O Japão dispensa apresentações como destino turístico. É dos países mais fascinantes que há para turismo, presente no imaginário de todos os ocidentais.
Eu já havia vindo cá na década passada, quando postei várias dicas a respeito. De lá para cá o Japão mudou — bastante em algumas coisas, quase nada em outras. Além disso, naquela vez eu me limitei ao “feijão com arroz” de Tóquio, Quioto e Hiroshima, enquanto que nesta eu fui bem mais além e explorei lugares novos.
A nova realidade do Japão: Um país mais aberto — e mais barato

Desde 2023 o Japão já não exige vistos de turismo para brasileiros e mais uma penca de nacionalidades.
A ideia é atrair dinheiro estrangeiro a uma economia rica, porém estagnada, e cuja moeda enfraqueceu consideravelmente após a invasão da Rússia à Ucrânia em 2022.
(As razões para essa desvalorização aguda têm a ver com o fato de a Rússia ter sido uma parceira comercial importante para o Japão e fonte de energia, como era também para a Alemanha, uma relação comercial que foi vetada pelos Estados Unidos).
Um dólar (US$) comprava aproximadamente 100 ienes (¥) no tempo da pandemia — e já há muito tempo. Agora, compra mais de ¥150, o que faz com o que antes custava US$ 60 agora saia por US$ 40. Muita gente está aproveitando, e o turismo estrangeiro no Japão está explodindo em números.
Afinal, por décadas o Japão era um destino atraente, porém caro, e agora isso mudou. Está mais barato que viajar por certos países da Europa, e a quantidade anual de visitantes estrangeiros em 2024 já foi quase o quádruplo do que era na década passada.

Passada esta segunda viagem pelo país, deixo aqui o meu pacote de dicas e avaliações atualizadas sobre viajar pelo Japão — assim como sugestões de lugares aonde ir para escapar das multidões, já que os milhões de turistas estrangeiros parecem quase todos irem só às mesmas cidades, aos mesmos lugares, e deixar as outras quietas.
Primeiro, um balanço desta minha estadia recente.
- O que mais gostou. Finalmente ver as cerejeiras em flor na primavera, que são mesmo um espetáculo estupendo. Não adianta comparar ao que ocorre noutros lugares do mundo onde também há flores ou cerejeiras, pois são também os japoneses e sua cultura que dão um toque mágico singular a esse espetáculo da natureza.
- Visita obrigatória. Quioto, a antiga capital imperial do Japão. Tóquio é até dispensável, embora seja relevante (e eu sempre procuro lembrar às pessoas que elas podem voar também via Osaka, que frequentemente oferece passagens aéreas mais baratas…), mas é Quioto o cerne cultural que não pode deixar de ser visto aqui.
- O que não gostou. Do excesso de comida ultraprocessada. Muita gente têm a ilusão de que tudo o que se come no Japão é saudável, mas isso é uma fantasia. Eu escrevi em detalhes a respeito. Até os doces tradicionais, em tornos dos quais há uma história, são hoje versões artificiais de si mesmos. Como se pegassem uma receita de Cora Coralina e vendessem uma versão modernizada feita com xarope de glicose e saborizante industrial.
- Queria ter visto mas não viu. Okinawa, a famosa ilha do Mestre Miyagi (de Karatê Kid) no extremo sul do Japão. É um pequenino arquipélago sub-tropical aonde se vai de avião. Topei em Fukuoka com um casal de brasileiros que esteve lá, e fiquei no desejo. Da próxima vez.
- Comes & bebes a experimentar. Esta seção pode parecer irônica após o que eu disse acima, mas obviamente há coisas boas a comer aqui também — especialmente no reino das coisas do mar, onde os japoneses seguem muito tradicionais. Eu sei que japonês não come sushi todo dia, mas eu recomendo experimentar os daqui para ter uma referência. Vai-se ver o engodo que são aqueles do Ocidente. (Mais detalhes na seção de Comes e Bebes abaixo.)
- Momento mais memorável da visita. Estar entre as cerejeiras em flor, que fazem parecer que você está num céu de novela espírita. Talvez a noitinha no parque do Castelo Hirosaki ou durante o dia na bela fortaleza estrelar de Goryokaku em Hakodate.
- Sonho realizado. Afora as cerejeiras, ver finalmente o Monte Fuji de perto, em Fuji Kawaguchiko.
- Alguma decepção. Que o Japão pareça em tantos aspectos estar congelado tecnologicamente lá nos tempos do Super Nintendo, no começo dos anos 90. Seus websites parecem dessa época, e as máquinas onde comprar passagens de metrô ou fichas em restaurante têm até um ar retrô de fliperama. As tecnologias do dia-dia aqui seguem exatamente as mesmas de quando eu visitei o país em 2013. O tempo passou na janela; só Carolina não viu.
- Maior surpresa. Que apesar do aumento expressivo de turistas estrangeiros vindo ao país, todos fiquem basicamente limitados ao eixo Tóquio, Quioto (com Osaka e Nara ali ao lado) e Hiroshima. Todos visitam os mesmos lugares. Você vai a outras cidades — mesmo as famosas como Nagasaki ou Sapporo — e tem a impressão de estar sozinho entre os japoneses.
PRINCIPAIS DICAS
Visto & imigração. Brasileiros e portugueses não precisam de visto para visitar o Japão a turismo.
Os europeus há muito já não precisam, e os brasileiros passaram a estar isentos desde 2023. Todos podem permanecer até 90 dias a turismo no país.
Do que você precisa? Ter a sua passagem de volta e preencher um formulário online antes de embarcar. Isso gera um código QR a apresentar ao oficial de imigração no aeroporto japonês.
Eu detalhei o processo todo, com os links necessários e a experiência, no meu post de chegada ao Japão. Está tudo bastante tranquilo. O formulariozinho às vezes é um pouco chato de preencher, e é preciso lembrar que é um código QR diferente por passageiro, mas bastam uns minutos de atenção. Nada complicado.
Os oficiais na imigração, via de regra, não perguntam mais absolutamente nada.


