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Suécia

Visitando o Mercado de Inverno sâmi de Jokkmokk na Suécia

Há mais de 400 anos, todo primeiro fim de semana de fevereiro acontece na Suécia o Mercado de Inverno de Jokkmokk, organizado pelo nativo povo sâmi no extremo norte do país.

Estamos quase no círculo polar ártico, a 66º de latitude norte, onde os sâmi — também conhecidos como lapões — vivem há milênios. Sim, são a gente nativa da Lapônia, como o extremo norte da Escandinávia é também conhecido. (Nem só das lendas do Papai Noel vive este lugar.)

O que nem todos sabem é que esta região sempre teve um povo nativo distinto daqueles que chamamos de nórdicos. Eles são aparentados dos finlandeses, estonianos e húngaros, mas diferentes da maioria da população escandinava, que é germânica.

Suecos, noruegueses e dinamarqueses falam línguas semelhantes ao alemão e são geneticamente aparentados dos alemães e holandeses. Há alguns milênios, eles começaram a povoar a Península Escandinava, e na Idade Média foram empurrando cada vez mais para o norte estes nativos da Lapônia. Sim, os sâmi eram os vizinhos que estavam ao norte dos Vikings — ao norte dos nórdicos.

Sapmi mapa
Esta área mais escura é o território tradicional sâmi, terra que eles chamam de Sápmi. Atravessa quatro países: Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Jokkmokk fica ali pouco mais ao sul de Kiruna, na Suécia.
Sapmi mapa com linguas
Há diversos grupos linguísticos sâmi. Eles não gozam de soberania, mas na Noruega, Suécia e Finlândia eles têm certo poder de auto-determinação. Possuem um parlamento sâmi transfronteiriço e uma bela bandeira com estas três cores.

Essa abaixo é a bandeira dos sâmi, com suas quatro cores.

O círculo representa ao mesmo tempo o sol e a lua, daí suas duas cores. Os sâmi nunca tiveram aquela religião nórdica de Odin & cia, mas sim uma religião xamanista dos espíritos da natureza. Você ainda encontra dela na Sibéria e na Mongólia, como testemunhei. (Inclusive, vale saber que a palavra xamã é de origem siberiana.)

Bandeira sami
A bandeira sâmi, que você verá hasteada nesta região ártica dos Países Nórdicos.
Povo sami
Povo sâmi em roupas típicas e com as suas feições características. Não os confundam com os inuítes (os esquimós) da América do Norte e Groenlândia. Os sâmi são caucasianos, ainda que de olhos meio puxados, e com essas maçãs do rosto bem pronunciadas. Naturalmente, eles não se vestem assim no dia-dia, então identificá-los não é tão fácil. Há também muita gente mestiça.

O Mercado de Inverno de Jokkmokk: O básico

Permitam-me dar um breve histórico desta feira de inverno antes de eu contar da minha experiência aqui. Ela surgiu há mais de 400 anos, em 1605, ainda quando o rei da Suécia procurava consolidar o seu domínio sobre este extremo norte do reino.

As monarquias já cristianizadas dos antigos Vikings chegaram a ter o controle formal de tudo até o Oceano Ártico, mas era preciso formalizar a economia e coletar impostos. Foi assim que surgiu, por ordens do rei sueco Karl IX (1603-1611), o Mercado de Inverno de Jokkmokk, um lugar onde o comércio seria devidamente permitido. Comerciar fora dali — e do alcance dos coletores reais de impostos — era ilegal.

Os sâmi já eram tradicionais pastores de renas, animais que eles domesticaram há milênios e que continuam a criar. Afinal, não é possível viver de agricultura nestas latitudes tão altas, com invernos longos e rigorosos. 

Curiosamente, entretanto, o inverno se revelou uma época adequada para esta feira anual porque os rios e lagos ficam congelados e facilitam o transporte terrestre. Ao contrário de lugares como o Brasil, onde num só rio você pode ter uma hidrovia extensa, aqui não está tudo interconectado. Seria preciso você ter uma embarcação diferente em cada lago lhe esperando. Transportar coisas sobre o gelo em trenós acabava sendo mais prático.

