Bem-vindos à cidade de Fukuoka na ilha de Kyushu no sul do Japão, senhoras e senhores. Não estamos numa ilhota, mas numa das quatro grandes ilhas que formam o país (ver mapa abaixo).
Kyushu, por estar ao sul, é o lugar do Japão por onde se deram os seus maiores intercâmbios históricos; primeiro com os chineses, e a partir do século XVI com os europeus, após a chegada dos portugueses aqui em 1543.
Nesta primavera, se aquele norte do Japão onde eu estava preservava certo frescor ainda do inverno e tinha cerejeiras em flores que acabavam de brotar, este sul — mais quente e úmido — já tinha ares de verão. Chuvas pesadas se formavam no céu ao que eu passeava pela cidade de Fukuoka a ver os seus templos e ruas.
Fukuoka foi minha porta de entrada em Kyushu, eu chegado de avião desde Sapporo lá no norte em Hokkaido. Aqui eu também veria Nagasaki — raramente contemplada pelos turistas estrangeiros que priorizam apenas Hiroshima — e conheceria um pouco mais destes recantos japoneses pouco frequentados por ocidentais.


Kyushu: Porta de entrada das influências estrangeiras no Japão
Quando se fala em “influência estrangeira” no Japão, é quase automático que se pense em intrusões ocidentais à milenar cultura tradicional japonesa, que se crê ter surgido aqui sozinha e por conta própria.
Não é bem assim que a História se dá — nem só o Brasil é culturalmente antropofágico. Muito do que é tradicional japonês hoje veio da China no primeiro milênio depois de Cristo, incluindo aí os bonsai, o hábito de comer com pauzinhos, o budismo, o quimono e até o hábito de comer peixe cru. Isso para não entrar na seara mais árida do sistema jurídico etc.

Tipicamente, tudo isso veio aqui pela ilha de Kyushu. Nem sempre se tratou de gente de fora chegando para trazer as coisas; muitas vezes, sobretudo nos séculos VII e VIII, tratou-se de emissários japoneses indo à corte imperial chinesa para aprender.
O quimono, por exemplo, era vestimenta típica na Dinastia Tang (618-907), e o costume do peixe cru à mesa existia em províncias costeiras até a poluição ambiental lá desestimular o hábito.
Apenas 200 Km separam Fukuoka de Busan, na atual Coreia do Sul. A Coreia era a parceira natural dos japoneses, mas quando o então reino coreano colapsou no século VII, os japoneses precisaram buscar os chineses diretamente.


O budismo — cuja origem última está no sul dos Himalaias, entre o norte da Índia e o Nepal — chegou à China nos idos de 150 d.C. e de lá foi trazido ao Japão através da Coreia no século VI, para nunca mais sair.
Adiantemos a fita, e em 1543 temos os mercadores portugueses Antônio Mota, Antônio Peixoto e Francisco Zeimoto aportando aqui em Kyushu no Japão — os primeiros europeus na História a fazê-lo.
Marco Polo durante a sua estada na China no século XIII havia ouvido falar no Japão, e trouxe o comentário e as fábulas à Europa, atiçando a curiosidade geral.
Os portugueses pelas décadas seguintes realizariam um lucrativo comércio entre China e Japão, comprando prata dos japoneses e vendendo-lhes porcelanas, sedas e outros produtos chineses. Suas embarcações eram grandes e portentosas — carracas imensas pintadas de preto com betume para vedar a madeira, que os japoneses depois apelidariam de navios negros (kurofune), associando-os aos “bárbaros” ocidentais.

Se você não sabe ao certo o que é uma carraca, tratou-se de uma evolução da caravela. As caravelas, usadas em 1500 no Descobrimento do Brasil, já estavam caindo em desuso em 1543.
Se a caravela era uma embarcação ágil, boa de manobrar e que levava até 50 toneladas, as carracas transportavam de 500 a 2.000 toneladas de carga, e foram os navios-chave para a chamada Carreira da Índia — o comércio ultramarino de especiarias e outros produtos que os portugueses realizaram entre a Europa e a Ásia.
Chave era também que os navios europeus levavam canhões a bordo, o que era chave para intimidar os piratas (asiáticos) que rondavam estes mares. Os portugueses introduziram as primeiras armas de fogo no Japão, na forma dos seus arcabuzes, o que despertou interesse na população.
Fundou-se Nagasaki — aqui pertinho de Fukuoka — em 1571 como um porto para realizar esse comércio com os portugueses, e àquela altura também os jesuítas já estavam em ação convertendo os japoneses ao cristianismo.
Mas dessa histórica cidade que acabaria sofrendo um fatídico bombardeio atômico séculos mais tarde eu tratarei depois, na postagem sobre a minha visita lá. Por ora, cheguemos aqui a Kyushu via Fukuoka.




