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Costa Rica

Voltas por San José, a capital da Costa Rica

(Este será um post longo.)

Embora tantos saibamos da sua existência, a Costa Rica é um país com que boa parte de nós só começou a ter alguma familiaridade na década de 2010, quando ela começou a despontar no futebol. 

Bandeira da Costa Rica no mapa
A Costa Rica na América Central.

Enquanto destino turístico, ela é um lugar visado bem mais pelos vizinhos a norte — Estados Unidos e Canadá — que por seus parentes latinos a sul. Espanhois e mexicanos vêm cá em certo número, mas sul-americanos e demais lusófonos somos ave rara.

A Costa Rica — mui continental, com o oceano Atlântico de um lado e o Pacífico do outro — é uma ilha de organização, democracia e desenvolvimento econômico na bagunçada América Central, notória pela infraestrutura precária, segurança pública duvidosa e política conturbada, que mistura golpes, revoluções, contrarrevoluções e demasiados governos autoritários.

Vide Guatemala, El Salvador e Honduras, onde visitei belezas culturais e naturais, mas que não são lugares onde eu moraria.

Já a Costa Rica deixa até o Brasil no chinelo em certos aspectos de organização, enquanto que em outros é uma colega de mesmo nível, com méritos e deméritos similares aos nossos.

Ela é uma pequena notável na América Latina, famosa sobretudo pelo ecoturismo (cachoeiras, paisagens, vulcões, matas nubladas), mas também pelo agroturismo (valorização de café, chocolate, agregando valor a quase tudo o que eles plantam), com algo breve de histórico e legado artístico para terminar de temperar.

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O ecoturismo é um dos carros-chefes aqui da Costa Rica, famosa por suas matas enevoadas.
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Há paisagens que lembram o Brasil, e outras diferentes — como esta escalada que eu faria mais tarde a um dos vulcões do país.
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O café costarriquenho é dos mais famosos. Embora seja um produtor módico em termos de volume (já que o país é pequeno), o seu grão é dos mais valorizados.

Inicialmente, eu lembro que fiz pouco caso dos chamarizes da Costa Rica. Afinal, muito disso — café, ecoturismo — tem no Brasil.

Em 2020, antes de a pandemia virar pandemia, eu estava organizando uma viagem para cá com uma amiga canadense que queria passar pelo menos duas semanas inteiras na Costa Rica, um país que é do tamanho do Rio Grande do Norte.

Eu achei aquilo um exagero. Duas semanas neste país miúdo? Hoje, vejo que ela tinha certa razão.

Eu finalmente vim sozinho, anos depois, para passar quase aquele tanto de tempo — e teria passado mais. Descobri que a Costa Rica é realmente rica.

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Peças seculares de arte indígena centro-americana num dos museus de San José, a capital.
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Interiores do Teatro Nacional da Costa Rica, que é aberto à visitação pública.

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Primeiras impressões por San José, na manhã seguinte à chegada

Há quem o diga por aí, más línguas internet afora a sugerir, que San José não merece o seu tempo, que pode ir embora tão rápido quanto chegou, e somente usá-la como ponto de partida para seu ecoturismo no interior, mas um exagero míope isso é.

San José pode não ser exatamente uma Cidade do México ou uma Buenos Aires, onde se deter por vários dias, mas definitivamente há o que mereça um ou dois dias inteiros por aqui — afora os bate-e-volta que se pode fazer, como veremos em tempo.

San José é uma cidade de médio porte, com 1,8 milhão de pessoas (dos 5,2 milhões habitantes da Costa Rica) na sua área metropolitana. Em muitos aspectos, ela lembra certas capitais estaduais do Brasil — e às vezes me evocou Santiago do Chile ou Bogotá na Colômbia, só que com um clima tropical úmido distinto dos dessas duas. 

Eu havia chegado tarde à noite, após longa viagem desde a Cidade do Panamá, como lhes narrei no post anterior, e no albergue fui recebido pela tranquila proprietária, uma morena senhora elegante de seus quase 60 anos, evidentes feições cafuzas, cabelos trançados atrás e certo ar de classe média — aquela cordialidade sem grande calor.  

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Meu bairro em San José se encaixaria facilmente em muitas cidades do Brasil. Havia uma familiaridade latino-americana naquele ambiente.

O albergue

A dona era uma pessoa um pouco distante, aquele ar sorumbático de viúva.

Ela combinava mesmo um tanto com a pinta do lugar, um estabelecimento com ares de que já tinha visto dias melhores, mais animados.

O albergue estava asseado e bem decorado, mas vazio. Meu quarto, um dormitório para oito pessoas com quatro beliches, teria apenas eu esta noite. As plantas tropicais é que davam certo ar da graça nas áreas comuns, apesar das muriçocas que lhes faziam companhia.

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O simpático e colorido interior do albergue, que entretanto estava deveras vazio — aquele vazio em que você ouve e vira a cabeça quando escuta passos de alguém.
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A manhã e minha esquina, da sacada com flores. 

No dia seguinte, eu conheceria Darjeli (dizia Dardjéli), a moça do café da manhã, que tinha outro astral e evidentemente não vivia ali.

Darjeli era da Nicarágua, uma das muitas imigrantes que vieram tentar a vida cá no vizinho mais rico.

Era uma moça de seus quase 40 anos, uma morena com certo ar simples de doméstica. Não deixava de ter, contudo, certo amor-próprio que levava junto com um sorriso discreto. Fazia o tipo de pessoa que pensa mais do que fala e que, quando fala, o faz de forma pausada, escolhendo as palavras que diz.

