(Este será um post longo.)
Estão vendo aquela ponte? Ela é a Ponte das Américas, o que poderíamos chamar de ligação entre as Américas Central e do Sul, por sobre o Canal do Panamá.
“América Central”, por supuesto, é uma abstração humana. A do Sul, não. As Américas do Norte e do Sul são continentes de placas tectônicas diferentes, com histórias geológicas distintas e que se só se colidiram há 3 milhões de anos, quando emerge do mar este chamado Istmo do Panamá — este trechinho de terra que se conecta à Colômbia.
Oh terra visada!
Não há, evidentemente, uma linha no chão a indicar quando acaba uma massa de terra e começa a outra, mas este que é o ponto mais estreito (meros 65 Km) entre os dois oceanos — e, justamente, onde em 1914 se concluiu este canal de ligação — pode ser pensado como uma divisa.
Há outros que preferem pensá-la onde a fronteira do Panamá se encontra com a da Colômbia, no meio da selva, mas aí já é um produto da política e da História, não da natureza.


Em 2025, o Sr Trump resolveu lançar ameaços de nova invasão aqui (após as já ocorridas em 1903 e 1989) para retomar o controle desta passagem estratégica. As pessoas despertaram novo interesse, então talvez seja uma boa hora para falar mais daqui.
Eu já havia vindo ao Panamá na década passada, após em 2014 eles celebrarem os 100 anos do canal, e fui ao Centro de Visitantes onde é possível ver suas eclusas em operação e o tráfego de embarcações. (A menos que você seja um romântico da engenharia, adianto que não há nada de grande coisa a se ver).
Entretanto, o Panamá não é só isso. Tampouco é apenas a sua capital, a Cidade do Panamá. Mesmo a capital tem bem mais que o canal, e desta vez eu finalmente descobriria mais do seu legado histórico.
Primeiro, entretanto, se me permitem e a quem se interessar, apresento um breve prólogo sobre a situação deste Canal do Panamá para que lhes sirva de contexto.

Prólogo: A rebordosa com o Canal do Panamá
Qualquer pessoa que, como diria minha avó, “alisou banco de colégio” sabe que os EUA começaram a fazer frente às potências europeias no século XIX para serem eles os donos da bola aqui nas Américas.
Em 1823, proclama-se a chamada Doutrina Monroe (“a América para os americanos“), pregando que os EUA se viam na legitimidade de envolver-se em quaisquer conflitos contra potências coloniais europeias no continente. Só que, à época, eles ainda eram um país modesto. Foi somente no apagar das luzes daquele século XIX que o Tio Sam começou a ter mais bala na agulha.
Os EUA já haviam abocanhado do México nos anos 1840 os territórios que hoje correspondem à Califórnia, Utah, Arizona e Texas, mas foi somente em 1898 que começam a ter aventuras ultramarinas. Apossam-se do Havaí, de Porto Rico e das Filipinas. (Eu tratei em mais detalhes do caso filipino numa postagem lá).
Neste novo expansionismo, uma das ambições era encurtar a jornada das mercadorias que iam de navio desde Nova York até o Panamá para atravessar o istmo por terra e pegar outro navio no lado Pacífico até a agora próspera Califórnia pós-corrida do ouro. Isso sem falar nas embarcações que davam a imensa volta na América do Sul, parando em Valparaíso no Chile no caminho.

A inspiração
A ideia de se construir um canal ligando estes dois oceanos, a saber, não é nova: ela existe desde 1513, quando o explorador espanhol Vasco Núñez de Balboa cá esteve.
A Espanha por séculos navegou ambos os mares, mas usava o México como entreposto, com a cidade de Veracruz no Atlântico e Acapulco no Pacífico, de onde saíam naus até as Filipinas — aonde levavam prata americana para a China em troca de porcelanas, sedas e especiarias. Era a versão espanhola do que os portugueses faziam contornando a África.
Foi somente com a construção do Canal de Suez no Egito ligando o Mar Vermelho ao Mediterrâneo em 1869 que as pessoas ficaram ouriçadas para repetir o feito cá também nas Américas.
Lá havia existido um canal rudimentar ensaiado pelos faraós e completado propriamente pelos persas ainda na Antiguidade, mas agora um canal moderno dava aos comerciantes europeus imensos lucros, já que não mais precisavam contornar a África.

