(Este será um post longo).
Visitar Tóquio, Quioto ou Hiroshima é uma experiência bem diversa daquela de quem sai desse circuito turístico mais habitual. É como se 90% de todos os turistas estrangeiros que vêm ao Japão se limitassem a essas cidades mais conhecidas. Quem vai além delas, por sua vez, é congratulado com um Japão bem mais sossegado — e, talvez até, mais japonês.

Kanazawa é um desses lugares semi-secretos aonde pouquíssimos estrangeiros vão, mas que reserva tesouros históricos japoneses assim como agradáveis paragens, jardins zen onde tomar um chá, um pequeno museu ninja, entre outros.
Ela se poupou um pouco do turismo de massa no Japão porque fica na outra costa, oposta a onde estão Tóquio e as demais grandes cidades. Somente em 2015 se inaugurou um trem-bala (shinkansen) da capital até cá, o que dá um percurso de 2h25 hoje em dia. Portanto, quando eu vim aqui ao Japão em 2013, nem sequer ouvi falar em Kanazawa.
Desta vez, ela não me escaparia. É uma cidade que merece pelo menos dois dias de passeio, pois há muito o que ver, e em bairros diferentes. O número de noites fica a gosto do freguês. No meu caso, eu cheguei de manhã — com o dia ainda praticamente todo pela frente — e fui embora no dia seguinte à tardinha, depois de ver mais coisas.
Comecemos pelo começo.



Eu havia dormido pouco na noite anterior graças ao atraso do ônibus de volta de Fuji Kawaguchiko para Tóquio com as obras na pista em pleno feriadão (fiquem aí achando que é só no Brasil), e estava no trem matinal para Kanazawa já precisando urgentemente um Doutor — a mais onipresente rede de cafeterias japonesa.
O fundador, Hiromichi Toriba, andou por São Paulo nos anos 60 e lá passava sempre pela rua Dr Pinto Ferraz. Pegou o nome. De Paris ele pegou o estilo e as coisas que vende, “ajaponesadas”.
Aliás, esta foi uma das coisas que mudaram, já que eu não vi nem de longe tantos assim quando vim ao Japão em 2013. Lembro-me, inclusive, de essa ser uma diferença com a Coreia do Sul, que já tinha uma coffee culture mais predominante. É realmente um dos fenômenos da década de 2010 ainda que nem sempre nos demos conta disso, essa expansão mundo afora de cafeterias à là Starbucks.
Entretanto, dei-me conta de que não há Café Doutor na estação de trens de Kanazawa. “Chorei, chorei, pela primeira vez na minha vida”, como reza a célebre canção de Ary Barroso. Brincadeira. Quem não tem cão caça com gato, quem não tem colírio usa óculos escuros, e quem não tem Doutor vai no Starbucks mesmo — o que eu não podia era passar sem o ouro negro hoje de manhã.

Regozijei. Inclusive, percebi logo que — surprise, surprise — as pessoas em Kanazawa são bem menos agoniadas que em Tóquio. Também no Japão há a óbvia diferença entre quem vive na metrópole e quem não. Aqui, eu pareceria só lidar com gente simpática. A moça do Starbucks, além de simpática, era até gatinha.
Já a torta de matcha — destas coisas do Japão, pó meio artificial de chá verde moído que eles aqui gostam de usar como sabor para doces — chama mais a atenção pela cor que pelo gosto. Na prática, era um cheesecake verde. Bom mesmo foi o preço nesta época de iene desvalorizado, com café e torta no Starbucks pelo equivalente a meros 5 euros, acho que metade do que me teria custado em boa parte dos países europeus.
Mais desperto pelo poder químico do grão etíope (não pelo suposto chá no bolo), fui tomar rumo. A estação de Kanazawa, inclusive, é bem moderna — como são praticamente todas no Japão — e diz muito pouco sobre a historicidade daqui. Você nem acreditaria. O que há de mais famoso nela é um portal contemporâneo de madeira chamado Tsuzumi-mon.


