Pensem naqueles sobrados de jeito antigo e janelas venezianas pintadas. As árvores, ocasionais palmeiras nas avenidas. Um casario colorido que, na França de tons beges, pareceria estranho. Seria Barcelona, com a sua aura alegre e mediterrânea? Talvez, mas pode ser a Catalunha de modo geral.
Vocês sabiam que a Catalunha não se limita à Espanha? Tampouco o País Basco. Essas são regiões que têm história e língua próprias, anseios separatistas, e que estão quase por inteiro contidas em território espanhol, mas que também se estendem na vizinha França. Num contexto já multinacional de União Europeia, não escondem as suas vontades de se tornarem países independentes.
São lugares que, embora não sejam politicamente soberanos, proporcionam experiências culturais um tanto diversas.
Hoje eu lhes apresento Perpignan (lê-se Perpinhã), a principal cidade do que poderíamos chamar de Catalunha francesa. Os portugueses às vezes escrevem Perpinhã mesmo (ou Perpinhão! para fazer companhia a Amesterdão), mas por ora eu vou aderir ao nome original, mais difundido.


Catalunha francesa?
Sim. Se me permitem, aqui vai um breve pano de fundo.
Antes do século XV, a Espanha era uma colcha de retalhos. Havia uma larga parte dominada pelos árabes (sobretudo a região de Andaluzia, no sul), e a parte cristã continha muitos reinos e entidades menores: o Reino de Castela, o Reino de Aragão, o Reino de Navarra, entre outros. Um desses outros era o Condado de Barcelona, que incluía terras aqui do que hoje é a França.
Em 1137, o conde barcelonês Ramon Berenguer IV se casa com a rainha Petronilla de Aragão, sua vizinha. Casaram-se no que chamaríamos hoje de comunhão parcial de bens. Como é isso? O que era de Aragão continuava a ser de Aragão, com as suas regras e leis próprias. O que era dos domínios de Barcelona continuava a sê-lo.
Acima de todos estaria, não Deus, que está entre nós, mas a Coroa de Aragão. Ou seja, quem usasse a coroa de Aragão mandava tanto nas terras do Reino de Aragão quanto nas do Condado de Barcelona.
As terras do Reino de Aragão correspondiam mais ou menos ao entorno de Zaragoza, cidade que servia de capital a esse reino. Já o Condado de Barcelona agregou para si vizinhos menores e se transformou no chamado Principado da Catalunha. Lado a lado, as duas entidades eram governadas por quem portasse a coroa de Aragão.

No século XIII, a expansão aragonesa prossegue. Eles bem que tentaram ajudar os cátaros lá em Carcassonne, para quem sabe anexar a região da Occitânia no sudoeste francês, mas falharam.
Diante disso, voltaram-se para o sul: lançaram-se contra os árabes nas Ilhas Baleares (Maiorca, Menorca, Ibiza e outras) e na vizinha região de Valencia, a terra de origem da paella. Conquistaram-na em 1238, criando o que se constituiria no terceiro reino integrante da Coroa de Aragão.
O Reino de Valencia tem uma história curiosa, pois tinha uma gente árabe que passou aí a estar sob uma elite que falava catalão. Daí o idioma valenciano até hoje ser, basicamente, o mesmo que o catalão. Só que ficaram heranças árabes como a paella. Os árabes haviam trazido no século X o asiático cultivo do arroz para a Ibéria — criando esse prato espanhol e, entre outros, o costume arraigado dos brasileiros de comer arroz como algo do dia-dia.
Já o caso de Maiorca é diferente. Não no aspecto cultural, pois era também governado por árabes, mas sim no aspecto político, e é o que traz Perpignan à história.

O rei aragonês Jaime I, o Conquistador (1208-1276) toma Maiorca dos árabes ainda em 1229 e, no seu testamento, o lega como um reino à parte para o seu segundo filho, visto que o primogênito já estaria herdando a Coroa de Aragão.
Não querendo que esse segundo filho vivesse só de ilhas, tirou um naco (este pedaço antigamente chamado de Roussillon) do Principado da Catalunha e o ajuntou àquele reino independente, de modo que Perpignan aqui no continente acabou sendo a capital desse chamado Reino de Maiorca — ainda que não ficasse em Maiorca.
Veja você como são as coisas. Então não estranhe demais quando descobrir que uma das principais atrações históricas em Perpignan é, justamente, o antigo Palácio dos Reis de Maiorca.
Só que, com o tempo, Maiorca não consegue se viabilizar de modo autônomo. Vira um reino subalterno, e em 1344 acaba vindo também ele fazer parte da Coroa de Aragão como o quarto reino-membro.

