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França Nova Aquitânia

Visitando Bordeaux (Bordéus) na França: A cidade que ficou rica com vinho e o comércio colonial

(Este será um post longo.)

Nem só do vinho vive o homem, mas aquele que dele vive não consegue passar sem ouvir falar de Bordeaux

Lê-se como se fosse “Bordô”, mas em Portugal se traduz como Bordéus. Os espanhóis também o fazem. Já na língua local occitana, o lugar é chamado Bordèu. Por alguma razão, a aristocracia brasileira do século XIX deve ter achado mais formoso mantermos o nome parisiense — quem sabe para evitar que soasse parecido com bordel. 

Que fique claro que Bordeaux tem, sim, o seu lado rebordosa, mas seu nome nada tem a ver com a origem dessa outra palavra. Bordel, no sentido de lugar de prostituição, também vem do francês, mas da palavra bord, que na língua medieval dos francos se referia aos casebres de madeira onde a atividade se dava.

Voltando agora ao vinho…

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Numa degustação no Musée du Vin et du Négoce em Bordeaux, cidade francesa de longa estirpe comercial.

Bordeaux está longe de ser o único lugar produtor de vinho na França, que conta também com a Borgonha, as vizinhanças de Lyon e tantas outras regiões produtoras. Tampouco os vinhos bordoleses são necessariamente melhores, apesar do chamariz que o nome traz. Sua fama por certo advém da qualidade, mas isso outros também têm.

O diferencial aqui foi Bordeaux ter sido desde a Idade Média o porto que exportava vinhos à corte inglesa, por uma questão de proximidade geográfica e uma certa afiliação histórica de que trataremos daqui a pouco; e, como sabemos, a cultura anglófona nos últimos 300 anos ditou muito daquilo a que o restante do mundo dá atenção.

Tampouco é Bordeaux apenas um lugar de vinho. Estamos na capital e mais importante cidade da Aquitânia, um ducado histórico — hoje representado na região administrativa da Nova Aquitânia — que teve um papel essencial na Guerra dos Cem Anos e, mais tarde, no processo de colonização francês de territórios ultramarinos. Se não é coisa necessariamente bela, é coisa importante.

Venhamos dar umas voltas para conhecer melhor a cidade.

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Já ao chegar, na principal estação ferroviária de Bordeaux (Bordeaux Saint-Jean), você encontra um enorme mapa da região com o seu escoadouro para o Oceano Atlântico. Aquele longo estuário que você vê ali, onde desembocam os rios Garona e Dordonha, é chamado de Gironda.
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Às vésperas da Revolução Francesa (1789), Bordeaux controlava nada menos que metade de todo o comércio marítimo do Reino da França. Não comerciava muito em escravos, mas bastante nas especiarias produzidas por eles no Haiti e demais Antilhas. Quadro do ótimo Museu da Aquitânia na cidade.
Mapa de como estas terras — que por séculos pertenceram à coroa inglesa — teve papel preponderante na venda de vinhos à Inglaterra, e assim se alçou à fama mundial. Mais sobre isso daqui a pouco.

Chegando e me instalando em Bordeaux

Bordeaux tem seu aeroporto próprio, e não faltam portugueses vindo cá pela via aérea. Você os encontra e ouve em grande número na rua, como também os espanhóis.

Já aos brasileiros costuma ser mais fácil vir de trem desde Paris — a 500 Km de distância, mas que o impressionante trem de alta velocidade francês cobre numa curta viagem de 2h15. (Ah isso no Brasil…Eu vim desde Lourdes ao pé dos Montes Pirineus. Bem mais perto, mas mais ou menos a mesma duração da viagem em trem comum.

Eu cheguei à estação ferroviária de Bordeaux Saint-Jean já impressionado com aquele desenho do mapa na parede. Estava também contente por retornar aqui após quase 30 anos. Sim, eu já tinha vindo a Bordeaux antes quando era pré-adolescente, mas eu praticamente não tinha memórias bem definidas da cidade. Ela havia sido uma mera curta parada naquelas excursões europeias que se faziam muito nos anos 90.

De toda maneira, esperei encontrar uma cidade francesa portentosa, digna do nome e da fama. Esse é o caso se você se detiver no centro do centro; afaste-se só um pouquinho e a coisa muda de figura. O que percebi foi que Bordeaux hoje tem duas naturezas: a da estirpe de outrora, ainda concentrada no seu miolo turístico, e a Bordeaux contemporânea um tanto decaída — quiçá “pagando as penas” pelo que fez, se quiser interpretar dessa forma. Aqui a gente diz e mostra tudo.

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Bordeaux tem seu centrinho simpático, com ruas estreitas e cafés.

Se noutras cidades da França e Europa afora as estações ferroviárias tendem a estar bem no centro, em Bordeaux não é bem assim. A estação Saint-Jean fica a alguns poucos quilômetros, ou coisa de meia hora a pé.

Por sorte, há um ótimo sistema de bondes elétricos na cidade (o que chamam de VLT no Brasil). Você compra a passagem numas maquininhas presentes em cada ponto.

