(Este será um post longo.)
Eis a famosa Shibuya, um dos bairros mais badalados — e instagramáveis — de Tóquio. Ela é a epítome da animada e fulgurante modernidade japonesa: com bastante gente e dominada por luzes e cores. Parece até lugar da ficção.
É que o Japão tem mesmo aspectos que nos parecem ficcionais. Ao mesmo tempo, consegue preservar aspectos tradicionais singulares deste país, como os seus templos. Eu sei que já se tornou um clichê dizer que o Japão combina o antigo e o moderno, mas é a simples verdade.
Estava eu aqui de volta à imensa capital japonesa de 37 milhões de habitantes, após mais de uma década. Nos albores de 2013, eu passei mais de uma semana aqui conhecendo os vários bairros de Tóquio, cada qual com um jeito próprio.
Fiquei hospedado em Asakusa — o mais tradicional e querido dos turistas — e visitei outros vários como Roppongi, com a Torre de Tóquio, Akihabara com sua cultura de video game e anime, Ginza com seu luxo, Ueno e seu simpático parque, entre outros. Voltava eu agora mais de 11 anos depois para uma Tóquio que me parece ter mudado relativamente pouco.

Era uma quinta à noite ao que eu desembarcava na movimentadíssima Estação de Tóquio, chegado de trem desde Hiroshima — parando nas agradáveis Okayama e Himeji no caminho.
Nesta região central do Japão, mal acaba uma cidade e já começa a outra — você passa de trem e fica com a impressão de que o país todo é urbanizado. Entretanto, Tóquio é diferente. Pela primeira vez nesta viagem, eu via gente literalmente correndo pela estação ou subindo à marcha a escada rolante.
A capital realmente é uma realidade diversa do Japão mais interiorano pelo qual eu havia passado até aqui.



Tomando o metrô ainda bem cheio mesmo às 23h de uma quinta-feira, eu cheguei lá para o meu hotel tão parecido com os anteriores em que havia ficado no Japão. Todos os hotéis no Japão são extremamente parecidos. Parece até que eles todos pertencem à mesma rede.
Já era tarde para corricar por aquelas ruas de Asakusa, onde eu voltei a me instalar, como na vinda anterior ao Japão. Era nostálgico rever tudo aquilo — que continua praticamente igual. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim, mas eu não estava triste.
Asakusa e o Templo Senso-Ji
A região de Asakusa [lê-se algo próximo de Assákussa] me pareceu continuar a ser a favorita dos turistas para hospedar-se.
É o bairro de ar mais tradicional e antigo em Tóquio, onde ainda se preservam ruelas, bequinhos, e onde alguns rapazes de pernas saradas oferecem uma versão turística do que eram os riquixás de antigamente — aqueles cidadãos que puxavam carruagens com a própria força para transportar dignatários.


Asakusa é um misto de autenticidade e de uma espécie de Disney japonesa.
Tipicamente, ela desperta antes de você. Mal começa a manhã e já tem início o burburinho no entorno do templo Senso-Ji — que, a saber, é considerado o lugar religioso mais visitado do planeta, com mais de 30 milhões de pessoas ao ano. É budista, mas com contornos também xintoístas, a religião animista nativa do Japão.
Embora haja ressalvas a se fazer, ele é o coração aqui de Asakusa.





Começando meu dia
Como eu disse, Asakusa tipicamente começa antes de você. Quando cheguei à rua — e nem era tão tarde assim, umas 9:30 da manhã — já encontrei essa fuzarca toda.
Naquela manhã seguinte à minha chegada, lá estava eu para mais um bom café da manhã japonês. Aqui, frequentemente há cupons para o café que você obtém na recepção, e não é raro que usem plaquinha de rodízio para indicar se já terminou ou ainda está comendo.
A saber, os cafés da manhã aqui são bons, mas tão padronizados quanto estão os cafés da manhã dos hoteis do Centro-Sul do Brasil (aquela coisa repetitiva de bolos, pão de queijo, ovo mexido e salsicha no molho todo dia).
Tipicamente, aqui tínhamos arroz e uma seleção de coisinhas salgadas saborosas feitas com algas ou temperos outros para pôr no arroz, um ovo mexido do balacobaco que você se pergunta se é só ovo mesmo ou se tem corante amarelo, e algumas imitações de patisseria ocidental francesa. Sucos artificiais, café, chá, sopa missô de soja e geralmente outra à sua escolha. Todos seguem praticamente o mesmo protocolo.