Perguntei-lhe de onde é que vinha esse nome, Darjeli, enquanto ela me trazia o inusual café da manhã de granola com frutas e iogurte — coisa mesmo de albergue para turista estrangeiro, que já en la calle (na rua) os costarriquenhos comem doutras coisas, mas isso veremos a seguir.

— “No lo se“, respondeu-me ela sem aparentar estar muito preocupada em desconhecer a origem do próprio nome. Havia algo de familiar naquele nome, mas só no dia seguinte — quando eu já não a veria mais — me caiu a ficha que vinha de Darjeeling, a cidade da Índia que dá nome a um chá.

Conversaríamos um pouco mais, pois eu sempre me atraio por histórias de imigrantes. Quase que involuntariamente, me pego quase entrevistando a pessoa sobre impressões entre um país e o outro.

— “Nós os nicaraguenses é que trabalhamos de sol a sol neste país, nas colheitas e em todo o trabalho pesado que os costarriquenhos não querem fazer“, explicou-me ela com um leve sorriso de orgulho.

O “de sol a sol” era pronunciado com capricho, naquele espanhol que tanto enfatiza o L mais do que nós.

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Meu bairro em San José tinha o mesmo jeito meio bacaninha de certas áreas de cidades brasileiras.

Darjeli tinha jeito de ser uma pessoa espirituosa no dia-dia, mas eu não a veria mais. Por agora, era preciso ir seguinte.

Afortunadamente, como eles gostam de dizer em espanhol, fazia mesmo um belo dia de sol. Eu estava numa área bacaninha de San José, com ares de zona residencial semi-comercial de classe média que se avizinha do centrão, aonde eu iria a pé. 

E o que há para se ver em San José, afinal de contas?

Permitam-me listar: o Teatro Nacional da Costa Rica, o Museu do Ouro Pré-Colombino, a Catedral Metropolitana, o Museu de Jade, a Igreja das Mercês, entre outros. Veremos todos esses aí, afora o lado mais mundano da capital costarriquenha.

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O saguão de entrada neoclássico no Teatro Nacional da Costa Rica, uma das principais atrações de sua capital.

Batendo perna: Um centro bem à brasileira

Saí, e debaixo daquele agradável sol matinal latino-americano eu desci as ruas me aproximando do centro, onde as atrações todas se concentram. 

Gostei dos arredores desta área onde fiquei hospedado, que parece ser mesmo o melhor bairro onde ficar — entre o centrão e o parque La Sabana. Deste parque parte o Paseo Colón, que junto com a Avenida do Libertador Juan Rafael Porras são as artérias principais da cidade.

A saber, Juan Rafael Mora Porras (1814-1860), apelidado Don Juanito, foi o 2º presidente da Costa Rica, benquisto por ter derrotado os flibusteiros estadunidenses que vandalizavam a América Central no século XIX. Um notório William Walker chegou até a se autodeclarar presidente após botar fogo numa cidade histórica. Senhor Mora Porras foi quem resolveu o imbróglio.

(Eu detalhei esses acontecimentos no meu relato em Granada, cidade histórica da Nicarágua. Como curiosidade, o personagem de Ed Harris na série Westworld, o William com seu traje preto, foi inspirado nessa figura histórica).

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San José começando a lembrar os centros de alguma cidade grande do interior do Brasil, como Belo Horizonte ou Curitiba.
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Quando o Paseo Colón muda de nome para Avenida Central, a muvuca começa. Eis ali hasteada a bandeira costarriquenha. Em espanhol, eles dizem costarricense.
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A Igreja das Mercês numa praça conjugada a um terminal de ônibus. A mesma zona que no Brasil, com você olhando por cima do ombro enquanto caminha na rua.

Havia uma quantidade grande de McDonald’s, KFC e Pizza Hut neste centro e quadras vizinhas, mais do que estou habituado a encontrar pelo Brasil.

No mais, a sua dinâmica era praticamente a mesma das cidades brasileiras: a pessoa com o microfone na porta da loja chamando os transeuntes, a igreja celebrando missa envolta naquele centro comercial, os ônibus arrancando na rua fazendo barulho, o pedestre tendo que dar preferência ao carro, e o calor úmido idêntico.

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Este pedaço do centro me lembrou até Feira de Santana. Apenas as palavras em espanhol me provavam que não era. Esta América Latina está toda no mesmo barco, sujeita aos mesmos balanços, só ainda não percebeu isso. (Como brinca de futurologia uma página que sigo no Instagram, “Em 2045 o Brasil descobrirá que é parte da América Latina”).

Havia indigentes nas ruas, em geral de aparência mais negra ou indígena, pois o Canto das Três Raças também se canta aqui, com aquelas melodias belas e soluços de dor, todos muito parecidos. 

Havia banquinhas vendendo loto e banquinhas vendendo frutas — yes, nós temos bananas aqui também, e abacates grandes que aqui recebem maior destaque que no Brasil —, vendedores com a cara menos branca que os compradores, via de regra.

Aliás, embora mais próximos dos EUA, os costarriquenhos são menos colonizados que nós nesta coisa de categorização racial, os brasileiros tantos tendo sucumbido àquele estreito esquadro gringo que só identifica branco, negro como qualquer um que não seja puro branco, e índios residuais. 

De espanol y mestiza castiza
O espanhol, a mestiça e a castiça, num quadro de 1763 do pintor Miguel Cabrera.