Eu o usaria bastante para me deslocar desde o meu bairro aos fundos da estação com ares de subúrbio industrial abandonado até as atrações. Eram obras com ares de estarem em andamento há anos, além de pixação, sujeira e quinquilharias em ruas ermas. Eu fiquei com a impressão de que — salvo o bom sistema de transporte — se eu votasse em Bordeaux e na Aquitânia, votaria na oposição nas próximas eleições.

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O entorno do centro é bastante “derrubado”, com ares de abandono. Foi certamente a minha impressão ao me hospedar não muito longe da estação ferroviária, neste ambiente aí.
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Quelle ambiance.
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À beira do rio, um belo elefante branco apelidado de La Meca (Maison de l’Economie Créative et de la Culture). Dizem que às vezes há exposições de arte contemporânea. A mim, pareceu uma dessas imensas obras vazias. Fiquei também a me perguntar se a abreviatura foi uma tentativa de seduzir a vasta população de origem árabe na cidade.

Eu me instalei num hotel simples perto da estação cujo principal mérito foi o preço, além da funcionária estoniana na recepção, que era uma deusa caminhando entre mortais.

Era um lugar com crise de identidade, que não sabia bem se era albergue ou hotel. Era os dois ao mesmo tempo: tinha café da manhã completo de hotel, mas também a cozinha faça-tudo-você-mesmo-e-lave-os-pratos-depois de um albergue.

Ali, na cozinha, habitavam os hóspedes visivelmente mais pobres, onde se incluíam algumas famílias aloiradas que eu não sabia se de russos ou ucranianos. Falavam russo, mas boa parte dos ucranianos o faz. Não vi homens, apenas mulheres acompanhadas de crianças pequenas várias, que circulavam entre mães geralmente ranzinzas, aquele ar sisudo característico dos ex-soviéticos e quiçá agravado pelas agruras da guerra.

Embora eu estivesse a uma quadra da beira do rio Garona e do antigo porto, isso não valia de nada, pois é uma área deixada às moscas. Eu nem sei como estes hoteis vieram se instalar aqui (deve ser isenção de IPTU). Pelo menos, estar perto da estação teve suas vantagens logísticas e me foi econômico. Eu não passaria mesmo muito do meu dia ali.

Logo eu tomaria um bonde até o simbólico Monumento aos Girondinos, seguido de outras atrações no centro da cidade. Lá eu aprenderia mais sobre Bordeaux antes de ir à degustação de vinho.

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Por sorte, há este belo e funcional bonde para levá-lo dos pouco chamativos arrabaldes de Bordeaux até o centro histórico.

Voltas pelo centro de Bordeaux: Conhecendo suas marcas

A minha primeira parada foi na Place des Quinconces, um vasto terreno que dizem às vezes acomodar feiras e eventos, mas que nesta ocasião se encontrava ermo e vazio, com ali o solitário — e belo — Monumento aos Girondinos.

Os girondinos, aquela facção dos revolucionários de 1789, ganharam esse nome em referência aqui a esta região da Gironda onde fica Bordeaux — você que, como eu, decorou os nomes nas aulas de História sem realmente saber de onde vinham.

A Gironda é o nome que se dá ao estuário onde desembocam o rio Garona e o rio Dordonha, formando um amplo curso d’água até o mar, e por onde passou tanto do comércio imperial francês.

Bordeaux tinha uma ampla burguesia comercial, que constituiu o grupo dos Girondinos na Revolução, que eram mais moderados. Acabaram padecendo em grande número diante dos mais radicais Jacobinos, liderados por Robespierre (entre outros) e que deflagraram o chamado Reino do Terror em 1793. Foi quando as cabeças — da família real e 10 mil outros considerados indignos pelo movimento — começaram a rolar guilhotina abaixo, não em 1789.

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No alto da coluna, a figura da Liberdade republicana rompendo os grilhões, com as correntes arrebentadas ainda em mãos.
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O Monumento aos Girondinos, facção mais burguesa e moderada dentre os revolucionários de 1789. O seu nome adveio aqui desta região da Gironda, pois muitos comerciantes de Bordeaux eram integrantes.
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Na base, não há realmente girondinos retratados, mas figuras simbólicas, como essa carruagem que atravessa terra e mar. Normalmente, é para haver água jorrando, mas a fonte estava seca nesta ocasião da minha visita.
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Impossível não deixar de notar, todavia, uma certa vastidão excessiva nesta Place des Quinconces. Aí você descobre que não é à toa, mas porque — durante séculos — havia uma fortaleza aqui que foi destruída e basicamente “deletada” da cidade no começo do século XIX, após a revolução.

Caminhemos um pouco para trás no tempo, entretanto, e para dentro do miolo da cidade, e as obras restantes do século XVIII — pré-revolução — começam aos poucos a dar as caras.

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A Ópera Nacional de Bordeaux inaugurada em 1780, ainda antes da Revolução Francesa (1789). Em francês, ela é também chamada de Grand Théâtre.

Bordeaux começava a ficar interessante. A sua beleza, bem concentrada no centro, ia aos poucos se revelando.