Clima, quando vir & melhor época. O Japão, como a Europa, é um lugar de clima temperado e estações do ano bem definidas. Há temperaturas amenas na primavera e no outono, calor úmido no verão e bastante frio no inverno.
As épocas mais populares para se vir aqui são, portanto, as meias estações: a primavera (março a maio) ou o outono (setembro a novembro).
Há um mito por aí na internet que viajar no começo de maio na Semana Dourada (Golden Week, assim chamada pela conjunção de feriados) é uma imensa roubada a ser evitada. Balela, a maior parte de quem repete isso nunca esteve no Japão nessa época. Eu estava aqui e atesto que não há nada demais. Peguei até uns trens bem vazios.

A meu ver, a época badalada — e realmente a ser levada a sério — é o período da floração das cerejeiras, entre o meado de março e o fim de abril, a depender de onde no Japão você estiver. (Detalhes neste post aqui sobre quando e onde ver cerejeiras em flor no Japão).
No mais, é uma questão quase que puramente climática. Julho e agosto são época de tufões pelo grande calor úmido no Japão, cercado de mar, e essa é talvez a época menos indicada.
Dezembro, janeiro e fevereiro são o inverno, quase em todo lugar um inverno meio chuvoso e frio, embora haja também lindos dias de sol fresco. É a baixa estação, a quem preferir menos turistas e economia.
O inverno é um tempo bom para quem pretende experimentar onsen, aquelas termas japonesas onde só se entra como se veio ao mundo, 100% pelado. Relatei essa experiência aqui (mas aviso que não há fotos só para maiores de 18). Os hoteis têm calefação, mas advirto que quem não curte o frio pode não gostar muito de andar só de meia nos não-aquecidos templos de Quioto nessa época. Fica a gosto do freguês.
Março a maio ou meados de setembro até meados de novembro realmente são as altas épocas para vir aqui. Só leve em conta que o Japão é um país comprido no eixo norte-sul, o que significa que o norte (ex. Hokkaido) pode estar ainda bem friozinho no começo de maio enquanto que em Hiroshima ou Nagasaki mais a sul já parece verão.


Dinheiro & Câmbio. O dinheiro japonês é o iene (¥), e neste momento em que vos escrevo, R$ 1 vale ¥26. US$ 1 vale ¥156 e €1 vale ¥160. “Isso tudo? O Japão não tem uma economia forte?”
Não se assuste com os números grandes. É que no Ocidente nós naturalizamos o conceito de centavos, enquanto que isso pode parecer estranho a outras culturas.
Aqui, se a unidade da moeda é o iene, começa-se de um iene, não de um centavo. Daí as notas serem nos milhares de ienes: notas de ¥1.000, ¥2.000, ¥5.000, ¥10.000, e moedas de ¥1, ¥5, ¥10, ¥50, ¥100, ¥500.
E os japoneses adoram dinheiro vivo. Pode-se estranhar isso para um país rico e de alta tecnologia, mas eles pouco utilizam cartão de crédito (bem menos que no Brasil ou na Europa), e pagamento por aplicativo, então, nem se fala.
Há lojas e restaurantes em áreas turísticas que aceitam cartão (mais do que em 2013), assim como os hoteis tipicamente aceitam, mas via de regra para os gastos do dia-dia e especialmente na rua, parta sempre do princípio de que só será aceito pagamento em espécie.
Inclusive, tenha sempre consigo dinheiro trocado (moedas e notas de ¥1000) se quiser fazer as coisas populares, pois os ônibus e bondes não dão troco, e as máquinas de restaurante (dão mas) exigem pagamento com moedas ou nessa nota.