Já aqui na Costa Rica, eles exploram a riqueza de toda a terminologia latina para as várias misturas que a realidade impõe, e curiosamente têm até o termo castiço (castizo) para designar alguém mestiço com a dominância das feições europeias. 

É o reverso do que seria o pardo, supostamente o mestiço com dominância de feições afro na atual e incompletíssima classificação do IBGE no Brasil — a que faz com que o Estado do Pará tenha supostamente 75% de “negros” e menos de 1% de indígenas, o que os críticos chamam de genocídio racial estatístico da matriz ameríndia na população brasileira, um termo que achei justo.

Deixemos para lá por ora essas incongruências.

Ao que eu passava pela Igreja das Mercês, a que aparece numa das fotos acima, fazia enfático a sua homilia um padre que eu não sabia se era um gringo radicado aqui ou costarriquenho, já que no sotaque daqui se rola o R à mesma moda caipira do Brasil, e falam mesmo Costa Rrrica como os anglófonos dizem Rio.

Fui então passear primeiro e deixei para visitar essa igreja com mais calma após a missa. Nisso, vi uma bela banana-da-terra frita exposta num balcão de lanchonete à beira da calçada e não resisti.

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Banana-da-terra frita com queijo em cima (plátano con queso) em San José, na Costa Rica. Coisa de Deus. (Troquei eu a missa por outra manifestação divina. A Divindade, de fato, se nos apresenta de mil maneiras.)

A guloseima me custou perto de US$ 2, ou para ser exato, mil colones, a moeda costarriquenha. É do dinheiro mais colorido e bonito que eu já passou por estas minhas viajadas mãos.

A saber, as coisas aqui na Costa Rica não são necessariamente baratas. Um suco batido, destas suquerias de centro de cidade, sai por US$ 3 ou quase R$ 20.

Papeei um pouco com os funcionários da bodega e, merenda feita, fui ter com Deus na sua casa — a ver agora um outro tipo de arte.

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Na lanchonete do centro de San José com as suas frutas, sucos e lanches.
Dinheiro da Costa Rica
O colón é a moeda da Costa Rica. As cédulas são todas de plástico e bastante coloridas. Um dólar flutua na casa de 500 colones. Cinco mil colones dá uns 60 reais.

Visitando as atrações de San José, Costa Rica

A Igreja das Mercês, talvez a mais bela de San José 

Voltei eu à igreja onde o padre talvez gringo fazia a homilia. As pessoas agora se dispersavam naquele fim de missa, entre aqueles que ainda não haviam ido embora e visitantes que chegavam.

Embora não seja a catedral, esta Igreja das Mercês (Iglesia de la Merced) é talvez a mais bela e notável da capital costarriquenha.

Ela é considerada patrimônio histórico do país. De 1894, se destaca como edificação artística no meio do centro moderno barulhento e sem-sal que infelizmente caracteriza tantas cidades latino-americanas nas últimas décadas.

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A neogótica Igreja das Mercês em San José, Costa Rica. Sua arquitetura externa foi inspirada na Alemanha.
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O interior da Igreja das Mercês, que por dentro é de um neogótico bastante vivo.
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Motivos florais que, embora a maioria das pessoas não se apercebam disso, remontam ao medievo árabe. Depois é que foram adotados nas decorações europeias.
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A vista para o altar-mor após o fim da missa.
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Os vitrais por detrás da imagem de Nossa Senhora das Mercês. Vitrais, a saber, são uma técnica do Oriente Próximo, que já se via de forma mais modesta nas primeiras igrejas cristãs sírias dos séculos IV e V. Os persas continuaram a utilizá-los nas suas mesquitas, e os cruzados franceses no século XII trouxeram o estilo à Europa para formar o que se chamou de gótico. (Notre-Dame, a quem não sabe, foi inspirada na basílica síria de Qalb Loze, do século V).

Sua Catedral Metropolitana

A poucas quadras dali das Mercês já se tem a Catedral Metropolitana de San José. Esta é toda neoclássica, com colunatas de ambos os lados no interior, onde aqui as pessoas se abanavam pelo calor.

Aos leitores católicos que podem se perguntar a quem ela é dedicada… bem, São José.

A catedral data de 1878, fim da época em que o neoclássico esteve em voga. Esse estilo foi comum na Europa do século XVIII, mas a gente sabe que na América Latina as tendências de fora costumam sempre chegar tardiamente.

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A praça principal de San José, com este coreto meio modernizado (em forma de tamborete gigante) e a fachada da catedral ali atrás. É um lugar de beleza modesta.
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A Catedral Metropolitana por fora. Este exterior tem mais tamanho que beleza. Já por dentro…
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Por dentro, a catedral de San José é um esplendor.
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Colunatas que vão até o altar-mor sob a abóboda neoclássica.
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As figuras da Santíssima Trindade — Deus pai, Jesus e a pomba iluminada do Espírito Santo — ilustrados ali. Uma figura de Nossa Senhora e, mais adiante na esquerda da foto, uma imagem de São José com o Menino Jesus.
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Vitral da Sagrada Família. São vitrais claramente modernos, mas muito bem feitos.
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A piedosa morte de São José, nos braços de Jesus e Maria, chama-se esta ilustração. Os mais curiosos talvez se indaguem “É mesmo, quando foi que José morreu?“. A Bíblia não conta. Só se sabe que José não está mais presente quando Cristo começa a pregar e, depois, quando morre. Supõe-se portanto que José tenha morrido antes de Jesus iniciar o seu ministério.