O centro fica a coisa de 1 Km da beira do rio Garona, um curso caudaloso que margeia Bordeaux. Por ali se dá o seu comércio desde tempos imemoriais. A atividade remonta ao tempo dos celtas que os romanos encontraram aqui, estes que apelidaram o lugar de Burdigala. Não há consenso sobre a etimologia do nome, mas se sabe que os romanos fazem deste lugar uma cidade sua já no século I a.C., seguindo a conquista da Gália por Júlio César em 58-50 a.C.

O seu apogeu, contudo, viria muito mais tarde. Começa com o comércio privilegiado com os ingleses nos séculos finais da Idade Média e depois ascende com o imperialismo ultramarino francês. Há, ainda hoje, lindos portões do século XV que mostram onde os limites da cidade ficavam.

Do outro lado, a orla do rio, que se por um lado não é assim uma Copacabana, por outro tem a sua beleza e tranquilidade. Ali se juntam as pessoas durante a tarde, sobretudo na Praça da Bolsa (Place de la Bourse), feita no século XVIII e que mais uma vez mostra o histórico comercial e de glórias coloniais de Bordeaux. Em vista, a Ponte de Pedra (Pont de Pierre) feita apenas em 1822 — a primeira a existir aqui. 

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Coluna do tempo romano em Bordeaux.
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A bela Praça da Bolsa (Place de la Bourse), o lugar mais famoso da cidade, denotando mesmo sua natureza comercial. Data do século XVIII, quando derrubaram as muralhas da cidade, e o que hoje é o centro se abriu.
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Pessoas sentadas diante do rio.

Normalmente, há um espelho d’água aí (que comumente se encontra em fotos de divulgação), mas ele foi — espera-se que temporariamente — desativado em 2024 após agricultores jogarem esterco nele durante um protesto. Ainda havia barreiras de metal ou cimento aqui e ali nas principais praças para evitar que se chegasse com tratores. Bordeaux exala certa tensão social, que aqueles que forem mais fundo que o encantamento perceberão. 

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A vista para o rio Garona, que vai desembocar dali a pouco no Atlântico. É por onde se dá desde sempre o comércio de Bordeaux.
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A Ponte de Pedra (Pont de Pierre) sobre o Garona lá do outro lado.
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A ponte foi completada apenas em 1822, durante a restauração do Antigo Regime após a Revolução Francesa. À época, ela foi a primeira que fizeram aqui, mas hoje já há uma outra mais moderna, de metal.

Você pode ficar ali tomando um vento, vento que embora forte estava até agradável neste começo de primavera, mas eu optei por retornar ao miolo da cidade para percorrer mais de suas ruas, visitar as suas igrejas de época e também o ótimo Museu da Aquitânia. A degustação de vinho eu faria por último, no segundo dia. 

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Nas ruas de Bordeaux comendo um cannelé, esta gominha doce típica daqui e que hoje em dia se acha por toda a França (basta entrar num estabelecimento da rede Paul). Antes de vir cá eu nem sabia que se trata de uma iguaria desta região de Bordeaux. Nada tem a ver com canela, ao contrário do que inicialmente imaginei. Seu nome tem a ver com estes sulcos (cannelures em francês) ao redor — nem sequer vai canela na receita. A crosta é caramelizada, e seu interior gomoso tem algo de baunilha com um toque de rum. Cuidado, pois dá vontade de comprar outro e outro (mas a vontade em geral passa após o segundo ou o terceiro).

Ao que degustava o cannelé (um “sulcado”, se quiséssemos traduzi-lo ao português) neste fim de tarde, eu me apercebia do zum-zum-zum de Bordeaux, no seu centro com cara do século XVIII. Bicicletas hoje ziguezagueiam os pedestres nas vias estreitas calçadas com pedra lisa, talvez com leve exceção para o denso calçadão Sainte-Catherine — o mais extenso de toda a Europa.

Aqui e ali, mendigos no chão você tem para escolher a quem vai dar, caso filantropia seja a sua praia. Não parecia haver quadra no centro de Bordeaux que não tivesse pelo menos um ou uns. Lá e cá, se notavam também os muitos — em sua maioria gente de cor — no subemprego de entregador de comida por aplicativo.

O término do entardecer logo me traria um certo ambiente que me lembrou (bem) mais os fins de tarde no ponto de ônibus em Feira de Santana — aquela rebordosa e gente agitada, alguns de trejeitos suspeitosos por quem eu não botava minha mão no fogo — que o que comumente se vê na maioria da Europa.

Porém, antes, eu fui ver ali pertinho mais uma obra que embeleza a Bordeaux século XVIII: Notre-Dame de Bordeaux, elaborada no estilo barroco e terminada em 1707.

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A Igreja de Nossa Senhora de Bordeaux (Notre-Dame de Bordeaux), realizada no período do reinado de Luís XIV, o rei sol.

Antes que alguém pense em Luís XIV puramente como essa figura magnânima, saiba que essa igreja foi feita como uma certa compensação porque o rei queria expandir sua fortaleza em Bordeaux, e havia conventos no caminho. Ele, naturalmente, ordenou a demolição dos conventos para abrir caminho ao que ele queria, e os frades dominicanos acabaram vindo construir esta igreja cá.

