Por supuesto, não estamos aqui tratando da Cartago da antiguidade (esta você encontra na atual Tunísia, como lhes mostrei em viagem lá), mas de uma das várias que lhe tomaram o nome.
Os espanhois, em especial, parecem ter sido muito dados a isso. Talvez seja o fato de no seu território ficar Cartagena, cujo nome também vem de Cartago (pois foi fundada em solo ibérico pelos cartagineses), e sabemos todos que há também uma Cartagena das Índias — ainda mais famosa — na Colômbia.
Cartago há na Colômbia, na Califórnia (fundada ali pelos espanhóis), e aqui na Costa Rica, esta que em 1821 se tornou a primeira capital deste país centro-americano.
Estamos falando de uma tranquila e simpática cidadezinha histórica com ares do interior, talvez a mais agradável de todas as Cartagos ainda em existência.


Indo por conta própria de San José a Cartago
Por mais belezas ecoturísticas que a Costa Rica tenha, eu já estava um pouco cansado (e meu bolso também) de tours caros pra fazer quase que repetição da mesma coisa. Se bobear, você gasta centenas de dólares fazendo o que depois de um tempo começa a parecer mais do mesmo, vendo basicamente os mesmos tipos de paisagem — vulcão, cachoeira, trilha arrumada com ares de jardim botânico tropical — por todas as partes do país.
Depois de fazer pacotes pro entorno tanto do vulcão Poás quanto do Arenal, eu agora queria algo histórico — e que me custasse pouco.
Meu plano inicial era vir a Cartago como parte de um tour que inclui o vulcão Irazú, mas ele é caro, e desnecessário se seu interesse for ver a cidade histórica. Pode-se perfeitamente — e baratamente — vir aqui de modo independente e economizar aí uns bons USD 100-150 que teriam sido gastos com agência de turismo.
O vulcão Irazú ficaria para uma segunda vinda aqui à Costa Rica num futuro. Eu viria a Cartago de ônibus comum da empresa Lumaca, que me custou pouco mais de um dólar (!).



Visitando Cartago e seu Santuário Nacional de los Ángeles
A viagem de ônibus dura cerca de 1h, e você desembarca no que é uma tranquila cidadezinha de interior da América Latina. Ela chega a lembrar um pouco as do Brasil, aquelas de pequeno porte.
Há até algo de Aparecida (SP) no ar, já que o principal chamariz aqui é o Santuário Nacional de los Ángeles, dedicado a Nossa Senhora dos Anjos, a padroeira da Costa Rica. Há também algo das cidadezinhas do México, para aqueles que o conhecem.
A quem porventura estiver confuso, reitero que esta nada tem a ver com a Los Angeles da Califórnia — exceto pelo fato de os colonizadores espanhóis terem dedicado ambas as cidades a Nossa Senhora dos Anjos. O nome inteiro original daquela lá nos Estados Unidos é El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río Porciúncula.
Se aquela lá mais ao norte foi fundada em 1781 e só começou a ter mais de 1.000 habitantes em meados do século XIX com a Corrida do Ouro (1848-1855), esta cá da Costa Rica é bem mais antiga. Foi fundada já em 1563, servia de residência aos governadores espanhois da província, e em 1821 tornou-se a primeira capital da Costa Rica independente.



Embora uma igreja — e a devoção a Nossa Senhora dos Anjos — exista aqui desde pelo menos o século XVII, esta edificação que vocês veem é relativamente nova, de 1924. Isso porque os constantes terremotos neste país recheado de atividade vulcânica não deixam nada em pé por muito tempo, ao menos não as vulneráveis edificações antigas, coloniais.
Isso significa que você hoje encontra aqui muito pouco do casario colonial antigo. (Como cidades coloniais aqui da América Central, também afligida historicamente por terremotos, como Granada na Nicarágua e especialmente Guatemala Antígua conseguiram se manter tão bem, eu não sei. Vai ver contaram com melhores engenheiros.)
Quanto à escolha do nome de Cartago, não se sabe ao certo. Ele data lá do século XVI, quando a coroa espanhola decidiu nomear de Provincia de Cartago toda esta região costeira atlântica do que é hoje o centro da Costa Rica e também parte dos atuais Honduras, Panamá e Nicarágua.

Ventava bastante aqui, o que era uma brisa bem-vinda no calor tropical. Tudo estava bem quieto por ser domingo de manhã, exceto pela basílica, onde a missa vinha de terminar e aonde eu logo fui.
Na praça, ambulantes anunciavam em voz alta os números da loto, vendendo carnês. Havia também alguns terços à venda, pero no muchos. Era um amplo movimento dominical, ainda que nada comparável a Aparecida ou Guadalupe. Aos interessados, há lojas de itens religiosos nos arredores.
Por fora, fizeram esta edificação atual (feita de 1912 a 1924) no estilo neobizantino que era característico da época, como o Sagrado Coração em Montmartre, o Santuário de Lourdes ou a Basílica de São Martinho de Tours na França. Aqui, decoraram-na belamente com estátuas de anjos no exterior.
Por dentro também, ela se revelaria para mim uma das mais belas igrejas da América Latina.


Esta igreja é a alma desta Cartago costarriquenha, e ela estava cheia neste domingo de manhã.