Os franceses se lançam à obra
Procurando um novo desafio (e novos lucros), foi a mesma empresa francesa que resolveu se lançar aqui num novo empreendimento, em acordo com a já independente Colômbia.
O atual Panamá era parte do território colombiano, que se estendia até a Costa Rica. Ali mais a norte, após sua independência da Espanha, havia se formado uma República Federal da América Central (envolvendo os atuais Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Honduras e Costa Rica), mas que se fragmentou em disputas internas azeitadas por flibusteiros norte-americanos, como detalhei aqui.
A máxima de “dividir para conquistar” é antiga, segue desde sempre em voga e ainda voltaria a se fazer presente.
Em 1881, após angariar fundos e a necessária autorização em Bogotá para construir o canal e extrair por 99 anos os lucros dele numa concessão, os franceses deram início à obra.

Dos franceses aos norte-americanos
A tentativa de construção foi um grande fiasco. Dezenas de milhares de trabalhadores morreram com febres tropicais como dengue ou malária. As chuvas torrenciais deste trópico úmido também tornavam a tarefa aqui bem mais árdua que no Egito.
Os engenheiros franceses recusavam-se a se ver envolvidos nesta obra faraônica, e o capital para terminá-la foi aos poucos se esvaindo.

Os norte-americanos, entretanto, sob o presidente McKinley (1897-1901) estavam cada vez mais “potência global” e se entusiasmaram em ser os que terminariam o feito e reteriam o controle sobre esta passagem estratégica.
McKinley foi assassinado por um anarquista em Buffalo e assumiu o seu vice-presidente, Theodore “Teddy” Roosevelt, tio avô do mais famoso Franklin D. Roosevelt, que foi presidente dos EUA durante a Segunda Guerra.
Teddy dobrou a aposta imperialista no que ficou conhecido como o Corolário Roosevelt e sua política do Grande Porrete (Big Stick).
A filosofia era, nas palavras de Roosevelt, a de “falar manso e levar consigo um grande porrete“, o que nada mais era que uma versão mais moderna da antiga diplomacia do canhão — ou seja, a coerção.
Em 1903, os gringos portanto propuseram à Colômbia o controle sobre a região do canal não apenas por 99 anos como queriam os franceses, mas em perpetuidade.
Isso não caiu bem em Bogotá. O senado colombiano rejeitou a proposta, o que então levou então os EUA à velha tática de dividir para conquistar: apoiaram um movimento secessionista da elite local para fazer desta região da Colômbia um país soberano que assinaria o acordo nos termos desejados.
Naquele ano, aportaria aqui a marinha de guerra dos EUA para assegurar a independência de um novo país chamado Panamá, e que seria protetorado seu até a Segunda Guerra Mundial.

O Canal do Panamá depois de feito
Levaria-se ainda mais de dez anos após os episódios de 1903 até o canal ficar pronto e ser inaugurado em 1914. Como lhes disse, este ficou sendo formalmente um protetorado dos EUA até a Segunda Guerra Mundial. Passada a guerra, entretanto, as vozes panamenhas contra esta presença extraterritorial estadunidense aqui aumentaram.
O estopim foi quando o Egito nacionalizou seu Canal de Suez em 1956, e os EUA chegaram a exercer pressão sobre a França e a Inglaterra para que não tentassem tomá-lo de volta. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, e os panamenhos não deixaram a notar a hipocrisia ianque, já que aqui eles não queriam largar o osso.
Houve protestos ao longo dos anos 50 e 60, com mortes de civis panamenhos e de militares norte-americanos, até que em 1977 o então presidente Jimmy Carter assinou um tratado que passaria o canal à plena jurisdição panamenha em 1999.
Ainda antes disso se cumprir, em 1989 os EUA trouxeram seus marines aqui uma vez mais para derrubar o então presidente Manuel Noriega, que havia sido um dos ditadores alinhados com os Estados Unidos, mas com quem a relação azedou ao longo dos anos 80.

