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França Île-de-France

Musée de l’Orangerie e os lírios de Monet em Paris antes das Olimpíadas de 2024

Caso alguém esteja a se perguntar como está ou estava Paris antes das Olimpíadas de 2024, a resposta é: efusiva. Deve estar outras coisas também, e não faltam moradores reclamando disso ou daquilo, soltando a versão francesa do “Imagina na Copa!” (como no Brasil de 2014). Mas reclamar é um esporte nacional francês, ainda que não olímpico. Fazem-no sempre.

Tudo aparentemente em obras, Paris resplandece apesar dos tapumes. É incrível como uma cidade consegue ser tão luminosa. Não é à toa que atrai tanta gente, desde a velha guarda até aqueles mais preocupados com foto para o Instagram que com aprendizado cultural.

O sol raiava neste mês de maio — um mês excelente para se visitar Paris, diga-se de passagem. Era um gosto e um gozo marchar por aquele Jardim das Tulherias defronte ao Museu do Louvre em meio a tanta gente que se espichava nas cadeiras verdes fixadas no chão. Fazia calor, mas aquele calor simpático de seus vinte e tantos graus.

E ali eu visitaria uma atração que a tantos passa despercebida, e que eu próprio apesar de muitas visitas a Paris nunca havia dado atenção: o pequeno Musée de l’Orangerie, onde fica uma das obras mais impressionantes de Claude Monet. Adoradores do excelente Musée d’Orsay, ou que visitam Giverny, nem sempre atentam para atravessar a rua e completar sua visita aqui.

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Passear por Paris em maio é um gosto e um gozo.
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Neste Jardim das Tulherias, aberto ao público parisiense em 1667 após ser criado por Catarina de Médici, então rainha da França, em 1564.

Estes jardins e palácios franceses são muito de inspiração italiana, como dos Jardins de Tivoli próximo de Roma. Quem quiser ler mais sobre como Catarina e outros de seu tempo trouxeram o Renascimento italiano à França no século XVI, sugiro ver minha postagem no Château de Blois no Vale do Loire, com detalhes. 

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O Palácio do Louvre logo ali, ele que foi convertido em museu sem perder nada da pompa. Ali viviam os reis de França, donos de muitos palácios onde se alternavam país afora.
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Catarina mandou construir aqui, no século XVI, um adjacente Palácio das Tulherias, que entretanto foi arrasado pela Comuna de Paris em 1871 e demolido. Restaram os jardins.
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Fonte em detalhes, em frente ao Musée de l’Orangerie, que fica numa das pontas deste jardim.

Visitando o Musée de l’Orangerie

Musée de l’Orangerie é um nome um tanto traiçoeiro de traduzir. Em português, literalmente seria algo como Museu do Laranjal. Não sei que imagem isso evoca nos meus queridos lusófonos leitores. Talvez uma paisagem rural?

Em francês, orangerie se refere às estufas de plantas tropicais — ou pelo menos de clima quente — que os monarcas e nobres da Europa temperada gostavam de ter como sinal de seu gosto e riqueza. Um mimo para si e símbolo de distinção social, como bem nos explicaria o sociólogo Pierre Bourdieu mais tarde.

Os franceses já conheciam a laranja desde a Idade Média, fruta chinesa trazida à Europa pelos árabes e plantada como decoração nas cidades andaluzes (como Granada e Sevilha), mas ela ainda carregava um quê de exotismo. Com as grandes navegações e os descobrimentos, foi uma questão de tempo até as plantas tropicais também aparecerem. Um exemplo foi a bougainvíllea, planta sul-americana cujas flores carregam o nome do navegador francês Louis Antoine de Bougainville.

Voltando ao museu… Não espere encontrar laranjais aqui, o nome é apenas uma referência a onde ele ficava, mas há sombras de outras árvores e arbustos.  

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A entrada para o o Musée de l’Orangerie em Paris, França. Premente reservar horário com antecipação pelo site oficial.

Eu diria que uma semana de antecipação é suficiente para fazer sua reserva se não for no mês de julho. Nessas épocas de férias e muito turismo, melhor se precaver e fazê-lo um pouco antes. Como de hábito, você reserva um horário específico e tem 30 minutos de tolerância. Ainda assim, é preciso pegar uma fila ao chegar, então convém chegar antes. (Ou você achou que era o único a ter feito reserva?)

Nesta página do site oficial você tem os valores e opções de bilhete. Atualmente, sai €12,50 o ingresso. Note que o museu é gratuito no primeiro domingo de cada mês, mas ainda assim é preciso fazer reserva, pois a capacidade é limitada.

O grande tchan do museu são os lírios de Monet, imensas pinturas postas em salões ovais que proporcionam uma experiência meio zen. Seu nome original francês são Nymphéas, que se traduz formalmente por Nenúfares em português — um termo que pouquíssimos reconhecerão, então vou com a tradução mais popular que se usa no inglês, de Water Lilies.

Há outras obras, e em verdade todo um andar de quadros modernistas com século XX, com obras de grandes nomes como Picasso e Modigliani, mas a verdade é que o carro-chefe domina.

