Os budistas há muito têm uma coisa com imagens grandes do Buda (563-483 a.C.). Dizem que estas representações humanas em esculturas surgiram quando o exército de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), chegou à Índia e deixou algumas tradições helênicas por lá.
Nara, que foi a primeira capital japonesa, é quem tem a honra de abrigar a maior estátua de Buda do Japão. O budismo chegou aqui no século VI — portanto mil anos após Sidarta Gautama pregar sobre a iluminação e a não-violência no sopé dos Himalaias.
Buda, como Cristo, é um apelido: quer dizer o desperto ou o iluminado. (“Cristo” em grego, por sua vez, quer dizer o “ungido”.)
O curioso foi como a religião vingou muito mais do “outro” lado dos Himalaias, quando foi trazido à China na Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) e de lá levado a outros cantos (ver mapa abaixo), do que na própria Índia, que preservou desde sempre uma predominância do hinduísmo.

Nara, que foi estabelecida como a primeira capital fixa do Japão em 710 d.C., acaba por ser indissociável do budismo. A saber, como na Europa, no princípio as cortes eram itinerantes, até mesmo para exercer de perto a autoridade sobre todo o território. Nara o foi durante quase todo o século VIII, antes de a capital passar a ser Quioto em 794.
Foi nesse período — chamado de Período Nara na historiografia japonesa — que os japoneses emularam da Dinastia Tang (618-907) na China muitos costumes chineses, entre eles a religião. Enquanto que a plebe japonesa seguiria xintoísta, com as tradições indígenas japonesas de crença nos espírito da natureza (crenças que seguem mui vivas até hoje), a aristocracia buscaria agora algo mais “escolado”.
Adotou-se a escrita chinesa, o uso do chá, as porcelanas, o vestuário chinês, a esmerada técnica de fazer bonsai e muito do que se crê hoje em dia ser coisa originalmente japonesa.
Data desse período, de 752, o Buda gigante (daibutsu) presente aqui no templo Todai-ji, feito por ordem do Imperador Shomu (701-756).

Eu tenho a impressão de que os budistas gostam tanto de fazer imagens gigantes por causa do impacto visual que elas têm, pela sensação de reverência e respeito que passam. Pode ter um pouco também do simbólico que tinham as catedrais europeias — imensas para denotar a grandeza do Alto —, mas há sem dúvida algo sobre como aquilo de repente faz você deixar de lado as distrações e se concentrar.

Chegando a Nara
Nara é o bate-e-volta por excelência a quem está em Quioto, como era o meu caso. São apenas 35-45min de viagem de trem, e Nara não oferece tanto assim que você precise pernoitar.
Eu já havia vindo à cidade quando estive no Japão em 2013 (viagem que narrei aqui), quando vi os cervos que passeiam soltos pelo Nara Park e visitei o daibutsu do templo Todai-Ji num quieto e frio dia de inverno de fevereiro. Cogitei até dispensar um retorno aqui e dar preferência a algum lugar novo, mas não resisti.
Vem-se a Nara ou na linha pública da Japan Rail (JR Line, na qual vale o passe ilimitado, o JR pass) ou pela privada Kintestu Line (na qual o JR pass não vale). A primeira leva 45min e a segunda, 35min. Custa na casa de ¥650 ou algo próximo de USD 5.
Ambas saem da mesma estação de trem de Quioto, mas chegam a estações distintas em Nara — a Kintetsu line tem uma estação própria (Kintetsu Nara Station), que é cerca de 1 Km mais próxima do Parque de Nara, onde estão as atrações principais. Não faz uma diferença enorme, mas é sem dúvidas a opção mais conveniente a quem não tem o JR Pass para viajar de graça na outra.

Chegamos à estação ferroviária da JR em Nara, que — toda em revestimento de madeira nos seus halls internos — parecia querer emular o Todai-Ji, templo com o Buda gigante no Parque de Nara e que já foi a maior edificação em madeira do mundo.
Era uma manhã fria e nublada de primavera, dessas que fazem você se dar conta de que o verão ainda não chegou direito.
Parei, por óbvio, primeiro para tomar um café com quitutes na estação antes de tomar rumo. Dali, seria uma caminhada agradável até o Parque de Nara, passando por um outro templo no caminho. Eu deixaria para usar o ônibus no retorno.