Os marines foram embora, em 1999 a base militar norte-americana foi fechada, o Panamá retornou ao caminho da democracia e desde 2000 uma companhia estatal sua administra o canal — embora, como em tantos portos mundo afora, haja terminais de um lado ou do outro do canal concedidos à iniciativa privada.
Entra em cena o Sr Trump, que em 2024 disse que Jimmy Carter foi um tolo ao presentear os panamenhos com o Canal e que o tomaria de volta, já que este agora estava sendo controlado pela China. Oi?
Alegou também que o preço da travessia — que não é gratuita — estava muito alto. Ora, quem não gosta de uma catraca livre?
O gigante asiático é mesmo o segundo maior usuário do canal (após os EUA). Por aqui passam, por exemplo, navios chineses levando as commodities do Brasil pra lá, e há empresas de magnatas de Hong Kong aqui que, segundo os jornais, estão agora sendo auditadas mais de perto.
Não há evidência de interferência política de Pequim, mas sabemos que os EUA querem sempre as suas empresas no controle das coisas (vide o caso do TikTok).
O presidente panamenho José Raul Mulino, por sua vez, retrucou que não houve “presente” nenhum e que o controle panamenho sobre seu território foi resultado da luta de uma geração por soberania.

Dê no que der, o Panamá é mais que apenas um canal de água sob disputa. É uma gente com sua História e cultura — que, inclusive, são bem semelhantes à nossas. A minha sensação nesta viagem aqui seria a de estar em família.

Chegando de novo ao Panamá, o mais “americanizado” dos países da América Central, pero no mucho
Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina, “todas duas eu acho uma coisa linda”, como cantaram Alceu Valença e tantos outros na música de Jorge de Altinho.
Já este lado de cá desta outra ponte, a Cidade do Panamá, eu não acho lá grande coisa. Ou pelo menos assim era quando eu desembarquei — depois eu mudaria um pouco de opinião. Não sei se quem mudou neste caso foi o rio ou o homem 10 anos depois.
Era hora de eu reencontrar minhas impressões da viagem anterior e coletar algumas novas.

O Aeroporto Internacional de Tocumen no Panamá continua a ser aquele shopão, aquele Ciudad del Este envernizado, um lugar de eletrônicos, muito Duty free e poucas amenidades. Desafio você a encontrar bons lugares onde fazer uma refeição ali. No muito, achará um Starbucks escondido.
À saída, passando pela aduana que poucos cruzam, já que o Panamá é mais ponto de passagem que de destino, vi que eu estava até reclamando de barriga cheia. Após o desembarque (como também no andar dos embarques) não há absolutamente nada além de táxis, caixa automático, e pessoas com plaquinhas de nomes a zanzar.
Há também um balcãozinho de informações — dos mais curiosos que já consultei na vida.