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Parte da série de quadros Nymphéas, pintados pelo impressionista francês Claude Monet (1840-1926) no começo do século XX.
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O próprio Monet planejou estes salões ovais com as imagens de plantas aquáticas como um lugar de meditação, um mergulho na natureza. Há dois salões com partes da obra por todos os lados.

Tenho amigos que vieram cá mais de 10 anos atrás e me falam da paz que era, de como era possível se sentar nos bancos que há no centro das salas e contemplar. Hoje em dia, isso é já mais complicado pela quantidade maior de visitantes e, sobretudo, pela infestação dos smartphones — hoje todo mundo quer tirar selfies ou posar na frente dos quadros.

Se isso o incomoda, sugiro procurar fazer uma visita na baixa estação (outubro a março) e/ou num começo da manhã de um meio de semana.

Quando eu vim, de toda forma era possível “mergulhar” naquela beleza insondável que Monet pintou dos seus jardins em Giverny, como que um mergulho na alma daquela natureza.

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Você meio que consegue “entrar” no quadro.
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Os Nenúfares, ou Lírios d’água na tradução anglófona do original francês Nymphéas, coleção de pinturas de Claude Monet que são o carro-chefe do Musée de l’Orangerie em Paris
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Condizente com o impressionismo, estilo que tomou de arrebate a França na década de 1870 e predominou pelas décadas seguintes, as pinceladas são grossas, a alma da coisa não está nos detalhes individuais…
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…está na impressão que o todo gera e que o pintor transmite com a obra. Se você gostaria de ver mais do impressionismo, além de visitar o Musée d’Orsay, não perca minha postagem recente na exposição temporária em Paris sobre os 150 anos do movimento.
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Hoje em dia as pessoas “descobriram” o Orangerie e começaram a vir em números maiores. Não espere solitude, mas você consegue o ambiente mais vazio no começo da manhã ou na baixa estação (na metade fria do ano, que aqui vai de outubro a março).

Contemplando essas obras o suficiente, você pode ir ao outro andar, repleto de outras pinturas do século XX — só que do século XX pós 1920, quando o estilo modernista começa a ganhar voga. Expoentes como Pablo Picasso e Amadeo Modigliani, radicados em Paris, tornam-se então expoentes desse novo movimento. 

Não vou entrar aqui em detalhes, mas mostro um pouco do que vi. É a parte mais extensa do museu, embora ele todo seja relativamente pequeno. Em coisa de 30 minutos você vê toda esta parte (a menos que vá se deter nas minudências de cada pintura, aí o céu é o limite).  

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Andar modernista no Musée de l’Orangerie.
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Não faltam obras de nomes consagrados desse período, como Pablo Picasso, Amadeo Modigliani e Henri Matisse.
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Mulheres no Sofá ou O Divã (1923), do pintor francês Henri Matisse. Notemos como é já uma outra época, um outro estilo.
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A Banhista Grande (1921), por Pablo Picasso. Ele começava já a desafiar as dimensões convencionais.
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Arlequim e Pierrô (1924), por André Derrain.

E assim vai. Agora, uma obra de arte que você realmente não deve perder — e que talvez aqui só perca para as Nymphéas de Monet — é a torta de laranjas da cafeteria do Musée de l’Orangerie. Não cometa contra si esse crime de ignorá-la.

Num misto de laranja com um toque de limão por sobre uma crosta macia e bem-feita, ela supera qualquer cheesecake. #ProntoFalei

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A torta de laranja do Musée de l’Orangerie é uma obra de arte à parte, que recomendo experimentar. A simpática cafeteria fica entre os dois pisos — você a verá.

Esta é uma visita curta, mas Paris e seus arredores seguem aí plenos de atrações. Mesmo depois de muito ver e de várias vezes vir aqui, eu ainda não tinha visto tudo, então me planejei para visitar o excelentíssimo Château de Fontainebleau, onde Napoleão morou, assim como reis renascentistas antes dele. É aonde os levarei em breve.

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Paris em maio. Pura vida, como gostam de dizer os costarriquenhos.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Musée de l’Orangerie e os lírios de Monet em Paris antes das Olimpíadas de 2024

  1. PARIS, toujour PARIS… Maravilhosa, sempre. Cidade Luz…

    Belíssimo esse Jardim.. tanto verde, diante desse belo seu azul, e sob luz gostosa dessa Primavera Boreal… Um encanto.
    E que magnífica, essa visão do Louvre. Amo essa arquitetura…

    Belíssima essa tarde de Primavera.. Divina… O verde da grama e as florzinha, fazem a festa de beleza…
    Espetacular esse jardim. Lindas flores… verde exuberante…
    Linda fonte!.… Que bela!…
    Muito verde, bem cuidado. Belo ambiente.

    Bela e charmosa Andaluzia…

    Maravilhosas essas obras de Claude Monet. Amo . Um sonho, essas Nymphéas.
    Parece convidar, mesmo á meditação.
    Verdade, meu jovem. Ele pareceu captar a alma daquela Natureza. Uma beleza!…Que delicadeza!…

    Gosto muito de Pablo Picasso. Mas gostei muito tambem dos outros, particularmente Matisse.

    Ihhh que essa torta parece saborosa hhaha deu água na boca. hahahahah

    Lindo esse Museu… Colírio para os olhos.
    Obrigada, meu amigo.
    Que venham mais belezas

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