Apesar do gosto por pagamento em espécie, o Japão ainda é um país bastante autocentrado, então não há casas de câmbio em abundância.
Elas existem em alguns centros comerciais e nos aeroportos, mas a via mais comum de obter dinheiro japonês é sacando no caixa automático. Eles estão presentes por toda parte, e não costumam ter problema com cartões estrangeiros.
A própria rede 7-Eleven — que é japonesa — frequentemente tem caixas automáticos à disposição.

Transportes 🚅✈️🚌
Chegando ao Japão
O Japão fica distante do Ocidente, e esse evidentemente é um dos grandes custos a quem quer vir aqui.

A dica que eu dou nesse sentido é sempre olhar também voos para Osaka (ou, mais precisamente, para o Aeroporto Internacional de Kansai – KIX). Eles às vezes estão mais em conta que os voos para Tóquio.
Outras coisa é que, se você estiver saindo da Europa ou fazendo conexão na Europa, atente que a duração dos voos Europa-Japão agora varia bastante. Isso porque a Rússia — em reciprocidade às sanções — fechou seu espaço aéreo às companhias aéreas ocidentais ou japonesas.
A Japan Airlines (JAL) detém uma chamada “rota polar”, que vai pelo ártico a norte da Rússia e é mais rápida, mas as outras precisam contornar toda a Rússia, e os voos ficaram horas mais longos. Melhor portanto voar via Oriente Médio que via Paris ou Frankfurt, se puder escolher.

Deslocando-se dentro do Japão
O Japão é famoso por sua densa malha ferroviária — e, em especial, pelos seus pioneiros trens-bala (shinkansen), que alcançam velocidade superior a 300 Km/h. Entretanto, a menos que você detenha um passe ilimitado — o Japan Rail Pass (JR Pass) —, viajar de trem no Japão é caro. Uma passagem de poucas horas pode sair por mais de US$ 100.
Alguns devem saber que o custo do passe sofreu um grande reajuste em 2023, mas mesmo assim, se você for ficar feito o Coelho Ricochete — como eu — pra lá e pra cá no país, ele ainda compensa. Eu escrevi um post bem detalhado sobre viajar de trem no Japão.
A ironia é que voo doméstico no Japão é barato, às vezes mais barato que o próprio trem. Por exemplo, você paga o equivalente a US$ 100 numa passagem de trem-bala para chegar em 2h30 de Osaka até Fukuoka, no sul do país. Já o voo faz isso em 1h25 pelo equivalente a US$ 40 numa empresa de baixo custo ou US$ 70 numa cia aérea melhor.
Óbvio que ir de avião incorre em gasto de tempo com outras coisas (ir ao aeroporto, passar pela segurança, embarque, etc.), mas vale sempre verificar a opção a depender do trecho que você quiser cobrir, se não tiver o JR Pass.


Por fim, quem tiver um orçamento mais apertado vai querer fazer bom uso dos ônibus de linha (highway buses) que há no Japão. Eles são a forma mais barata de se viajar, e são relativamente confortáveis. Só se certifique de reservar pelo menos uns dias antes, pois lotam.
Algumas das principais empresas são a Willer Express, a Japan Bus Lines e a Keio Bus.


Para dentro das cidades, note que, via de regra, os ônibus só aceitam pagamento em dinheiro.
Para os metrôs, atente que você não pode acumular bilhetes (como eu tentei fazer na minha primeira vez aqui para não pegar fila toda hora). Ou você compra um passe (IC Card) ou deverá comprar na máquina da estação onde você tomará o metrô, no dia do uso. Os bilhetes no Japão sempre são específicos para uma rota, não são de uso geral.