Aos curiosos, a devoção mais geral à figura de Nossa Senhora dos Anjos é mais antiga. Tem a ver com a assunção de Maria aos céus por anjos na tradição católica.
São Francisco em Assis era grande devoto dela, daí a principal igreja lá da cidade italiana ser a Basílica de Nossa Senhora dos Anjos. Porciúncula (que do latim quer dizer porçãozinha), o nome lá que os espanhois deram ao rio nos arredores da Los Angeles californiana, foi um pedacinho de terra que São Francisco recebeu de doação dos beneditinos e onde erigiu uma capelinha.
De volta à Cartago costarriquenha, após a missa as pessoas aqui — crianças e idosos aí incluídos — seguiam de joelhos em grande número pela nave central da Igreja até o altar para receber a benção. Não eram uma nem duas, mas toda uma procissão de joelhos com bem umas 100-200 pessoas.
Havia até uma plaquinha pedindo que não fossem de joelho por ali durante a realização da missa (com correntinha bloqueando o corredor principal e tudo). Terminada a missa, estava liberado.


Achei aquilo curioso, como se vê também no Brasil, mas cada vez menos. Para vermos como estas práticas do catolicismo popular não têm fronteiras. (Os evangélicos também têm as suas, com seus exorcismos, como as têm também os budistas da Tailândia que passam rastejando por debaixo de certos altares, entre outros.)
Eu me detive ali um pouco ainda tirando umas fotos e vendo este interior da igreja, e depois fui a uma cafeteria próxima tomar um pretinho e chupar um picolé caseiro. (O dinheiro que economizei na vinda de La Fortuna a San José foi assim posto a uso).
A cidade ia, gradualmente, começando a ficar mais vazia conforme muitas pessoas pareciam começar a ir para casa para os seus almoços de domingo.
Eu próprio iria almoçar, aqui pelo centro, mas não sem antes ver a catedral (que é outra), dar umas voltas, e ver o agradabilíssimo jardim que fizeram numas ruínas coloniais.

Cartago para além da basílica — e o jardim que se salva
Visitada a basílica e chupado o picolé para pôr um açúcar no sangue, eu fui rodar no que restava deste centro da cidade para ver, afinal, o que mais havia.
Eu não vou dourar a pílula: Cartago não é uma cidade pitoresca. Ela parece as cidades comuns do Brasil, detonadas na sua História para dar lugar a um comércio de baixa renda. Se você olhar fotos antigas da cidade, a atual é irreconhecível. Em parte, isso foi pelos repetidos terremotos que esta região sofre.
(É tipo Feira de Santana, só que os prefeitos e comerciantes de Feira não precisaram de terremoto nenhum que derrubasse o patrimônio arquitetônico da cidade — eles mesmos o fizeram).






Eu rodei e virei um pouco, sem muito o que ver, até que identifiquei as antigas Ruínas da Paróquia — uma das coisas mais criativas e bem-sucedidas que já vi.
Algum prefeito mais iluminado que os meus lá em Feira teve a bela ideia de transformar as ruínas de uma igreja histórica no centro da cidade em jardim público.
A coisa é bem mantida e agradável para além do que as palavras podem dizer. Parece que você foi transportado para um lugar mágico, que mistura as plantas do jardim com a aura do lugar histórico.

Terremotos subsequentes derrubaram as estruturas várias vezes, até que tentaram refazê-la em 1903, mas tudo — ou quase tudo — veio abaixo de novo no terremoto de 1910. Largaram pra lá, até que bem mais tarde viria a ideia de transformar o lugar num belo jardim.



“Nossa, Mairon, a cidade é bonitinha. Você às vezes é um pouco duro dizendo que a cidade perdeu a beleza e comparando-a com Feira“. Ah é? Tudo bem. Eu estava até tentado a achar isso mesmo — o jardim me sensibilizou —, até que eu encontrei a catedral. Ela é dedicada a Nossa Senhora do Carmo.


Essa catedral data foi construída entre 1954 e 1960, talvez o nadir da beleza arquitetônica na História humana, quando achavam que estas coisas de concreto armado eram bonitas. É, portanto, contemporânea de Brasília e de algumas outras igrejas América Latina afora — como a Igreja do Rosário em San Salvador, El Salvador, só que lá com belos vitrais que quebram o cinzento modernista do concreto.

Eu respirei, satisfazendo-me com o que havia visto de interessante na cidade (a Basílica dos Anjos e as Ruínas da Paróquia), e fui enfim almoçar. Dei uma olhada no Mercado Municipal e achei, em frente a ele, um espacinho todo gostoso onde havia mesas, fotos de época da cidade e a Taquería Jalapeños, um restaurante tico-mexicano onde eu me instalei.
As pessoas eram sociáveis e simpáticas, como achei os costarriquenhos de maneira geral.



Depois do almoço, já umas 12:45 e o movimento da cidade começando a se aquietar ainda mais, eu já estava lá de volta ao terminal da Lumaca esperando o ônibus de retorno a San José sair.
Eu havia visto e aprendido bastante nesta estadia na Costa Rica. Não imaginei que um país pequeno — do tamanho do Rio Grande do Norte ou mero ¼ do Estado do Paraná — fosse me ocupar tantos dias e mostrar tanto. Valeu, Costa Rica.
Afora as belezas naturais, foi impressionante ver como o ecoturismo e o agroturismo estão bem estruturados aqui, e conhecer um país relativamente bem organizado, de nível socioeconômico semelhante ao do Brasil (só que com mais equidade).
Um dia eu volto. Por ora, era o momento de tomar outros rumos. Eu ainda volto na postagem seguinte com as dicas gerais sobre o país, e nos reencontramos noutra paragem a seguir.





Lindinha essa cidadezinha.
Verdade que umas partes meio sem graça. Mas com encantos de uma visão geral.
Um charme esse passeio público nas ruinas da Paróquia.
Espaço público ótimo em frente ao Mercado onde voce se instalou.
Mesmo o interior da Catedral é simpático.
E sobretudo a belíssima Igreja de NªSª de Los Angeles. Lindíssimo seu interior.
Pelo visto, uma agradável surpresa a Costa Rica.
Que bom!… Essa nossa Latino-América é rica e preciosa.
Gostei bastante.