Meu hotel em Tóquio também inovou com uma tal “soda de acerola” — que, obviamente, não tinha nada de acerola.
Platão explicou. (Neste caso, não foi Freud.) É o mundo das ideias e o mundo dos sentidos. Ali era (apenas) a ideia da acerola (uma ideia mal-implementada, isto é). Nada tem a ver com a acerola do mundo dos sentidos.
Como detalhei num post recente, a alimentação de frutas no Japão vive praticamente todo à base do mundo das ideias.

Voltas pela área do Senso-Ji
Hora de ir à rua, senhoras e senhores. Pus-me para fora do hotel no que era uma manhã fresca, sol e brisa agradável sem nuvens no céu neste dia de primavera.
À medida que você se aproxima do Senso-Ji, a multidão aumenta — mas quem entra na chuva, é para se molhar.
O Rio de Janeiro continua lindo, de acordo com os seus fãs, mas mudou mais que Asakusa, que continua exatamente a mesma. Vi os riquixás turísticos nas ruas e as muitas vendinhas de souvenirs japoneses. Não espere encontrar nada artesanal aqui — é um lugar de souvenirs de massa, e com preço de lugares turísticos.



A única coisa que talvez tenha mudado foi a quantidade ainda maior de gente. O Japão hoje recebe o triplo de turistas estrangeiros do que recebia em 2013, e não falta dos próprios japoneses.
Por isso, a ressalva de que Senso-Ji é muvuca, é domingo de manhã no parque com a família, é quermesse de igreja. Não se espere daquela paz característica de outros templos budistas ou xintoístas que há Japão afora.


Senso-Ji é o lugar onde o turista geralmente descobre das práticas comuns dos templos xintoístas do Japão pela primeira vez, como a prática de tirar papeizinhos que dão a sua sorte (omikuji), ou a de escrever seus desejos numa plaquinha de madeira (ema) que fica pendurada cá no templo para receber bênçãos.
Ou ainda o jogar uma moeda de doação, bater palminhas (ou badalar um sino, se houver a cordinha para puxar), e fazer a sua oração. As pessoas se põem em fila para isso.
Eu descobri isso tudo lá atrás em janeiro de 2013, quando vim cá pela primeira vez. Meu post com os registro dessa primeira experiência cá em Senso-Ji segue disponível. (A saber, eu tirei a “Melhor Sorte” nos papeizinhos.)
Desta vez, eu via aquilo tudo com certa nostalgia, mas não me pus novamente às coisas. Satisfiz-me em rever aquilo tudo e tomar das boas vibrações da fumaça do incenso. Segui.








O Santuário ao Imperador Meiji em Tóquio
Quem quer o bafafá, fotos bonitas e estar “no meio da galera” encontrará tudo isso no Senso-Ji. Já quem busca — também — um templo mais com astral de templo, com quietude e momento para reflexão, precisa procurar um pouco mais além. Não precisa procurar muito, pois Tóquio tem para todos os gostos. Você é capaz de encontrar áreas surpreendentemente quietas a poucas quadras da muvuca.
Destinado que eu estava a ir para Shibuya mais tarde, resolvi procurar um templo naquelas imediações. Fui parar no quieto templo Tofuku-Ji, ao lado do plácido santuário xintoísta Konno Hachimangu, antes de mais logo ir conhecer um outro santuário xintoísta — este bem maior — dedicado ao imperador Meiji (1852-1912).
Esse foi o da restauração que, em meados do século XIX, restituiu ao monarca os poderes decisórios que haviam estado nas mãos de xoguns (líderes militares que haviam deixado os imperadores apenas como figuras simbólicas) e abriu o Japão à modernidade ocidental.
Tomei eu portanto a Linha Ginza do metrô de Tóquio de ponta a ponta, de Asakusa até Shibuya.