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Os sâmi são tradicionais pastores de renas, animais que eles continuam a criar em grande número. Esta é uma pequena que eu encontrei. Elas crescem e ficam do tamanho de um cavalo de médio porte, só que mais largas.

Os sâmi foram sendo gradualmente desterrados — expulsos das suas terras, enxotados para rincões cada vez mais afastados — conforme as monarquias escandinavas iam consolidando seus domínios sobre o norte.

Diz-se que aqui se deu o colonialismo escandinavo que eles não conseguiram fazer na África ou nas Américas. Após o desterro, a habitual conversão religiosa e assimilação cultural forçada tal qual ingleses, franceses, holandeses, portugueses e espanhóis fizeram com os indígenas nas Américas.

Assim, por mais de 300 anos este mercado teve uma função meramente comercial e de integração econômica, de “venham vocês ao nosso reino”.

Foi a partir de meados do século XX que ele começou a ganhar ares de evento cultural. Já em 1917, os sâmi da Noruega e da Suécia encontraram-se pela primeira vez com fins políticos de ajuda mútua. Criou-se o Dia Nacional Sâmi em 6 de fevereiro, data desse encontro. Não há reivindicações por secessão, mas sim por auto-gestão e devido reconhecimento dos seus direitos originários sobre aqueles territórios e preservação da sua cultura.

O Mercado de Inverno de Jokkmokk, que mais ou menos sempre coincide com aquela data, se tornou então uma espécie de festival cultural. A partir das décadas de 1950-1960, tornou-se também deveras turístico, algo deliberado para divulgar as tradições sâmi entre os demais suecos e estrangeiros visitantes.

Adiantemos a fita para 2024, e aqui vim eu conferir este mercado na prática. Vistam seus casacos e cheguem mais.

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Bem-vindos a Asgard, no extremo norte da Suécia.

Visitando o Mercado de Inverno de Jokkmokk

A chegada

A chegada de avião a Luleå foi um pouco como Daenerys Targaryen voando de dragão rumo ao norte. Deixei Estocolmo para trás com um dia de inverno até ensolarado, e cruzei os céus até pousar num escuro ventoso e frio coberto de neve em Luleå, a cidade com o aeroporto mais prático de se usar.

Jokkmokk é um povoado e não tem aeroporto próprio. Há quem venha de trem, e eu já tinha feito isso uns anos atrás, mas fiquei com preguiça de fazer tudo de novo, além de voar ser mais barato. (A viagem de trem de Estocolmo até Jokkmokk leva cerca de 16-18h e requer conexões. Você pode avaliar no site oficial da cia ferroviária sueca, caso tenha interesse.)

Eu dei sorte que estava apenas -4ºC, pois uma semana depois a previsão era de -20ºC em Luleå.

Jokkmokk chega a ser ligeiramente mais fria, sempre uns graus a menos por estar mais adentro no continente, enquanto que Luleå fica no litoral, ali quase onde a Suécia encontra a Finlândia e o Mar Báltico tem fim. Eu já tinha vindo até Luleå quando fui até o hotel de gelo, mas em Jokkmokk esta seria minha primeira vez.

Jokkmokk no mapa
Jokkmokk no mapa, praticamente onde passa o Círculo Polar Ártico. Notem Lulea ali na costa do Măr Báltico, uma pequena cidade — mas ainda assim uma cidade — que tem o melhor aeroporto de se usar para vir aqui.

As opções de acomodação em Jokkmokk nas datas do festival evanescem-se rapidamente como a neve sob o sol num dia em que a temperatura sobe. Ademais, elas são poucas e caras. A maior parte dos visitantes portanto opta por se instalar numa das cidades próximas, como Luleå, e tomar um ônibus para ir passar o dia em Jokkmokk e voltar. Esse era o meu plano. Cheguei até a reservar noites suficientes que me permitissem ir dois dias a Jokkmokk, se assim desejasse.

