Os japoneses o chamam de “castelo corvo” (U-jō), pois — junto com o de Matsumoto — é um dos raros castelos negros numa terra de castelos tipicamente brancos.
Bem-vindos a Okayama, uma simpática cidadezinha boa de visitar no Japão, às vezes incluída nos roteiros turísticos, outras vezes, não. Estamos a meia distância entre Hiroshima e Osaka, no sul do país.
Este também é lugar do Jardim Korakuen, considerado dos mais tradicionais e belos do Japão. Embora eu talvez tenha preferido ainda mais o de Kanazawa, que eu veria dali a alguns dias, Korakuen tem a sua simpatia.
Por fim, para os fãs de cultura japonesa, Okayama é considerada a terra do Momotaro, uma das mais populares lendas do Japão — um conto medieval que já rendeu literatura, anime e mangá.


Para não deixar ninguém boiando, Momotaro literalmente quer dizer “filho mais velho” (taro) que veio do pêssego (momo).

Segundo a lenda, surgida lá nos idos de 1400 e posta por escrito a partir do século XVII, um casal de idosos sem filhos teria encontrado um pêssego gigante boiando no rio. Dele, saiu um menino com força sobre-humana, que eles adotaram.
O menino ainda criança era capaz de feitos incríveis — como noutras histórias semelhantes mundo afora. Crescido, ele combateria os ogros ou demônios (Oni) que atormentavam a vila.
Em tempo, um cachorro, um macaco e um faisão se unem a Momotaro, e juntos eles se aventuram até a ilha de onde os demônios vinham.
Originalmente, não se sabe de um lugar específico — da vida real — onde a história se dava. Como nos contos europeus como Branca de Neve, João & Maria, entre outras, a ambientação era um tanto genérica, mas desde o século XX Momotaro passou a ser associado aqui com Okayama.

Era uma manhã de sol dessas de primavera de clima temperado, que começa friazinha e esquenta ao longo do dia. Eu vinha de Hiroshima, numa curta viagem de trem de menos de 1h no Shinkansen (trem-bala).
Hoje seria um dia longo. Okayama se presta muito bem a ser um pit-stop na sua viagem entre Hiroshima e Tóquio, se você tiver disposição. Seu castelo negro e o Jardim Korakuen podem ser perfeitamente visitados numa longa manhã, sem ser preciso pernoitar aqui.




O castelo negro de Okayama
O castelo de Okayama remonta ao tempo em que os jesuítas portugueses ainda andavam por aqui. Estamos em 1597, antes de o Japão expulsar os ocidentais e se fechar do mundo em reclusão por dois séculos (o chamado Período Edo).
Esse período se iniciou com a vitória de Tokugawa Ieyasu sobre os aliados da família Toyotomi na Batalha de Sekigahara (1600), uma das mais definidoras da História do Japão. Basicamente, tínhamos duas grandes coalizões de famílias donas de terras e seus samurais.
A batalha se tornaria um elemento nevrálgico da história japonesa, registrada em obras como Musashi, o recente seriado Shogun (2024), entre incontáveis outras.
Uma das baixas de Sekigahara foi precisamente a família Ukita, senhora destas terras e que havia ordenado a construção deste castelo nas décadas anteriores. Seu líder acabou capturado e exilado, o castelo daí passando à família Ikeda, que em 1700 agregaria o Jardim Korakuen aqui perto.


Como uma demonstração da mudança dos tempos, o governo Meiji em 1869 — quando o Japão se reabre ao mundo e “aposenta” seu período feudal — confisca estas terras e desmantela o castelo, visto como uma coisa antiga a ser superada pela modernidade.
Em junho de 1945, ainda um mês antes bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, bombardeios convencionais incendeiam a torre principal, que depois vai ser restaurada e celebrada como monumento nacional.
O interior do castelo tem hoje um museuzinho contando dessa história, e ele é a única parte paga. O exterior, bem mais impressionante, é de acesso livre e gratuito.