Wi-fi e conectividade. O Japão é famoso por ser um país high tech, de alta tecnologia, mas — como veremos — essa é uma noção dos anos 80/90, quando o Japão de fato era um país de ponta. Não é mais a tudo que isso se aplica.
Sinal de celular é onipresente, mas você não vai encontrar wi-fi disponível por toda parte. Os restaurantes e cafés mais moderninhos têm (um pouco como no Brasil ou na Europa), mas não são todos.
Há wi-fi nos trens-bala, mas não nos trens comuns. Já as estações de trem, várias têm wi-fi gratuita, às vezes precisando apenas fazer um cadastro breve com o e-mail. Os hoteis todos têm, por supuesto.
Chips virtuais e Wi-Fi portátil
Eu acho perfeitamente possível visitar o Japão sem internet no celular (efetivamente o fiz sem smartphone na minha primeira vinda em 2013), mas sei que hoje isso é quase como dizer à pessoa que venha sem cueca ou sem calcinha.
Há chips virtuais (e-sim) que você pode adquirir facilmente com empresas internacionais como a Airalo ou a Holafly. É bem melhor já vir com isso arranjado de casa que ficar atrás de comprar chip local aqui.
Entretanto, se você não for viajar sozinho, e sobretudo se portar também computador além de celular, a coisa mais prática de se obter é um aparelho de wi-fi portátil, também chamado de wi-fi de bolso (pocket wi-fi). É bem comum alugá-los aqui no Japão.

A empresa mais popular entre turistas é a Ninja Wi-Fi, que lhe permite comprar o serviço pela internet, retirar o aparelho no balcão deles no aeroporto, e devolvê-lo no mesmo ou em outro aeroporto ao ir embora. Foi a que eu usei, e achei muito prático.
O preço do aluguel é por dia e varia de acordo com a quantidade diária de dados que você deseja. Vai aí do seu uso — e sobretudo se pretende ficar fazendo chamadas ou transmissões de vídeo da rua. No meu caso, que não tenho esse hábito, 3 GB diários se provaram mais que suficientes.

Eu confesso que por duas vezes esqueci o aparelho no hotel, e não morri por isso. O mais útil é ter um bom aplicativo de mapas off-line (como o Maps.me), e no mais se entregar às experiências.
O Google Mapas no Japão funciona muito bem para direções e transportes, mas ele se engana muito em termos de restaurantes e horários de funcionamento. As horas nem sempre estão certas, e há vários restaurantes que o Google não mostra, sobretudo os mais simples.
Vale ter em mente, como reza a máxima, que o mapa não é o território.
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Por fim sobre conectividade, como você pode ter notado na foto acima, a tomada japonesa padrão é essa semelhante ao tipo norte-americano com dois pinos afilados. Às vezes, ela tem também com o terceiro pino redondo, mas na maior parte das vezes, não. (No linguajar técnico, são os tipos A e B). Veja abaixo.
É de suma importância trazer um adaptador — ou, de preferência, mais de um. Esses de camelô Made in China servem. Eu comprei na Amazon logo um pacote com quatro, e eles foram essenciais.


Custos & Alimentação. Sempre me perguntam por quanto sai uma viagem pelo Japão. Eu tenho dificuldade em responder porque tanto depende dos hábitos da pessoa.
Eu, por exemplo, não tenho problema em almoçar ramen (sopa de macarrão) todo dia, o que me sai por ¥500 (US$ 3) o almoço, mas se a pessoa quiser comer em restaurante com cardápio todo dia, o gasto com refeições quintuplica.
Comer fora no Japão é caro. A refeição num kaitenzushi (tipo de restaurante de sushis em que estes passam numa esteira rolante e você vai pegando o que quer) sai facilmente por US$ 15-25 por pessoa, a depender do quanto você comer.
Viajantes com o orçamento apertado vivem de comidas prontas no 7-Eleven e outras lojas de conveniências, que as têm em abundância. Não são más — há os onigiri, maki, sushis e outros formatos de arroz com algo dentro, além de pratos mais elaborados. Fica algo repetitivo após os primeiros dias, mas dá pra aguentar.
Por dia em alimentação, preveja portanto gastar US$ 10-50 por pessoa, a depender dos seus hábitos.


O mesmo vale para os seus hábitos de merendar e tomar um cafezinho na rua. Starbucks todo dia onera o sujeito, ainda que ele aqui saia mais em conta que no Ocidente, devido à desvalorização do iene.
Um café com quitute no Japão (seja na rede norte-americana, seja numa rede japonesa como a simpática Café Doutor) vai sair na casa de ¥800-1000 ou cerca de US$/€ 5-6. Já as latinhas de máquina com café frio ou quente saem facilmente por US$/€ 1 na rua ou em alguma loja de conveniências. Você aí vai dosando de acordo com o seu gosto e o seu bolso.
O que vale sempre a pena ter em conta é que os hoteis japoneses (de três estrelas para cima) tipicamente servem um bom café da manhã — bem melhor que o de alguns estabelecimentos brasileiros ou europeus.
O café da manhã japonês é uma refeição. Se você é do tipo que se alimenta bem de manhã, esse é um investimento que compensa, mesmo se o preço não estiver incluso na tarifa.