Fukuoka, inclusive, tem algo um tanto sui generis, pois é a única grande cidade do Japão onde a estação central não leva o seu nome. Quando estiver procurando passagens ou localização no mapa, é preciso buscar por Hakata, nome antigo que este lugar tinha antes do século XIX.
Há uma história, que não se sabe se verdadeira ou apócrifa, de que havia dois povoados aqui, Fukuoka e Hakata, sendo Hakata o maior deles. Entretanto, Fukuoka era um local aristocrático, dos samurais. Quando no século XIX se fundiu as duas para fazer a cidade moderna, os samurais teriam exigido usar o nome Fukuoka, do lugar da classe alta. Se é verdade, eu não sei, mas é o que se conta.
De toda maneira, o nome Hakata se mantém para a estação.


Eu estou dando “bom dia” porque não tinha almoçado ainda — um argumento mui brasileiro e que sempre adoro usar com estrangeiros para ver as suas caras confusas, sem acompanhar a noção de o cumprimento se pautar pela presença ou ausência da minha refeição. Pois.
Era já um começo de tarde, eu a buscar o hotel até perto daquela avenida de flores e, em seguida, um lugar onde comer.
Esta ilha de Kyushu é famosa pela sua culinária regional aqui no Japão — algo estranho para nós ocidentais habituados a imaginar “comida japonesa” como uma coisa só.

Comendo em Fukuoka: A terra antes do céu
Eu mais tarde visitaria uns templos bem interessantes aqui em Fukuoka, mas antes de ir ao céu foi necessário atender aos desejos da matéria e contemplar o que tinha esta terra a me oferecer.
A culinária regional de Kyushu tem uma série de “iguarias” de gosto duvidoso. Algumas não cheiram nem fedem, como por exemplo o hábito de beber sotchu (feito de batatas) em lugar do saquê (feito de arroz). Deixo as diferenças aí aos especialistas.
O que me chamou mais a atenção foi mesmo o hábito de eles comerem basashi, carne de cavalo crua como se fosse sashimi de peixe.
Não, eu não experimentei, mas já participei de jantar que serviu isso na casa de uma família japonesa que visitei em Osaka há muito tempo atrás, na minha primeira vinda ao Japão. O chefe da minha amiga era oriundo aqui de Kyushu e trouxe para compartilhar.

Minha experiência em Fukuoka foi um tanto mais mundana, menos sofisticada.
Meti-me num dos muitos ramen bars — ou restaurantes populares de sopa de macarrão — que os japoneses adoram meter em subterrâneos ou detrás de portinholas sem pretensão, e foi onde senti no ar o aroma pungente de outra das iguarias de Fukuoka: tonkotsu, sopa feita com caldo de osso de costela de porco fervida. Eu deixo você pra decidir se cheira ou fede.
(E aí fica o pessoal no Ocidente iludido achando que japonês só come pescado com arroz e algas).
Entrei numa dessas bodegas com o cheiro forte no ar e fumaça a subir. Tocava uma música meio J-Pop com dance beats, aquela coisa ligeiramente eletrônica ao fundo. Muitos japoneses lotavam o lugar, fosse em mesas (caso estivessem acompanhados) ou sozinhos em balcões — na companhia dos seus celulares.
Os celulares, aliás, eram a única coisa que informaria a um viajante no tempo que aqui estávamos na década de 2020 e não em 1980 ou 1990. A máquina onde fazer os pedidos parecia saída de algum filme retrô. Como eu disse no post anterior em Sapporo, muito do Japão parece parado no tempo — e nem sempre no tempo dos samurais, mas no tempo em que o Japão se alçou ao estrelato mundial como inovador tecnológico no fim do século passado. Congelou e está até hoje lá.




