Saint-Sulpice é uma das igrejas mais impressionantes da capital francesa. Menos famosa que Notre-Dame de Paris, bien sûr, e menos visitada que o Sagrado Coração (Sacré-Coeur) no popular bairro — hoje mui turístico — de Montmartre, onde filmaram partes de Amélie Poulain. Entretanto, é uma visita que não desaponta os fãs de arquitetura ou de arte sacra.
Também Saint-Sulpice terminou de ser restaurada recentemente, como a Catedral de Notre-Dame que lhes mostrei reaberta no post anterior. Ela também sofreu um incêndio, ainda que de bem menor proporção, o que se juntou a uma restauração já devida das belas obras de arte no seu interior, que inclui uma pintura do Arcanjo Miguel por Eugène Delacroix (1798-1863), considerado o mais importante artista do período romântico francês.
Inclusive, pouca gente sabe, mas uma curiosidade é que enquanto Notre-Dame esteve fechada, entre 2019 e 2024, foi Saint-Sulpice que funcionou temporariamente como catedral de Paris.
Eu já a tinha visitado lá atrás em 2015, quando a achei uma igreja escura e precisando mesmo de restauração. Semana passada, a minha impressão foi bastante outra. Eu lhes mostro.


No espírito de Paris
Era mais uma primavera destas em Paris, as pessoas pela rua, jovens e velhos a conversar. Sentadas às calçadas, naquelas mesas de cafeteria todas voltadas para fora, uns proseavam entusiasmados enquanto que outros simplesmente pareciam contemplar — Paris ou os seus telefones.
Há algo de tranquilidade, embora não pareça, assim como de autoconfiança na atmosfera da capital francesa. Talvez uma certa segurança de quem, em Paris, não precisa provar mais nada a ninguém. Jovens andam altivos e senhores se põem a conversar como quem não se importa com nada mais.

Todos no Ocidente devemos algo a esse espírito altivo e crítico francês — do contrário estaríamos talvez ainda no Antigo Regime, na monarquia, governados por aristocratas (como ainda desejam alguns) em lugar de instituições republicanas.
Todavia, é público e notório que os franceses por vezes se excedem, e entram naquele espírito do criticar por criticar.
Inocente no sossego do meu passeio, eis que eu entreouço dois, uma moça e um homem, a fitar a igreja da praça e a repetir em consenso um com o outro: “É feia” [Moche], decretou ele. “Muito feia” [Très moche], concordou ela visivelmente desejosa de se unir à opinião da sua companhia. Os franceses comungam entre si reclamando ou falando mal das coisas.
Ó, franceses, vai ver por isso é tanto gostam do Brasil, pra ver se absorvem um quê mais de alegria. Ou talvez seja que santo de casa não faz milagre. Eu os traria alegremente para ver que o bom e velho São Sulpício pode ser, sim, milagreiro.

Neoclassicismo de 1700
A Igreja de Saint-Sulpice é neoclássica, uma das primeiras edificações desse movimento artístico em Paris.
O neoclassicismo surge como uma reação ao que foi percebido como os excessos do barroco. Era agora preciso retornar a uma “pureza” das formas clássicas, limpas, harmônicas.
Antes de lhes mostrar melhor a fachada da igreja, uma breve nota sobre a fonte que vocês viram acima entre jovens e pombos.




Pelo interior de Saint-Sulpice
Saint-Sulpice é uma igreja sóbria. Não é das mais bem iluminadas de todas, e sua pedra cinza escura traz certo rigor, austeridade e sombra. Seja como for, por entre suas sombras reluz o ouro, e brilham também as esplendorosas obras de arte das capelas laterais.
O melhor de tudo é que, como vivemos numa época em que as mídias sociais ditam aonde quase todo mundo vai, o que faz alguns lugares ficarem picados de turistas enquanto outros não veem quase nenhum, Saint-Sulpice segue sendo uma visita tranquila, sem afã nem multidões.





Visto de longe, o ouro desponta — quem projetou Saint-Sulpice é um mestre dos contrastes. E como numa boa igreja neoclássica, como o é também a Basílica de São Pedro em Roma, não faltam esculturas sacras a todo lado.






Eu ainda preciso lhes mostrar as capelas laterais e algumas das suas obras de arte, mas antes disso, deixem-me tratar um pouco do nome deste lugar.

São Sulpício (576-647)
Um erro comum de muita gente é achar que esta é uma igreja dedicada ao “santo suplício”, como que à Paixão de Cristo ou algo assim. Eu próprio já tive essa ideia, mas não é do que se trata.
São Sulpício, que se estima ter falecido no ano 644, foi um bispo francês do início do cristianismo nestas terras. Clóvis, rei dos francos, havia há apenas algumas décadas se convertido à nova religião. Ser cristão ainda era um ofício perigoso. (Eu contei mais sobre esse episódio em visita a Reims, a cidade onde essa conversão se deu e onde os reis franceses eram coroados.)
Naquele bojo da Contrarreforma, no século XVII, com a criação de ordens e grupamentos católicos para difusão da fé como Roma a via, formou-se na França uma companhia de padres em 1645. Eles foram buscar inspiração lá em São Sulpício, que se diz ter vivido na austeridade, mas que converteu muita gente entre os francos.
Essa Companhia de Padres de São Sulpício (Compagnie des prêtres de Saint-Sulpice), ditos Sulpicianos, continua a existir. Envolve tanto sacerdotes quanto pessoas da sociedade voltados à prática do cristianismo e que atuam na formação de sacerdotes, algo em que esta igreja há muito tempo se destaca.

As capelas da Igreja de Saint-Sulpice e suas obras de arte
As capelas laterais ao longo de toda a igreja de Saint-Sulpice são talvez o seu ponto mais alto. Esqueça, por ora, as elucubrações pop de O Código Da Vinci (2004), que situou erroneamente um meridiano com supostos significados secretos aqui só porque há um relógio de sol na igreja, e nos concentremos no que há de verdade.
Não são poucas as obras de arte nas muitas capelas laterais, com temas católicos dos mais diversos, e dentre elas algumas pelas mãos do famoso pintor francês Eugène Delacroix.
Logo à direita de quem adentra a igreja, há a Capela dos Santos Anjos (Chapelle des Saints-Anges) com obras desse artista.
Temos ali Jacó luta contra o anjo, retratando uma passagem do Gênesis bíblico, e no teto a figura do Arcanjo Miguel.


Em seguida, temos a Capela das Almas do Purgatório.



Eu não vou mostrar todas as capelas, mas não posso deixar de apresentar aquela que talvez seja a mais bela de todas, a Capela da Virgem.





Pois bem, senhores e senhoras. Sintam-se (re)apresentados à Igreja de São Sulpício (Saint-Sulpice) em Paris. Tomemos agora rumo.






Outra maravilha!… espetacular.
Belíssimo esse jogo de claro-escuro, cinza e dourado. Magnífico.
Pelo visto, do mesmo naipe de Notre Dame.
Linda.
E as obras de Delacroix a embelezam mais ainda.
Uma bela Basílica.
Apreciei muito revê-la.
Maravilha meu jovem amigo viajante.
Obrigada pela bela postagem.