Meu hotel era ali perto a algumas quadras, e para ir às atrações um ônibus seria necessário. Fui eu, portanto, andando de mochila e cuia pelas ruas da parte moderna de Kanazawa no que era ainda um final de manhã japonês.
Eram ruas quase sempre bem arborizadas, bem calçadas, limpas e organizadas. Calçadas largas, visivelmente num urbanismo planejado prioritariamente para o pedestre — não a “ditadura dos carros” que tanto se vê no Ocidente. No hotel, um agradável Japão do século XXI com estruturas em madeira, conforto, assentos macios, iluminação natural, vida e plantas folhosas.
Se em algumas coisas o Japão parece preso lá atrás nos anos 90, em outras, parece ter evoluído bem. Deixaria eu ali minhas coisas até regressar da primeira volta pela cidade, já que os hoteis japoneses nunca deixam você entrar no quarto antes do horário — o adorável early check-in aqui não tem vez. É norma, e os japoneses são bons em implementar normas consistentemente, mas sempre deixam você deixar a bagagem lá guardada até dar a hora.
Fazia um dia de sol, e em menos de 1h eu já estaria de volta à estação ferroviária para tomar um ônibus urbano comum até os lindos e agradáveis Jardins Kenroku-en.
Vários ônibus saíam da frente da estação. Há mais de um que vai aos principais lugares de interesse — fique atento ao áudio que ecoa também em inglês. O meu, da parada n.4, foi um ônibus da Japan Rail que pude pegar de graça com o JR pass, mas logo sairia outro da parada 5 também.




Dia 1: Os Jardins Kenroku-en e o Castelo de Kanazawa
Eu já havia visto jardins simpáticos no Japão, como o Koraku-en em Okayama e os vários jardinzinhos pequenos de Quioto. Só que os de Quioto costumeiramente têm um certo ar recluso, com ar de jardim de templo, enquanto que estes cá de Kanazawa tem um astral de parque público. É diferente.
O sol, verdade seja dita, ajudou bastante. Estávamos na primavera, e os japoneses exudavam aquela alegria contida. Quase não vi outros ocidentais, limitados que ficam em sua grande maioria a Tóquio, Quioto, Nara e Hiroshima.



O Kenroku-en (兼六園, Jardim de Seis Atributos) é considerado um dos três grandes jardins do Japão, os outros sendo o Koraku-en que lhes apresentei em Okayama e o Kairaku-en na cidade de Mito.
Ele começou a ser feito no século XVII, e seguiu sendo elaborado até 1840 sob domínio da família Maeda, a segunda mais rica e poderosa do Japão feudal — atrás apenas dos Tokugawa, que efetivamente governaram o país como xoguns entre 1603 e 1868.
A saber, a quem se perguntou, os seis elementos encontrados aqui são: sensação de espaço, reclusão, arte, antiguidade, águas fluindo, e panoramas.
Só que, na concepção japonesa, esses são elementos contrários. Como transmitir reclusão e ao mesmo tempo proporcionar uma sensação de espaço? Arte que não comprometa a sensação de antiguidade? Daí o mérito de Kenraku-en em equilibrar esses opostos em harmonia.





Bem ali, eu me sentaria para tomar algo numa das várias casas de chá que há aqui, uma mais formosa que a outra, a mais velha datando de 1774 — a edificação mais antiga destes jardins.





Para além da natureza — e do chá com vista —, havia outras coisas histórico-culturais aqui também.
Uma estátua bem no meio dos jardins, por exemplo — tida inclusive como a estátua humana de bronze mais antiga do Japão —, representa o lendário imperador Yamato Takeru (que teria vivido no século I d.C.).
Ela está aí posta, segundo dizem, para honrar os guerreiros desta região mortos na Rebelião de Satsuma (1877), também conhecida como Guerra do Sudoeste (Seinan). Instalado o governo imperial após a Restauração Meiji, muitos samurais ficaram insatisfeitos com a perda dos seus privilégios da era feudal. Acusando o governo imperial de corrupção, fizeram uma revolta armada que durou 6 meses antes de ser suprimida.
Mais ao fundo, eu ouvia o som de tambores em ritmo, quase um batuque de guerra.


