Temos aí o tricolor vermelho, azul e branco, da Bahia, da França e de tantas outras bandeiras mundo afora, sobretudo na Europa. É também o caso da Costa Rica. Embora não seja europeia, não deixou de ser influenciada e, de fato, goza de um dos melhores níveis de vida da América Latina.
Eu já lhes observei num post anterior que a Costa Rica destoa na América Central. Numa região notória por seus golpes de Estado, narco-gangues e ditaduras, este país é um oásis de estabilidade e prosperidade socioeconômica.
Não vou fazer aqui um tratado enciclopédico acerca disso, mas gostaria de compartilhar com vocês algumas coisas que aprendi conversando com as pessoas, de prosa em prosa, e em visita ao Museu Nacional da Costa Rica neste meu retorno à capital.
Eu havia visitado a região (eco)turística de La Fortuna, feito os passeios que narrei no entorno do vulcão Arenal após passear também por Monteverde, e agora era preciso regressar a San José para começar a terminar esta estadia. Rumemos para o começo do fim.

De La Fortuna a San José — aprendendo no caminho
Há ônibus com certa frequência fazendo o trajeto La Fortuna – San José, e hoje com certa frequência (4x ao dia), como você pode ver aqui. Entretanto, alguns destes horários só foram inseridos há pouco. No dia da minha volta, eu tinha a opção apenas entre um horário de manhã cedo (antes do café) e outro à tarde que me faria chegar já à noite em San José.
Optei então por pagar um pouco mais por um transfer privado, o que se revelou uma faca de dois gumes. Foi quando eu conheci Giovani — meu xará —, um costarriquenho careca de seus 50 anos e que era completamente pinel.
Foi bom que me deu também uma experiência sobre estes vários transfers privados que eles apregoam cá na Costa Rica, ainda que certamente nem todo motorista seja como este.
La Fortuna – San José sai na casa de USD 50-60 se pago em espécie, de preferência em dólares em lugar de colones. Com cartão, te cobram adicional de 13% do IVA.
Estamos falando de uma viagem de 3-4h de carro, que chega a levar 4h30-5h no ônibus. Até que o preço não saiu tão mau. A gente às vezes se permite um tanto mais de conforto — ainda que esta aqui fosse me trazer também algum estresse.

Fomos no carro eu e estas duas mulheres latino-americanas, ambas com certo ar de empreendedora de classe média.
De fato, achei curioso que não houvesse turistas europeus a bordo. Dei-me conta de que aqueles vêm aqui são quase todos mochileiros e, geralmente, optam pela alternativa raiz de ir de ônibus.
Talvez haja às vezes famílias gringas como clientes (certamente há), mas deles hoje aqui não havia. A conversa no carro, portanto, se seguiria todo o tempo em espanhol.

Eu havia terminado meu almoço e retornado à pousada (Arenal Xilopalo) para placidamente esperar ser apanhado naquele começo de tarde quente. Já havia feito o check out do quarto, e estava naquele momento de buenas sentado à recepção, usando o wi-fi e aguardando dar o horário marcado das 14:00.
O cidadão do transfer — contratado através da pousada e já pago de antemão a eles —, entretanto, teimava em não aparecer. Deu 14:20, 14:30… a Costa Rica pode ter seu relativo desenvolvimento, mas não é exatamente a Suíça em questão de horários. Já eu sou bastante caxias com hora, e não costumo firular em questões de logística. Fui então à recepção me assuntar.
— “Mandou dizer que está chegando“, disse-me o rapaz da recepção naquele sossegado jeito latino-americano após mandar umas mensagens no telefone.
Contudo, mais tempo se passaria, e nada. Da segunda vez que indaguei pela demora, o rapaz da recepção já estava constrangido pelo tal motorista que não vinha. Eu, afinal, havia sido hóspede e teria uma avaliação a fazer dos serviços daqui. Quando deu 14:45, eu disse que só esperaria até as 15h e que se ele não chegasse até ali, eu iria querer meu dinheiro de volta e iria de ônibus.
Quando deu 15:00 em ponto, me levantei e, por passe de mágica, o careca chegou à porta. Giovani tinha aquele ar de quem sabe que está errado, mas tenta disfarçar. Fui perguntando se o relógio dele estava em outro fuso horário — porque eu perco a paciência com serviços pagos e mal-prestados —, ao que ele reagiu dizendo que já estava trabalhando desde as 5h da manhã (?) e gesticulando que teve que ir buscar X e Y lá nos cafundós num outro hotel, etc.
Eu achava que motorista profissional levava isso em conta no planejamento dos seus horários, mas enfim. O clima melhorou quando ele se apresentou e descobrimos que tínhamos o mesmo nome.
O rapaz da recepção, envergonhado, então me chamou para restituir uma nota de USD 5 do que teria sido a comissão de 10% da pousada. Eu disse a ele que precisavam ser criteriosos com os serviços que ofereciam, pois se alguém tivesse um voo, estaria em apuros. E aceitei os USD 5 para um picolé depois, porque eu sou um pouco Dostoievskiano e acho que o perdão requer penitência.