A qualidade obviamente varia, mas via de regra os cafés da manhã de hotel no Japão incluem:
- Arroz branco cozido
- Uma seleção de coisinhas salgadas e saborosas feitas com algas ou temperos outros para pôr no arroz,
- Sopa de missô de soja
- Às vezes legumes cozidos, como abóbora
- Omelete ou algum ovo mexido do balacobaco (que você se pergunta se é só ovo mesmo ou se tem corante amarelo)
- Alguns quitutes franceses como croissants ou pains au chocolat (cuja qualidade varia, mas nunca espere grande coisa),
- Chá, café, e sucos pasteurizados ou refrescos artificiais.
É um relato sincero do que você vai encontrar. (Já está melhor que aquela repetição tediosa de ovo mexido e salsicha em molho de cachorro-quente que alguns hoteis brasileiros sem criatividade insistem em pôr pra você comer todo santo dia.)



Custos & Acomodações. Acomodações serão o grande custo da viagem de qualquer um. Com o iene desvalorizado, elas saem mais em conta para o nobre viajante ocidental, mas mesmo assim estamos falando em US$ 60-140 por noite para um quarto duplo num hotel três estrelas.
A variação de preço não é tanto pela qualidade, mas mais pela cidade. Cidades badaladas e turísticas como Tóquio ou Quioto estão na parte mais alta daquele intervalo, sobretudo se você quiser se hospedar em boas localizações. Cidades fora do roteiro habitual da maior parte dos turistas, como Kanazawa, oferecem hoteis com a mesma qualidade pela metade do valor.
Afora isso, não tenha dúvida de que os hoteis sobem de preço durante a alta estação, sobretudo nos dias-chave da floração das cerejeiras. (Como detalhei neste post, a floração em cada lugar tem um ápice que dura cerca de uma semana). Não chegam a ser preços astronômicos, mas você pode se ver pagando US$ 150-200 por noite numa cidade do interior nessa época.
Se você for comparar com preço de hotel pela Europa Ocidental, até que o Japão está comparativamente barato. Cama em dormitório de albergue sai pelo equivalente a €20-30, o que também está mais em conta que em certas capitais europeias.

O que esperar dos hoteis no Japão
Ficar num ryokan ou casa japonesa à moda antiga é uma experiência (turística) excepcional — um pouco como dormir numa tenda no deserto quando se está no Marrocos. Pode ser memorável, mas não é mais o comum nem a experiência do dia-dia.
O comum hoje são hoteis modernos, e eles no Japão são extremamente parecidos no funcionamento — parece até que todos pertencem à mesma rede. Vai na conta do quanto a sociedade japonesa padroniza as coisas (e, diriam os críticos, também as pessoas — ou pelo menos tenta).
Os cafés da manhã quase que invariavelmente começam às 6:30 e terminam já às 9:30, o que pode desagradar os mais dorminhocos. Atenção porque às vezes termina 9:30, mas o último horário de entrada é às 9:00. Isso costuma vir escrito ou ser explicado quando você faz o check-in.
As camas são iguais às do Ocidente, embora os asiáticos tendam a preferir colchão mais duro. Tipicamente, eles todos fornecem pijamas para você usar se quiser.

Costuma haver chaleira elétrica no quarto, mas nem sempre há café solúvel. O que em geral ocorre é de terem uma seção junto da recepção chamada de amenidades, com escova de dente descartável, creme dental, touca de banho, chás extras para você pegar, e às vezes café em sachê.
Por fim, o banheiro japonês, como alguns já sabem, é em si uma atração. Os chuveiros são padrão, às vezes com box e outras vezes com banheira, mas os vasos sanitários são sui generis.
Os vasos sanitários no Japão são eletrônicos, com um painel adjacente para regular a temperatura do assento e, o mais especial, um jato d’água que limpa a pessoa após a obra. (Aos mais conservadores, não se preocupem: há sempre papel higiênico também. O uso do jatinho é facultativo.).



Ainda sobre a estrutura dos hoteis no Japão, eu agrego que na minha experiência nenhum hotel japonês me deixou fazer check-in antes da hora formalmente prevista (tipicamente, 14 ou 15h).
Noutras partes do mundo, não é raro liberarem o quarto já às 12h ou 13h se este já estiver pronto, mas não aqui (ou, talvez, se a sua cara for mais bonitinha que a minha, você consiga, mas é bom não contar isso). Via de regra, só deixam você guardar a bagagem, enquanto aguardam o ponteiro chegar no número certo.
E para terminar, falando em números, uma curiosidade dos hoteis é que não há o piso 0 no Japão. O primeiro andar é o térreo. Lembrou-me dos video games tipo Zelda, onde tudo era B1, B2… para os subterrâneos, e 1F, 2F… para os andares superiores. Como tanto aqui que lembra a fantasia, na vida real no Japão, é igual.