O Museu do Ouro Pré-Colombino

Os indígenas das Américas dominavam a metalurgia e faziam peças douradas mais finas e puras que os europeus. O ouro não estava só lá enterrado quando Colombo desembarcou. A questão é que, como detalhei numa postagem nos Andes, os ameríndios não utilizavam a metalurgia para fabricar armamentos, o que acabou lhes deixando em desvantagem.

Então aqui temos uma belíssima exibição de peças artísticas centro-americanas de antes da chegada dos espanhóis, num museu muito semelhante ao Museu do Ouro em Bogotá, na Colômbia.

A visita vale a pena, mas aqui na Costa Rica os museus são a preço de Europa — ao menos para visitantes estrangeiros, já que nacionais têm um desconto. A entrada me saiu mais de 8.000 colones, o equivalente a US$ 16 dólares.

Caso você não o veja de primeira, ele é um museu todo subterrâneo, na praça ao lado do Teatro Nacional da Costa Rica e pertinho da Catedral Metropolitana. Este é um centro relativamente compacto de atrações.

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A entrada pouco notável deste museu na praça — mas por dentro ele é esplendoroso.
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A figura de um indígena com seus adornos dourados. Foi daí que, nestas vizinhanças da Colômbia, surgiu entre os espanhois a lenda do El Dorado, uma suposta cidade de onde proviria todo este ouro. (El Dorado acabou se tornando o nome do aeroporto de Bogotá).
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Miniaturas indígenas em ouro.
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Riqueza de detalhes nos adereços dourados.
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Peças várias.

Uma curiosidade é que o ouro encontrado na natureza não vem puro, ele geralmente está misturado com cobre ou prata.

Só que esses metais têm pontos de fusão distintos, e os indígenas sabiam aquecê-los em repetidos processos de mistura e resfriamento de tal maneira que o cobre ali presente oxidava em reação com o ar. Eles então limpavam aquilo para atingir altos graus de pureza do ouro, que reluzia mais ao sol. 

Achei curioso também notar a forte presença de motivos de rãs aqui, que como na Amazônia brasileira, têm essa simbologia do místico e espiritual — vide serem a figura mais comum nos muiraquitã, aqueles amuletos de pedra dos ameríndios da bacia amazônica. Parece-me uma constante desta grande matriz cultural que vai desde aqui a América Central até a Amazônia e os Andes.

Há quem diga que isso se deve ao fato de os sapos e rãs serem anfíbios e habitarem o mundo da terra e de debaixo d’água, como fazem os pajés entre este mundo terreno e o espiritual, mas suponho que, ao menos em alguns lugares, isso se deva também ao uso de substâncias alucinógenas das rãs como gatilhos para outros estados de consciência. Entre os incas no Peru, por exemplo, esse era — e ainda é — o caso.    

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As rãs são figuras constantes entre os motivos artísticos nestas vizinhanças da Amazônia. Talvez se trate apenas de serem anfíbios, símbolos da transiência entre o terreno e o “aquático” espiritual, mas muitas secretam substâncias usadas pelos indígenas como alucinógenos para alcançar estados alterados de consciência.
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Peças do Museu do Ouro Pré-Colombino em San José, na Costa Rica.
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Este tripé de cerâmica com motivo de jabuti data dos idos de 300 a.C. a 300 d.C.
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Jarros mais recentes, de 800-1500 d.C., em formatos de tatu ou ave. Se eles lembram em algo a cerâmica marajoara, talvez isso se deva a possíveis trocas de saberes e de influências artísticas naquele período pré-colombino. Não estamos tão longe assim.
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Outras figuras várias de cerâmica neste Museu do Ouro Pré-Colombino.
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Bem-servidas estarão nossas pátrias e aqueles que as herdam, se hoje sabemos conservar, amar e investigar o patrimônio milenar que tornou possível nossa própria existência“, palavras de Ricardo Quesada López-Calleja (1929-1994), ele que foi um visionário costarriquenho, fundador do Comitê de Defesa do Patrimônio Nacional, defensor do meio ambiente e das riquezas culturais de seu país.

Pausa para o almoço

Pausemos nosso tour um instante.

Nada como um almoço daqueles de centrão, um prato feito que inclua feijão com arroz e um refresco. É uma constante América Latina afora. O feijão com arroz, em particular, é predominante desde o Brasil, passando pela Colômbia, até se fazer novamente “comida nossa de cada dia” aqui na América Central. 

Ao longo desta nossa viagem pela Costa Rica, vocês verão disso diversas vezes.

Por ora, eu me sentava numa destas bodegas de rua com uma televisão ligada. Eu via passarem as ticas, belas morenas de cabelo escuro comprido, assim como observava os homens daqui naquela mesma “linda” moda de blusa de malha sintética de manga comprida que pegou no Brasil recentemente.

(A quem ainda não viu o post anterior, expliquei que ticos são como se apelidam os costarriquenhos.)

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Os trejeitos do centrão aqui. Era domingo, então algumas casas começavam a fechar no começo da tarde. Pela manhã, todavia, tudo ainda havia estado em ebulição como se fosse meio de semana.

Há bastante desse chão cimentado nas calçadas, ao lado das ruas de asfalto, postes, tons demasiado cinzas no chão, frequentemente sob um céu também cinzento, com um excesso de outdoors e placas de comércio em meio à fiação.