Vamos ouvir um pouco. Confiram o pequeno vídeo abaixo que fiz.
Bem ali naquele entorno havia também umas lojinhas — bem caras, diga-se de passagem. Encantei-me com uns véus de seda até me dar conta de que eram artificiais. Se vir uns bem estampados, com cara de impressão feita em computador, já sabe.
Tudo bem que os façam, só não queiram cobrar preço de seda verdadeira por isso. Eu sei que o Japão tem a fama de produzir coisas de qualidade superior, mas ele não passou incólume pela onda da produção em massa da atualidade.
Vida que segue, era hora de — ainda ao som dos batuques das moças lá que ora pausavam, ora continuavam — sair dos Jardins Kenroku-en e atravessar uma passarela com cara de ponte por sobre a avenida lá embaixo até o Castelo de Kanazawa.




O Castelo de Kanazawa
Era uma vez, no século XV, um monge budista aqui chamado Rennyo (1415-1499). Ele reiterou ensinamentos da vertente do budismo chamado de Terra Pura, que enfatiza um Além paradisíaco — de pureza — que os devotos creem aguardar-lhes na outra vida.
Essa vertente segue ativa, sobretudo cá no leste da Ásia, e é até hoje das mais populares do Japão. Há a ideia de que invocar o nome de Buda e expressar gratidão pelos seus ensinamentos ajuda a limpar o karma negativo e preparar o indivíduo para renascer nesse plano superior.
Alguém pensaria se tratar de algo alienante da realidade presente, mas a História nos mostra que há relações por vezes curiosas entre essas crenças metafísicas e as transformações sociais.
No Japão feudal, houve uma série de rebeliões contra os aristocratas donos de terras (daimiôs) por parte de camponeses, sacerdotes e mercadores, e quase todos eles eram adeptos do budismo da Terra Pura. Os japoneses registram essa série de revoltas ao longo do século XV e século XVI adentro até 1580 como ikko-ikki. Numa dessas foi que surgiu Kanazawa, como um reduto teocrático desses seguidores da Terra Pura.

Em 1580, o último dos ikko-ikki se rendeu ao poder do unificador japonês Toyotomi Hideyoshi (1537-1598). O Japão estava em convulsão nesse período, e breve estaria unido sob o xogum Tokugawa Ieyasu (1543-1616) após sangrentas batalhas entre líderes diferentes.
Entraria, como sabemos, no seu período de reclusão (1603-1868), quando os missionários jesuítas portugueses foram expulsos e os ocidentais em geral, proibidos de aportar aqui (ver Nagasaki).
Foi quando este castelo e a região de Kanazawa passaram então a ser domínios da família Maeda, que daqui governaria como senhores feudais até o século XIX.
Hoje, não se trata de um castelo para visitar por dentro, mas uma espécie de parque cênico com áreas abertas rente às muralhas, ao antigo fosso, e com vista para a maravilhosa arquitetura acima. Entrada franca.




A beleza mesmo está nos portões. Por entre eles, as amplas áreas abertas do que antes era o espaço intramuros do castelo. Hoje, fizeram dali um espaço para eventos a céu aberto, tipo feirinhas, gincana, essas coisas. No mais, é um parque.
Eu circulei, vi as flores. Por vezes, me afastava mais e ficava quase que sozinho em meio àquela arquitetura de outra era. Era possível subir em algumas partes para ter a vista do alto, o que eu recomendo.
Enquanto isso, lá no principal dessa área interna do castelo, via-se — e ouvia-se — o comunitário Japão festivo. Tocava uma música beat, dessas com batida meio eletrônica, enquanto crianças fantasiadas circulavam e alguém narrava algo ao microfone. Parecia festa escolar. Barraquinhas de toldo branco e com bandeirolas bem coloridas hasteadas vendiam quitutes.
Eu não deixava de achar interessante notar como, malgrado toda a visão enrijecida que temos das sociedades orientais, a festinha toda me parecia mais solta que na Europa — e, de certa forma, mesmo que no Brasil, onde me parece haver preocupação excessiva com o que os outros vão pensar de você.




