Monteverde é bem possivelmente a uma palavra mais buscada aqui entre turistas — até porque as outras todas, Costa Rica, San José, La Fortuna e Pura Vida, são quase sempre duas.
A que se refere? Monteverde é o El Dorado do ecoturismo de interior na Costa Rica, a região do país mais famosa por suas matas nubladas (bosques nubosos ou cloud forests) nas serras.
Só que pode levar tempo até compreender que não há uma cidade (nem pequena, nem grande) chamada “Monteverde”. A pessoa então vai para onde? É aí que então surge Santa Elena, o mui turístico — porém simples — vilarejo que serve de base a quem vem desbravar esta região, a noroeste da capital San José.
Há muitas formas de ir pra lá, que discutirei abaixo. O resumo da ópera é que você pode desembolsar US$ 40-100 por cabeça (a depender do tamanho do seu grupo) num transfer para turistas ou tomar pelo equivalente a US$ 6 o ônibus interurbano de linha — que foi o que eu fiz, como você há de imaginar. O todo da ópera eu conto a seguir.

De San José a Santa Elena – as opções
É tudo muito simples. Parte da internet está mal informada sobre como ir de San José até Santa Elena — até sites dignos de busca parecem fazer confusão neste respeito. Esqueça conexões, baldeações, e esqueça também as ofertas de transfer privado para turista gringo mui nutella que não quer se misturar com o populacho.
Você, meu nobre cidadão, minha nobre cidadã do povo, tem basicamente tem uma opção se quiser ir de transporte coletivo da capital até Santa Elena: a empresa de ônibus Transmonteverde, com duas saídas diárias (6:30 ou 14:30).
A internet diz que esta viagem dura 3h30, mas é mentira. Tanto que a empresa tem a dignidade e transparência de dizer a hora que o ônibus sai, mas guardar um silêncio tático acerca da previsão de chegada.
São ~150Km de viagem, o que leva o razoável tempo de 4h30-5h00 na estrada.

A passagem de ônibus custa o equivalente a US$ 6-8, a depender do câmbio. Sai coisa de 4.000-5.000 colones na moeda costarriquenha. Você compra tudo online pelo site oficial da Transmonteverde. Como eu disse, é tudo muito simples. Sequer há muitas rotas pra escolher no site deles.
Não é preciso comprar com muita antecedência — com sorte, você consegue até para o próprio dia, mas por prudência, sugiro comprar pelo menos de véspera, senão alguns dias antes.
A saída é do Terminal 7-10, talvez o mais (mal)afamado de San José. Se você for no ônibus das 14:30 (quando vão a maioria dos dorminhocos), chegará em Santa Elena com tudo já escuro, então optei pela saída das 6:30. Antes das 6:00, eu estava lá.

No Terminal 7-10 em San José
O Terminal 7-10 parece um lugar meio 25 de março, comercial baixa-renda e baixa-segurança, que o motorista de Uber me falou que fica “feio” com o avançar do dia. “Você escolheu uma hora boa”, disse-me ele ao que estávamos quase estacionando naquela zona comercial ainda com as portas fechadas.
O terminal é relativamente pequeno e com um aspecto baixo-astral. Escadas rolantes quebradas vetavam o acesso ao andar superior, no escuro. Cá embaixo, alguns coroas de crachá ofereciam informação, circulando por ali, assim como um segurança todo armado (de armadura, um colete à prova de balas meio avantajado), além de uma máscara sobre a boca — o que, basicamente, lhe dava um aspecto e olhar de personagem jogável de Mortal Kombat.
Mas era prestativo, e me deu informação.
Eu havia procurado um guichê da Transmonteverde, inutilmente. Rodei, virei, nada. Havia presumido ser preciso trocar o boleto on-line por um bilhete físico, como feito com a TicaBus na Cidade do Panamá, mas isso se provaria desnecessário.
O guarda saído de Mortal Kombat me indicou que a ventanilla (a “janelinha”), ou a oficina, da Transmonteverde ficava no subsolo — que em espanhol, para nos confundir, chama-se sótano, mas é o contrário de sótão.
Desci por escadas do que me parecia cenário de filme de cartel mexicano em Los Angeles, e cheguei a um estacionamento subterrâneo acimentado, onde quase não vi nada exceto janelas onde fazer despacho de mercadorias. Até que, sim, à minha esquerda havia a coisa da Transmonteverde.



