A Suécia tem dos palácios reais mais bonitos da Europa. Não é na dimensão dos palácios franceses, mas a inspiração vem deles, e aqui na Suécia a monarquia continua.
O país nórdico tem uma monarquia parlamentarista à moda britânica, com um primeiro-ministro que é quem manda, mas uma família real que goza de estirpe e glamour. Aqui, inclusive, bem afinada com os valores progressistas suecos, ela continua a ser benquista pelas pessoas — e sem aquela coisa mordaz dos tabloides ingleses de fofoca.

Toda realeza tem muitos palácios, não um só, e eu já lhe mostrei o belo Palácio Drottningholm nos arredores de Estocolmo.
Lá o rei e a rainha dormem. Já aqui no chamado Palácio Real, no centro histórico de Estocolmo, eles realizam seus trabalhos diplomáticos — que incluem sediar todos os anos o jantar de gala do Prêmio Nobel. A quem não sabe, Alfred Nobel (1833-1896), o magnata que deixou sua fortuna à fundação que entrega os prêmios, era sueco.
Se por fora o Palácio Real sueco é despretensioso, por dentro ele é encantador. Evoluiu bastante desde que os Vikings estabeleceram aqui uma base fortificada no século X. Transformou-se conforme esse povo passava de marujos salteadores a um dos reinos mais possantes da Europa, abraçando então as modas de cada período — primeiro imitando os dinamarqueses e depois, os franceses.
Você pode visitar o palácio por conta própria ou num tour guiado em inglês (ou em sueco), ou pode me acompanhar na visita abaixo.


Um pouquinho de contexto
Eu ainda preciso postar sobre Estocolmo em geral no verão, entre maio e agosto, quando a cidade fica florida e o seu clima, mais ameno. Já postei sobre ela no inverno, assim como mostrei umas imagens suas num outono aqui. É, a meu ver, a mais bela capital dos Países Nórdicos.
Por sobre uma ponte e por sob essas arcadas de pedra, você passa desde o centro novo até o centro histórico — o bairro chamado em sueco de Gamla Stan. Vindo nesse sentido, terá logo diante de si o Palácio Real. Há ali um pátio aberto diante do palácio, onde de realiza a troca da guarda às 12h, e um secular obelisco por perto.
Se vier no outro sentido, percorrerá algo do modesto centro histórico da cidade antes de chegar ao palácio.
Na morada do senhor rei Carlos Gustavo XVI (n. 1946) e da Rainha Silvia (n. 1943) — a qual tem nacionalidade brasileira — há muitas entradas, e é fácil um pouco se perder. Aos curiosos, ela é filha de mão brasileira com pai alemão, daí ter também o passaporte brasileiro e falar português.

Vamos agora caminhar pelo centro histórico de Estocolmo rumo ao palácio.




Nestas redondezas fica o prédio histórico da Academia Sueca, a qual decide todos os anos acerca da maioria dos Prêmios Nobel. Há hoje um museu lá sobre a premiação e os diversos ganhadores.
O Prêmio Nobel da Paz é o único que se define em Oslo, na Noruega, e eu cheguei a mostrar lá o centro de visitação que há sobre esse específico.
Todos os demais prêmios — medicina, física, química e literatura — são decididos e entregues aqui em Estocolmo. (O de economia não é propriamente um Prêmio Nobel, mas uma premiação inspirada no Nobel, criada pelo Banco Central sueco em 1968.)



Os interiores do Palácio Real em Estocolmo
Os Aposentos Reais
A visita ao interior do Palácio Real em Estocolmo é constituída de três áreas distintas: (1) os chamados Aposentos Reais (Royal Apartments), que têm os salões de estado, de banquete, as salas charmosas e tudo o mais que foi construído a partir do século XVIII nos moldes franceses; (2) o tesouro, com as joias da coroa sueca; e (3) os alicerces e ruínas do antigo castelo medieval que havia aqui, chamado de Três Coroas, e que pegou fogo no século XVII.
Se eu fosse seguir a ordem cronológica, histórica, talvez devesse começar com as coisas antigas e o tesouro — que inclui espadas cravejadas de brilhantes e coroas de muitos séculos —, mas a verdade é que os Aposentos Reais são mesmo o principal da visita, o que toma mais tempo e o que primeiro a gente vê. Além disso, é só o que o tour guiado cobre. Eu vou preferir, portanto, apresentar os lugares na ordem em que eu os vi — na cronologia da minha visita. Acompanhem-me.

