Como quase todo mundo sabe, os japoneses têm das maiores expectativas de vida do planeta.
Qual a razão? Seria a sua dieta tradicional com base em arroz, pescados e alimentos crus ou fermentados? Ou seria, em vez disso, a sua coesão familiar, social e o senso de comunidade, que se sabe contribuir para viver muito? Isso ajudaria a entender por que singapurenses, coreanos e pessoas de Hong Kong têm longevidade parecida. Ou seria tudo, simplesmente, uma questão de genética?
Não há respostas conclusivas, mas se desaconselham respostas simplistas que isolam só um fator à revelia de todo o restante.
![]()
Nesta viagem pela Terra do Sol Nascente, eu me dei conta de que muita gente no Brasil parece ter a ilusão de que no Japão se tem uma alimentação toda natural, saudável e magnífica, com muitos legumes frescos, frutas etc., e que daí vamos todos viver 120 anos. Uma amiga brasileira me escreveu invejando que eu agora certamente estivesse envolto em comida saudável. (Sabe de nada, inocente!)
Eu não vou entrar aqui num debate conceitual sobre em que consiste uma “alimentação saudável”. O que eu quero comunicar é que, definitivamente, a alimentação no dia-dia japonês não é toda natural e está longe de ser aquela que as revistas e programas de bem-estar dizem ser (baseada sobretudo em peixes, arroz, legumes frescos e alimentos fermentados).
Isso tudo aí existe, mas já não é tão predominante. Uma coisa é a idealização que se faz da alimentação japonesa, outra é a realidade. Uma coisa é a dieta japonesa tal como está nos livrinhos e que a vovó de 112 anos comia, outra é aquilo que realmente está disponível para os japoneses consumirem hoje e que eles atualmente consomem.

Para começar, você sabia que desde 2007 os japoneses comem mais carnes que peixes?
Quase todo brasileiro se surpreende quando chega aqui achando que vai encontrar peixe, peixe e peixe, e na prática acha sopas gordurosas com pedações de lombo ou alguma carne gorda dentro. Inclusive, os japoneses adoram aquela camadinha visível de gordura na carne — e advirto aos fãs de nuggets que, ao contrário do ocidente, o nugget aqui traz pele, gordura e meio que tudo do frango dentro.

Não acho que ninguém vai ficar surpreso de ser informado que a incidência de diabetes tipo II entre aumentou em 50% entre os anos 2000 e 2021.
Outra novidade na dieta japonesa é o pão, trazido por influência ocidental. No Oriente, de modo geral, ele é visto como uma coisa chique, um sinal de distinção social, uma moda fina. Só que não espere daqueles pães bem-feitos, de fermentação natural, multi-grãos nem nada que uma imagem de “alimentação natural” pudesse evocar.
Os “pães” japoneses — e asiáticos de maneira geral, pois pouca diferença há com o que encontrei na Tailândia ou na Indonésia — com merecidas aspas são uma coisa fofa plena de conservantes, açúcar adicionado e sabe-se lá mais o que. Meu bisavô português que foi padeiro teria um infarto se visse (e, sim, ele se chamava Manoel — é verdade).


Como o Japão tem pouca terra arável para o tamanho da população, frutas e verduras frescas também são bastante caras — e raras. Coisas artificiais abundam e dominam as lojinhas de conveniência que há por toda parte.
Você procura um suco natural nas hiperpresentes máquinas de vendas ou lojas de conveniência e dificilmente achará qualquer coisa que chegue perto — talvez, no muito, um suco de maçã se der sorte ou de laranja pasteurizado, e olhe lá. (Para não dizer que é só coisa de país rico, na Europa você pode comprar um suco natural diferente a cada dia da semana sem repetir.)
Eles metem saborizante artificial em tudo. Água saborizada de limão não tem limão, o chá de mel não tem mel, e por aí vai. Você sente que é aquele sabor artificial. Pãozinho com suposto gosto de melão? Só funciona se você nunca tiver comido um melão de verdade na vida.
Como vaticinou pra mim uma senhora brasileira no Japão, “nunca é o que eles dizem que é“. Fake News.