O balcão de informações fica bem afastado, bem num canto do saguão, como que estrategicamente localizado para não ser encontrado.
Ali, e mui de acordo com essa filosofia, atendia uma moça com aquela atitude de quem não gosta de atender e tem preguiça de dar informação. Explicava a um homem antes de mim que o táxi para onde ele queria ir custaria “bastante”, e que não, não havia preço tabelado, e que perguntasse aos taxistas que eles informam.
Chegou a minha vez. Eu sabia que o hotel onde eu ficaria desta vez era bem próximo do Canal do Panamá, então o usei como referência.
Franzi o cenho, com aquele ar de quem está conversando com doido, na hora que o doido começa a deixar de fazer sentido no que diz.
— “Ah, o Canal do Panamá fica bem distante. Porque nós estamos do outro lado, no outro extremo da cidade”, disse plácida a moça morenita de unhas pontudas pintadas e cílios a piscar, um olhar de preguiça de conversar.
— “E quanto sai um táxi até lá?”, indaguei. (A saber, há Uber no Panamá, e é recomendado, mas eu estava aqui a trabalho e seria reembolsado. Queria, portanto, conveniência.)
— “Mais de quarenta dólares”, disse ela forçando ar de exatidão na resposta inexata. (Curiosamente, o chute dela foi mais alto do que a proposta do próprio taxista). “Leva mais de 1h30 daqui até lá”, inteirou a doidinha.
Franzi o cenho, com aquele ar de quem está conversando com doido, na hora que o doido começa a deixar de fazer sentido no que diz.
Deixei-a, e dentro de instantes achei um táxi para fazer uma corrida de meros 30 minutos até o meu hotel à beira do famoso Canal do Panamá. (Eu lhes mostrei ele em mais detalhes na minha vinda anterior a esta cidade.)

O taxista disse que me faria 38 dólares a corrida, o que o fez materializar ali duas moedas com a cara de um conquistador espanhol estampada.
O Panamá usa, na prática, o dólar americano como moeda, mas formalmente a moeda nacional é o balboa. Não há cédulas, as cédulas são os dólares gringos, mas há moedas com a cara de Vasco Núñez de Balboa — que valem o equivalente a um dólar, mas que você não deve levar consigo para fora do Panamá, exceto se for como souvenir, já que elas só são aceitas aqui.
— “Usted sabe quién fue Vasco Núñez de Balboa?”, indagou-me o simpático motorista, um coroa moreno como eu, senhor de seus 55 anos e que fazia o tipo do senhor gordinho que gosta de conversar. Exudava vontade de falar-me sobre Vasco Núñez de Balboa, o espanhol na moeda.

— “Foi um dos conquistadores espanhóis?”, levantei eu a bola para ele cortar.
— “Si, claro, y muy celebrado, pero era un matador criminoso”, disse ele sem muita emoção, mais com um ar de divertimento pela curiosidade mórbida de se celebrar alguém assim. “Todo 12 de octubre, cuando hay el Día de la Raza, la gente intenta tombar la estátua”, riu ele. “El gobierno pone la policia para cercar el lugar”.
Aos que não se aperceberam, 12 de outubro foi o dia do ano em que Cristóvão Colombo chegou às Américas. O festejo obviamente é antigo, mas no começo do século XX — por ideia espanhola — passou a ser celebrado pelos países da Comunidade Iberoamericana como Dia da Raça. Na Espanha, é feriado.
Fruto de um período em que tudo era visto como raça (visto os judeus, uma religião, passarem a ser vistos então como uma “raça”), a referência inicial era à “raça espanhola” (?).
Mais recentemente, os países da América Latina têm adaptado o nome a Dia do Respeito à Diversidade Cultural (Argentina), Dia dos Povos Originários e do Diálogo Intercultural (Peru), Dia da Resistência Indígena (Venezuela), e por aí vai.
Houve também quem desse um golpe de judô nos espanhois, como fez o México, para celebrar a mestiça raça latino-americana.