Giovani era doido, mas tinha certo juízo — ou talvez eu devesse dizer que ele tinha certo juízo, mas era doido.
Ele fazia o tipo agitado, de olhar arguto, mas inquieto. Fincou o pé no acelerador nestas estradas como se estivéssemos num dos filmes da série Velozes e Furiosos. Parecia saber o que estava fazendo, mas dava um frio na barriga. A mexicana depois, numa parada técnica, me revelaria o seu pavor.
Como todo bom doido, daqueles que suam na testa, Giovani levava sempre ares de que sua cabeça estava em outro lugar, processando algo preocupante enquanto conversava fiado qualquer coisa sobre “onde se come rico“. (Isso em espanhol quer dizer “onde se come bem”, não o que quer dizer em português).
O campo, todavia, era idílico. Havia um quê serrano ali na paisagem.

Giovani veio nos contando que viveu um tempo em Alberta, no Canadá, e que por isso falava inglês fluente — a ponto de frequentemente acharem que ele era um gringo, palavras suas.
Voltou, entretanto, pela qualidade de vida da Costa Rica. A comida, o ânimo, as pessoas. Observava como nos vilarejos e cidadezinhas por onde passávamos sempre havia uma escola pública, uma clínica ou hospital, e um campo de futebol.
De fato, mais de 2/3 da população costarriquenha vive no interior — quase 4 milhões dos 5,1 que há no país. Se eu comparar com o Rio Grande do Norte, estado brasileiro de tamanho equivalente, praticamente metade da população teve que ir para a região metropolitana da capital nas últimas décadas, com o interior empobrecido.
Foram políticas de governo nos anos 1940-1990, sobre as quais eu aprenderia melhor mais tarde no Museu Nacional em San José.

Uma curiosidade é que a Costa Rica não tem exército. Aboliu-o após uma guerra civil em 1948. Sobra dinheiro para daí fazer outras coisas, então o índice de alfabetização é de 97% e há uma espécie de SUS bem financiado, público e gratuito, considerado um dos melhores sistemas de saúde das Américas — a ponto de que muitos estadunidenses vêm se tratar aqui.
No dia anterior, um doa guias do meu passeio pelo vulcão Arenal observou, com razão, que não ter exército aqui é fácil porque a Costa Rica é bem relacionado e, precisando, pode dar uns telefonemas e receber as assistências necessárias. Mas enfim, cada qual joga com a mão de cartas que tem, e eles têm sabido jogar relativamente bem.
Chegamos enfim à capital, ainda com algo pouco de luz do dia no céu. Giovani me deixou à porta do mesmo albergue onde eu havia ficado antes em San José. Ao bom estilo estilo gringo, foi o apregoando que se alguém quisesse lhe deixar uma propina (gorjeta em espanhol), seria bem-vinda — o que eu achei audacioso da parte dele, dada o o atraso de 1h em aparecer e a condução “segura” à là Vin Diesel na estrada.
De quebra, o meu xará doido ainda quase falhou em abrir o porta-mala do carro porque, depois veríamos, ele o havia fechado de modo que ficou preso no encaixe da correia da cintura do meu mochilão, que seguiria rachado daí em diante como souvenir deste doidinho. Enfim, as cicatrizes são marcas de que passamos pela vida.
(Óbvio que, se ele não me compensou pela mochila danificada, tampouco ganhou nenhuma gorjeta.)

