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Suécia

Sigtuna, a cidade medieval viking onde a Suécia nasceu

Eis aí a rua mais antiga ainda em uso em toda a Suécia, do tempo medieval dos Vikings. Fica em Sigtuna, cidade histórica próxima à capital Estocolmo

Afinal, como os povos Vikings deram origem aos países escandinavos da atualidade? É uma pergunta que muita gente se faz, dados os típicos saltos no nosso ensino de História. Daquela pegada sombria e violenta da “Idade das Trevas” se salta para o Renascimento e a modernidade, sem necessariamente explicar bem como a transição se deu.

Sigtuna ajuda a responder, ela que é por muitos considerada a cidade mais antiga da Suécia. Não é algo consensual porque houve povoamentos mais antigos, mas esta de qualquer modo foi a primeira cidade feita como tal para a Suécia que se formava enquanto reino cristão de gente mais assentada e menos de Vikings salteadores. Sua fundação se deu no ano 980.

Sigtuna fica a uma viagem curtinha em transporte público desde a capital Estocolmo (uma cidade muito mais jovem, com ares dos séculos XVIII-XX). Rende um excelente bate-e-volta, coisa de apenas 1h desde a estação central.

Chegando lá, você mistura sentimentos de que está nos primórdios do pós-medievo europeu ou em alguma localidade de O Senhor dos Anéis.

Venhamos. Quem sabe Sigtuna ajuda a entender melhor como os vikings viram o seu ocaso e a Suécia começou. 

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Em Sigtuna num dia de inverno.

Sigtuna 980 d.C.: Como estamos e onde

Voltemos mais de mil anos no tempo, para os meados da Idade Média. Os Vikings já haviam feito todo aquele escarcéu na Escócia e na Inglaterra. Já haviam atacado Paris, ido a Constantinopla, e em verdade estavam já mais próximos do fim que do começo. Em 1066, Guilherme da Normandia os poria para fora das Ilhas Britânicas.

Claro, os Vikings não encontram um “fim” à là Krakatoa ou Ilha de Páscoa — ilhas que sofreram desastres ou cataclismos, quase todo mundo morreu, e o que existia acabou. O fim dos Vikings não foi algo brusco, mas uma transformação política e sócio-cultural talvez similar àquela experimentada por Roma.

Só que aqui, em lugar da queda do poder central, ocorre o oposto: os bandos relativamente autônomos dão lugar a reis cada vez mais poderosos e centralizadores. Querendo fazer comércio, enriquecer e participar na diplomacia europeia (em vez de sofrer ataques de reinos cristãos combatendo os que chamavam de “pagãos”), eles então se convertem ao cristianismo.

É claro que a população não se converteu do dia para a noite. Em verdade, há hábitos pré-cristãos que ainda se mantêm até hoje na Suécia atual — mesmo que às vezes tenham adquirido roupagem nova. É o que se vê aqui tanto com o Natal quanto com a mui-querida festa de Santa Luzia todo dezembro na Suécia.

Naqueles arredores do ano 1000, a ordem do dia mudou. Abraçar o cristianismo fazia sentido político e econômico na Europa de então.

Sigtuna no mapa da Escandinavia
A localização de Sigtuna no mapa. (Faço notar que todo aquele atual sul-sudeste da Suécia, incluindo as cidades de Gotemburgo e Malmo, pertenciam ao rei da Dinamarca na Idade Média. A Suécia tomou aquelas terras no século XVI apenas.)

Quem vem cristianizar os suecos e escandinavos em geral são os alemães.

Já no século IX, andou por aqui um arcebispo-missionário chamado Ansgar (801-865), de quem lhes falei na postagem em Birka — povoado Viking que floresceu naquele tempo, 100-150 anos antes de Sigtuna surgir.

Àquele tempo, tínhamos dezenas de pequenos reinos que pouco se diferenciavam de tribos com seus chefes. Só com Eric, o Vitorioso (945-995), é que temos conquistas de reinos vizinhos e concentração de poder na mão de um líder. Ele era do povo — germânico, como todos os demais Vikings — que os romanos antigos haviam chamado de suiões.