Lembram que eu mostrei a Place des Quinconces bem vazia, onde disse que havia uma fortaleza? Pois era lá, onde ficava o chamado Château Trompette, que hoje só existe nos livros de História. Ele havia sido feito para proteger Bordeaux, mas sobretudo para vigiar os bordoleses e lhes impôr a autoridade real após eles estarem do lado dos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos (1339-1453). Era um lugar tremendamente malquisto aqui na cidade, que portanto extirparam após a Revolução.

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O interior da Igreja de Notre-Dame de Bordeaux, terminada em 1707.
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O altar.

Outra curiosidade é que em 1793, durante o chamado período do Terror — com as guilhotinas rolando — e a política de descristianização do país, esta igreja de Notre-Dame foi convertida em Templo da Razão. Robespierre daí instaurou o Culto do Ser Supremo (Culte de l’Être suprême), uma espécie de deísmo genérico para substituir o catolicismo.

Isso duraria até 1802, quando Napoleão desfaz a coisa. Você vê, de toda forma, como Bordeaux bem registra até hoje essas agitações. 

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A igreja hoje com seu órgão ao fundo.
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À saída, alguém — da própria comunidade desta igreja — punha este urso de pelúcia manchado para denunciar as atrocidades em curso em Gaza, onde milhares de crianças já perderam a vida — em proporção muito maior do que ocorre na Ucrânia, por exemplo.

“Paz sem voz não é paz, é medo”, já dizia O Rappa. Tensão social parecia ser o sobrenome de Bordeaux no curso da História. Não deixava de ser curioso notar o padrão.

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Claro, há o lado nutella a quem gosta de nutella, que não é necessariamente a raiz.
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O calçadão Sainte-Catherine, que cruza o centro de Bordeaux, é o mais extenso de toda a Europa. Pleno de lojas de marcas, moradores e turistas.
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Ruas adjacentes muito simpáticas no centro de Bordeaux.
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As bicicletas, que às vezes passam com certa deseducação, mas há uma convivência.
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A arquitetura emblemática do século XVIII no casario do centro bordolês.
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Casario esse que, por vezes, aparenta estar precisando de um restauro ou de uma mãozinha de vida.
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A Porta da Borgonha (Porte de Bourgogne), um arco do triunfo — que antecede o Arco do Triunfo de Paris — terminado em 1755. Quando foram desfeitas as muralhas de Bordeaux, o prefeito quis amplos boulevares marcados assim com arcos. Note que estávamos aqui ainda no século XVIII, portanto cem anos antes da reforma urbanística que transformou Paris no que ela é hoje. Foi aqui em Bordeaux que o Barão de Haussmann se inspirou para reordenar a capital (vai dizer que você nunca percebeu que Paris não tem mais seu centro medieval?).
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Porte de Bourgogne foi o nome da parada de bonde por onde retornei aos meus arrabaldes centrais (o meu subúrbio ferroviário em pleno centro da cidade), ao fim deste primeiro dia. O fuzuê fazia eu me lembrar de Feira de Santana nessa hora do “fechar do comércio”, como dizia minha avó. (A qualidade do transporte em si, é claro, é incomparável. Nesse caso, é Feira quem parece estar no século XVIII.)

Segundo dia

Raiava um novo dia na Aquitânia, e era hora de ver o que eu não vira de Bordeaux. Há algumas igrejas — mais antigas que Notre-Dame de Bordeaux — bem emblemáticas na cidade, incluso aquela onde se casaram os pais de Luís XIV, e você não pode deixar de ver o Museu da Aquitânia se quiser compreender mais deste lugar.

Eu o fiz, começando pela Basílica de São Miguel (Basilique Saint-Michel de Bordeaux), a segunda maior igreja da cidade. Ela começou a ser feita no século XV, após o término da Guerra dos Cem Anos (1339-1453), e foi concluída quando estava se começando a plantar cana no Brasil, no século XVI.

Ela, como também a catedral, são das raras igrejas francesas com um campanário — isto é, uma torre do relógio que fica separada da igreja em si.

Há quem a ache mais impressionante que a própria catedral.

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A Basílica de São Miguel vista de fora. (Pedimos desculpas aos telespectadores, pois o campanário está em reforma, para melhor servi-lo).
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O interior da Basilique Saint-Michel de Bordeaux, que para muitos é um ponto de parada no Caminho de Santiago até Compostela.
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A figura do Arcanjo Miguel lá no alto, sob as arcadas góticas e com os vitrais ao fundo.
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Vista para a rosácea no fundo desta basílica.

Não é muito longe dessa Basílica de São Miguel que está a Grosse Cloche, ou o Grande Relógio, instalado sobre o Portão de Santo Elói (Porte Saint-Éloi), do século XIII. O relógio em si é do século XV, como tanta coisa que há aqui em Bordeaux. Junto com o Portão Cailhau (Porte Cailhau), de 1495, são dos magníficos antigos portões de época que se preservaram da finada muralha da cidade.

É para dentro deles que fica o centro antigo de Bordeaux com suas ruelas.

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Portão Cailhau (Porte Cailhau), terminado m 1495 no estilo gótico flamboyant. Seu nome tem a ver com uma terminologia geográfica da área à beira do rio logo fora dele.