As avenidas me lembraram certas partes de São Paulo, Lima ou mesmo Quito, só que com um clima mais úmido.

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Meu almoço. São servidos? Aquele copázio de refresco me lembrou as aguitas que se tomam no México.

Ao que havia visitado o Museu do Ouro e parava aqui para almoçar, eu já estava de olho na bilheteria para os tours guiados oferecidos no Teatro Nacional. É a forma de visitá-lo.

Todos os dias há tours guiados das 9-16h — mas isso é em tese. Hoje, por alguma razão era só a partir das 13h, e a bilheteria só abriria às 12:30. Há certa irregularidade, então o melhor é vir se informar no próprio dia para confirmar, algumas horas antes da visita.

A compra não se dá online, se dá presencialmente, mas não deixe para em cima da hora, sobretudo se fizer questão de um idioma específico (inglês ou espanhol). Eu cheguei às 12:45, e só havia vaga para as 15h em inglês ou 16h em espanhol. É assim. 

Comprei por 3.500 colones (o equivalente a uns US$ 7) o meu ingresso para logo mais. Peguei para as 15h porque não queria ter que esperar demais. Enquanto isso, fui visitar o também belo Museu da Jade aqui na capital.

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O Teatro Nacional da Costa Rica oferece visitas guiadas pelo seu interior. Vale muito a pena, como veremos mais a seguir.

O Museu da Jade em San José, Costa Rica

O Museu da Jade (Museo del Jade) é talvez o mais bonito que há em San José. O do ouro tem peças belas e é sem dúvidas interessante, mas talvez porque eu já havia visto o Museu do Ouro em Bogotá e as coisas do daqui são praticamente iguais, o Museu da Jade me impressionou mais, Lucas.

Ele me custou outra paulada de US$ 16 dólares a entrada. Como falei, são preços para turista gringo. Aliás, este e o do ouro poderiam bem ser dois pisos de um mesmo museu, dada a semelhança — e para não termos que ir a dois lugares diferentes e pagar duas entradas caras. Mas c’est la vie.

Estiquei então eu as pernas por ruas mais ermas e um tantinho afastadas do miolo do centro naquele começo de tarde em que San José ia ficando quieta. O Museu da Jade fica a algumas quadras do centro do centro, exigindo que você passe por aquela urbanidade meio decadente, parecendo certos bairros de São Paulo no fim de semana.

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Nos arredores do centro de San José, que já ia se esvaziando neste domingo à tarde. Sigamos.
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Leia com atenção.
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Aquela urbanidade meio deprê que infelizmente caracteriza tantas metrópoles latino-americanas hoje em dia, mas eis ali — em cinza — finalmente o Museu da Jade em San José.
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Por dentro, há belos e amplos interiores.

Por dentro, este Museu da Jade se revela bastante belo — e impressionante ao reunir coleções que vão desde obras dos olmecas da Antiguidade anterior a Cristo até peças mais recentes, de 500-600 anos atrás, do período da chegada dos ibéricos cá. 

Ornamentos em jade são evidentemente o carro-chefe do museu, mas ele é extenso e tem quatro andares também com artesanias em cerâmica, semelhantes às vistas no Museu do Ouro Pré-Colombino. (Como eu disse, poderia ser tudo um museu só, como o magnífico Museu de Antropologia da Cidade do México).

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Ornamentos de jade e uma figura olmeca apelidada de “cara de bebê”, que se estima datar de 900-1.800 a.C (!).

Os olmecas, a quem perdeu aquela aula de História, foram a primeira grande cultura mesoamericana. Perdurou do segundo ao primeiro milênio antes de Cristo onde hoje fica o sul do México.

Dizem que eles foram dos grandes criadores de muitas das tradições e saberes que mais tarde se perpetuariam com os maias, zapotecas e outras culturas da Mesoamérica (área cultural que compreende a atual América Central e o México). 

Em dada altura, estima-se que no fim do primeiro milênio d.C., esses mesoamericanos de cultura centrada no cultivo do milho e de tradições distintas das amazônicas então migram ao sul, permeando-se pelo que é hoje a Nicarágua e chegando até aqui a atual Costa Rica. 

A Costa Rica é, portanto, uma zona fronteiriça onde essa matriz cultural mesoamericana e a amazônica e andina se encontraram. Se foi esta última que trouxe para cá da América do Sul a metalurgia do ouro, foram os mesoamericanos que trouxeram consigo — séculos antes — o uso da jade.

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A jade é uma rocha verde ao qual diversas culturas do mundo adscreveram grande valor estético e espiritual ao longo da História. Na China, ela é há milênios vista como uma pedra imperial, enquanto que na América Central ela antecedeu o ouro como objeto de requinte e valor.
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Vários ornamentos de jade, trazida cá à atual Costa Rica pelas culturas mesoamericanas de mais ao norte.
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Uma pulseira antiga de jade em detalhes.

Você fica com vontade de obter um bocado de coisa de jade e levar pra casa, sem dúvida. Só que jade autêntica é bastante cara. 

É por isso que, já desde essa época pré-colombina, os indígenas tinham o que a arqueologia costarriquenha se refere como “jade social”, pedras outras semelhantes à jade e mais acessíveis, como o quartzo verde, calcedônias e obsidianas. 

“Jade social” continua existindo, talvez hoje até mais do que nunca, então saiba o que está comprando por aí.

(Sorry, não sei como diferenciar no olho. Só comprando de um lugar confiável. Ou contente-se com a jade social — só não pague preço de jade autêntica por isso.)