Cheguei ali relativamente cedo para o tour guiado das 10:30. Era uma manhã cinzenta destas de inverno — a que vocês viram aí na foto acima. Se a Europa, em geral, demora de acordar e de começar o dia, isso no inverno fica ainda mais pronunciado. Você sai na rua às 10h da manhã e se sente como se fosse ainda umas seis. Tudo fechado, tudo relativamente quieto.
Habituado a estes tours por palácios e castelos, fui ao guichê de ingressos perguntar onde começava o tour. Supunha que seria ali no pátio externo, à entrada, mas que nada. Não sei quem teve essa ideia, mas o tour aqui lá várias salas palácio adentro, no chamado Salão de Estado, vulgo a sala do trono de prata.
Você passa por uma segurança simples para entrar, mas tudo aqui na Suécia é leve nesse quesito. Mais difícil foi achar o raio da sala, tendo que passar batido por salões outros, plenos de retratos e mobílias antigas, sem muito tempo para se deter e olhá-los. Faria isso depois.



Modesto no tamanho e ao mesmo tempo glamuroso pela sua constituição em metal precioso, este trono de prata é obra de Abraham Drentwett (1614-1666), um dos prateiros mais famosos de toda a Europa, em Augsburgo na Baviera.
Ele foi um presente do estadista sueco Magnus Gabriel de La Gardie (sim, ele era sueco apesar do nome; vale lembrar que tais nomes em latim ou afrancesados estavam em voga Europa afora naquele tempo de Luís XIV) à rainha Christina quando ela ascende ao trono em 1650.
Estávamos ali na chamada Era de Ouro da Suécia, sob a dinastia dos Vasa. O reino havia se tornado o mais poderoso do norte europeu, conquistando territórios antes dinamarqueses, colonizando a Finlândia, muito dos Países Bálticos e norte da Polônia.
Passada a Reforma Protestante, o reino havia se convertido ao luteranismo — e àquela época, como você talvez saiba, cada reino tinha apenas uma religião permitida, a solução para as intermináveis guerras entre protestantes e católicos. O rei ou rainha escolhia qual religião seguiria, e o povo tinha de acompanhar. Cuius regio, eius religio. Cujo rei, sua religião.
Daí não prestou quando a Rainha Christina resolveu que queria ser católica como seus bisavós. Largou o trono e fugiu para Roma. Eu contei esse causo em mais detalhes na postagem no Palácio Drottningholm. O trono de prata, de toda maneira, ficou aqui.



Aprendemos que todo este palácio foi inaugurado em 1754, após o castelo medieval anterior pegar fogo em 1697. Esse castelo anterior ainda pode ser visto em pinturas da época, e lembra mesmo seus contemporâneos, como o Castelo Gripsholm aqui na Suécia ou os castelos dinamarqueses, como Kronborg, aquele que inspirou a obra shakespeareana Hamlet em Helsingør.

O autor dessa renovação foi o arquiteto sueco Nicodemus Tessin, o jovem (filho de Nicodemus Tessin, o velho). Ele viajou pela Itália, pela Inglaterra e pela França para aprender, e nenhum visitante aqui deixa de notar essa inspiração. É um palácio que poderia muito bem estar na França ou noutra parte da Europa.
Falecido em 1728, antes de a construção deste novo palácio se concluiu, seu trabalho seria completado pelo também sueco Carl Hårleman.
Nós acompanhamos a nossa conversadora guia que nos contava dessas histórias conforme íamos desfilando pelos salões.





As tretas…
Uma curiosidade é que a predileção afetiva sueca pelos franceses estava óbvia. Então não deveria ser surpresa para ninguém quando, algumas décadas mais tarde, o rei sueco Carlos XIII (1748-1818) aponta como seu sucessor um marechal de Napoleão, Jean-Baptiste Bernadotte — ancestral da família real sueca atual.
Na verdade, houve toda uma treta na Suécia naquela virada do século XVIII para o XIX. O Reino da Dinamarca não era o único a ter podres.
O rei era o irmão de Carlos, Gustavo III, que entretanto foi assassinado na Ópera de Estocolmo em 1792. O herdeiro era o filho do finado, que entretanto era de menor. Carlos ficou como o tio regente, que era um tanto excêntrico, filiado à maçonaria francesa, e empolgado com misticismo e ocultismo.
Acabou levando o sobrinho, depois que este chegou à maior idade e foi coroado como Gustavo IV, a participar de umas sociedades secretas. A coisa não caiu muito bem, gerou escândalos na sociedade quando o supostamente protestante rei foi encontrado ali.
Sei que, em 1809, o jovem rei Gustavo IV acaba deposto numa revolta de nobres — certamente inspirados pela então recente Revolução Francesa, ainda que não tenham rolado cabeças guilhotinadas nas ruas de Estocolmo.
Ascende ao trono então o velho tio místico, Carlos, já aí aos 60 anos e, pelo que se diz, com aspecto de ser ainda mais velho. Não tinha filhos. E agora, Carlos?
Oito meses depois de receber a coroa, Carlos ainda é coroado com um infarto, que não o mata, mas o deixa ainda mais debilitado. Já era qualquer pretensão de ainda procriar.
Carlos XIII viveria ainda infartado por nove anos como rei, mas seu sucessor estava escolhido: Jean-Baptiste Bernadotte (1763-1844), um promissor marechal de Napoleão nascido em Pau, na França. (A cidade de curioso nome fica perto de Lourdes, e eu lhes falei dela recentemente na postagem lá.)
Em 1818, Bernadotte ascende ao trono e adota então o nome de Carlos XIV. Hábil, ele se torna também generalíssimo das forças armadas suecas de então, e sua dinastia segue aí viva — embora os estrangeiros hoje em geral não saibam dessa origem francesa.