Caso alguém fique a se perguntar, a Praia do Calhau em São Luís do Maranhão — cidade fundada pelos franceses em 1612 — pega o seu nome de um galismo na língua portuguesa, emprestado o nome francês caillou para “pedra”. Calhau é palavra que existe em português, ainda que pouco usado.

A praia, portanto, não tira o seu nome desse portão, mas eles partilham da mesma raiz etimológica.

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O Grande Relógio (Grosse Cloche) instalado no século XV no Portão de Santo Elói (Porte Saint-Éloi), do século XIII.
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É aí para dentro que ficam as ruelas simpáticas do centro de Bordeaux, como esta.
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Você pode tomar um café assim (que eu terminei antes mesmo de me lembrar de tirar uma foto), com vista para o portão do relógio ali.

Detive-me ali no Books & Coffee, simpática rede tentadoramente atraente. Preços um pouquinho salgados, mas café bem amargo e experiência bastante doce.

Do lado de fora do que havia sido a muralha — isto é, do lado de fora desse portão ainda presente —, havia sido curioso notar como as largas ruas estavam muito mais marcadas pela presença magrebina e libanesa que qualquer outra coisa. Magrebina aí se refere ao Magreb, o norte da África (Tunísia, Argélia, Marrocos) que foi colônia francesa. Agora voltou o cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

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Clementinas a preço promocional do Ramadã este ano.
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Mosaicos antigos e remanescentes da presença romana aqui em Bordeaux na Antiguidade.
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Mosaico antigo mais de perto. O curioso é que alguns destes padrões coloridos de fato têm origem no norte da África, que os romanos também governavam. Então os liames e trocas não são de hoje.

Isso está no belo Museu da Aquitânia, que fui visitar em seguida. É um senhor museu, com dois vastos andares. Se você é do tipo que se cansa após a primeira hora, sugiro não se deter demais na parte arqueológica no começo ou ficará sem energia para todo o restante.

O museu abre todos os dias exceto às segundas-feiras. Você pode ver os detalhes no site oficial, mas não há necessidade nenhuma de comprar ingressos antecipadamente. Os turistas na França são muitos mas, como se sabe, quase todos se concentram nos mesmos lugares enquanto outros ficam vazios.

A quem gosta de museus, há também em Bordeaux o Museu de Belas-Artes, com ênfase em arte dos séculos XIX e XX. Não o visitei verifiquei, mas li coisas boas a respeito. 

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O ótimo Museu da Aquitânia em Bordeaux, que mostra a História da cidade desde os tempos gauleses e romanos até a contemporaneidade. É uma jornada bem rica.
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Tesouro gaulês aqui encontrado.
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Figura de Júpiter, trazida pelos romanos para esta cidade que chamavam Burdigala.
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Moedas romanas antigas originais dos tempos dos césares, senhoras e senhores!
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O consumo de vinho foi algo introduzido aqui pelos romanos nos idos do tempo de Cristo.

Leonor da Aquitânia e a Bordeaux medieval

Ninguém é tão comentado na História de Bordeaux quanto Leonor da Aquitânia (1122-1204), que à sua época era considerada o maior partido do reino, pois tinha o maior dote.

O que quero dizer? No Reino da França daquela época medieval, o rei tinha muito pouco poder. Havia duques mais fortes e com mais controle de terras que ele. Em tese, todos deviam obediência à coroa, mas na prática uns disputavam com os outros num xadrez bem descentralizado. 

A Aquitânia era um ducado poderoso, com muitas terras neste sudoeste da França, então quando o seu pai morre em 1137, deixando-a com 15 anos, esta que os franceses hoje chamam Aliénor d’Aquitaine virou uma versão medieval de Quem vai ficar com Mary?. Quem se casasse com ela, de repente ganharia o controle de imensas terras e poder.

Quem vence — e se casa com ela meros três meses após a morte do pai — não é outro senão o príncipe herdeiro da coroa de França, doido para adquirir mais terras e assim maior poder de mando de fato. Ele logo ascende ao trono como Luís VII, e eles juntos têm duas filhas, mas após 15 anos sem conseguir um filho varão, o rei pede ao papa a anulação do casamento. Mal sabia ele o gigantesco efeito borboleta que isso geraria. 

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Leonor da Aquitânia (1122-1204), que foi rainha da França e da Inglaterra, representada aqui num quadro de 1858 pelo pintor britânico Frederick Sandys.

Divorciada, ela foi se casar então com o rei da Inglaterra, Henrique II, pondo aí a pedra angular da Guerra dos Cem Anos que estouraria mais tarde.

É preciso lembrar na nossa cabeça oriunda do século XX, que imagina países como se fossem “ilhas”, que o Reino da Inglaterra daquele tempo não era algo isolado do Reino da França. 

Desde 1066, quando os normandos invadem as ilhas britânicas para de lá expulsar os Vikings na Batalha de Hastings, é o duque da Normandia — parte do Reino da França, e que portanto deve fidelidade ao rei francês — quem adquire a coroa inglesa.

É como se o governador de Mato Grosso passasse a ser também presidente da Bolívia, e ficasse naquela coisa dividida de estar subordinado ao presidente do Brasil, mas ao mesmo tempo, não.