Naquela noite fria da chegada, eu contemplei toda a neve acumulada que o vento soprava entre os pinheiros e que em Estocolmo já não se achava mais. Peguei um chocolate quente daqueles de máquina automática no aeroporto, e nem precisei esperar tanto assim até aparecer o ônibus urbano que faz a cada 20-30 minutos o trajeto até o centro. Lá eu teria uma cama de hotel me esperando.

O centro de Luleå estava marcado por aquele asfalto escuro melado de neve, gelo a lhe ameaçar um belo escorregão, e a luz vermelha do farol traseiro dos carros e ônibus. O lugar é mais movimentado do que você talvez imagine, ainda que não perca a sensação de ermo.

Eu não demorei a encontrar meu branco hotel, naquele estilo nórdico das construções de madeira e a combinar com a cor da neve. Em tempo eu descobriria que, afora uns italianos e franceses que surgiram, os demais hóspedes eram quase todos suecos idosos ou de meia-idade. Via-se com certo exotismo a minha moura figura barbada ali. 

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Lulea é uma cidade de pequeno ou médio porte com seus quase 80 mil habitantes e uma forte presença universitária maior do que você talvez imaginasse para um lugar a 65ºN, quase no círculo polar. Ainda assim, é um lugar pacato (até demais).
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A estátua com neve até as canelas.
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Edifício de 1902 do banco da Suécia aqui.
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Meu formoso hotel com dois Ls na arquitetura típica.

Há sol em Lulea, viu gente? Não é noite eterna aqui, ainda que o dia no inverno só vá mais ou menos das 9h às 15h aqui, a depender da exata época do ano.

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Sol em Lulea, no norte da Suécia.
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Olha ele lá, que aqui nunca se empina como nos trópicos — sempre está a passar baixo na lateral, acertando-lhe direto nos olhos. Aqui lá adiante é o Mar Báltico.
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…devidamente congelado neste inverno, e com as pessoas a praticar patinação ou esqui no entardecer. (Tem gosto pra tudo, dizia minha avó.)

Entusiastas da antropologia sâmi, aguardai por favor o cumprir da Pirâmide de Maslow, aquela que dita que na base estão as necessidades fisiológicas, até chegar à realização pessoal. Antes de rumar de ônibus para Jokkmokk, eu precisava tomar café, e gostaria de compartilhá-lo com vocês, pois faz também parte da etnografia neste rincão do mundo.

Os suecos e finlandeses são os exatos dois maiores consumidores de café per capita no planeta, pois é difícil lidar com este frio e esta paradez sem um estimulante, me parece. Os sâmi há muito já aderiram também à bebida etíope.

O café da manhã aqui, todavia, inclui o que seriam exotismos no mundo latino: peixe defumado ou em conserva e geleias de frutos árticos. Certas coisas a gente experimenta e repete, outras a gente experimenta e não repete, e há também aquelas que a gente nem se atreve a experimentar.

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Há sol em Lulea. O dia raiava lá no invernado céu.
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A quem tiver curiosidade. Os pães aqui são ótimos. No mais, muitos queijos e peixes.
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O típico café da manhã de hotel cá nos Países Nórdicos inclui esta diversidade de frios e peixes defumados ou em conserva, além de picles e creme de mostarda para pôr em cima.
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…mas tem algumas coisas com ares do meu antigo laboratório de zoologia e que não me apetecem, ainda mais no café da manhã, como este peixe em conserva. Eles comem no pão ou como for.

Esse é o mesmo arenque (herring, o símbolo lá da loja de roupas, no qual você talvez jamais tenha prestado atenção) que os holandeses comem no pão com cebola crua picada, só que os nórdicos têm pães muitíssimo mais diversos e superiores aos da Holanda.