As joias da coroa
Se você sentiu falta de ver a cama do rei e essas coisas que a gente muitas vezes olha nas visitas a palácios europeus, reitero que é porque a família real não dorme aqui; o rei e a rainha moram em Drottiningholm e vêm cá apenas a trabalho. Já as princesas e o príncipe são todos crescidos e têm suas moradas noutras bandas.
Este é um espaço que guarda as honrarias da realeza, portanto nada mais natural que aqui — e não noutro lugar — estejam guardadas as joias da coroa, que felizmente estão abertas à visitação. (Certamente não todas, mas há o bastante.) O foco está nas espadas e coroas de outrora.
O tesouro, na verdade, fica numa outra edificação adjacente, então é preciso sair dos aposentos reais e retornar ao exterior.
O ingresso que você adquire para a visitação lhe permite entrar e sair ao longo do dia, então você não precisa fazer tudo de uma vez. Sendo 12h, nós nos detivemos primeiro para ver a cerimônia de troca da guarda. Cheguei a gravar um breve vídeo com 1 minuto do evento.
Havia um certo candidato a prefeito lá em Feira de Santana que costumava se referir a si mesmo na terceira pessoa quando discursava, e dizia em alto e bom tom que “não gosta de mentira e não sabe mentir”.
Nem eu, então confesso que a longa cerimônia da troca da guarda aí é um tanto enfadonha — o mais engraçado era ver essa moça soldado a cada minuto ter que vir indicar às pessoas que elas não podiam tapar a porta de saída dos Aposentos Reais.
Depois de 10 ou 15 minutos disso, resolvi deixá-los lá naquela pantomina cerimônia e ir almoçar, pois era hora.
Regressado à boemia do Palácio Real, fui então à outra entrada lateral onde se encontra o tesouro dos Bernadotte e daqueles que os antecederam.





Eram outros tempos aqueles, os tempos do castelo renascentista Três Coroas, consumido pelo fogo em 1697. Ele foi a morada dos reis suecos desde que a Suécia se assegurou como reino independente da Dinamarca em 1523, com o fim da União de Kalmar (ver os detalhes na minha postagem em Kalmar).
Como lhes disse, dele só sobram os alicerces, além de suas imagens em pinturas e, hoje em dia, maquetes de como ele era. Eram tempos em que as moradas reais eram fortalezas, não palácios.


Estejam assim apresentados a mais um recanto da capital sueca e da sua História.





Nossa!… Que maravilha!… Que beleza e requinte!…
Percebe-se claramente a influencia francesa, como tambem a italiana.
Charmosíssimo!…
Belíssimo e muito elegante esse trono de prata… Uma preciosidade!…
Adoro essas tapeçarias na parede. Belíssimas!…
Belos moveis. Aprecio muito esse estilo. Muito elegantes. Bem torneados. E ai muito bem dispostos.
Belo esse palácio. Não fica a dever nada aos demais palácios europeus, em particular aos franceses.
Belíssimo esse Castelo que foi destruído pelo fogo.
Linda e detalhada a pintura.
As joias são espetaculares. Uma obra prima da arte!…
A decoração das paredes e tetos é um espetáculo ã parte. Uma arte sem igual… Parece que voce se transporta à aqueles Palácios franceses e italianos, plenos de maravilhosas cenas cotidianas, campestres, bucólicas, ou mesmo de batalhas, e de inspirações greco-romanas, onde beberam tambem os franceses.
Belíssimas as cúpulas.
Os salões são deslumbrantes.
Belíssimas as luminárias.
Muito bom gosto.
Amei.
Quanto a Bernadotte, ele é bastante conhecido como um dos principais generais de Napoleão e dos mais achegados a ele, assim como Junot.
Annemere Seliko, em seu livro “Desirée,” “o verdadeiro amor de Napoleão”, segundo ela, o retrata como independente, embora fiel a Napoleão, mas com idéias próprias, e que nem sempre coincidiam com a do Imperador. Era tambem um dos seus conselheiros.
Com o tempo, conta a escritora, essas divergências se aprofundaram, e, apesar da amizade/fidelidade, dá-se o afastamento entre ambos.
Josefina aparece na vida do Imperador e Desirée é descartada.
Depois de um tempo Bernadotte e ela se aproximam se casam , afastam-se definitivamente de Napoleão e da França. e, a convite da Suécia, se tornam soberanos naquelas terras.
Muito interessante,
Antigo.