Ao lado desse santuário, dando-se uma voltinha no quarteirão, se chega ao templo budista Tofuku-ji. Lá não havia absolutamente ninguém mais.


Eu daqui retornei à estação de Shibuya e tomei um transporte (um trem urbano) até a famosa estação de Harajuku, bem conhecida em Tóquio e aonde eu retornaria nesta tarde. Primeiro, fui ver a vasta área verde de Tóquio onde fica o santuário xintoísta dedicado ao imperador Meiji.
Aqui no Japão, os imperadores recebem nomes reais distintos dos seus nomes de nascimento, como no caso dos papas da Igreja Católica (ex. Papa Bento XVI, que era Joseph Ratzinger), só que sem os números, e já há mais de 100 anos os nomes são dados apenas postumamente.
Por exemplo, os japoneses não se referem a Hirohito — imperador japonês entre 1926 e 1989 — por esse nome, mas como imperador Showa. Esses nomes correspondem a “eras”, ou períodos históricos, que são como os japoneses organizam a sua História. (Os brasileiros podem pensar na Era Vargas, Ditadura Militar, Redemocratização, etc., só que os japoneses formalizam e oficializam essa classificação.)
Pois bem. O bem-quisto imperador Meiji se chamava Mutsuhito, e ascendeu ao Trono de Crisântemo — como é conhecido o trono imperial japonês — em 1867. Poucos meses depois, o último xogum Tokugawa a governar um Japão de regime feudal, fechado ao mundo, abdicou. Em 1868, consolidou-se a restauração dos poderes imperiais, no que ficou conhecido como a Restauração Meiji.





Cheguei àquele pátio central do santuário ao imperador Meiji — pela primeira vez na vida, pois não havia vindo aqui na viagem anterior ao Japão — para encontrar um lugar agradável, cercado de árvores. Há uma vida maior aqui que nos templos mais urbanos.
Os tons claros de verde me impressionavam — talvez ainda efeito da primavera, folhas novas que haviam aparecido há semanas apenas. Havia um vigor de vida no ar.






É um santuário xintoísta que não difere muito dos outros — exceto pela sua relevância histórica aos japoneses, isto é. Vale a pena se você busca um local que combine certa animação com atmosfera sacra em meio à natureza. (Como de hábito, não se paga nada para entrar.)
Eu fui aos poucos retornando pelo menos caminho de quase 1 Km por onde vim, até Harajuku, para agora dar uns bordejos por lá — e almoçar.

Harajuku: O bairro da moda punk e da cultura kawaii em Tóquio
Harajuku é uma área que, em tese, faz parte do bairro de Shibuya, mas que tem uma personalidade própria.
Sabe aqueles jovens japoneses vestidos de modo meio extravagante, de cabelo colorido e roupas que parecem ter saído de um cartum? Pois é, mais especificamente, isso é muitas vezes chamado de “estilo Harajuku”, devido às muitas lojas de moda excêntrica aqui e às pessoas que vem desfilar suas roupas nestas ruas.
Olha que eu na vida já tive — e tenho — amigos que curtem bastante isso (e não é difícil vê-los na Liberdade em São Paulo, por exemplo), mas Tóquio sempre lhe mostra coisas que vão além do que você poderia ter imaginado.




Cada um vista o que quiser, e há certamente um lado divertido nisso tudo, mas há também um lado obscuro.
Essa moda japonesa de coisas bonitinhas tem uma tendência muito forte a infantilizar as mulheres. Tem o seu fascínio, mas prende muita gente no mundo da fantasia.
Alienação da vida real é um problema sério no Japão, onde 1,5 milhão de jovens vivem conectados apenas virtualmente com o restante do mundo — levando meses ou anos sem sair mais de casa. Chamam-nos hikikomori. (Aos interessados em mais detalhes, há uma matéria deste ano da CNN sobre eles aqui, em inglês).
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Vida que segue. Neste país que tantas vezes me lembra mais a ficção que a realidade, há também espaço para o belo, e assim eu fui me enfiando pelos simpáticos e arborizados bequinhos de Harajuku. Havia um ar quase residencial. Só que sem a habitual configuração de rua, calçada e casas, senti-me quase como se eu estivesse num video game.
Eu estava atrás de um certo restaurante que vendia ramen (sopa de macarrão) com um toque tailandês — com leite de coco. Tinha o curioso nome de Bassa Nova. Eu o acharia, porém antes esbarrei num estabelecimento bastante sui generis.
Esbarrei no Mipig Café, que — mediante o pagamento de cerca de R$ 45 por hora — lhe dá a chance de brincar com “micro-porcos”.