O templo Kofuku-ji a caminho do parque
Eu 11 anos atrás havia tomado este mesmo caminho, só que saindo da estação da Kintetsu Line. Desta vez, portanto, eu me alongaria 1 Km a mais pelas ruas comerciais de Nara — semelhantes às de quase todas as cidades japonesas de médio porte: calçadas bem largas, boas para o pedestre; prédios de arquitetura moderna do século XX sem muito sal; propagandas a valer; pessoas transitando, em sua maioria japoneses, e por vezes com indumentárias meio retrô, curiosas.

Por aquelas vias, chegaríamos em tempo à lagoa Sarusawa (Sarusawa Pond), que faz parte da estética da cidade.
Ela fica já à margem, onde a estética urbana de Nara vai dando lugar a um ambiente de parque, onde o verde começa a dominar, a começar pelos arredores do templo Kofuku-ji. Este merece uma visita ainda que breve no caminho para o Parque de Nara.



O templo budista Kofuku-ji teve seu início na atual Quioto no século VII, tempo da penetração do budismo chinês aqui no Japão. Em 710, ele é trazido aqui para Nara após esta ser estabelecida como capital.
Referi-me a budismo “chinês” porque embora seja de origem indiana, o budismo foi aos poucos sendo um tanto remodelado na China ao longo de séculos antes de chegar aqui, ganhando uma certa ênfase mais sóbria e introspectiva.
Quem já foi à Tailândia ou ao Sri Lanka — países budistas de outras vertentes — sabe dizer que, embora seja o mesmo budismo, a estética e algumas ênfases são diferentes. Guardadas as devidas diferenças, é como comparar uma festa católica mexicana a uma celebração alemã luterana.



O Parque de Nara (Nara Park)
A passagem pelo Kofuku-ji havia sido fugaz — era mesmo apenas um local de passagem para mim. Eu me dirigia, como praticamente todos aqui, no que era praticamente uma peregrinação até o grande Buda do Todai-ji no Parque de Nara.
Aproximando-se, você ainda anda um bom quilômetro (ou até um pouquinho mais) dentro do parque, entre as árvores e cervos, até chegar propriamente ali ao templo. O acesso ao parque é gratuito, mas a entrada no templo está custando ¥800 (cerca de USD 5). Vale a pena.

O Parque de Nara tem uma área bastante ampla, com a relva curta e muitas árvores aqui e ali. Há mesmo algumas ruas dentro dele, em algumas das quais passam ônibus.
É uma vastidão quieta, só que hoje em dia nem tanto, já que abundam os turistas — nem tanto assim os estrangeiros, embora desses haja vários, mas sobretudo os próprios japoneses, inclusive excursões escolares. A área definitivamente estava bem mais badalada do que quando eu cá estive no já longínquo fevereiro de 2013. Se a diferença se deve mais à época do ano, eu não sei.
Seja o tempo qual for, continuam marcando este Parque de Nara os cervos que circulam livres e por toda parte. São para muitos — sobretudo para a criançada — a principal atração.




Eles são dóceis — até certo ponto. Não são exatamente cachorro, que olha e responde a você e brinca. Os cervos lembram mais cabras, naquele jeito meio desconfiado, e é preciso ter certo cuidado porque eles mordiscam coisas sem cerimônia, e há os avisos de atenção dizendo que eles também podem empinar ou dar uma boa cabeçada na pessoa.





Um carro passou roncando os motores, e de repente todos os cervos dispararam uns 200m em rápida debandada — um estouro da manada. Dali a pouco param, olham para trás, e a paz é restaurada.
Eu segui meu rumo até uma espécie de rua que há dentro do parque com lojas margeando, sabidamente a que leva ao Todai-Ji, ponto de peregrinação de quase todos que vêm aqui.