Comes & Bebes a experimentar. Eu não acho a culinária japonesa esse balaio todo — para mim ela é melhor como coisa de ocasião que como alimentação do dia-dia.
Há o mis-en-scène de comer de pauzinho, o chá etc., mas não há aromas nem gostos apurados como nas culinárias chinesa ou indiana (salvo em alguns pratos de frutos do mar meio bizarros), tampouco grande diversidade, e há um excesso imenso de ultraprocessados hoje em dia.
Eu escrevi um post detalhado sobre o mito da alimentação saudável e supostamente “toda natural” no Japão — uma ilusão que fica despedaçada quando a pessoa chega e vê a onipresença de comidas artificiais, ou que os japoneses na realidade comem mais carne que peixe.
Dito isso, o que pertence à dieta japonesa tradicional (pescados, arroz, alguns legumes) são, sim, bastante frescos e de altíssima qualidade. Afora os peixes (crus ou não), há um sem-fim de iguarias de coisas do mar — que são caras e nem sempre agradam os paladares ocidentais, como ovas de ouriço ou pepino-do-mar cozido (procure konowata, os intestinos do equinodermo no sal, ou konoko, que são seus ovários cozidos, se se interessar).
No mais mundano (também em termos de preço), eu diria que não se pode sair daqui sem provar um ramen, sopa de macarrão japonesa clássica, nem sem comer sushi de verdade, com peixe generoso em cima e não aquelas enrolações com pepino e “queijo” processado que há no Ocidente.


Há, claro, também das coisas menos disseminadas no Brasil, como takoyaki, uns bolinhos com pedaços de polvo cozido dentro, ou o sabor de coisas com batata-doce ou abóbora, que os japoneses consomem bastante.
Não deixe passar uma boa batata-doce assada quando encontrar.


Quando pedir coisas com ovo, não estranhe se for doce. O mesmo para coisas com feijão, que aqui pertence mais ao reino do açúcar que ao do sal.
Eu não acho a doçaria japonesa particularmente rica. Como resumiu para mim uma senhora brasileira no Japão: “Eles sempre fazem as coisas tudo do mesmo jeito: massa de arroz e açúcar”. Volta e meia, com um cadinho de sabor artificial junto.
Apesar disso, vale entrar na onda do benquisto picolé de melão que você acha nas lojas de conveniências, das coisas com gosto (supostamente) de chá verde (matcha), assim como do café em latinha. Elas fazem parte da experiência de estar turistando pelo Japão.
No mais, se você quiser ir mais a fundo, é só abrir um cardápio num restaurante japonês e se jogar. O céu (?) é o limite.





Aonde ir, e quantas noites em cada cidade? O Japão não é um país tão pequeno assim, então isso dependerá muito do tempo de que você dispõe para viajar. Ele é menor que a Bahia ou Minas, mas 4x o tamanho de Portugal e maior que Goiás ou São Paulo, espichado de norte a sul e bem denso de coisas pra ver.
Uma armadilha comum, da qual 90% dos turistas ocidentais parecem ter dificuldade de escapar, é gastar todo o tempo percorrendo apenas as cidades mais famosas: Tóquio, Quioto e Hiroshima, às vezes com uma passagem breve pelas vizinhas Nara e Osaka, mas ignorando o restante do país. Chega a ser visível a olho nu como todos os ocidentais parecem estar limitados aos mesmo lugares.
Eu não os culpo, pois foi exatamente o percurso que fiz quando vim cá pela primeira vez, mas isso também significa que o grosso do Japão segue aí quase inexplorado, por ser descoberto, e num ambiente muito mais em paz.
Entendo que isso é em parte por o restante do Japão ser bem menos famoso, então vamos tentar equilibrar mais as coisas.