Esses primeiros reis ingleses sequer iam morar na Inglaterra. Basicamente diziam “aquela terra ali é minha”, mas não iam para lá. Seguiam vivendo na Normandia, norte da França. Para você ter uma ideia, esse casamento de Leonor com o rei inglês Henrique II se deu em Poitiers, aqui na Aquitânia.

Em tempo, Leonor seria coroada rainha lá na Abadia de Westminster em Londres, e o resultado foi que seus filhos agora seriam hiper poderosos. Ricardo Coração de Leão (Richard Lionheart), o mais famoso deles, governava mais terras na França que o próprio rei francês. 

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Este mapa é de 1154. Tudo em vermelho era governado pela chamada dinastia Plantageneta, onde a mesma pessoa era rei da Inglaterra, duque da Normandia e agora também duque da Aquitânia. O que o rei da França administrava diretamente é só o que está em azul escuro, no entorno de Paris, ainda que nominalmente seu reino fosse tudo o que está no contorno azul. Quanto tempo até o caldo desandar?

E agora, José? Há até quem diga que a Guerra dos Cem Anos foi, na verdade, uma guerra civil francesa pelo trono do país. É uma forma de ver.

Bastou esperar uma crise de sucessão ao trono para haver disputas, sobretudo se levarmos em conta o quanto as famílias nobres e reais eram misturadas. Ou seja, o rei do reino vizinho era frequentemente primeiro de segundo grau ou tio avô por parte de mãe deste daqui.

Ocorreria nos idos de 1340, portanto uns bons 200 anos após Leonor da Aquitânia e seu exotismo de ter sido rainha da França e depois rainha da Inglaterra. Agora os outros também queriam, e os reis ingleses passaram a reclamar para si também a coroa francesa. Estouraria a Guerra dos Cem Anos (1339-1453) entre a família Plantageneta e a família Valois. Sobre o desfecho disso eu falo mais no post em Orleans, quando Joana D’Arc entra em cena.

O fundamental a saber aqui é que Bordeaux, portanto, torna-se a fornecedora de vinhos por excelência para os domínios da coroa inglesa — já desde esse tempo. Mesmo quando os ingleses perdem e o rei de França estabelece a sua autoridade sobre a Aquitânia, o comércio de vinho era tão lucrativo que ele permanecesse intacto.

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Esta é Bordeaux no século XVII, com o rio Garona ali. Lembram da fortaleza de que lhes falei, o Château Trompette, que Luís XIV expandiria à custa dos frades, e que depois da Revolução Francesa foi arrasada, deixando o vazio na Place des Quinconces? Você a vê ali.

Bordeaux pós-Guerra dos Cem Anos

É por isso que muita coisa em Bordeaux data do século XV — o Grande Relógio, o Portão Cailhau, a Basílica de São Miguel, e o próprio Château Trompette, erigido aqui para proteger esta costa dos ingleses mas também para vigiar os bordoleses e marcar a presença real aqui. Daí também os girondinos terem histórica aversão à monarquia francesa e apagarem essa fortaleza do mapa após a Revolução.

Saído do Museu da Aquitânia, fui a uma das edificações mais antigas da cidade: a catedral. Foi lá que Leonor da Aquitânia teve o seu primeiro casamento, com o herdeiro da França. A catedral existe desde o século XI, mas com o fim da Guerra dos Cem Anos (1339-1453) ela ganha uns extras. Data de 1461 o campanário que há hoje na sua praça. É onde também se localiza a prefeitura da cidade (hôtel de ville).

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A Praça Pey Berland, onde fica a catedral. Quando chegamos, estava ocorrendo um protesto de professores contra o sucateamento das escolas públicas.
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Esta é a Torre Pey Berland, campanário da catedral feito no século XV. Caso você esteja a se perguntar quem, afinal, é Pey Berland, trata-se do arcebispo aqui de Bordeaux da época em que a Guerra dos Cem Anos termina, dos idos de 1450, quando se erige esta torre.

A praça é deveras agradável — talvez a mais agradável de toda Bordeaux — com árvores, pessoas circulando e lugar onde se sentar.

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A Catedral de Santo André, originalmente do século XI, ainda que tenha recebido adornos posteriores. Lá ao fundo, a Prefeitura de Bordeaux.
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A Prefeitura de Bordeaux. Hoje, como tantos prédios públicos Europa afora, vê-se também uma bandeira ucraniana hasteada em solidariedade.

Uma curiosidade, se me permitem antes de ingressarmos na catedral, é que — duvido que muita gente saiba disso — um dos prefeitos de Bordeaux no século XVI foi nenhum outro se não o filósofo e escritor Michel de Montaigne (1533-1592). Ele foi dos primeiros grandes humanistas da França. “Não há nenhuma ideia pela qual valha matar uma pessoa“, dizia ele.

Suas obras sobre a amizade e a condição humana foram formadoras para muitos pensadores que vieram depois. Foi, inclusive, contemporâneo e amigo de outro famoso: Étienne de la Boétie.