Proseei com o taxista sem nunca perguntar o seu nome, como é comum também no Brasil que se converse horrores sem que as partes se apresentem, e me dei conta de como tantos modos e normas sociais latino-americanas são mesmo semelhantes através de todas estas fronteiras políticas que ainda nos separam.
Ao longo de meia hora, o cidadão veio falando de tudo e todo, sobre como os espanhois também trouxeram negros da África para trabalhar aqui; de como os gringos devolveram o Canal do Panamá ao Panamá, só que não; sobre como continuam no comitê gestor e com prerrogativas que ninguém mais tem; e que havia visto no Instagram que dois submarinos norte-americanos haviam recentemente cruzado rumo à Europa — talvez para perto da Ucrânia.
“Os chineses não te dão nem a hora quando você pergunta, vão te dar ponte de graça?”
Comentei com ele que havia ouvido no voo que um navio leva 15h para cruzar o canal.
“Una mentira”, vaticinou. “Ali se puede quedar esperando hasta tres dias, pero para cruzar son 8 horas” — o que depois verifiquei na internet ser verdade mesmo.
Comentou que os chineses quiseram construir gratuitamente uma ponte sobre o canal na entrada dele, e que era só pilha para atentar os norte-americanos — que vetaram a obra. “Os chineses não te dão nem a hora quando você pergunta, vão te dar ponte de graça?”, riu.
Disse que o plano de eles construírem um canal alternativo pela Nicarágua afundou porque lá levaria muito tempo, três dias para cruzar, e cruzando um lago de onde os nicaraguenses tiram água para beber — o Lago Cocibolca, que eu até conheci de perto na histórica cidade nicaraguense de Granada.
Terminou comentando que, quando era pequeno, assistia a filmes de cowboy com o pai aos fins de semana e se dizia que nunca trabalharia aos domingos, que o domingo seria para descansar e a vida toda fazer isso.
E cá estávamos, era domingo, e ambos nos regozijávamos da pista vazia que tanto provava errada a moça das informações com o seu devaneio de 1h30 para chegar até o canal.
“Pero la verdad es que no me gusta trabajar el domingo”, disse ele em ar de quem confessa.

Não demoraríamos a chegar ao hotel, ao que pedi o recibo e ele deu seu nome: Miranda — certamente um sobrenome.
“Ah, deixe-me colocar também o número da placa”, e foi aí que ao desembarcar eu me dei conta de que ele tinha duas placas ajustadas no carro, montadas uma sobre a outra como aqueles dentes na boca de quem precisa fazer correção dentária. Era possível lê-las ambas, mas incrível como a polícia deixava aquilo passar.
“Uma é a placa de nascimento do carro, e a outra é dele como táxi. No dia que eu não quiser mais rodar como táxi, eu arranco”, completou Miranda com quase orgulho na voz. Surreal.
Fazia 27 graus no ar ao que eu desci do carro, um fim de manhã tropical úmido e nublado. Miranda havia me dito que há turistas de partes secas que vêm cá e “se emocionam com a chuva”. Não eu.
Cheguei ao hotel e relaxei. Depois eu iria ao Casco Viejo, conhecer onde moram a beleza e a história da Cidade do Panamá.


Visitando o centro histórico da Cidade do Panamá, seu chamado Casco Viejo
Casco em espanhol também é uma forma de se referir a um bairro, sinônimo do barrio deles. Não raramente, vem mesmo como Casco Viejo para designar algum bairro histórico, e na Espanha há “Cascos Viejos” em várias cidades. Nas Américas, é sobretudo aqui na Cidade do Panamá que a alcunha persiste.
Não estamos falando de uma área muito grande, pois que estas cidades de antigamente não eram tão extensas, mas de um bairro simpático com algumas ruas e quadras como um Pelourinho de Salvador ou as cidades históricas do interior de Minas.
Só que aqui se seguiu o padrão espanhol de ruas sempre retas que se cruzam perpendicularmente formando uma grade, como nas cidades mexicanas e diferentemente do curvo Brasil.
No mais, tudo é muito parecido no seu jeito barroco e colonial. É, sem sombra de dúvidas, o lugar mais agradável onde passear na Cidade do Panamá.