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Esta frutinha em português recebe o nome de framboesa-amarela ou ainda de amora-ártica ou amora-branca-silvestre. É, de fato, bem semelhante à amora e à framboesa: tem aqueles gominhos grudadinhos numa infrutescência, aqui com bastantes sementinhas. O gosto tem uma pontinha acre, puxando um pouco para o damasco.
Framboesa amarela
Encontra-se dela nas grandes cidades nórdicas mais a sul, mas é rara. Aqui no ártico ela é bem mais comum. (O aspecto e a cor podem lembrar um pouco pitanga, mas seu gosto não tem a ver.)
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Finalmente, hora de zarpar para Jokkmokk.

Lá estávamos na Plataforma B da rodoviária de Luleå. Só sai ônibus direto para Jokkmokk a cada três horas mais ou menos, de modo que este horário das 10h e pouca da manhã é o único útil (a menos que você queira madrugar).

Sendo 3h de estrada, eu chegaria lá ainda em tempo de almoçar — e com a luz do dia — para retornar no ônibus das 17:10, após o escurecer. Uma tarde no mercado me parecia o bastante, sobretudo levando em conta que estávamos com temperaturas abaixo de zero, e o frio começa a pegar após várias horas na rua.

Em meio aos muitos suecos, éramos alguns poucos turistas estrangeiros ali misturados, falando em inglês ao jovem motorista do ônibus 44. Formou-se uma leve fila — eu que fui dos primeiros a chegar à plataforma bem vi. O motorista chegou em cima da hora de sair, e levaríamos uns bons 15 minutos até embarcar todo mundo.

Eu havia comprado a passagem de ônibus (o equivalente a cerca de €25) pelo aplicativo de transportes regional Länstrafiken Norrbotten , onde você pode consultar também os horários. Ativa-se o bilhete antes de entrar no ônibus (mas não muito antes, pois fica válido apenas por 4h), mas também é perfeitamente possível comprar com cartão ali na hora, com o motorista. Eles também puseram um segundo ônibus 44 no mesmo horário para garantir que todos teríamos lugar e ninguém ficaria para trás. 

Eu teria optado pelo trem (quem não prefere viajar de trem?), mas ele leva mais tempo e não é direto. Além disso, é muito mais facilmente cancelado pelo excesso de neve. No meu ônibus, entreouvi uns intercambistas franceses dizendo que haviam comprado passagens de trem, foi cancelado, e acabaram tendo que vir cá de ônibus em cima da hora. (Não me pergunte o que ocorreu às passagens de trem deles.) No ônibus, na cidade de Boden no caminho subiu mais um tanto de gente, mas eu fui quase todo o tempo sem ninguém do meu lado.

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A estrada entre Lulea e Jokkmokk neste dia de inverno.
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Os muitos pinheiros dos lados e algumas elevações no horizonte.
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Cheguei. Estou no paraíso. Bem-vindos a Jokkmokk.

Passeando pelo Mercado de Inverno de Jokkmokk

Fazia um tempo parcialmente nublado aqui. Breve tudo estaria num branco acinzentado na terra como no céu. As cores vinham das construções e anúncios, ruas quietas embora dia de semana fosse. 

Antes da narrar meu périplo pelas vias do Mercado de Inverno, deixem-me só instruir aos demais viajantes de plantão que o interior aqui da rodoviária de Jokkmokk tem banheiros gratuitos, caso se necessite.

Há também uns poucos guarda-volumes à moda antiga, mas eles só funcionam com moeda de 5 coroas (kronor) que quase ninguém tem. Um visitante italiano saiu pedindo às pessoas sem sucesso, até que conseguiu uma e se deu conta de que precisava de três. No fim, acho que conseguiu com umas idosas. (Eu moro há 6 anos na Suécia e, na economia digitalizada de hoje, nunca vi nem que cara têm essas moedas).