O Museu da Aquitânia tem um cenotáfio seu (isto é, uma tumba monumental, só que sem restos mortais dentro) que tem dos epitáfios mais impressionantes que já vi. Está em grego(!), com uma versão em francês que traduzo para vocês aqui.

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Cenotáfio do filósofo, pensador e ex-prefeito de Bordeaux Michel de Montaigne, falecido em 1592. No Museu da Aquitânia.

“Michel de Montaigne, Périgord, filho de Pierre, neto de Grimond, bisneto de Raymond, cavaleiro de Saint Michel, cidadão romano, ex-prefeito da cidade de Bituriges Vivisques, homem nascido para ser a glória da natureza e cujos amores gentis, espírito fino, eloqüência sempre pronta e julgamento incomparável foram considerados superiores à condição humana, que teve como amigos os maiores reis, os primeiros personagens da França e até os líderes do partido do erro, embora ele próprio muito fielmente apegado às leis do seu país e à religião dos seus antepassados, nunca tendo feito mal a ninguém, incapaz de lisonjear ou insultar, permanece querido por todos sem distinção e, durante toda a sua vida tendo professado uma sabedoria que resistiu à prova de todos os ameaças de dor, assim chegado ao combate supremo, depois de ter lutado longa e corajosamente contra um mal que o atormentava implacavelmente, pondo de acordo suas ações e seus preceitos, ele termina, Deus ajudando, uma bela vida com um belo final.”

As palavras são de sua viúva, Françoise de la Chassaigne. O mal que o atormentava implacavelmente eram pedras nos rins, e o partido do erro a que ela se refere eram os protestantes. À época, já estouravam conflitos violentos entre protestantes e católicos, Montaigne sempre chocado como seres humanos e ditos cristãos podiam se matar daquela forma.

Voltemos à Catedral de Bordeaux…

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O interior desta catedral gótica é imenso, com quadros decorando.
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O que mais me chamou a atenção foi este de Santo André, um dos apóstolos, que foi crucificado assim numa cruz em X. Essa, a chamada Cruz de Santo André (St. Andrew’s Cross), é a que se vê na bandeira da Escócia, da qual é patrono.
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O interior da igreja com o órgão ao fundo.
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O órgão visto de longe. Esta catedral tem uma certa atmosfera um tanto de chiaroscuro, como as obras de Caravaggio. Uma parte é iluminada e a outra, sombria.

Organizada como parte integrante do Reino da França, Bordeaux torna-se então o seu principal porto quando a França se lança ao mar.

Seguindo os passos dos portugueses e espanhóis, os franceses aventuram-se nas Américas, conquistam muito do que é hoje o Canadá, a Louisiana, tentam tomar posse de terrenos onde hoje é o Brasil (como a França Antártica que tentaram fundar no Rio de Janeiro), mas a sua melhor posse acabam sendo mesmo as Antilhas, nome dado às ilhas caribenhas que usaram para produzir açúcar. A principal delas foi o Haiti, mas há também uma série de ilhas menores (como Guadalupe e Martinica) que ainda hoje fazem parte da França.

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Bordeaux foi, como lhes disse, o porto imperial francês por excelência, por onde ocorria metade do seu comércio naval e chegavam as especiarias das colônias.
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As coisas daquela época, aqui já do começo do século XX, com os produtos do Caribe.
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Não dá nem para disfarçar o racismo, por óbvio. Isto é da época em que se viam as raças como uma superior às outras, no princípio do século XX.

Estes pôsteres de época aí acima estão no Museu da Aquitânia.

Bordeaux ficou rica importando essas mercancias França (e Europa) adentro enquanto exportava o seu principal produto: o vinho. Vamos então à parte final desta volta pela cidade, a uma degustação.

Degustando vinho de Bordeaux no Musée du Vin et du Négoce

Você pode tomar vinhos de Bordeaux em qualquer lugar da França ou mundo afora — não precisa ser aqui. Só que, é claro, aqui estando, eu me interessei em ir a uma dessas degustações em que explicam um pouco sobre as variedades locais. 

Os principais destinos dos que têm esse interesse são a Cidade do Vinho (Cité du Vin), um centro de exposições meio fora da cidade (e que divide opiniões por talvez ser muito voltado ao marketing), e o Museu do Vinho e do Negócio, que fica a norte do centro da cidade. Afora isso, claro, você pode daí ir visitar alguma vinícola caso seja aficcionado.

Eu já tendo ido a outras degustações do gênero, por exemplo, na região de Champanhe, achei que me contentaria com o Musée du Vin et du Négoce.

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O Museu do Vinho e do Negócio fica assim num arrabalde do centro, onde se podia notar com mais clareza como as construções antigas aqui estão bem necessitadas de uma limpeza e restauração.
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O Museu do Vinho e do Negócio fica neste muquifo.

Cheguei por ali andando por aquelas ruas ermas até a entrada, onde oferecem sessões de degustação sem hora marcada. Têm em vários idiomas, inclusive em espanhol. Custa 10 euros.

Deixem-me lhes adiantar logo que esse Musée du Vin et du Négoce é uma certa enganação — saiba que está pagando basicamente para beber. No mais, é uma loja. O que há de museu aqui é uma bobagenzinha, uns negócios largados numas caves com cheiro de mofo e que você vê por completo em 15 minutos com muito boa vontade.