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Cerâmicas indígenas daqui.
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Mais figuretas — algumas até bem engraçadas. São quatro andares de Museu da Jade, o que fica um tanto repetitivo após a primeira meia hora, mas é bonito e vale a visita.

O Teatro Nacional da Costa Rica

Terminada a visita no Museu da Jade, era finalmente chegada a hora de eu estar a postos para meu tour com hora marcada no Teatro Nacional da Costa Rica, talvez a atração turística mais benquista de toda San José.

É um teatro deveras fotogênico e que lembra em algo as visitas recentes que fiz por outros teatros contemporâneos, também do fim do século XIX, como o Teatro Colon em Buenos Aires, o Teatro Solís em Montevidéu, o Teatro Amazonas em Manaus, o Theatro da Paz em Belém do Pará, e — por supuesto — a Ópera Garnier em Paris. (Embora mais famosa, saiba que tampouco ela é a origem desse estilo — a origem é italiana. A Ópera Garnier se inspirou no Teatro alla Scala de Milão.)

Só que, de todos, eu achei este tour daqui o mais criativo e divertido, pois os guias fazem uma certa pantomima teatral com roupas de época.

Vamos chegando. Já a própria cafeteria do teatro é bela, e muito benquista, ela que à época da inauguração era acessível apenas aos homens. A das mulheres era uma outra separada do outro lado do hall de entrada.

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Vamos chegando. O tempo havia fechado, mas o teatro finalmente estava aberto. Ele por dentro é bem mais bonito que por fora.
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O saguão de entrada do Teatro Nacional da Costa Rica.
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A cafeteria do teatro, que hoje é acessível a todos. Tem um ar mais mundano do que certamente tinha há 100 anos atrás, mas preserva sua estética. O teto, em especial, lembra as coisas da Europa. Não é sempre fácil achar mesa, mas vale entrar mesmo assim para dar, no mínimo, uma olhadela.

Não demoraria a nos coletar ali naquele saguão de entrada Valentina, a nossa animada guia, uma tica de seus vinte e tantos anos, cabelos lisos escuros e óculos. 

— “Todo bien? Pura vida?”, entoou ela em bom espanhol antes de cambiar para o inglês, já que estávamos no tour neste idioma. 

Eu não comentei com vocês ainda, mas os ticos têm um xodó pela expressão pura vida, que eles usam para tudo — um tanto como o nosso “beleza pura” no Brasil, só que mais versátil. Na Costa Rica, há mais usos para pura vida que para Neston. Serve de resposta ao “Como vai?”, serve para descrever algo agradável (“Pura vida!”), e serve até para alcunhar a outra pessoa: “Como vai você, pura vida?” 

Valentina foi nos contando como a partir de 1832, a Costa Rica já independente da Espanha desde 1821, houve um boom do cultivo de café, que se tornaria seu principal produto de exportação. Não demoraria para que os barões mandassem seus filhos a estudar na Europa e retornar com influências de lá, como a ideia de construir este teatro.

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Vamos entrando.
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Olhem a riqueza de detalhes.

A construção teve início em 1891, quanto o Teatro Amazonas no Brasil e tantos outros também estavam em processo de edificação. Embora as 87 lâmpadas do auditório tenham sido feitas aqui mesmo na Costa Rica, quase todo o restante dos materiais veio de navio da Europa e depois de trem até São José — incluso o mármore italiano de Carrara para as estátuas.

Em 1897, poucos meses após aquele de Manaus, o Teatro Nacional da Costa Rica era finalmente inaugurado para os barões costarriquenhos do café, como os teatros amazônicos foram feitos pelos e para os barões da borracha no Brasil. 

O estilo estético é plenamente europeu, ainda que com motivos daqui em algumas partes. O auditório tem a mesma arquitetura italiana em forma de ferradura de outros teatros dessa época.  

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Vamos subindo, por escadarias que lembram as da Ópera Garnier de Paris, inaugurada em 1875 e que certamente inspirou os filhos da aristocracia costarriquenha que iam estudar na Europa.
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O auditório para até 700 pessoas no Teatro Nacional da Costa Rica. Valentina ali nos apresentaria agora os detalhes.
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A arquitetura de inspiração italiana em forma de ferradura.
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Os vários andares que, claro, denotavam o status social de cada um. O terceiro e último andar era para o povo, e era o único que não tinha exigências de vestimenta.
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Pintura de estilo rococó no teto do auditório.

Não faltaram artistas italianos convidados a realizar as obras que viriam a decorar este teatro.

Um deles foi Adriático Froli (1858-1925), que passou boa parte de sua vida pela América Latina, e aqui fez a estátua de um anjo com coroa de louros chamada O Triunfo da Música, que está no salão nobre (foyer) onde a aristocracia da época se reunia nos intervalos, e onde ainda hoje se realizam certos eventos de gala. 

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Vamos lá para o alto, ao salão nobre.
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O salão nobre ou foyer do Teatro Nacional da Costa Rica, com a escultura O Triunfo da Música, pelo italiano Adriático Froli. O lugar é um charme.
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A esta altura, Valentina já havia se vestido em trajes da época, fazendo-se de dama da sociedade daquele período.
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Pantomima com um dos colegas dela, que se passava por barão do café.

Uma curiosidade é que neste foyer fica a pintura mais famosa deste teatro, chamada de Alegoria do Café e da Banana (1897), que o pintor italiano Aleardo Villa (1865-1906) foi instado a fazer usando motivos costarriquenhos.