Vamos à comida. Você aqui escolhe se quer ramen (o macarrão padrão, por assim dizer) ou udon, que é daquele macarrão mais grosso. Escolhe o caldo, se quer daquele de costela de porco fervida ou algum outro, e escolhe o tipo de coisa que quer em cima. As opções são diversas.


Satisfeito, fiquei ali ainda a ver o movimento, na minha etnografia popular.
Dei-me conta de que as pessoas do setor de serviços no Japão falando cantando. Não tenho como reproduzir isso aqui por escrito, mas atendentes de lojas, aeromoças, dentre muitos outros, tanto homens quanto mulheres, esticam as sílabas numa certa cordial afetação de solicitude e deferência.
O japonês do setor de serviços não diz irashaimase para “bem-vindo”, mas irashai-masseeeeeeee. Não dá mero arigato (obrigado) nem arigato gozaimasu (muito obrigado), mas arigato gozaimaaaasu.
A tonalidade também muda — não é só o esticar empolgado, mas também um jeitinho meio fofo de quem fala com criança, sobretudo as mulheres, que aqui acham charmoso afinar a voz em falsete e falar de um jeito meio infantilizado.
Abaixo, um vídeo super curto com o que estou falando.
Budismo e Xintoísmo em Fukuoka: Depois da terra, o céu
Alimentados, saímos para circular um pouco pela cidade. Fukuoka não é exatamente uma cidade lá muito turística, nem tampouco conta com bairros históricos de ar pitoresco. O que se tem aqui é o que os japoneses vivem no dia-dia, o que inclui a religião.
É preciso notar que religião no Oriente é algo muito fluido, uma espécie de religiosidade cotidiana que tem semelhanças com o catolicismo popular. Há os altares em casa, as oferendas, as simpatias e orações que as pessoas fazem, mas sem aquele zelo fundamentalista que algumas pessoas no Ocidente ou no mundo islâmico adquiriram.
No Japão, predomina o chamado xintoísmo, uma religião animista nativa do Japão, que cultua os espíritos dos ancestrais e da natureza, além de seres mitológicos das lendas japonesas. Entretanto, desde o século VI o budismo também está difundido no país.
Historicamente, o sincretismo era o natural — as pessoas mesclavam crenças xintoístas com ensinamentos de Buda nas suas vidas. Com a Restauração Meiji (1868) e a criação de um estado japonês moderno, houve artificialmente uma separação de cima para baixo, gerando o que temos hoje: templos budistas e santuários xintoístas como coisas à parte.
Esqueceram de combinar com os japoneses, então as pessoas naturalmente visitam os dois sem qualquer problema, e assim fiz também eu aqui em Fukuoka.


Tocho-Ji
Tocho-Ji é um templo budista fundado no século IX aqui em Fukuoka. Como lhes disse, a introdução do indiano budismo através da China se deu por esta ilha de Kyushu, mais próxima ao continente.
Kukai foi o seu monge fundador, ele que foi à China e no ano 806 estabeleceu este lugar sagrado e uma escola que denominou de shingon, adaptação do termo chinês zhenyán, que por sua vez é tradução da palavra sânscrita mantra. Trata-se de uma das mais esotéricas dentre as muitas vertentes do budismo.
As estruturas que você aqui, claro, não datam de 806. Elas são visivelmente mais novas, conservadas, mas não deixam de transmitir aquela atmosfera ancestral.
Dentro, há um incrível Buda de madeira de 10m de altura que realmente me chamou a atenção.





Imponente e ao mesmo tempo serena é essa imagem de Buda. Ela fica no segundo andar, aonde você chega após breves escadas. Uma senhora bondosa por detrás de uma banquinha vendia incensos e alguns enfeites sagrados. (Os incensos, inclusive, aqui eram vendidos por preços muito bons, que não de turistas. Por coisa de US$ 3-5 se comprava uma caixa).
Os incensos japoneses, sublimes, inundavam o ar. A atmosfera era de quietude e paz. Quase não havia outros visitantes.
Há realmente algo de mágico nessas imagens imensas que os budistas gostam de construir. Você é capaz de ficar ali um bom tempo em contemplação.