Tem seu lado afetuoso. Só não me perguntem sobre o método de “produção” desses porcos, nem se depois eles entram na sopa, mas me pareceu coisa de ficção científica — e do tipo de coisa que eu bem esperaria encontrar na Ásia, não em nenhum outro continente.


Shibuya e uma modernidade “de época”
A modernidade japonesa tem dessas particularidades da cultura kawaii, como eles aqui chamam a cultura do bonitinho, do fofo, mas tem também outras características que nem sempre são percebidas. Uma delas é uma certa estética dos anos 80, que definiu a forma como muitos de nós ainda imaginamos uma “cidade moderna”.
A saber, aquela foi a grande década de ouro japonesa. Seu crescimento econômico era vertiginoso, e se dizia que o Japão tomaria o lugar dos EUA como primeira economia. Sua cultura explodiu mundo afora (quem não se lembra dos desenhos e dos tantos filmes de ninja ou de artes marciais, com Van Damme e outros?), e seu avanço tecnológico chamou a atenção do mundo.
Só que, como já tentei expor em posts anteriores, em muitos setores o Japão ficou um tanto preso naquela tecnologia dos anos 90, quando a sua economia começou a estagnar. Aprimorou algumas tecnologias, mas sem grandes mudanças de design.
Isso significa que um mergulho no luminoso bairro de Shibuya talvez seja mais uma viagem ao passado que ao futuro.



Claro, tudo isso faz parte da visita a Tóquio de hoje, então lá estava eu naquele anoitecer.
A quantidade de gente em Shibuya impressiona. É uma multidão como se fosse o Carnaval.
Entretanto, chama a atenção como a coisa toda flui em paz, cada qual na sua. Ninguém esbarrou em mim, nem muito menos havia a sensação de que por causa da aglomeração eu precisasse ficar atento aos meus bolsos.
Como se fosse um viajante no tempo e no espaço, eu caminhava por aquelas ruas.





É a modernidade de uma época. O Japão, obviamente, não é o único país a se deter numa época e carregar consigo aquelas referências. Tampouco são o único país a sofrer influências culturais de outros — só é bom de vez em quando lembrarmos-nos disso, nós que costumamos imaginar o Japão como uma “Galápagos cultural” isolado do restante. As influências dos Estados Unidos abundam a quem puder ver.
Entra em beco, sai em beco, eu fico talvez mais com o Japão clássico, atemporal.

Eu, no dia seguinte, faria minha viagem bate-e-volta até o quintessencial Monte Fuji, que já narrei aqui.
Tóquio tem muitas paragens, mas via de regra eu acho até que a maioria dos visitantes estrangeiros se detêm tempo demais aqui, optando por conhecer as minudências da cidade mais do que os outros cantos do Japão — um Japão interiorano onde ainda é possível quase que ser o único ocidental em vista.
Eu zarparia então a seguir para Kanazawa, que eu não havia visto na viagem anterior. Inovar às vezes é preciso, afinal. Eu revejo vocês lá.





Uma grandiosidade, Tokio. E bastante populosa. Haja gente em Shybuya…
Uma graça essa Tokio com cara de interior.
Belissimos esses templos. E essa ambientação interiorirana.
Muito verde.
Esse Japão clássico, atemporal é maravilhoso. Respira a alma japonesa.
Bela.
Gostei muito.
Cidade de monta, populosa, desenvolvida, e, ao mesmo tempo clássica.