O problema? Aleardo vivia na Itália e jamais havia visitado a Costa Rica. Num alheamento, aleado, coitado, pintou plantações de café à beira-mar (sendo que o café se cultiva nas serras) e bananas de cabeça para baixo no cacho.

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Alegoria do Café e da Banana (1897), do pintor italiano Aleardo Villa com motivos da Costa Rica. O milanês, entretanto, jamais havia visto bananeiras ou cafezais de perto. Pintou bananas de cabeça para baixo no cacho e cafezais a beira-mar. Ficou uma coisa meio da imaginação, um orientalismo a Ocidente, por assim dizer, um Emília Pérez daquele tempo.

Foi aí que, no começo do século XX, resolveram chamar um costarriquenho para terminar as esculturas que se queriam fazer aqui no teatro. Em 1909, inauguraria-se aqui então a escultura Herois da Miséria (Héroes de la Miseria), do costarriquenho Juan Ramón Bonilla (1882-1944). 

Já que era para retratar bem e com veridicidade a Costa Rica, ele atreveu-se então a retratar os 94% da população que então viviam na pobreza enquanto o baronato do café brincava de estar na Europa. Esculpiu em mármore uma mulher pedinte com a mão em súplica e a criança de colo — um motivo bastante sui generis, que raramente se vê nestas obras. 

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Herois da Miséria (Héroes de la Miseria), escultura de 1909 do costarriquenho Juan Ramón Bonilla, que escolheu retratar uma mulher a pedir esmola com seu bebê, a representar a grossa maioria da população da Costa Rica naquele tempo.

Precisaríamos ir século XX adentro para compreender como a Costa Rica passou de república das bananas (e do café) como tantos outros, com tamanha desigualdade, a lugar moderadamente próspero — mas isso é conversa para outra postagem.

O tour pelo teatro nacional dura 40 minutos, custou-me 3.500 colones (cerca de US$ 7), e vale muito a pena.

Epílogo: Voltas pela Feira do Chocolate

Era fim do meu dia em São José, o primeiro inteiro na Costa Rica, um domingo, e a sorumbática dona do albergue havia me dado a pista de que ocorria uma Feira do Chocolate no estádio este fim de semana. Resolvi conferir.

Em vez de regressar ao albergue naquele fim de tarde quente e com ares de quem ia chover, eu pedi um Uber para o Estádio Nacional. 

Não demorou a me aparecer Dona Celina Maria, uma senhora com cabelo curtinho e ar plácido de quem é bem-resolvida na vida. Ordenou-me que eu me sentasse à frente no banco do carona, não atrás, pois teoricamente Uber é proibido na Costa Rica. 

— “Eu gosto de tomar o meu vinho e fazer minhas viagens, então faço 2h de Uber por dia, quatro vezes, e pronto“, foi me contando pelo caminho, apontando em certo momento para a empresa onde no dia-dia trabalha como gerente da parte de alimentos.

A chuva pegou a cair forte, como naqueles fins de dias de verão no Sul-Sudeste do Brasil. Havia pouca clareza sobre onde estacionar à entrada do estádio, e achei curioso que quando o guarda de trânsito foi assisti-la, achando que queríamos estacionar, ela não teve dedos em dizer “soy Uber” para explicar que só queria me deixar. Vai entender.

Despedi-me de Dona Celina Maria e enfrentei o toró até a entrada do estádio, onde adquiri por outros 3.500 colones (US$ 7) a pulseirinha de acesso à feira. (As coisas aqui na Costa Rica são caras, eu me dei conta mais uma vez. Uma feira assim de artesanias e guloseimas que, no Brasil, não só não fosse gratuita, mas ainda cobrasse R$ 40 a entrada, não ia ver quase ninguém.) 

Esta, entretanto, estava cheia. Paguei o requerido e obtive minha pulseirinha de acesso. Na Costa Rica, faça como os ticos, pura vida.

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Já com meu acesso à Feria de Chocolate em San José.

Por sorte, o grosso do evento era na parte coberta do estádio, não debaixo da chuva. Eles certamente conhecem o clima do seu país.

Fui direto às banquinhas de chocolate, onde vendiam chocolate quente de inspiração tradicional indígena (sem leite), como faziam os maias e vendiam daquelas barras de chocolates especiais com sabor disso ou daquilo (uma mais cara que a outra).

Não fiquei só naquilo e, em espírito de lavagem de égua, fui também à banquinha de sorvete da Taita Helados Artesanales, onde provei sorvetes de taxo e de naranjilla — uma delícia. Ambas são frutas nativas aqui da América tropical, porém raras no Brasil. (E eu acho engraçado que temos, tantos de nós, a pretensão de achar que conhecemos todas as frutas que há na biosfera).

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Tomando o meu chocolate artesanal na Costa Rica. (Saboroso, mas pode ser meio aguado. Não é nada do outro mundo. O mis-en-scène fala mais que o sabor.)

E para não dizer que não falei das frutas…

Naranjilla
Naranjilla (Solanum quitoense), estejam apresentados. Da mesma família do tomate, só que com sabor acridoce. É chamada de lulo na Colômbia, onde fazem tradicionalmente uma batida chamada de lulada, que certamente faria muito sucesso no Brasil.
Taxo ou curuba 02
Taxo ou coruba (Passiflora tacsonia), também chamado em português de maracujá-banana.