De volta a San José, e o fim dos meus dias na Costa Rica
Eu estava de volta ao mesmo albergue onde havia conhecido Darjeli, e da dona viúva que andava sorumbática pelo interior escuro do lugar. As pinturas eram vivazes, em tons estridentes de azul e motivos indígenas, mas o lugar — como a dona — não deixava de trair uma aura de quem já tinha visto dias de mais ânimo.
Sentamo-nos um pouco a conversar nesta noite, ela me contando algo da sua vida, do finado marido, da filha criada, que havia enjoado de ser advogada de resolvido abrir um albergue, e de quando o seu cruzeiro pelo Caribe desembarcou em Puerto Plata, República Dominicana, onde ela me disse que comeu um peixe frito e não viu nada que fosse digno de ser visto.
Outros hóspedes eram rarefeitos, e no meu dormitório só havia um — um rapaz espanhol que parecia mítico, pois na minha estadia anterior ela sempre avisava que havia feito uma viagem e retornaria “esta noite”. Eu dormia com a expectativa de que alguém chegaria ao dormitório na hora miúda da noite, e que eu portanto não deveria deixar minhas coisas tão espalhadas como se estivesse na Mãe Joana, só para na manhã seguinte acordar vendo que não chegou ninguém.
Ele finalmente havia aparecido (e se revelou um cara legal), assim como apareceu também Sara Bax, uma gazela holandesa de seus 20 e poucos, que num outro dormitório parecia um pouco confusa com o vazio do lugar. Tinha a aura mesmo de filha de dono de circo, e o era. Era também cantora profissional, sabia a letra e, mesmo com seu sotaque, entoava Chega de Saudade com ânimo, mais empolgada até que João Gilberto. Você a encontra aí pela internet, pois aqui eu só trato de gente que existe.

Estas peripécias de fotos antigas e de ilustrações mais antigas ainda eu encontrei no Museu Nacional da Costa Rica, onde aprendi mais um tanto. Ele fica próximo ao Museu da Jade, que lhes mostrei antes, mas só agora eu teria tempo de vê-lo. Vale a pena.
O Museu Nacional da Costa Rica tem um pouco de tudo — de borboletas a fuzis e canhões, passando por trapiches de moer cana e obras de arte, além de ornamentos indígenas originais. Afinal, a Costa Rica é mesmo feita de tudo isso aí misturado.
Darcy Ribeiro gostava de falar sobre como o Brasil é fruto dessas mesclas, e original precisamente por isso. Pois, a pequena Costa Rica também. Nossa irmã menor, que talvez tenha até se arranjado melhor na vida e quem conhecemos pouco.


A Costa Rica, a quem não sabe, surgiu como tantos outros países latino-americanos — ibéricos gananciosos por ouro se depararam com terras desconhecidas e trocavam fábulas, algumas verdadeiras, sobre grandes jazidas à disposição.
“Costa Rica” ganhou esse nome precisamente por essa expectativa, primeiro cochichada e depois promulgada numa carta real do imperador Carlos V em 1539 sobre esta terra de Nova Cartago e Costa Rica, então província do que era o Reino da Guatemala — como os espanhois às vezes chamavam suas capitanias-gerais — dentro do império.