Tóquio sob medida
Não dá para vir ao Japão e não ver Tóquio, mas eu acho que tipicamente as pessoas passam dias demais turistando aí — mais ocupadas em tentar conhecer os seus diversos bairros — à revelia do restante do país. É uma escolha, como visitar a França e ficar só em Paris.
Quem quiser corricar Tóquio em algum detalhe precisa de pelo menos 4 noites. Isso inclui um bate-e-volta a Fuji Kawaguchiko para ver de perto o Monte Fuji. Se quiser fazer também um bate-e-volta até Kamakura, adicione uma quinta noite.
O tradicional bairro de Asakusa em Tóquio com o seu templo Senso-Ji tomam pelo menos um turno, assim como as luminosas ruas de Shibuya e Harajuku tomam juntas uma tarde e noite. Nisso você tem um dia.
Quem quiser ir aos atuais jardins imperiais em Tóquio ou a outros bairros modernos (e cheios de eletrônicos e cultura pop japonesa) como Shinjuku ou Akihabara podem usar o segundo dia para isso. Quem for menos chegado nesse Japão tech e preferir o Japão bucólico pode optar pelo bairro de Ueno e o seu parque. Este é um básico.




Quioto sob medida
Quioto é a sine qua non, a que você não deve sair do Japão sem ver, mas é fácil gastar tempo demais aqui e ficar enjoado de ver templos (se você não for aficcionado).
Eu diria que 4 noites na cidade são uma boa medida. Isso rende dois dias inteiros zanzando por aqui e um terceiro dia a ser usado na característica viagem de bate-e-volta até Nara, que foi a primeira capital japonesa.
Um dia em Quioto pode ser usado para percorrer toda a área de Higashiyama, como fiz em sequência neste post, e o outro dia na cidade pode ser usado para ir ver o Templo Dourado (Kinkaku-ji), o Templo Prateado (Ginkaku-ji), e o famoso Fushimi Inari, dos mil portais.
Isso é um básico. Quem quiser descobrir cada templo que há em Quioto precisará, naturalmente, de todo um período de imersão na cidade. Eu sou a favor de não se exagerar numa primeira viagem e distribuir mais o tempo também em outras partes do país.



Hiroshima ou Nagasaki?
Quase todo ocidental que vem ao Japão cogita ver pelo menos uma das duas cidades japonesas que sofreram ataques atômicos na Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, quase todos escolhem Hiroshima.
Ambas possuem um Memorial da Paz — espécie de museu com objetos, documentos, fotos e relatos das vítimas —, e ambas sem dúvidas valem a pena, mas o contraste no número de visitantes entre uma e outra é gritante. Avalie o quanto multidões o incomodam ou não.
Hoje em dia, em Hiroshima, é difícil quase se mexer direito dentro do memorial, enquanto que em Nagasaki você é capaz de estar sozinho em algumas salas.
Ambas valem a pena, mas eu achei Nagasaki uma cidade bem mais interessante no todo, pois além do memorial atômico, há coisas mais antigas desta cidade que — poucos sabem — foi fundada pelos portugueses e serviu de único entreposto comercial onde os holandeses puderam seguir fazendo comércio com o Japão quando este se fechou ao mundo externo entre 1603 e 1868.


Eu não vejo necessidade de se passar mais que 1 noite em Hiroshima, exceto se você quiser um dia extra para fazer um bate-e-volta até a ilha de Miyajima, famosa pelo seu portal torii parcialmente submerso. Vale a pena se você conseguir incluí-la.
Sugiro que você preveja a sua chegada e saída de Hiroshima de modo a ter pelo menos 2-3h para visitar o Memorial da Paz no mesmo dia da viagem. Não é necessário permanecer um dia inteiro aqui só por causa dele.
Já em Nagasaki você pode passar um dia inteiro ou fazê-la como um bate-e-volta desde Fukuoka, que foi o que eu fiz para poder ver ambas as cidades. Para isso, fiquei 2 noites em Fukuoka.


Outros lugares bonitos e menos visitados pelos ocidentais
Eu não almejo aqui cobrir todo o Japão, até porque há muito que não conheço ainda, mas abaixo vão algumas cidades que visitei pessoalmente e são bastante subestimadas, quando não completamente desconhecidas da maioria dos estrangeiros.
Kanazawa (2-3 noites) definitivamente é uma delas. Cidade histórica com várias vizinhanças tradicionais ainda de pé, ela também tem um dos jardins japoneses mais belos que já visitei.
Hirosaki (1 noite nela própria ou, mais facilmente, em Aomori) e Hakodate (1 noite) são também lugares pouco visitados onde quase não vi ocidentais, e que têm na opinião de alguns os mais belos lugares onde ver cerejeiras em flor.
Sapporo (1-2 noites), a capital da ilha de Hokkaido no norte do país, é caso você queira um clima mais urbano-padrão, com amplas vias e grandes parques. Não é um lugar onde se demorar muito, mas tive a curiosidade de conhecê-la.