Ainda dei umas voltas por ali, comi um sanduíche à guisa de jantar, ouvi música e vi apresentação de dança tradicional. Até coisa parecida com bolo de puba eu encontrei, a me lembrar de casa.

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Parecendo bolo de puba. Não comprei deste, mas eu o reencontraria mais adiante nesta viagem.
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Às voltas no interior da Feira do Chocolate em San José, Costa Rica.

O pequeno país ia me encantando com sua capacidade de fazer acontecer. Para mim, até o momento, a principal mensagem da Costa Rica era esta: um país que sabe se reconhecer e valorizar.

Deixo vocês por ora com uma palhinha de uma das apresentações de dança que vi, e nos reencontramos na próxima postagem para começar a percorrer o interior do país. 

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Voltas por San José, a capital da Costa Rica

  1. Estou aqui vendo a Costa Rica… Muito interessante e bonita. Pelo visto organizada. Surpreendente para nós.
    Estou encantada e com vontade de conhecer.Principalmente os Museus e Teatro.

    E a natureza de San José parece com N-NE do Brasil.

    Gostei do Albergue. Semelhante a um que conheci em Santiago do Chile na Cordilheira. Muito bonitinho e agradável.

    Interessante e também desconhecido esse trabalho braçal de base dos nicaraguense para a Costa Rica e talvez outras regiões…

    Lindinha, a Igreja das Mercês… Parecendo gótica..
    Lindinho esse Altar mor da Igreja… sui generis… e alegre…
    Ótimas as informações… E viva a cultura árabe…
    O viajante dando um show hahaha
    E lindo o interior da Catedral… Elegante, charmoso, alegre…
    Muito bonitos os vitrais. Nada a dever aos europeus, apesar, como disse bem o viajante, de mais simples.
    E que magnífica a fachada do Teatro
    Um banho de História esse pais….
    Lindo esse interior do Teatro Nacional.
    Que chaarme, que elegante, esse Teatro Nacional… uau…
    Que magnífica a fachada do Teatro… Esplendorosa…Imponente…
    Ohhhhhhh… O Museu de Jade… lindo… charmoso…moderno… Pelo visto original e histórico…
    Belíssimas essas peças de jade… Uma riqueza… Eu mesmo nào saberia diferenciar…
    Ora ora…Viva a Itália é sua tradição artístico cultural secular…
    E que interessante esse tour com pantomimas teatrais.. haha
    Que chiques Museu e Teatro
    Parece aquele de Praga…. Charmoso
    O teto da cafeteria parece com aqueles franceses e italianos… Muito bonito…
    Liinda a entrada…Parece estar na Itália…
    Belíssimos os detalhes…
    Que chique… mármore de Carrara… não era pouca a grana não…hahah
    Parece a Ópera Garnier de Paris… Um luxo…
    Interessantíssimo o auditório, parede, teto, disposição artística etc… Grandioso…
    Magnificos o Anjo e o Foyer… Que deslumbre…..
    Linda, a mis en cene
    hahaha Adorei o trocadilho com o aleado artista…
    Dado o esforço e o quilate do artista, e em não se observando a impropriedade de alguns “detalhes”hahah a obra ficou até bonita…
    E belissima essa estatua representando o povo pobre… Magnífica…

    Lindas as panelas de cerâmica…
    Essa fruta parece o abiu, que dá na zona da mata da Bahia, em Santo Antonio de Jesus. Poem o abiu é doce, e polpa macia e branca, parecendo o sapoti, e com caroços parecendo com o sapoti. Uma delícia…

    Adorei o multi uso do Neston hahahah no meio disso hahahhahah e ótimo o uso da alcunha hahah

    Hahahah ..pelo que parece um fuzuê parecido com o que ocorre em muitas cidades brasileiras hahah
    Uau que “magavilha, meu camagada” essa banana frita da bodega hahahah certamente apetitosa hahaha
    hahaha adorei o trocadilho da coisa divina hahaha
    Foto histórica essa da banana maravilhosa, da bodega e da cara maravilhada do viajante brasileiro…hahaha
    Sim sim.. sobre a morte de José, ha alguns escritos considerados apócrifos de tratam. do tema. Lembrando que quando ele casou com Maria e Jesus nasceu, ele ja era viúvo, entrado nos anos e tinha vários filhos..

    Lindo mesmo o dinheiro costariquenho…

    Que bom essa postura da Costa Rica da valorizar suas raizes… Que bom que seu exemplo seja seguido pelos demais países da AL, particularmente o Brasil.
    Que pena essa penúria, que se constata AL afora… Uma chaga social e humana.
    E que horror esse genocídio racial estatístico de que fala o viajante… Desconhecido para quase todos.

    Habilidosos eles ao purificar o ouro…

    Muito interessante essa harmonia de culturas regionais Amazônica, Andina e da Central America/México.
    Manifestações culturais muito parecidas, inclusive com a marajoara.

    E que comilança boa heimmm?… Quem no NE do Brasil não gosta de feijão com arroz ? hahahah. Adorei a comilança… E que arroz bonito… parecendo com o asiático da Tailândia e do Sry Lanka …

    Maravilha essa postagem… Amei… Parabens à Costa Rica pelo exemplo.
    Parabéns ao jovem viajante brasileiro pelo nivel das informações
    Valeu, meu amigo… uma delícia de viagem..
    Viva a América Latina e sua cultura milenar.
    Vamos valorizar o que é nosso. Uma riqueza….

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