Rumo a Higashi Chaya, bairro antigo de Kanazawa
Eu enganei o estômago com uns takoyaki, mas a ideia era retornar pela ponte àquela área externa dos Jardins Kenroku-en e almoçar dignamente. Frustrei-me, pois com o adiantado da hora — já passava das duas da tarde — os lugares ali já não serviam mais almoço. Glup.
Retornei, mesmo assim, e vi os japoneses a tomar sorvete de máquina folheado a ouro — ou algo dourado que fosse comestível e ao mesmo tempo justificasse o preço de R$ 35 por uma casquinha.
Eu, porém, não estava disposto a enganar o estômago ainda mais — nem eu sofro desse fetiche de querer misturar ouro com minha comida.
Seguimos então a pé rumo a Higashi Chaya, o antigo bairro de casas de chá — e gueixas — na área leste da cidade, não muito longe daqui, a uns 20-25 minutos andando, se você se dispuser. Quem sabe acharíamos algo aberto lá ou no caminho.



Caminhei por avenidas bem quietas onde quase nada havia — definitivamente, nenhum restaurante aberto, só mesmo daquelas máquinas de bebidas e uma ou outra loja de conveniências. Era um ambiente meio de domingo à tarde, hiper tranquilo. Cruzei a ponte sobre o rio Asano, e segui.


Ao que o sol da tarde começava quase a querer cair e alguns (outros) turistas se posicionavam nas suas fotos, eu ainda buscava almoço. Acharia num simpático muquifo umas ruas mais atrás, onde um vovô dormia espichado ali mesmo perto da cozinha. Eu puxei a porta de correr e entrei no que era um espaço estreito para não mais que três ou quatro pessoas junto a um balcão.
Ele se levantou de súbito ao me ouvir entrar, olhou para o relógio e viu que ainda não eram quatro horas, sua hora de fechar. Pedimos então nossos ramen (sopa de macarrão) pela bagatela de dois dólares cada um. O baixinho senhor japonês cortava a cebolinha e outros temperos sem grande pressa, mas com a praticidade de quem já o havia feito milhares de vezes.
Em cinco minutos estaria tudo pronto, que ele serviu com um toque final de uma fatia de bolinho de peixe (daqueles meio borrachudos) branco e cor-de-rosa.




Falam pela internet que Higashi Chaya ficou muito turístico, mas nem toda ela. Era bem menos do que eu pensei. A vizinhança tradicional ainda me lembrava os guetos que você encontra numa Bangkok da vida e Sudeste Asiático afora, se você se hospedar fora dos bairros do dinheiro.
Porém, é claro, há também museus, zonas e ruas fotogênicas onde os turistas se concentram, e docerias gourmet a preço de ouro. (Na tola busca por uma sobremesa, eu acabaria entrando numa dessas docerias logo ao lado, e paguei mais num doce bobo de framboesa — daqueles mais bonitos que gostosos — que pelo ramen. Pelo menos matou a vontade de açúcar.)


Este era um dos três “distritos de entretenimento” de Kanazawa no Período Edo (1603-1868), o de reclusão feudal do Japão. Era, de fato, o maior deles.
Todos ficavam fora dos limites da cidade, este cá do outro lado do rio Asano. Isso porque, como você há de deduzir, aqui se davam atividades vistas como pouco nobres, como a jogatina e as atividades da luz vermelha.
Embora recebam o eufemístico nome de “casas de chá”, o que se tomava à época era sobretudo saquê. Tudo se dava, todavia, num ainda bem preservado ambiente de época, de casas de madeira que hoje são bem pitorescas.
Muitas casas de chá, inclusive, seguem em atividade, ainda que — como você há de deduzir — o número de coisas permitidas tenha diminuído bastante.