Okayama e Himeji são outras cidades — bem próximas uma da outra — e que muitos ocidentais costumam ignorar.
Ambas são notórias por seus castelos, que se fato impressionam. Eu diria que se pode visitá-las num bate-e-volta desde Quioto, Osaka ou Hiroshima, ou se pode permanecer 1 noite, caso se queira vê-las num passo mais lento.
A dinâmica de estar numa destas cidades menos cotadas é bem diferente do modo “turistão” rodeado de outros estrangeiros numa cidade como Tóquio ou Hiroshima. Eu me sentia ainda às vezes o ocidental “perdido” ali em meio ao Japão real.


Ao fim e ao cabo, quanto tempo se deveria passar numa primeira viagem pelo país?
Evidentemente, vai da escolha de cada um, mas eu diria que 2 semanas são um tempo razoável a quem deseja fazer uma imersão digna sem necessariamente parecer que já está morando no país. Os mais empolgados com tudo o que diz respeito ao Japão podem curtir uma terceira semana.
Seja como for, lembro aos navegantes que o JR Pass está disponível por durações fixas de 7, 14 ou 21 dias, então se você pretender fizer uso dele, vale muito a pena planejar a duração da sua estadia de acordo.

Idioma & trato com as pessoas. Os japoneses são provavelmente o povo mais educado do planeta, mas é aquela polidez impessoal. Nos hotéis, você não aprenderá o nome de ninguém. Darão os bons dias automáticos, um tanto como em hotéis de grandes redes em São Paulo ou Brasília. Nos albergues (hostels), a coisa é mais achegada, mas nada demais.
Eu sei que não se vem aqui necessariamente para fazer amigos, mas é que às vezes se peca pelo excesso de formalidade, e você acaba recebendo inúteis respostas automáticas em lugar de alguém que realmente empatiza com a sua necessidade numa dada situação. Via de regra, prepare-se para um tratamento cerimonioso — mais do que em outros países da Ásia.
Gênero e idade são coisas bastante observadas e, em certa medida, inescapáveis aqui. Os mais velhos são tratados com um respeito maior e as pessoas do gênero oposto, com certa distância segura.
Os japoneses estão aprendendo cada vez mais inglês, e eu me surpreendi de encontrar funcionários fluentes no idioma em quase todos os hoteis, assim como nos aeroportos e museus, pois este não foi sempre o caso quando eu visitei em 2013.
Não fiquei lost in translation hora nenhuma. Só não espere bater papo em inglês com qualquer um.

Umas palavras finais: Uma sociedade em crise, num país que segue sendo singularmente interessante
Se ninguém ouviu o soluçar de dor no canto do Brasil (como cantou Clara Nunes), tampouco o ouviram por detrás da polidez japonesa que tanto encanta os estrangeiros. Por vezes, é como se por detrás daquele ohayô goizaimasu! animado se deixasse transparecer um cansaço, um certo ar sofrido que não se demonstra.
O Japão que era a economia mais dinâmica e avançada do mundo na década de 1980. Cativou minha geração com sua produção cultural, mas de lá para cá tombou de 2ª a 4ª economia do mundo e breve será a 5ª (detrás de EUA, China, Alemanha e, breve, Índia).
As exigências da dita vida moderna numa sociedade envelhecida, somadas ao aumento do custo de vida com o iene desvalorizado numa economia que mal cresce há 30 anos, levam alguns idosos a preferir a cadeia para pelo menos ter companhia e muitos jovens a se isolar da vida, no apartamento ou na pura fantasia.
Não se enganem: o aumento do turismo é uma forma de pelo menos remediar parte da estagnação econômica, ainda que tenha o seu preço social nesta sociedade tão habituada — historicamente! — a estar fechadinha nela mesma. É o que em parte faz do Japão o que ele é, admitamos.
Não conheço nenhum estrangeiro que jamais tenha me recomendado ele como país onde morar, mas sei que, para visita turística, poucos se comparam. Como ranqueei recentemente, é dos meus países favoritos que há no mundo.

Espero que este guia de observações recentes e de dicas possa ser útil a outros. Persistindo alguma dúvida, é só pôr abaixo nos comentários.





amei rever o Japão.
Encantada pela sua beleza natural, pelos seus belos recantos, linda vegetação…
Belíssimos templos, Impressionantes Budas…
E todo o encantamento das suas paragens maravilhosas….
PuJante História…
Belíssima viagem….
Destaque para o encanto das cerejeiras na sua floração…. um verdadeiro poema….
Amei.
Belíssimo relato! Pude ter uma idéia mais realista das atrações para uma futura viagem ao Japão.
Muito obrigado pelas informações.
Obrigado, Paulo! Seja sempre bem-vindo.