Até com os doces tradicionais japoneses a artificialização é uma coisa desavergonhada.
Se os portugueses, italianos ou franceses vão se orgulhar que uma receita tradicional sua continue a levar daqueles ingredientes tradicionais da sua região, os japoneses mudam isso sem pudores. Em Okayama, por exemplo, há um famoso bolinho de doce pêssego que era tradicionalmente feito com farinha de milhete e que hoje eles continuam apregoando como tradicional, mas atualmente é feito com massa de arroz industrializada e xarope artificial com sabor de pêssego. Foi-se.
O resumo da ópera é que os japoneses só mantiveram de fresco e natural aquilo que lhes era tradicional — tipo peixes, mariscos, o arroz e alguns legumes talvez. No mais, tudo ficou artificialíssimo.
Os ultraprocessados já são 40% das calorias diárias ingeridas pelos japoneses, versus 18% na Itália e 20% no Brasil, para efeito de comparação.
Ao contrário do que se pensa, os ocidentais que conheço e que moram aqui, na verdade, dão graças a Deus quando voltam aos seus países de origem para visitar a família e podem finalmente comer coisa menos industrializada. Minha vida por um doce caseiro.

A alimentação japonesa da vida real não é aquela que se imagina. A dieta tradicional japonesa existe, e muitos ainda se alimentam dela, mas hoje ela habita o país ao lado dessa horda de produtos artificiais comestíveis que estão degradando a saúde dos japoneses. Além disso, há uma penetração sem critério de produtos ocidentais como pães e carnes — muitos de qualidade duvidosa — substituindo essa dieta tradicional.
Quem vive aqui hoje precisa navegar, e quem vem cá às vezes se choca com o que encontra.
E a longevidade? Continua sendo um fato — pelo menos até o momento —, mas sua atribuição essencialmente à alimentação é um factoide criado pela mídia ocidental, que no seu individualismo nunca prestou a devida atenção aos aspectos comportamentais e sócio-psíquicos, como coesão familiar e forte sentimento comunitário, que afetam a saúde mental e a disposição para viver. Esses fatores também estão por trás da alta longevidade de populações mediterrâneas.
Talvez a mídia norte-americana, que popularizou essas “dietas milagrosas” há algumas décadas, tenha achado mais fácil enfatizar algo que sua audiência pudesse tentar replicar em casa — a dieta — do que abordar o comportamento social, eles que têm o individualismo como algo muito arraigado. No Brasil, a mídia simplesmente traduziu e publicou as mesmas coisas, como faz com tantos temas.
Vida que segue, agora com menos ilusões e mais realidade.






Nossa, essas máquinas me parecem horrorosas, cheias de coisas artificiais…
Ave-maria, nuggets com peles e miudos de frango…que coisa horrível…hum hum hum que coisa intragável… longe da sua amiga aqui…
E essa gordurada de bicho toda… quem iria imaginar… que era usada por eles que carregam a fama de naturalistas com peixe, apesar de cru… haha Estranho para nós ocidentais saber dessa realidade…
Onde desaprenderam a comer as comidas tradicionais??? com a influência dos EUA ( que é um povo que se alimenta mal) após a 2ª guerra??? ou ja vinham mudando antess????
Misericórdia com esses alimentos super=processados….
Sílica para evitar mofo…. ja disse tudo…
parece mesmo que a comida é um fake news, ou seja , não corresponde ã verdade o que se anuncia por fora… Coitados, sobretudo dos jovens e crianças. Que horror… Inusitado…
Ahhhhh… sem deixar de valorizar a boa alimentação para manutenção da vida com saúde, como dizia minha avó, “venha por essas mal traçadas linhas”a provável justificativa para a longevidade deles. Não duvide que seja por ai…
Certamente fatores psico-emocionais e comportamentais mais gregários, de valorização da vida, de significação social, familiar, e por ai vai, têm ja provadas consequências positivas no prolongamento da vida e da saúde das pessoas. Com certeza esses fatores, afetam a expectativa de vida e de saúde das pessoas.
Claro que outros fatores podem vir a colaborar, entre eles uma alimentaação mais natural e menois processada..
Compartilho, como o viajante , quando aborda males do individualismo e suas consequências na vida das pessoas, particularmente nos idosos. Muitos deles abandonados, desestimulados e já sem vínculos familiares nem sociais que lhes re-signifiquem a vida e a vontade de viver. O Ocidente está cheio desse individualismo.
A meu ver é por ai.
Boa reflexão para nós.
Obrigada, jovem viajante pelas belas reflexões que suas postagem incitam.
Valeu.