Isso era o povo suionum em latim, svea na língua nórdica, que significa “nosso”, “da gente”, daí o reino vir a ser Svearike, rike sendo a variedade sueca para o mesmo reich alemão. Sverige é como a Suécia se chama hoje em sueco.

Eric the victorious
Eric, o Vitorioso (945-995), rezando a Odin antes da batalha que consolidou o seu poder na região onde hoje fica a cidade de Uppsala.

Os outros povos, de onde hoje ficam o sul da Suécia ou a sua costa oeste (do Mar do Norte) eram considerados diferentes, assim como os lapões no norte, que sequer são escandinavos ou germânicos. Estes últimos falam idiomas da família do finlandês.

O filho de Eric, Olof Skötkonung (980-1022) — cujo “sobrenome” Skötkonung não é um sobrenome, coisa que as pessoas daquele tempo não usavam, mas o apelido de “coletor de tributos” — foi o primeiro rei a governar tanto os suecos originais quanto os povos vizinhos. A cobrança de impostos (em espécie ou alimento ou homens para batalhar) era a forma de um rei medieval exercer a sua suserania e autoridade. 

Dentre esses povos vizinhos estavam os gautas (götas em sueco) a sudoeste, daí o nome da cidade de Gotemburgo, a segunda maior do país.

Olaf aconteceu de ser também o primeiro rei sueco a abraçar oficialmente a nova religião, precisamente naquele tempo em que Sigtuna surge.

As fontes aí divergem se foi o pai (Eric) ou o filho (Olaf) o fundador de Sigtuna, mas o fundamental é que ela foi a primeira vila criada já nesse espírito de um novo reino que englobaria todas as terras adjacentes — o nascimento de o que podemos chamar de Suécia.

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A bandeira da Suécia — como as de todos os países nórdicos — tem essa cruz exatamente para demonstrar a sua filiação ao cristianismo.

Entre ruas e runas em Sigtuna

A Suécia não é um país de muitos turistas. Poucos vêm, e por mais histórico ou pitoresco que seja, um lugar aqui dificilmente passa a impressão de ter sido “turistificado” (talvez com uma breve exceção para Gamla Stan, o centro histórico de Estocolmo, mas mesmo lá não há tanta gente).

Costuma imperar uma quietude inabalável, talvez mantida pela baixa densidade populacional. No inverno, então, parece que você está perdido sozinho, só com os espíritos da Terra Média como companhia.

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Sigtuna fica às margens do Lago Mälaren, o mesmo que banha o lado ocidental de Estocolmo. A capital fica entre o Lago Mälaren e o Mar Báltico. Sintam este ambiente no inverno.

Eu cheguei num típico dia cinzento de inverno sueco, infelizmente sem neve, mas com esse lago ainda parcialmente congelado.

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Chega-se a Sigtuna tomando o trem metropolitano (pendeltåg) n. 42 até Märsta, o fim de linha. Leva-se algo mais de meia hora.
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Desembarca-se nesta estação assim, deveras ordinária.
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Caminha-se para fora e, nesta área aberta onde terminam ônibus urbanos, toma-se o 570 até Sigtuna. Haverá um ou outro turista com você — quase sempre estudante intercambista tirando um dia para conhecer melhor o país.
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Chegando a Sigtuna dali a uns 20 minutos no ônibus, chega-se finalmente a um ambiente de ares antigos.

Sigtuna é pequena, e que você tem diante de si é basicamente um calçadão — a tal da rua mais antiga da Suécia, hoje fechada para carros — e o caminho alternativo de uma ponta a outra da antiga cidadezinha, que é margeando o lago. Vale a pena ir por um caminho e voltar pelo outro.

Nós cá fomos primeiro pela margem do lago, fotogênico que ele estava, mas não sem antes ver mais de perto aquela antiga Igreja de Nossa Senhora (de 1247, em tijolinhos vermelhos) e das runas originais que seguem assim expostas pelas ruas de Sigtuna.

As runas, faça-se saber, embora hoje gozem de uma aura de misticismo, à época eram simplesmente a forma que os Vikings tinham de escrever. Com a integração do novo Reino da Suécia no ambiente sócio-político e econômico europeu é que elas seriam substituídas pelo uso do latim.