Na viagem anterior, eu dei apenas uma passada breve de carro por aqui com um taxista — um daqueles com quem você acerta um preço camarada e ele resolve lhe dar uma volta de cortesia para mostrar isso ou aquilo da cidade.
Desta vez, eu retificaria aquela falta dando um passeio a pé por aqui, como deve ser. (Também tive a impressão de que o lugar ficou mais arrumado de lá para cá).
Este bairro fica a sul de todo o miolo moderno da Cidade do Panamá, entre ele e os arredores verdes do Canal. Pode ser o tipo de trajeto custoso no tempo e no preço se você tiver que fazê-lo nas horas de pico devido ao tráfego, péssimo aqui como em tantas cidades que dependem demais de transporte rodoviário.
Entretanto, desta vez eu estava hospedado bem pertinho — próximo ao Canal —, e uma vinda aqui me saía menos de US$ 4 de Uber (os táxis, em comparação, geralmente querem pelo menos US$ 10 para ir a qualquer lugar).


Deixou-me ele na Plaza Herrera, uma daquelas bem arborizadas praças cercadas de casario colonial comuns nestas cidades históricas. Aqui, uns flamboyants cumpriam a missão de trazer alguma cor ao que era um dia deveras cinzento, aquele céu de chumbo que não parece que vai mudar hora nenhuma.
Havia chovido, e algumas poças ainda se faziam presentes no chão. Volta e meia, ameaçava um chuvisco — não dos fininhos, mas aqueles pingos grossos que são prenúncio de chuva pesada. Eu olhava pra cima como no filme Don’t Look Up a esperar o ameaço, se vinha ou não.
Não havia lá grande movimento. Notava-se que a Cidade do Panamá não é exatamente turística, então nada da ebulição vivaz de um centro histórico de Bogotá nem daqueles outros que seguem funcionando como centro da cidade atual, como em Quito — isso para ficar em países próximos.
Pelo contrário, havia uma certa atmosfera de quietude, como num domingo à tarde (pois que era mesmo domingo à tarde) em que o grosso das pessoas da cidade foram ao shopping e alguns poucos resolveram fazer algo mais cultural e ao ar livre. Vendedores aqui e ali persistiam sem muita graça, e visitar as lindas igrejas coloniais e demais paragens era uma tranquilidade.


Minha primeira parada foi a Igreja de São José, que afora o seu lindo altar barroco estava com uma exibição de esculturas religiosas em madeira e toda uma espécie de presépio com várias passagens bíblicas envolvendo São José. Parecia mesmo uma honra ao carpinteiro — talvez a mais singela que já vi.





A riqueza artística aqui se revelava maior do que eu imaginava. Boa parte estava dentro de igrejas, mas não toda ela. A beleza arquitetônica dos exteriores era também impressionante.


Ainda era começo de tarde, e eu não havia almoçado, então resolvi dar providência disso antes de prosseguir.
Há um número já razoável de cafeterias da moda e restaurantes voltados ao público turista, e deles eu não desgosto, mas não me furto a preferir algo mais de raiz quando encontro.
Foi aí a sorte de eu chegar à praça principal (a Plaza de la Independencia) e encontrar ali vários toldos e barracas. A maioria delas vendia artesanato, mas no meio vi umas mulheres negras e bem gordas — que pareciam três irmãs — acompanhadas de panelões que claramente tinham coisas apetitosas a vender.
Numas duas ou três mesas daquelas coletivas postas uma ao lado da outra em fileira, uma ou duas pessoas se sentavam sob o céu nublado com um frasco plástico de pimenta sobre a mesa.

Perguntei às três irmãs o que é que havia ali de bom para comer. Faziam pratos feitos que incluíam uma carne, feijão com arroz, e una ensalada. Qualquer semelhança com o Brasil, mais uma vez, não é mera coincidência. As tradições alimentares reconhecem culturas e não fronteiras.
Viajando pela América Latina, eu me dou conta de que 90% daquilo que julgamos ser essencialmente nosso é, na realidade, uma herança coletiva partilhada com nossos irmãos falantes de espanhol. (Eles tampouco o sabem, e ficam chocados de aprender que no Brasil é igual.)
Basta eu dizer que conhecia e muito bem aquilo que elas ofereciam para beber: garrafinhas de raspadura con limón, o que nada mais era que uma boa e velha garapa adoçada com rapadura. Senti-me em casa.
De quebra, a melhor parte: banana-da-terra frita, que eles aqui pela América Central comem até com mais frequência que nós no Brasil.