Para não dizer que só havia as coisas do entretenimento e do meretrício, há também pequenos santuários xintoístas bons de visitar em Higashi Chaya.




Dia 2: A casa do samurai, o Museu dos Ninjas e Oyama jinja
Amanhã seria um lindo dia, da mais louca alegria em Kanazawa, só que não foi exatamente assim. A saber, era o Dia das Crianças aqui no Japão, mas eu acho que — Deus me perdoe — nunca vi um Dia das Crianças mais morto na vida. Sorte tiveram os bambinos que festaram lá no castelo na tarde anterior.
Hoje, tínhamos dia nublado e de chuvisco, tudo parado como manda o feriado. Kanazawa hoje mostrava o lado introspectivo do Japão, que é lindo nos jardins zen, mas nem tanto nas vizinhanças residenciais um tanto mortas.
Com uma camisa amarela — para ver se agregava um pouco de cor ao cinza — eu tomei o ônibus rumo ao centro para me deter, primeiro de tudo, no santuário Oyama (Oyama jinja). Esse é talvez o santuário xintoísta mais famoso em Kanazawa, em honra ao primeiro daimiô (senhor feudal) da família Maeda. Ele é uma mistura curiosa de elementos japoneses e europeus importados no século XIX.
Outros dos bairros tradicionais de Kanazawa me aguardariam em seguida.






Nagamachi e a casa dos samurais da família Nomura
Nagamachi é o bairro de Kanazawa onde viveram muitas famílias de samurais. Muita gente não se dá conta, mas os samurais não eram guerreiros quaisquer, gente corajosa que decidisse viver pela espada; não, eles eram também uma casta social. Não era qualquer um que podia virar samurai e andar armado, era um privilégio de classe e que passava de pai para filho.
No antigo regime japonês, desfeito com a Restauração Meiji de 1868, os samurais eram uma classe social guerreira abaixo dos senhores donos de terras (os daimiôs), mas acima do povão — camponeses, artesãos e mercadores. Tipicamente, eles viviam em bairros próprios próximo do castelo do seu senhor.

Quando cai o antigo regime, os samurais perdem seus privilégios, até porque viviam sustentados pelo senhor feudal, que por sua vez vivia de impostos que agora estavam redirecionados ao governo imperial. Com isso, a maioria teve que vender suas casas, que acabaram abandonadas ou demolidas.
Uma exceção que se vê hoje foi a casa da família Nomura, adquirida à época por um dos homens de negócios que enriqueciam no novo regime imperial — da chamada Oligarquia Meiji, de novos comerciantes e industriais que lucravam com o comércio reaberto ao estrangeiro e a introdução de tecnologias ocidentais.
Um desses homens, Hikobei Kubo, decidiu que preservaria esta casa como patrimônio histórico, que hoje pertence ao governo municipal. Obrigado, senhor Kubo.







Tudo isso é interessante, mas marcante mesmo é o jardim ao fundo da casa, com plantas, água corrente e as habituais carpas (bem gordas, diga-se de passagem, cevadas a pão-de-ló).


Embora esse seja o ponto mais alto da visita ao distrito, há também ruas bem pitorescas — quase cenográficas — por ali. Parecem saídas de algum filme asiático de época. Os animes japoneses também mostram bastante este tipo de arquitetura.