O templo Todai-Ji
Eu havia deixado para almoçar nas vizinhanças da estação de trem antes de retornar a Quioto. Primeiro, veria o grande daibutsu — o Buda gigante — do Todai-ji.
Segui por aquela longa calçada plena de pessoas até alcançar os portões do templo, marcados por arquitetura tradicional japonesa e dois niô, ou espíritos guardiães.
Eles são algo comum do budismo japonês, um tanto semelhantes aos kami ou espíritos guardiães da nativa religião xintoísta. Há, desde muito tempo, um sincretismo entre budismo e xintoísmo no Japão. As separações entre os dois são mais um fenômeno moderno que de antigamente.



Seguimos até entrar na parte paga do perímetro. Não me lembro se aceita cartão, mas aos templos japoneses pagos é sempre bom vir munido de dinheiro em espécie.
Lembro-me com mais clareza de estar neste mesmo lugar há mais de uma década atrás, com um ar frio e quietude bem maiores que hoje.







O Todai-Ji já foi, por muito tempo, a maior edificação de madeira do mundo. Esse recorde durou desde o término dessa construção atual em 1709 até 1998, quando construções modernas em madeira tomaram seu posto. São 57m de comprimento, 50m de largura e 49m de altura.
O mais curioso é que a construção anterior, substituída em 1709, era 30% maior.
Como dito no início, este templo está aqui desde o século VIII, ainda que passado por diversas restaurações. Originalmente, havia inclusive dois grandes pagodes margeando este pavilhão principal, mas ruíram num terremoto há muito tempo. O fogo também era — e é — um perigo constante, e foi o que levou à restauração de 1709.
A imagem do Buda, ela própria, terminada originalmente em bronze nos seus 16m em 751, já teve as mãos e a cabeça reforjadas. Segue tudo de uma imensa imponência.



Muita gente se aglomera logo na entrada do templo para fotografar o grande Buda de frente, mas a meu ver ele é mais fotogênico de outros ângulos mais adentro — e com menos gente competindo pelo espaço.


O chão de pedra rústico, as estruturas em madeira ao redor, o grande vão deste templo amplo. O ar circula com o mesmo frio do lado de fora. Pessoas havia, mas até que não eram muitas cá dentro — afora aquele espaço imediatamente à entrada, onde ansiosamente todos tentam tirar fotos antes mesmo de dar cinco passos.
A imagem do Buda é de serenidade, com em tantas suas outras imagens. Aquela plenitude serena que também inspira quietude no coração de quem vê. Talvez seja essa a mágica destas imagens tão grandes do Buda, que outras imagens religiosas grandes não necessariamente transmitem.



Epílogo
Havia sido um reencontro simples. Às vezes há algo de mágico em voltar aos mesmos lugares onde estivemos há muitos anos atrás, sobretudo quando os lugares se preservam os mesmos. Aqui, não houve diferença quase nenhuma. É como se o rio fosse o mesmo e apenas o homem tivesse mudado. Há aquele misto de nostalgia e de fechar de círculo, que inevitavelmente deixa a pergunta “E agora, José?”.
Eu terminava com Nara esta minha longa segunda viagem pelo Japão, voando hoje mesmo à noite. Ainda voltaria para isso a Quioto, entretanto, onde eu estava hospedado e sobre a qual ainda preciso lhes falar.
Na volta, tomei o ônibus do Nara Park até os arredores da estação ferroviária — o qual custou ¥250, e que em Nara excepcionalmente se toma pela porta da frente — e tomei o que seria o ramen final desta estadia, minha última sopa japonesa de macarrão desta jornada, que me foi servido por uma uma simpática mulher de lenço cercada de panelas antigas numa cozinha bem simples, tão distinta do Japão tecnológico que costumamos imaginar.
Eu deixo vocês com mais algumas fotos daqui, e volto com Quioto para fechar este círculo.









Magnífico esse parque.
Lindinhos os cervos. Mimosos.
Maravilhosa a figura do Buda. Belíssimo. Imponente.
Área linda essa parte de vegetação. Bela área verde.
E que muitidão…
Mesmo assim transpira paz e tranquilidade.
Belíssimos os monumentos. Elevam a alma.
Tudo lindo..Convidam à prece.
Lindos e verdejantes recantos.
Amei.
Magniffico esse Buda. Majestoso.