Sentei-me à mesa onde já havia uma família latina com ares de estar turistando, com um senhor branco de ar ligeiramente introspectivo e adoentado, mas cordial; uma senhora que conversava menos que o marido; e dois jovens de seus quase 30 anos que eu não sabia se eram irmãos ou um casal.
Estando nós na América Latina, não demoraram a puxar conversa comigo. Acho que o pivô foram uns guardanapos de que precisei e que me ofereceram.
Revelaram-se equatorianos, e ficaram animados ao saber que eu era do Brasil. A moça, bastante bonita — e do tipo que sabe que é — fazia um pouco o estilo gomelo como se diz na Colômbia, aquele jeito meio patricinha de quem adora tirar milhões de selfies e fazer pose, mas tinha a cabeça no lugar. O rapaz ao seu lado se revelou o irmão, que parecia ter mesmo outra orientação sexual. Eram boa gente.
Quem mais se interessou em puxar papo foi o pai, que entre uma coisa e outra sobre o Brasil, me indagou sobre a notícia dos discos voadores que caíram em Curitiba.
Eu disse que não tinha (ainda) ouvido falar disso não, e ele comentou que leu a respeito.

Entre uma esguichada de molho de pimenta e outra no meu arroz com feijão, fui terminando a comida e o papo. Eles se foram ainda antes de mim, e atravessei a praça para visitar a Catedral Metropolitana.




Esta e todas as demais igrejas que vi aqui eram gratuitas e com ar condicionado, o que era de fato uma bênção para quem estava circulando no úmido exterior.
Aqui estamos numa latitude equivalente à do Recife (esta no hemisfério sul e a Cidade do Panamá no hemisfério norte), e o calor úmido da beira-mar é semelhante — sobretudo nestes dias encobertos, com jeito de estufa.
As pessoas por quem eu passava eram quase todas de feições mais indígenas que qualquer outra coisa, salvo uma ou outra de aparência mais africana. Quase todos eram invariavelmente mestiços, como no Brasil, na Venezuela e na Colômbia. O eco do canto das três raças não se deteve nas fronteiras modernas.
Claro, dentro disso você ainda tem discrepâncias visíveis: no Chorrillo quase todo mundo é mais negro que qualquer outra coisa, e aqui no Casco Viejo eram de aparente puro sangue indígena alguns vendedores pobres — novamente como em Pindorama —, mas havia poucos que podiam reclamar qualquer pureza ou herança apenas de um lado.





Um dos lugares outros a se ver neste centro histórico é a Praça Simón Bolívar, que se chamava Praça São Francisco até se celebrar em 1926 o centenário do Congresso do Panamá, quando o libertador convocou as várias nações americanas recém-independentes para construir um tipo de federação.
À ocasião, em 1826, as respectivas elites de cada lugar pareciam ainda muito ciosas do que era seu e do poder que agora passavam a exercer sem a supervisão da Espanha. O Brasil, por sua vez, era um império e demonstrou pouco interesse em se unir às repúblicas vizinhas.
Afora uma estátua daquele que liderou o movimento de libertação do que viria a se tornar Colômbia, Venezuela, Panamá e Equador (que eram unidos num país chamado de Grã-Colômbia até 1831), temos também uma bela Igreja de São Francisco de Assis.
Essa igreja é originalmente do século XVII, mas terremotos e incêndios trataram de destruí-la bastante. O que se tem hoje data da década de 1910, com altares e estruturas que lembram mesmo a arte dessa época, como Lourdes na França.