O errado foi eu achar que precisaria de qualquer coisa física para embarcar. O cara detrás desse balcão logo me disse que eu não precisaria de bilhete de papel, pois bastava mostrar no celular o bilhete comprado e “fazer o check-in” — e que ele próprio estaria lá em cima logo mais para iniciar o processo, e que sairíamos do andene (plataforma) número 5. Vale.
A esta altura, às 6:00h, já havia mini-mercados e lanchonetes abertas — a despeito do que sugeria o superestimado Google Mapas. E como se trata de comedores centro-americanos, graças a Deus há comida de verdade e não somente comida rápida.
Bati um belo prato de feijão com arroz, huevos rancheiros, queijo na brasa, e banana-da-terra frita. Tudo isso acompanhado de café preto ou com leite, por 3.700 colones ou coisa de US$ 7 no total.

Foi o tempo de ver gente passando, eu fazendo hora, e turistas — obviamente de aspecto turista — com calçados abertos, pernas pálidas e mochilas coloridas nas costas a passar em casal ou em família.
Estaríamos dentro em breve todos na mesma fila, as pessoas a se perguntar em inglês ou em espanhol quebrado (mas tentado) se era mesmo a fila mesmo para o ônibus até Monteverde.
Formamos fila, e logo estaríamos ali embarcando. Primeiro, é preciso ir entregar a bagagem (e não lhe dão recibo nenhum). Só depois é que você entra na fila para o motorista ir vendo o número da passagem (ticket number) de cada um. Não se prestou a pedir documentos de ninguém.



A jornada
Entramos, e o ônibus se mostrou precário. Não tem banheiro nem ar condicionado. (Não me pergunte se tem Wi-Fi).
Minhas pernas cabiam bem apertadas, forçando-me a fazer um manspreading inevitável — aquele hábito masculino de sentar com as pernas bem abertas, tomando espaço da pessoa do lado. Mudei do assento da janela para o corredor pra ver se diminuía o aperto. As janelas também era fumê, então não se vê muito do lado de fora.
Por sorte, o ônibus não ia lotado (ainda). Tive medo — tal qual Regina Duarte — ao imaginar como não ia o ônibus da tarde.

Saímos no horário, o motorista a pôr a rádio nas alturas tocando um mambo, o que levou a protestos mudos da senhora que ia ao meu lado no outro assento do corredor, ela que se referiu ao motorista como cucarachero (eu não conhecia essa ofensa).
Depois, ele abaixou o volume, graças a Deus, mas seguíamos todavia ouvindo tudo que a rádio costaricense nos brindava naquela manhã de segunda-feira de sol.
Íamos pegando gente no caminho, na beira da estrada. Em meia hora, às 7:07, paramos num posto pleno de gente à espera, com ar de esperando o Papai Noel, que é a cara que fazemos quando o nosso ônibus finalmente chega. Estavam sorridentes, como quem faz grupo ali pra aguardar alguém no desembarque do aeroporto. Jisúix. Temi pelas minhas pernas. Valha-me.
Ao menos veio uma moça pequena do meu lado, uma nobre moça que o que tinha de pequena no tamanho, tinha de grande no caráter. (Mentira, não sei, nem conversei com ela).

Eram já 9:25, portanto após quase 3h de viagem, quando fizemos uma parada técnica numa biboca — digo, num destes restaurantes de beira de estrada — à altura de Cebadilla.
Todos têm que descer para a parada de 15 minutos. Lá havia banheiros gratuitos, lanchonete e até restaurante buffet a quisesse algo de mais sustança, além de um mercadinho etc. Havia todo o habitual nesta beira de estrada da Carretera Interamericana.
Foi neste dia que descobri que, na Costa Rica, as empanadas — esta constante em tanto da América Latina — são fritas mergulhadas na gordura, feito pastel no Brasil.



Eles não levam à risca esse tempo de parada, então na prática levamos 25 minutos aqui em vez de 15 — mas fique de olho.
Afora isso, num dado momento da viagem, entrou uma senhora ambulante vendendo chips de banana por 1000 colones (uns R$ 10) o pacotinho. Eu gosto dessa animação a bordo.
Saímos da Carretera Interamericana e tomamos, enfim, a Via 606 rumo a Santa Elena. Eram estradas finas de mão dupla pelas colinas verdes, belas por detrás do vidro fumê, mas também de fazer você se benzer pelas curvas — talvez explicando o afã dos adesivos de “Deus é fiel” no ônibus.
A partir das 9:50, logo que retornamos, já fazia um calor da moléstia dentro do ônibus, mas não havia para onde correr. Foi aí ainda pouco mais de 1h até, perto das 11:00h da manhã, finalmente chegarmos a Santa Elena.





Sobre Santa Elena e as andanças por aqui eu conto na próxima postagem.
Esta viagem de ônibus, se não havia sido das mais confortáveis, tampouco foi sofrência além da conta. Quando começa a cansar, você chega. Eu estava aqui ainda a tempo de almoçar.
Economia muito bem feita, evitando os private shuttles de 100 dólares. Melhor com o povão.




