedral, seu entorno e a Ponte Velha mais abaixo são, para mim, o que já vale a visita aqui a Béziers.

A Catedral São Nazário fica no ponto mais elevado da cidade. Reconstruída a partir de 1215 sobre as ruínas da igreja de estilo romanesco que existia antes, ela é hoje gótica com tudo que tem direito: rosácea, vitrais, arcadas ogivais, claustro, só que um ar arejado — talvez ajudado pela pedra de cor clara — ao contrário daquele ar sombrio das catedrais do norte europeu.

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A Catedral de São Nazário e São Celso, erigida neste estilo gótico a partir de 1215. Eles, caso você esteja a se perguntar, foram mártires cristãos do primeiro século, durante o tempo de Nero. Eram da região de Mediolanum, vulgo Milão.  
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A rosácea no interior da igreja.
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O altar principal.
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O antigo claustro anexo.

Quem tiver pernas para subir não deve perder a oportunidade (gratuita) de ascender as escadas em espiral que há perto da porta de entrada. Você dali vai a uma parte elevada — que dá uma visão bem inusual do interior da igreja, do alto — até chegar ao telhado, de onde se tem uma vista e tanto para os arredores campestres de Béziers.

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A vista do interior da Catedral de São Nazário e São Celso.
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Vista para as torretas deste alto da Catedral de São Nazário e São Celso com os campos mais além.
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Lá embaixo, a Ponte Velha sobre o rio Orb.

Descer desde a catedral cá no alto até a Ponte Velha é muito da graça de uma visita a Béziers.

Pode-se fazer o contrário também, até mesmo auxiliado por elevadores caso você tenha dificuldade de locomoção. Eles ficam meio escondidinhos, mas, estratégicos, estão ali. Há um total de três com algumas rampas entre eles até a Igreja de São Judas Tadeu (Église Saint-Jude), que fica à margem da ponte. 

É uma descida pra lá de agradável por entre os elevados canteiros do chamado Jardim dos Bispos (Jardin des Êveques) e a vista para a paisagem ao redor desta acrópole. (Eles aqui usam mesmo esse termo).

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O Jardim dos Bispos (Jardin des Êveques) conforme se vai descendo da catedral rumo ao rio.
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Com os arbustos em flor e a Igreja de São Judas Tadeu ali atrás.
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A vista para Béziers à margem do rio Orb.

Esta região chega a me lembrar um pouco da Toscana, na Itália. Há diferenças, mas se nota que pertencem todas a esta família do Mediterrâneo latino. 

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A vista para a Ponte Velha (Pont Vieux). Ela originalmente data do século XII.

Vamos descendo?

Segui gradualmente rampa abaixo, “bebendo” daquele entorno, daquela paisagem. O calor era o adequado, seus vinte e pouquinhos graus com sol — o despertar da primavera, após longo e tenebroso inverno.

Aqui no Mediterrâneo, abençoado com o sol, ele — verdade seja dita — nunca é lá muito longo nem tenebroso, mas a primavera traz a vida de volta e, com ela, mais cores à paisagem. Ressurgem o verde e a cor das flores a fazer contraste com as edificações e o céu.

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Charmes deste interior mediterrâneo no sul da França.
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Descendo aos poucos.
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Aqui se encontra o mais baixo dos elevadores a quem precisar, indicando o caminho à acrópole de Béziers.
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A Igreja de São Judas Tadeu vista de frente. (Ela, por alguma razão, o Google Mapas não mostra, caso você a procure lá — mas ela existe.)

Não deixe de adentrar um tanto a Ponte Velha para poder avistar Béziers à distância. É das vistas mais cênicas que há aqui. 

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Por sobre o rio Orb no sul da França.
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O rio, e a catedral de Béziers lá no alto.
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A vista de Béziers desde sua Ponte Velha (Pont Vieux), do século XII. Lembrou-me algo de Toledo, na Espanha.

Daqui eu voltaria, já sem precisar adentrar os sobes e desces do centro da cidade. Pela beira do rio se pode ir contornando a cidade por entre as árvores, onde neste fim de tarde as crianças iam saindo das escolas. Havia aquele farfalhar típico das vozes das crianças em bando, algumas caminhando pelas ruas, as únicas a — junto com esse carro ou aquele ônibus — quebrar o silêncio que imperava em Béziers.

Estejam apresentados. Estas voltas pelo sul da França ainda continuam. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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