Cheguei ali naquela paz de uma manhã japonesa, naquele espaço bucólico como os do Japão conseguem ser quando há natureza e poucos turistas — combinação habitual nestas cidades interioranas de fora dos roteiros típicos.
Procurei um pouco pela entrada, e descobri que era preciso contornar as muralhas. As muralhas, elas próprias, acabam tendo o seu próprio charme.


Vamos dando a volta…







O Jardim Korakuen
Há uma certa redundância quando digo “Jardim Korakuen”, porque a terminação en já denota jardim. Faço-o apenas por convenção.
Já koraku tem um significado curioso. Significa algo como “aproveitar depois”. Vem de um texto filosófico chinês que, meio que no mesmo espírito de O Príncipe de Maquiavel, instruía que “Aquele no poder deve ser capaz de antever os problemas antes dos outros, assegurar-se em manter o poder enquanto os demais o curtem, e aproveitá-lo depois.”
É uma obra emblemática do chamado jardim paisagístico japonês, com laguinhos, colinas adiante, árvores etc.
Bastante do jardim é relva nua, portanto não imagine um local pleno de flores constantes como em alguns jardins europeus. A ideia era mais criar uma ambiência de natureza onde os senhores feudais e seus aliados podiam se reunir em casas de chá num ambiente natural harmônico e inspirador.


Atravessei a ponte e me dirigi a uma das diversas entradas do amplo jardim.



O sol estava até forte para os mais sensíveis. O pessoal um tanto fixado em passar protetor solar até para ir à padaria de manhã sentirá a necessidade. A primavera já mostrava o seu lado de veranico com o avançar do dia.
Este jardim tem uma estrutura um tanto curiosa, pois no centro você tem pequenos lagos e esta relva. Já nos arredores, você tem árvores com algumas estruturas sombreadas de madeira e umas barraquinhas onde beliscar algo — além das onipresentes máquinas de vendas de bebidas, por supuesto.





Esta barraquinha tinha das coisas habituais de sempre no Japão — sorvete de máquina, doces com sabor de chá verde (matcha), além de pequeninos souvenirs coloridos e bonitinhos.
Uma das coisas típicas de Okayama, entretanto, é um bolinho doce com recheio de pêssego em honra à lenda do Momotaro, o menino super-forte nascido da fruta. Tradicionalmente, se tratava de um bolinho de massa de milhete feito realmente com doce de pêssego.
Só que o Japão há algumas décadas mergulhou de cabeça na hiper-industrialização alimentar (ainda mais no campo dos doces), então o quitute hoje não leva nem milhete nem pêssego — apesar das aparências e do marketing. Hoje, o doce é feito com xarope artificial e a mesma goma de sempre.
Como eu depois ouviria vaticinar uma senhora brasileira no Japão que claramente não se entusiasmou muito com os doces japoneses: “Eles sempre fazem as coisas tudo do mesmo jeito: massa de arroz e açúcar”.
Fui no bom e velho café. De máquina, mas pelo menos ainda é café.



Eu não pretendia almoçar em Okayama; estava aqui já num começo de tarde, mas o jet-leg — pela diferença de fuso horário mexe com o estômago tanto quanto com a cabeça. Eu estava num regime de almoçar às 3h da tarde, então o faria já noutra cidade.
Regressei à estação de Okayama no mesmo bonde, após deixar o Jardim Korakuen e reatravessar a ponte para retornar à parada. Lá, resolvi enganar o estômago com os — também mui famosos — bolinhos de peixe de Okayama, que não têm nada de muito diferente de qualquer bolinho de peixe Ásia afora.
Vou dizer aos vendedores de milho lá de Feira de Santana que comecem a fazer mais marketing e a vender o “milho verde de Feira de Santana” para ver se chama mais a atenção assim.


E a vida assim segue. Destino: Himeji.