A Coroa de Aragão se tornaria uma potência nos séculos seguintes, dominando o comércio marítimo no Mar Mediterrâneo ocidental.
Os aragoneses estabeleceriam domínios na Sardenha e no sul da Itália, onde até hoje se encontram as influências espanholas. (Como curiosidade, procure por italianos chamados Fernando e veja se não são de famílias do sul.)
Tanto o Reino de Nápoles quanto o Reino da Sicília pertenciam à Coroa de Aragão. Você pode ver a extensão completa dos seus domínios no mapa abaixo.

OK, e como é que parte da Catalunha foi parar com os franceses?
Dois eventos aqui são importantes, senhoras e senhores. O primeiro deles foi a Cruzada Albigense (1209-1229) no século XIII. Quem viu minha postagem recente em Carcassonne leu sobre essa cruzada que o rei de França empreendeu contra os nobres do sudoeste francês, a região chamada de Occitânia ou Languedoc, onde as pessoas àquela época davam sinais de desvio da ortodoxia Católica e de insubordinação.
A cultura ali e o idioma regional occitano se parecem muito mais às coisas de Aragão que de Paris, mas a partir dessa Cruzada Albigense passa a haver maior presença real francesa, maior centralização na França. Com isso, a Coroa de Aragão acaba tendo que desistir de qualquer noção de puxar para si os territórios que hoje são do sul da França.
O segundo evento foi a chamada Sublevação da Catalunha (1640). À época, a França estava gradualmente ficando mais poderosa que a Espanha — e começando a querer puxar o tapete desta. Ajudou financeiramente os Bragança a restaurar a soberania portuguesa, que havia sido perdida à Espanha em 1580, e estavam ajudando também este Principado da Catalunha a se despegar de Madri.

Houve aí 20 anos de Guerra Franco-Espanhola em muitas frentes, e o resultado acabou sendo que a Catalunha ficaria dividida, com as novas fronteiras entre Espanha e França nos Montes Pirineus. Vitoriosa, a França arrancou um naco para si.
O Tratado dos Pirineus (1659) firmou que a área catalã ao norte dos montes, região chamada Roussillon, passaria à órbita de Paris. O restante se manteria com os espanhóis, e a França pararia de ali incitar qualquer sentimento separatista. Ou, pelo menos, assim pareceu.
Eu já passarei às andanças hoje em dia aqui por esta Catalunha francesa, mas antes deixo um bônus aí abaixo para quem ficou curioso sobre que fim teve a tão poderosa Coroa de Aragão.
O fim da Coroa de Aragão
Sabemos que, no século XV, a rainha Isabel de Castela se casa com Fernando de Aragão (em 1469), e assim se forma a Espanha moderna. Só que a coisa ali também se deu naquele mesmo esquema da comunhão parcial de bens. Ou seja, administrativamente — e, inclusive, legalmente — Castela e Aragão continuaram a ser domínios distintos.

Entretanto, com a descoberta das Américas, o centro gravitacional se voltou para ocidente. Madri ganhou cada vez mais preponderância, até que…
Até que, em 1707, sai vitoriosa na Guerra da Sucessão Espanhola a família dos Bourbon, a mesma de Luís XIV e daqueles reis franceses, que agora conseguiam que seus parentes assumissem também ao trono espanhol.
(Vale lembrar que as realezas europeias casavam-se entre si, então não era difícil alegar que por parte de mãe o seu primo também teria direito àquele trono X ou Y, quando não havia não havia um óbvio herdeiro.)
Felipe V assume como rei espanhol já botando banca: dissolve a estrutura antiga e diz que de agora em diante só haverá uma entidade, chamada Reino de Espanha, e acabou. Ademais, agora tudo seria em castelhano — que nós em tempo passaríamos então a chamar de “espanhol”.
Isso até hoje cria ruídos, numa Espanha atual onde regiões semi-autônomas — como o País Basco, a Galícia e a Catalunha — gozam do uso de seus idiomas locais, mas onde gente até hoje sonha com soberania completa de Madri. Enquanto isso, venhamos ver que cara tem esta outra Catalunha do lado de cá, do lado francês da fronteira.

Voltas, lugares históricos e pontos de interesse em Perpignan
A arquitetura e as ruas
Havia um quê ibérico naquele casario da Avinguda De Gaulle — como eles dizem em catalão, apesar do nome do general francês — ao que eu desembarquei do trem em Perpignan. A estação ferroviária fica vinculada ao um pequeno shopping, de modo que você passa por um breve túnel para vir rumo ao centro. Até ali, nada de novo no front ocidental.
Só que quando desemboquei na avenida, as casas me lembraram até mais as cidades históricas brasileiras que as cidades francesas atuais. Saltam à vista as cores múltiplas em tudo, mas não apenas elas. As janelas e portas de madeira com sacadas nos pisos superiores pareciam até saídas de Ouro Preto ou Salvador — para não falar, obviamente, nas cidades portuguesas.
Eu me sentei para tomar um café ainda no centro comercial conjugado à estação, vindo de trem desde Narbonne — uma ótima base para se conhecer este cantinho do sudoeste francês — e me pus então a caminhar por estas ruas.