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Falando em dinheiro, é raro na Suécia, mas aqui em Jokkmokk há alguns vendedores mais “raiz” que não trabalham com cartão — daí a fila ali para sacar dinheiro em espécie. Eu consegui pagar tudo com cartão de crédito, mas se quiser ter acesso às banquinhas mais básicas, dindin de papel pode ser necessário (ou o Swish, que é o Pix da Suécia, mas este só funciona em celular de chip sueco).
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Vamos ao mercado, finalmente.

Caminhei ali por algumas brancas e pacatas ruas cercadas de casas altas até chegar a essa artéria principal.

Jokkmokk toda ganha ares de quermesse com as barracas concentradas em algumas ruas, o movimento de gente a se expandir um pouco mais. Viam-se, aqui e ali, pessoas vestidas nos trajes tradicionais sâmi. Afinal, este é também um festival nacional (no sentido sócio-cultural da coisa).

Eu estava feliz de poder, finalmente, depois de tanto anos — e atrasado pelos vários de pandemia — poder vir aqui contemplar de perto este evento.

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O movimento.
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Gente em trajes tradicionais.
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Aos curiosos, você vê dois tipos principais de trajes (que eu aqui flagrei em conjunto no caixa self-service do supermercado!). Os sâmis do sul usam os trajes à esquerda; os do norte, os da direita. Eles gostam bastante de cores.
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Há também os figuras, como este tio vendendo salsichas.

O Mercado de Inverno hoje em dia é uma mistura de coisas tradicionais sâmi e modernas de outras bandas. Eu confesso ter ficado ligeiramente surpreso ao constatar coisas de fora sendo vendidas aqui, mas admito que foi certa ingenuidade achar que não.

Em meio às barracas vendendo luvas ou tapetes de pêlo de rena (!) feitos à moda artesanal, não faltavam outras vendendo azeitonas gregas, churros espanhóis ou parmigiano reggiano — “o verdadeiro”. Ok, eu imagino que nos tempos de outrora também havia mercadores vindos de partes longínquas a vender coisas aqui, e o raio apenas se expandiu.

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Donuts e churros.
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Queijo italiano marcando presença no Mercado de Inverno de Jokkmokk. (Talvez devessem restringir as barracas a coisas típicas desta região? Talvez, mas aí eu fiquei a pensar que possivelmente os sâmi gostam de poder comprar queijo parmesão no evento. E aí?)
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Pães-chato sâmi (Samisk glödkaka) à venda.
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Queijos de cabra de zonas mais a sul na Suécia.
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Comprei um queijo de cabra estilo gorgonzola, que nem sabia que existia!
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Peles de rena são talvez o que mais tem. Os rebanhos de renas são o sustento dos sâmi, e eles usam de tudo: para transporte, a pele e a carne.

Após constatar com meus próprios olhos o que se vendia afinal em Jokkmokk, minha meta passou a ser almoçar — e lhes adianto que carne de rena é o que há de mais característico aqui.

Para o tanto de gente que ali circulava nas barracas, eu confesso que vi relativamente poucos estandes de comidas. Quando havia, costumava ser coisa básica, tipo hambúrguer de rena ou macarrão frito com carne de rena. O aspecto é o mesmo da carne bovina, faça-se saber. No olho não há diferença, e suponho que no gosto tampouco.

Os preços são os mesmos da cidade, como 100 coroas suecas (o equivalente a uns 9 euros) por um hambúrguer ou 140-150 coroas (13-14 euros) por pratinhos mais elaborados. Só numa barraca eu achei peixe.

Os produtos como um todo são bastante caros, verdade seja dita. Dezenas de euros por luvas bordadas a mão, ou 35-40 euros por pingentes simples de madeira com símbolos sâmi. É pra quem tem muita vontade. Ninguém ache que achará pechinchas aqui.