Vários turistas norte-americanos estavam por ali, já que o nome Bordeaux ressoa desproporcionalmente forte nos países de língua inglesa. Muitos turistas espanhóis e portugueses vêm à cidade, mas são os gringos e os ingleses que vêm mais fissurados nesta coisa de provar o vinho. 

Sentamos-nos para a exposição em espanhol por uma simpática moça peruana que estava ali a fazer estágio. Explicou-nos sobre como há diferentes tipos de vinho de Bordeaux — distintos terroirs —, em especial porque um lado do estuário tem um clima mais úmido e o outro, mais seco.

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Mapa com os terroirs distintos do entorno de Bordeaux, no sudoeste francês.
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O Museu do Vinho e do Negócio é um certo engodo enquanto museu. Muito pequeno, ele tem basicamente alguns breves painéis explicativos e documentários velhos passando, num subterrâneo meio com cheiro de mofo.
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O interessante são mesmo os vinhos. O lugar é mais uma loja com experiência de degustação. Sai 10 euros por pessoa.
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Você prova dois vinhos, e o que vocês viram na foto no começo da postagem foi este.

Eu não tenho aqui como dar detalhes dos sabores — seria me meter naquele linguajar curioso dos enólogos, a falar de sabor “aveludado” e coisas do gênero.  

O que posso dizer é que gostei de descobrir um pouquinho da tamanha diversidade de vinhos que fazem aqui. O mais curioso deles foi um vinho Bordeaux amarelado feito com uma uva onde deixam de propósito crescer um fungo que lhe altera o sabor. (Certamente acompanha bem um queijo gorgonzola.) São os vinhos Sauternes, a quem quiser procurar, cujas uvas passam por esse processo da chamada “podridão nobre” (!).

Ah, as coisas que a gente descobre! 

Você pode também, é claro, tomar vinhos Bordeaux “por aí” e ir descobrindo. Aqui na França, por coisa de €4-5 você consegue uma boa taça. 

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Não vou dizer que “pirei” na cidade em si, mas que ela fez história, isso fez. O seu legado está aí.

Daqui eu rumaria para Narbonne, a conhecer o lado mais Mediterrâneo deste sul francês. Reencontro vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando Bordeaux (Bordéus) na França: A cidade que ficou rica com vinho e o comércio colonial

  1. Essa região é bem conhecida aqui no Brasil pela qualidade do seu vinho., assim como a cidade.
    Os girondinos também. Assim como Robespierre e seu regime, ignorante, de matanças e de terror. Coitado de Lavoisier, sobrou nessa.
    Belíssima esta estatua homenageando a liberdade. Linda!… Autêntica…
    Monumento maravilhoso.Tem algo da Fontana di Trevi em Roma.
    Salve salve os girondinos.
    Belo transporte..Linda máquina hahah
    Belíssimo esse Teatro. Parece ter inspiração romana
    Este centro de Bordeaux é realmente bonito e, pelo visto, faz valer a pena conhecer a cidade, junto com sua história, sobretudo esses marcos do tempo dos romanos na Gália.
    Bela coluna, bela arquitetura, elegante arco do Triunfo, charmosos portões, muito bonita praça.
    Linda beira do Garonne, muito conhecido para quem estudou francês. Bela ponte.
    E, sobretudo a vetusta e belíssima Notre Dame de Bordeaux.
    Maravilhosa alem de outras, como a linda Basílica de San Michel, dentre outras atraçòes impedíveis, pelo visto.
    Ora ora,…esse tal cannelé sem canela, parece saboroso…
    Que pena tanto mendigo e que risco tanta bicicleta em meio aos pedestres… Jesus…
    Os portões são belíssimos.
    Esse centrinho é maravilhoso, aconchegante. Gostoso.
    Belíssimos mosaicos.
    Muito interessante essa presença das antigas colônias, na Franca, principalmente no sul.
    Belíssimo e riquíssimo o Museu da Aquitânia. Histórico. Gostei.
    As histórias da nobreza medieval, onde o Rei reinava mas não governava, são notórias.
    Ora ora, hahaha. As escolas francesas do sul estão sucateadas// jisuis,,, que decadência. Ainda bem que há protestos.
    Majestosa essa Catedral de Sano André com sua magnifica torre.
    Chama a atenção também nessa postagem a magnifica Prefeitura de Bordeaux, com seu belíssimo prédio..
    Uauu Montaigne é bastante conhecido como humanista, mas não sabia que tinha sido político, e muito menos prefeito de Bordeaux. Ora ora, bem informado esse viajante brasileiro hahahah
    Gente, que maravilha esse epitáfio da viuva desse grande homem. Magnífico.
    Impressionante essa crucificação de Santo André.
    Interessante observação sobre o jogo de lux da Catedral e as obras de Caravaggio.
    Que horror o racismo, O pior é que, mesmo mascarado , ainda existe.
    Meu jovem, esse vinho parece apetitoso. Hahahah
    Mais uma bela viagem e maravilhosa postagem…
    Que beleza, heis Mairon haha
    Amei.

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