Os aficcionados em arquitetura irão notar vários exemplos ao longo dessa avenida de edificações históricas da cidade em estilos específicos, denotando sempre o período em que foram feitas. Há úteis painéis explicativos indicando data da construção, a quem pertenceu, às vezes o arquiteto e o que funcionava ali.
Eu olhei algumas para tomar nota e segui caminho, descambando onde ficava o antigo fosso e muralhas da cidade — o início do centro histórico.
Não restam muralhas, e o fosso virou hoje um modesto córrego que enfeita uma arborizada avenida, mas segue lá de pé o chamado Castelete (Castillet ou Castellet), que defendia a principal porta de entrada na cidade. Ele hoje abriga o Museu Catalão de Artes e Tradições Populares.



A zona histórica de Perpignan
Perpignan tem uma plenitude de ruelas emaranhadas num centro até extenso, e quieto.
Há vários bares, restaurantes, lojas, com moradas supostamente ainda residenciais nos andares superiores, mas se nota que é uma cidade bem pouco turística. Os frequentadores desses ambientes me pareceram ser a própria gente da cidade. Nas áreas menos comerciais, você é capaz de andar sozinho sem uma viv’alma em vista.






Andei por ali com tranquilidade, observando as ruas quietas, as semelhanças latinas entre um país vizinho e o outro. Eu observava como essas ruas evocam a Itália, aí me lembro que metade da Itália pertencia à coroa espanhola, que também dominou Portugal por um tempo, e fico prestes a concluir que somos todos de um mesmo pirão, e que estas distinções são mais políticas que culturais.
Um dos pontos de destaque aqui no centro histórico — e mais uma vez algo que liga toda esta região sul da Europa tanto pela religião quanto pelas tendências artísticas — é a Catedral-Basílica de São João Batista, iniciada em 1324 nos tempos dos reis de Maiorca e terminada no século XV, já sob a Coroa de Aragão.





Uma pausa para o almoço no tailandês Pitaya perto do Castelete — pois, após uma semana na França, eu já estava ficando cansado de comer quiche — e depois segui para um lugar um tanto escondido e que é dos mais belos que há aqui.
O Hotel Pams
Vamos começar pelo fato de que o Hotel Pams não é um hotel. Os franceses usam essa palavra com certo grau maior de liberdade que nós — vide o fato de prefeitura em francês ser Hôtel de Ville. O Hotel Pams é uma mansão de época, neste caso do começo do século XX.
Naquele tempo, imperava o Art Nouveau — motivada mesmo pelos franceses — como principal moda artística na Europa. É uma estética que se vê ainda hoje aqui e ali, com seus motivos baseados na natureza, uso de muitos tons vivos, de vidros coloridos e, muitas vezes, uma estética um tanto arcadiana, que parece evocar aquelas coisas dos mitos gregos antigos.
O Hotel Pams, uma mansão que pertencia ao político francês e entusiasta das artes Jules Pams (1852-1930), é hoje um emblema belo dessa época. A visitação é gratuita, e vale muito a pena. Você passa uns bons 20 minutos ali desfilando e apreciando a beleza daquela estética.




É uma estética meio La Violetera, da marca conhecida de azeite.
Violetera, em espanhol, é mulher vendedora de violetas, as flores. A marca é de 1928, ainda sob esta influência da arte do começo do século XX.
(Aos curiosos, o nome La Violetera vem de uma canção espanhola de 1914 com esse nome. Ela ficou marcada por interpretação de Sara Montiel, décadas mais tarde.)





Seus olhos ficam maravilhados em Perpignan.
Inclusive, muita gente nem se dá conta, mas Art Nouveau tem tudo a ver com o estilo de Antoni Gaudí e as suas emblemáticas obras lá em Barcelona, como a Basílica da Sagrada Família ou a Casa Battló. São obras que, se você reparar, procuram trazer certa estética orgânica — como que se estruturas da natureza — à arquitetura.