Às vezes se fazem leituras idealizadas, utópicas — à maneira mesmo dos escritores europeus do século XVI — acerca das sociedades indígenas pré-hispânicas, como se fossem um paraíso na Terra. Não era esse o caso.
As sociedades indígenas das Américas tinham, sim, vidas mais harmônicas com a natureza, mas a violência entre elas próprias era notória. Vide aí isso de exibir cabeças de gente morta como troféus — para não falar no canibalismo.
Naturalmente, nada disso justifica o fado que viriam a sofrer nas mãos nos ibéricos, sendo escravizados e sujeitos a trabalhar à força nas minas e plantações.
Em tempo, como em outras partes das Américas, populações cada vez mais mestiçadas foram sendo submetidas a uma economia de monocultivos de exportação: primeiro a cana, depois o cacau e o tabaco, e por fim, após o século XIX, o café. Não foi só o Brasil que viveu de ciclos de exportação.





São muitas as semelhanças. A diferença — se pusermos de lado o idioma — começa mais no século XX, quando nos anos 1940, portanto ainda antes da Guerra Fria, houve um levante contra uma das características ditaduras militares dos oligarcas.
De 1948 até o presente, a Costa Rica segue sendo ininterruptamente uma democracia, algo que poucos países latino-americanos podem ser orgulhar de dizer.
O segredo? Talvez a moderação, além de bom governo. Aboliu-se ali mesmo o exército, para que não houvesse mais repressão armada sobre a população. Além disso, o governo substituiu os tradicionais privilégios às elites agrárias por um estado de bem-estar social, o que aqui se convencionou chamar de Estado Reformista.
Nem o caminho revolucionário de Cuba ou Nicarágua nem o continuísmo de economias de “Repúblicas das Bananas” como Guatemala, Panamá e El Salvador, que acabariam por ter ditaduras de direita sustentadas pelos EUA.

Lembram-se das histórias das Repúblicas das Bananas? Pois, a Costa Rica era uma delas, no tempo que ficou conhecido aqui como o Estado Liberal (1870-1940), quando basicamente o país permitia que as grandes empresas de plantações dessem as cartas livremente e aumentassem a desigualdade.
Com as reformas a partir dos anos 1940, a Costa Rica viria agora a ter uma das maiores classes médias da América Latina, 97% de taxa de alfabetização, e a ficar atrás apenas do Uruguai em termos de distribuição de renda e PIB per capita na América Latina.
Seus vizinhos, que não embarcaram num programa de reformas estruturantes nem remotamente parecido, acabariam vítimas dos extremos. Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Nicarágua passariam todos por períodos extensos de ditadura, ou apoiadas ou combatidas pelos Estados Unidos naquele contexto de revoluções e contrarrevoluções que se instaurou América Latina afora a partir da década de 1950.
A Costa Rica escapou por pouco, e ajudaria depois nos processos de paz e redemocratização da América Central. Em 1987, seu então presidente Óscar Arias (1940-) ganharia o Prêmio Nobel da Paz por estes esforços. (Curiosamente — e talvez para confirmar seu mérito — em abril de 2025 o governo Trump nos Estados Unidos cancelou o seu visto. Vê-se que é um bom homem.)

O museu dá um périplo bem razoável sobre as mais variadas dimensões deste país, desde o seu patrimônio natural e histórico à formação socioeconômica. Eu diria que é uma parada importante a quem deseja entender a Costa Rica melhor.
Eu, como lhes disse pelo título, começava a encerrar esta estadia no país centro-americano. Mas ainda me faltava um dia, que eu tiraria para um bordejo final antes de ir-me, a visitar Cartago, a sua primeira capital.





Muito interessante a postagem.
Muita curiosidade nessa ”ílha” de coisas boas que o jovem viajante encontrou por ai.
E que bom, que se mostrou com seus aspectos positivos por bastante tempo.
Um pouco louco esse transfer. Enfim, faz parte dessa realidade do lugar.
Apreciei bastante seus pontos positivos, sobretudo a sua estabilidade e sua serie de ações de equilibrio social e de saúde.
Surpresa com a qualidade de vida percebida ai.
Valeu.