Dentre os raros visitantes que vi aqui estava um casal de turistas brasileiros, aproveitando-se também do fim da exigência de visto e recém-chegados de Okinawa — pequena ilha bem lá no extremo sul do Japão, quase em Taiwan. Compartilhamos o prazer que era viajar por estas paragens japonesas fora do habitual roteiro (Tóquio-Quioto-Hiroshima) que concentra as hordas de turistas.
Mutuamente, éramos os primeiros brasileiros que encontrávamos no Japão até o momento.
Conversamos um pouco, e fui para o Shofuku-Ji, templo budista do século XII aqui em anexo, por detrás do pagode.
O ar deste fim de tarde era o de um quieto dia quente, úmido, que agora ameaçava chuva, a vegetação pouco a balançar, verdejante, molhada pelo tempo, solo fofo e com algumas poças d’água sob os pés.

Shofuku-Ji
O Shofuku-Ji fica logo atrás do Tocho-Ji, e você talvez nem se dê conta de que são dois templos distintos. O primeiro parece meio que o quintal ou o jardim secreto do segundo.
Não havia pavilhões abertos neste momento no Shofuku-Ji, mas um bosque com caminhos de pedras em meio às árvores. Havia uma serenidade no ar, aqui e ali uma imagem búdica.







O santuário xintoísta Kushida
Há dezenas de pequenos ou medianos santuários xintoístas Fukuoka afora, mas Kushida talvez seja o principal de todos eles. Criado no ano 757, ele honra as figuras mitológicas japonesas Susanoo e Amaterasu, deidades das mais famosas que há no arquipélago. Amaterasu é a deidade relacionada ao sol e Susanoo, considerado seu irmão mais novo, ao mar e às tempestades.
Não espere encontrar representações à moda greco-romana antiga dessas figuras. Elas às vezes são retratadas de modo estilizado, mas via de regra os templos xintoístas têm poucas figuras humanas — salvo às vezes alguma figura gigante de um guardião.
Os templos xintoístas são famosos por terem seus portais (torii) feitos para separar o ambiente mundano do espaço sagrado. Também é habitual ver lamparinas, sinos para badalar e chamar os espíritos (em não havendo sinos, batem-se duas palmas antes de fazer a oração), fontes de água corrente para lavar as mãos, e os oráculos — ou bilhetinhos da sorte — que os orientais tanto adoram.
Neste caso, temos também uma árvore Ginkgo biloba sagrada que dizem ter mais de 1000 anos.



Temos aqui uma variedade de coisas: símbolos, lamparinas, e daqueles papeizinhos da sorte amarrados.



O ambiente era pacato, com apenas alguns raros visitantes naquele finzinho de tarde, pouco antes de o templo fechar, já umas quase 18h. Vi as gavetinhas com os oráculos da sorte que você tira, mas a verdade é que só a tirei uma vez na vida, em Tóquio quando vim pela primeira vez ao Japão. Na ocasião eu tirei a “melhor sorte”, e não sei se quero tirar outra, já que melhor que isso não fica.


Há este ar quase meio folclórico nos templos xintoístas que me atrai. Afinal, é cultura popular.
Circulei por ali um pouco e, à saída, vi a presença mais vetusta daqui: a árvore Ginkgo biloba de mais de mil anos. Olhando, você não diz. Nota apenas uma corda de reverência amarrada no seu entorno, um tanto como também fazem os budistas (vê-se muito disso no Sri Lanka) ou religiões de matriz africana, como cheguei a ver no que restou do Quilombo dos Palmares em Alagoas.

E assim eu saía, serelepe por Fukuoka após ver um pouco dos seus lados terrenos e celestiais.







Lindinha, a cidade. Muito verde, organizada, limpa, bem estruturada. Acho lindos esses canteiros floridos no meio da Avenida.
Adoro esses templos e essa religiosidade nipônica. A arquitetura é linda e significativa.
Belíssimo esse pagode. Um encanto.
Esses parques são magníficos. Encantadores.
Belíssimas as cidades japonesas …
Os templos são uma beleza â parte. A decoração é um sonho.
Aquele enorme Buda de madeira é fantástico. Maravilhoso.
Um país magnífico. Cheio de encantos, com uma bela malha ferroviária de causar inveja.
Amando essas postagens.
Adorando a terra do Sol Nascente.
Que venham mais postagens dessas.