A tônica como um todo me lembrou muito a das feirinhas de Natal que ocorrem Europa afora, sobretudo na Europa Central, só que obviamente sem os temas natalinos. Todo o mais é semelhante: o frio, as roupas, os cheiros das comidas sendo ali assadas ou fritas com a fumaça a subir, o imperativo de se aquecer e a rebordosa de gente. (Não há do quentão, lamento dizer).

Só que aqui nem tudo são as barracas. Vale entrar também nas tendas, seguindo as plaquinhas e indo descobrir o que há lá dentro.

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Dentro de algumas tendas havia palestras, em sueco ou em sâmi (claro!), mas era legal ver os idosos trajados ali com o microfone a compartir seus saberes e visões.
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Barraca vendendo refeições, no estilo do que se vê nas feirinhas de Natal da Europa Central.
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Há uns bares-restaurantes até amplos dentro de algumas tendas. Ainda que o cardápio seja simples, são uma oportunidade para você se aquecer um cadinho.
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As tendinhas no estilo tradicional sâmi em Jokkmokk. Não é difícil se virar em inglês.

Você passa ali umas boas horas circulando, se quiser verificar o que cada cantinho ou tenda tem.

Parece um jogo de video game, daquele em que você vai explorando o cenário. (“Nesta tenda aqui eu ainda não entrei, vamos ver o que tem”.)

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A bela igreja de Jokkmokk. Os sâmi foram cristianizados há vários séculos, ainda que tradições pré-cristãs permaneçam aqui ou ali.

Você se afasta um pouquinho mais, como nesse entorno da igreja, e já começa rapidamente a sensação de que está deixando a breve civilização e rumando ao interior da natureza invernada — os pinheiros, o vento e a neve no entardecer precoce. Pouco passava das 15:30, e a noite de inverno se anunciava.

Foi aí que caminhei por longas estradas nevadas margeadas de pinheiros e avistei luzes na direção do museu chamado Ájjte. É um museu cultural e histórico sobre os sâmi. À entrada, em meio às construções tradicionais sâmi sob a neve, vi um rapaz acompanhado de uma jovem rena.

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As vias naquele prematuro fim de dia no meado da tarde em Jokkmokk.
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Construções tradicionais sâmi na parte exterior do museu Ájjte em Jokkmokk. Chamam-se goahti, e são feitas de madeira sem precisar bater um único prego — só no encaixe. É onde os sâmi viviam antigamente, até os idos do século XIX.
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O rapaz sâmi com uma pequena rena.

Eu entrei no museu, cheio de explicações, e lá estava um sem-fim de gente — não sei se mais interessados na História dos sâmi ou em se abrigar do frio. Umas moças faziam uma daquelas performances de dança moderna meio etérea, daquela em que a pessoa no chão numa pose de yoga se contorce toda no lento ritmo da música. (Uma coisa meio como clipes da Sia, porém lento.)

Não me demorei. Estava acompanhando o relógio para não perder a hora do meu ônibus de retorno, e no caminho à rodoviária passaria pelas vias do Mercado uma vez mais.

Não é um mercado que segure você muito tempo. Eu senti um pouco falta de maiores performances culturais. Músicas e danças tradicionais sâmi talvez tivessem vindo a calhar, mas aí é o “eu turista” falando. Reconheço também que vir de Luleå tem a desvantagem de você já chegar meio atrasado pra certas coisas. Por exemplo, aquela bela igreja está aberta para visitação apenas das 10-12h, e um desfile de de renas ocorre das 12-13h. 

Ao contrário das feirinhas de Natal, aqui há certa ênfase nas horas de luz do dia, ali entre o fim da manhã e a hora do almoço. No meio da tarde já escurece, e você vê que o ritmo diminui. Muita gente também vai embora, e o Mercado já ganha certo ar de fim de feira.

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O Mercado de Inverno de Jokkmokk ao anoitecer.

Valeu a pena? Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa.