Teramachi e o Museu Ninja
Este seria o meu último bairro histórico a visitar em Kanazawa: Teramachi, ou “distrito dos templos”. Apesar do nome, ele também era mais um dos antigos lugares de “entretenimento” de Kanazawa, com gueixas & cia. Por isso, também recebe o nome de Nishi Chaya (nishi querendo dizer oeste, como higashi significa leste).
Tal como o Higashi Chaya, que lhes mostrei antes, este também ficava assepticamente fora dos limites formais da cidade, para lá do rio Sai. Foi portanto preciso caminhar mais umas quadras e cruzar uma ponte para chegar até lá.
O rio Sai hoje está uma lástima de assoreado, mas as montanhas ao fundo eram belas. Batia um vento danado, prenunciando uma chuva que não chegava. Os picos e as nuvens cinzentas se confundiam no horizonte.
Era começo de tarde ainda, 12:30 de um dia pacato neste feriado do Dia das Crianças em Kanazawa. A animação parecia estar toda noutro lugar.



Começaria dali a pouco a cair o chuvisco. Eu circulei um tempo vendo um templo e outro, até que resolvi entrar no famoso Museu Ninja, tão benquisto dos turistas que vêm aqui.
A propósito, um dos templos daqui se alega ser uma espécie de templo ninja (Ninja dera), o Myoryuji, com portas falsas, alçapões e toda sorte de coisa secreta associada aos ninjas. Diz-se que era um templo que também serviria de refúgio aos nobres em caso de necessidade, mas não é que se pregasse aqui a arte ninja.


Como as coisas sobre os ninjas são quase irresistíveis ao turista ocidental — e eles aqui sabem disso —, há um Museu Ninja bem pertinho. É claro que eu fui conferir.
Ninja em japonês, a saber, significa “invisível”, enquanto que shinobi — outro termo bem comum nesse meio — se traduz por algo como “aquele que vai na surdina”. Ambos os termos se referiam a assassinos de aluguel que operaram sobretudo antes da unificação do Japão sob os Togukawa em 1603.
Antes dessa ordem imposta de cima pelo xogum, os senhores feudais japoneses competiam abertamente, e se matavam abertamente ou na surdina com esses assassinos contratados. Em tempo, passaram também a ser empregados como guarda-costas para defender os nobres de assassinos enviados por outros.
Com a estabilidade trazida pelos Tokugawa, os ninjas praticamente desaparecem no Período Edo (1603-1868), mas evidentemente seguem no imaginário mundial. Vamos portanto visitar o museu, para fechar Kanazawa com chave de ouro.


O pessoal funcionário do museu é bem simpático, visivelmente habituado a lidar com visitantes estrangeiros, o que nem sempre é o caso no Japão.
A entrada custa ¥800 (o equivalente a cerca de 5 dólares), e se quiser, você pode pagar mais ¥300 para brincar de atirar estrelas ninja (shuriken). É claro que eu paguei.
Aprendi, inclusive, que elas se jogam na vertical, não na horizontal como quem arremessa pedra para quicar na superfície da água. Na real, seu propósito é mais perfurante que cortante. (Acertei duas de cinco!)


É por estas e outras que eu digo às pessoas que não gastem todo seu tempo no Japão em Tóquio. A capital é interessante, mas há muito também neste Japão do interior, coisas de que os visitantes estrangeiros por vezes não têm nem ideia. Kanazawa é dos melhores exemplos disso. (De quebra, as noites de hotel aqui às vezes custam a metade do que custam em Tóquio.)
Além disso, a visita é mais pacata, e os lugares são bem bem menos concorrida.
Eu retornaria tranquilamente de ônibus ao meu hotel para apanhar as bagagens já deixadas lá fora do quarto e, ainda neste fim de tarde, tomar o trem rumo a Quioto. Era hora, finalmente, do meu reencontro com a antiga capital do Japão.





Adorei essa viagem ao interior.
Linda a região. Adorei a cidadezinha.
A paisagem bucólica é belíssima.
O silêncio parece falar do passado.
Transmite paz, tranquilidade e silêncio.
Linda a vegetação. Belos tons.
Amei.