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A Igreja de Nossa Senhora, fundada pela ordem dominicana em Sigtuna em 1247. É a igreja mais antiga da cidade. Após a Reforma Protestante, à qual a Suécia aderiu, foi convertida numa igreja luterana.
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A igreja vista de lado com o seu cemitério adjacente, como era prática comum à época.
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A igreja que era mais antiga ainda em Sigtuna era esta, a Igreja de São Olaf. Sim, o rei que governou a Suécia unida e que a Santa Sé canonizou.

Essa igreja datava dos idos de 1100, e dizem ter sido em parte inspirada na — enorme e impressionante — Catedral de Nidaros em Trondheim, na vizinha Noruega.

Hoje, sobretudo sendo inverno e com este cemitério em meio às árvores secas, mais parecia que eu estava adentrando as ruínas do necromante em Dol Guldur com Gandalf em O Hobbit (2013). 

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As ruínas da medieval Igreja de São Olaf em Sigtuna.
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Não se demora a encontrar runas de época pelo caminho.

Calma, que daqui a pouco a gente fala algo mais sobre os significados.

Eu comecei a circular pelo lado do lago, como lhes disse, onde a paisagem era digna de filme.

A sensação é a de uma quietude profunda — quiçá a origem do humor introspectivo dos nórdicos —, um silêncio que duraria meses de inverno, dando em você aquela vontade de ir se abrigar em algum interior aconchegante com lareira; mas cá estava eu do lado de fora, sentindo ar frio no rosto.

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O lago congelado à margem de Sigtuna.
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Convenhamos que parece cenário de filme.
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…mas há ou não o seu charme?

As minhas botas afundavam ligeiramente naquele solo molhado, quase com jeito de pântano. Certas partes eram pura lama e, claro, essa camada superficial de gelo sobre o lago era fina. As temperaturas, na casa dos 2-3ºC, não estavam tão baixas assim. Quando estão, a própria lama se congela em algo duro sob os pés.

Ali perto, um parquinho com runas plásticas e escorregadeiras estava deserto e molhado. Apenas uns patos aparentemente indiferentes ao frio (eles têm uma termorregulação muito mais potente que a nossa) e raros gatos pingados apareciam à nossa vista.

Seguimos até a outra ponta da cidade — uma breve caminhada de seus 10-15 minutos a depender do passo — até o que é o Museu de Sigtuna, a principal atração da cidadezinha.

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O Museu de Sigtuna é a principal atração nesta modesta cidadezinha histórica sueca. É uma visita breve, de seus 30 minutos no muito. Note que ele funciona apenas das 12-16h.

O museu, embora pequenino, é interessante. Lá você vê moedas de prata originais da época da fundação de Sigtuna (há mil anos!), algumas maquetes e explicações sobre como era isto aqui naquele tempo, e — é claro — mais runas.

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Moedas de prata do tempo da fundação de Sigtuna. Elas tinham todo tipo de proveniência — há mesmo algumas vindas do mundo árabe. Importante não era o que estava gravado, mas o peso de prata que tinham.
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Uma maquete mostra como eram Sigtuna e sua rua principal naquele tempo. Pouco passava de um ajuntado de casas rurais de madeira e palha. Os povos nórdicos têm uma raiz rural muito forte, a tradição urbana aqui não é algo muito arraigado.
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Runas cunhadas numa costela (!). Sim, humana, que fica gente a perguntar se era de dona fulana ou beltrana, quem sabe querendo fazer à moda de Eva (levando sua nova religião muito a pé da letra), pois a runa diz: “O rei é o melhor homem. Ele é quem tem propriedades. Ele é generoso.

Garanto que por essa você não esperava. Nem eu. Data do começo do século XIII, já com a Suécia formalmente cristianizada, mas o uso do latim ainda escasso.

Só mais tarde, lá pelos idos do Renascimento, é que as cortes e a nobreza suecas vão começar a se espelhar mais no que ocorria a sul, no centro do continente, sobretudo na França. (Você viu algo desse período na nossa visita ao Castelo de Gripsholm, perto de Estocolmo.) 