No meu caso, eu já cultivava há pelo menos 5 anos o desejo de vir aqui e me satisfiz de finalmente vir, embora reconheça que o Mercado é um pouco mais comercial — e caro — do que o evento de pegada mais “cultural raiz” que eu imaginava ser. Tem dos dois elementos; é só que eu achei que pendesse mais para o segundo do que realmente pende. Dito isso, não deixa de ser uma experiência interessante.

A maioria dos estrangeiros me pareceram ser intercambistas na Universidade de Luleå. Se você se encontrar na Suécia ou Noruega, o custo não é tão alto. Já se despencar desde outro continente para cá só para ver este mercado seria um óbvio exagero.

Apresentado mais de perto aos sâmi, regressei à rodoviária após parar no supermercado — os mesmos de outras partes da Suécia — para comprar uns lanches para as 3h de retorno. A volta é sempre mais agoniada, tomem nota.

Fez-se uma fila notável com um certo quiprocó de gente tentando passar na frente, e que me lembrou do meu regresso de Auschwitz-Birkenau a Cracóvia na Polônia. Levaram uns 25 minutos para embarcar todo mundo quando o ônibus chegou — se é que todo mundo entrou mesmo. Eu fui dos primeiros, e não fiquei para ver.

Valeu, Jokkmokk. Um prazer vê-lo de mais perto, povo sâmi.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando o Mercado de Inverno sâmi de Jokkmokk na Suécia

  1. Ora ora, muito bem…
    Nao conhecia esse povo, nem sabia dessas festas.
    Muito interessante.
    Ahhhhhh . Simmmmm A Lapônia…. O nome é muito conhecido no mundo todo… por conta do Papai Noel hahahah, mas os lapões, não.
    Não sabia. Muito prazer. Nossa, espaço grande. Linda bandeira!…

    Ihhhh que maravilha… Hilda de Polares andou por ai? Hahah, Adorei conhecer Asgard hahaha
    Eita que esse viajante foi longe, hahaha entrou da História e nos Contos… uau… Magnificat haha.
    Estou adorando…..
    Vilgen que lonjura hahah e que horror de frio, -20º …Ainda bem que não pegou hahah. Corria o risco de virar picolé.
    Hahahah Adorei a referencia à Pirâmide de Maslow.hahahah. Concordo hahaha
    Adorei a mesa e a paisagem do café… e claro os ovos e o café hahahaha. Aprecio tambem, esse pão de frutas.
    Vigen, que horror.. Quanto bicho morto e mal cozido hahahah…. Não faz minha cabeça hahaha
    Hahahahaha adorei a lembrança dos laboratórios de Zoologia hahahah. Bem que parecem saídos de algum deles.. hahah.. Deus me libre hahahah
    Uauu.. tudo branco de neve … bonito… mas que requer um baita agasalho…
    Uaaaauuu que coisa linda essa estrada com linda neve e as casinhas coloridas… Parece mesmo a terra do Papai Noel hahahaha
    Ora ora.. que beleza..banheiros gratuitos…
    Nossa… que multidão… nessa área do Mercado..
    Lindo o lugar e graciosas as barraquinhas…
    Uma gracinha os trajes típicos… Gostei..
    Engraçadíssimo esse urso humano hahaha
    Coitada das renas ?????
    Parece feirinhas de Natal… sim sim…tinha percebido..
    Interessante essas apresentações e troca de experiencias. Pena pela barreira da língua
    Meu jovem, que maravilha essa paisagem ártica com a linda igrejinha. Um refresco para os olhos.
    Linda essa estrada nevada…
    Interessantes essas construções tradicionais. Parecem aquelas dos esquimós…
    Fernando Pessoa? Presente…. De pleno acordo hahah
    Vilgen… Misericórdia… imagino… só o nome ja pega mal …hahaha…hahaha Deus me livre.. Imagino que seja tétrico…
    Muito interessante. a postagem.
    Valeu.
    Gostei.
    Grande abraço.
    Quem venham mais lugares bonitos, interessantes e belas conversas. hahah

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