Vida que segue, para aqueles de nós que seguem deste lado de cá a caminhar com pernas, e assim fui eu a descobrir mais deste Casco Viejo.
Havia muitas partes quietas, como o Teatro Nacional, as ruínas de uma antiga igreja da Companhia de Jesus, um pequenino Museu de História do Panamá, e a ponta deste centro histórico de onde se tem uma vista tanto para o mar quanto para o centro moderno da cidade com seus prédios.





O Museu de História do Panamá é gratuito e bem pequeno, daqueles que você visita todo em 30 minutos no muito. São apenas algumas poucas salas. (Em meio a elas, um providencial banheiro).



Eu havia ficado ali um tempo admirando a vista. Não me interessei demais pelo artesanato, em parte porque os preços não eram exatamente camaradas, e também porque eu daqui teria ainda um longo roteiro pela frente após o Panamá e não queria me encher de coisas já no primeiro dia para carregar a viagem inteira.
Fui portanto retornando às primeiras praças que havia visto — inclusive, antes que a chuva caísse ou que ficasse escuro, já que eu teria que passar por El Chorrillo de novo nessa volta ao hotel.


De volta à Plaza Herrera, onde o Uber anterior havia me deixado, conectei-me ao wi-fi gratuito e chamei um novo.
Para comer mais tarde, levava comigo uns bolinhos fritos que se revelariam brutalmente oleosos comprados das mesmas mulheres que me venderam almoço mais cedo.


O Canal está no centro da identidade panamenha, mas ele está longe de ser tudo o que estes 4.5 milhões de pessoas e o seu país representam.
Era um deleite poder conhecê-los melhor.
Desta vez, eu, ganhava melhor impressão daqui que na viagem anterior, quando minhas andanças pela cidade foram pelasas suas partes modernas, nos shoppings “americanizados” — ou gringados, como eles dizem melhor aqui, já que América nós também somos, e há mais tempo.
Minhas andanças por este recanto da América Latina continuaria.
Eu comecei falando da ponte, e dizendo que gostava de Juazeiro e adorava Petrolina. Acho que posso agora botar o Panamá no bolo.
Não a sua cobertura sem graça de pasta americana (à qual já deveriam mesmo dar outro nome), de Tocumen e dos shoppings, mas o que está por debaixo — la maza.






Disco voador em Curitiba?? hahahah
Lindinha a cidade do Panamá.
Histórica.
Belissimas as igrejas.
Bem arrumadinha a cidade. ótimos lugares para passear.
Belissima a ponte assim como a área do canal.
A Catedral ‘é muito bonita.
E belas praças.
Lindinhas as fantasias.
Um charme a cidadezinha.
Valeu
Que espetáculo magnífico todo esse registro histórico feito pelo jovem viajante.!… Portentoso, detalhado, esclarecedor, impar!….
E com os comentários concernentes e indispensáveis à compreensão adequada das causas e consequências de vários fatos históricos. Excelente.
Parabéns, meu jovem pela exposição dos motivos, alguns desconhecidos pela maioria , que moveram várias decisões acerca de ações na região.
Apreciei bastante.
Riquíssima e Histórica a postagem. Uma verdadeira aula de História regional e mundial.
Eita norte-americanos!… Sua ambição e prepotência parece não ter limites.
E ainda hoje se vê através das ameaças do atual presidente. quem sabe um dia as coisas mudam. Esperança não se deve perder.
E que maravilha esse Casco Viejo…. Lindíssimo….. Belo resgate histórico. Quanta arte e requinte nas belas Igrejas e que simplicidade nas ruas marcadas pelo tempo , muitas dessas melhoradas para o turismo. Uma maravilha. Adorei.
Parabéns. Uma riqueza de postagem sobre uma região histórica pouco conhecida ,e de importância vital para o mundo cultural e contemporâneo.
Valeu, meu jovem,