O Palácio dos Reis de Maiorca
O lugar mais histórico e emblemático aqui de Perpignan provavelmente é o medieval Palácio dos Reis de Maiorca, de quando esta cidade era capital desse reino independente legado por Jaime I, o Conquistador, ao seu segundo filho, como explicado acima.
Esse filho era Jaime II, que ordenou a construção deste palácio-fortaleza no estilo gótico da época, naqueles idos dos fins do século XIII. O palácio seria terminado em 1309 para se tornar a sede do poder fugaz, que não durou muito, de Maiorca como ente independente. Como vimos, dali a menos de um século ele seria absorvido pela Coroa de Aragão, que havia ficado com o irmão mais velho de Jaime II.
De toda maneira, aqui reinaram Jaime II e sua rainha, Esclaramunda (um excelente nome para a sua próxima filha ou neta)


Este palácio tem muito pouco de luxo ou de realmente palaciano como costumamos imaginar. Estou repetindo o nome porque é como chamam o lugar, mas ele nada tem a ver com os palácios barrocos ou renascentistas — de quando os monarcas europeus deixaram de ser guerreiros e passaram a ser uns boa-vida a partir do século XVI.
Sendo assim, este palácio é nu, salvo por alguns objetos de época aqui e ali. Temos os salões, os pátios que evocam o medievo, e uns belos ciprestes em meio às torres e muralhas de pedra e tijolos.









Era uma vez esse Reino de Maiorca. A maior parte das pessoas vêm aqui e fica sem entender exatamente o que teria a ver Perpignan com a ilha espanhola, mas vocês aí já sabem. (Ilha essa, inclusive, que eu ainda preciso conhecer!)
De reino independente, à Coroa de Aragão em 1344, e este pedaço continental onde fica Perpignan ao Reino da França em 1659. De toda maneira, os vínculos culturais seguem aqui muito forte, denotando uma Catalunha mesmo mais ibérica que gaulesa.
Terminando o nosso passeio, passemos pela Igreja de Notre-Dame La Real, de 1321, também erigida nessa época de esplendor maiorquino. Eu vos deixo com mais esta evidência de influências italianas, de quando esta terra hoje francesa estava vinculada à Espanha.
Este lusófono acha que, ao fim e ao cabo, somos todos a mesma família.










Lindos os sobrados coloridos, com belos e antigos balcões, parecendo mesmo que estamos em alguma cidade histórica do Brasil… Lindas palmeiras… Uma graça…
Interessantes esses anseios de independência…
Nossa, como é grande a região…
Parece mesmo ter pouco a ver com a Franca mais ao norte…
A cara do Mediterrâneo…
Lindo estilo… Interessantes esses detalhes… Adorei.
Lindo córrego arborizado. Parece um boullevard…Uma graça essa avenida.
Belíssimo esse portal e essa fortificação… imponente…
Belas as cores da bandeira.
Parece que voce entra na máquina do tempo e sai no Medievo.
Linda a Prefeitura!… Estilo bonito, elegante, grandioso..
Muito interessante a profusão de bandeiras…hahaha…
Será para marcar a multiplicidade de influências culturais????
Há muito da Espanha e da Itália, e muito pouco da Franca haha
As marcas da arte italiana estão por toda parte, alem da influência espanhola, ou, melhor dizendo, da arte do Mediterrâneo . Uma beleza.
Com certeza bebe a região, do mesmo caldo cultural e histórico.
Muito curiosa essa Catalunha “gaulesa”com cara de Espanha e com a onipresente arte italiana.
Acho lindo esse gótico Italiano cheio de luz, e os belos e coloridos vitrais. Um primor
Que horroroso esse nome da rainha hahaha Misericórdia hahaha
Muito pertinente a pergunta: França, Italia ,Espanha???? … Viva o Mediterrâneo…
Muito bonita a cidadezinha.
Adorei a mescla das culturas do Mediterrâneo.. São majestosas.
Valeu.
Que venham mais belezas…
Grande abraço,
Bom dia, Mairon
Que beleza de texto e que fotos impressionantes!
Adorei esta lição de história de um território maravilhoso.
Já percorri a França e passei ao largo de Perpignan mas nunca adentrei a cidade. Este seu texto forneceu-me energia para me pôr a caminho e visitar Perpignan.
Obrigado e parabéns. Tenho uma sagrada inveja do seu estilo de vida. Continue a deliciar-nos com os seus magníficos posts.
Cumprimentos
Carlos Moreira (Braga, Portugal)
Olá Mairon,
Muito obrigada por este delicioso texto. Cheguei ontem já no fim do dia a Perpignan e ao caminhar pela cidade pude observar as características arquitetônica que me deixou bastante curiosa. Buscando entender a história por trás, descobri seu texto que me trouxe exatamente as informações que eu precisava. Vou continuar desbravando a cidade agora com olhos mais atentos.
Obrigada e boa viagem nas próximas aventuras.
Olá eu vou hoje jantar em perpignan com a familia aconselha algum sitio? Bom e barato😁