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Mais runas medievais em Sigtuna. Não vêm com legenda, mas a maioria delas eram inscrições em termos gerais sobre este ou aquele fulano.

Das runas à rua, que caso você esteja a se perguntar não tem realmente um nome. Os suecos a chamam Stora Gatan, que nada mais significa que “Rua Grande”. 

Hoje, o que temos nela são muitas lojinhas em casas típicas nórdicas de madeira. Estas datam dos fins do século XIX e começo do XX, quando a Suécia e seus vizinhos já estavam se modernizando, com calefação, água encanada, etc. Salvas uma ou outra exceção.

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A rua principal de Sigtuna, considerada a mais antiga da Suécia.
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Estas casinhas de exterior de madeira são, geralmente, dos fins do século XIX ou começo do XX. Você viu pela maquete que o casario medieval de tábuas e palha não tinha ares duradouros.
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Volta e meia, contudo, você acha algo mais antigo. Estas por vezes têm centenas de anos, ainda que não remontem exatamente ao medievo.
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A prefeitura da cidade, modesta e bonitinha.

Tendo todas as amenidades características de uma cidade sueca contemporânea, não faltam aqui supermercados nem a loja de álcool (que na Suécia é monopólio do Estado, então é exclusivamente vendido na rede pública System Bolaget). Não falta tampouco um restaurante tailandês, constante neste país onde vieram se casar tantas mulheres tailandesas com turistas suecos que foram para lá.

Minha recomendação é o Prik, que serve comida tailandesa bem digna e funciona o dia inteiro. (O engraçado é que na fatura do cartão vem o nome legal do restaurante, que é Prick com um “c” ali. Aí alguém deve ter se dado conta de que prick em inglês é nome informal para pinto, no sentido anatômico, e pegaria mal com muito da clientela).

Enfim, o restaurante está recomendado.

Almoçamos e, a noite já querendo adentrar às 5h da tarde, fomos embora de volta a Estocolmo. Uma viagenzinha singela mas com o seu quê de pitoresco. Estejam apresentados a Sigtuna, onde a Suécia teve início enquanto tal.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Sigtuna, a cidade medieval viking onde a Suécia nasceu

  1. Ihhhh, que bonitinha essa ruelinha…fofa
    É verdade, a História dada nas instituições educacionais dá saltos terríveis que prejudicam a compreensão dos antecedentes e das consequências dos acontecimentos.
    Fica tudo um tanto solto… Dando trabalho ao mestre para que as conexões sejam feitas.
    Bem antiga, pelo visto…
    Que legal… Gosto muito de ambientes com jeito medieval… e esse clima. Lembram-me os filmes de capa e espada hahah
    Muito interessante essa história da decadência e desaparecimento dos Vikings e/ou da sua transformação/adaptação aos “novos” tempos de então.
    Uma gracinha, a cidadezinha!… Linda a arquitetura… Parece casa de bonecas hahaha ou de filmes.
    Lindo o lago, bela paisagem hibernal.
    Fofinha essa igrejinha de tijolinho vermelhos. Lindas essas árvores desfolhadas pelo inverno… Inspira paz… Interessante a arquitetura dessa igrejinha de 1200 e pouco.
    Lindas essas ruínas de pedra.
    Parece com os filmes dos Hobbits. Saudade de Gandalf
    Curioso esse uso das runas como comunicação…
    Belíssima essa paisagem do lago congelado…
    Linda linda a arquitetura desse museu vermelhinho…Uma graça…
    Muito interessante.
    Vilgen, uma costela escrita hahaha Jisuis…
    hahaha… que horror…
    Hahaha os suecos e as gatans hahaha
    Essa ruelinha de casinha de madeira é fofíssima. Muito graciosa.
    Linda, essa outra construção vermelhinha..
    Outra gracinha, essa Prefeitura. Lindinha…
    Amei.
    Um tesouro a ser preservado.
    Vamos que vamos.
    Obrigada meu jovem por mais essa bela postagem. Conhecer nossa Gaia é preciso.

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