Bom dia,Mairon,sempre acompanho suas postagens e agora com esse roteiro no Japão mais alternativo voce acha que dá para ser feito em quantos dias com gastos com hospedagem e alimentação para um casal em modo econômico?Continue nos presenteando com suas viagens e seu ponto de vista que eu considero muito racional e informativo do que esses que a gente ve por aí feitos por influencers.Obrigado!
Bom dia, Flavio! Muito obrigado e perdoe minha demora em responder. Sua mensagem me pegou quando eu estava começando uma viagem. Eu fui pensar a respeito, o tempo passa, e aí você sabe o que acontece.
Vamos lá. O roteiro no Japão depende realmente de quantos lugares vocês queiram ver. Os lugares principais e mais famosos — Tóquio, Quioto, etc. — merecem visita, e sozinhos já lhe tomam pelo menos uma semana. Daí restaria uma segunda semana para lugares outros, no norte ou no sul. Eu acho duas semanas um período adequado. (Se vocês forem muito fãs de cultura japonesa, daí pode-se acrescer uma terceira semana.)
Se vocês quiserem realmente circular bastante pelo país, vale muito a pena cogitar o passe ilimitado da Japan Rail (que eu detalhei aqui). Há de 7, 14 ou 21 dias. O de 14 dias custa na faixa de USD 500. As passagens aéreas você consegue na casa de USD 1000 por pessoa, ida e volta.
Hospedagem você pode prever cerca de USD 100 por noite se quiser ficar em hoteis três estrelas, quarto duplo. Há dos mais caros, sem dúvida, e opções compartilhadas que são mais baratas.
Alimentação vai variar bastante. Eu estava contente o bastante em almoçar ramen, o que sai pelo equivalente a USD 5 ou até menos. Já se você quiser ir regularmente em restaurantes mais finos, é o triplo disso (ou mais).
Em suma, eu acho que — afora a passagem aérea — uns USD 3500 são uma bom montante para almejar uma viagem de 2 semanas para 2 pessoas em hoteis três estrelas, ambos com passes da Japan Rail inclusos. (Se você for a menos cidades e dispensar o passe, barateia, mas eu acho que vale a pena aproveitar e ver logo tudo o que quiser. Afinal, não é todo dia que se vai ao Japão.)
Qualquer dúvida, estamos aí!
Que lindo, esse castelo!… Belo e artístico. Uma graça…
E que entorno bonito, …Verdejante. florido, bem cuidado e agradável… Muito bonito…
Interessante, a lenda..Não a conhecia…
Bonita a cidadezinha… Bem arborizada, limpa, com calçadões, e agradável.
Os bondes são engraçados… Lindinhos por dentro. Parecem confortáveis.
Esses telhadinhos curvos, essa arquitetura japonesa são um encanto.
O bucolismo é uma riqueza do Japão.
Possantes e belas as muralhas!… Enormes os blocos de pedra, nossa…
Linda a visão do Castelo… Parece de Contos de Fadas…
com certeza, charmosíssimo…
Belíssimas as flores˜…
Esse conjunto é a cara do Oriente˜..
Interessante essa máxima. Eu prefiro aproveitar logo hahaha
Lindo, o jardim… Amplo, florido e bem organizado… Bem cuidado e planejado…Uma graça.
Belíssima essa paisagem japonesa. Belo jardim.
E que fofura esses habitantes das águas…
Lindinhas as crianças…
A pontezinha curva é um encanto. A cara do Oriente…Assim como os telhadinhos curvos.
As barraquinhas sào vistosas…
Jesus, que horror essa alimentação artificial˜… Acho terrível…
E se revela uma surpresa, pois aqui no Ocidente há a impressão de que a comida japonesa é super saudável e natural.
Penso da mesma forma que essa turista de que fala o viajante. Com certeza. Deve ser horrível, hahahah.
Quanto ao café, não tenha dúvida de que prefiro o do Brasil hahaha
Pois é… Aproveitar logo… hahaha
Linda a foto do viajante nesses belos portais, assim como na linda pontezinha curva. Perfeitamente integrado ã paisagem.
Parece fazer parte dela. UM charme… Patognomônica haha
Nao sei, mas com certeza não será mais saboroso que o milho do NE do Brasil, seja cozido ou assado. Nao gostei da cara desse produto aí, não …haha Com cara de cru hahah
Linda paisagem, com o viajante muito à vontade, ambientado e com cara de feliz.
É isso ai…
Valeu.. Gostei…