(Este será um post longo.)
Prezados leitores, não é todo dia que eu faço uma postagem assim mais explícita sobre meus juízos de valor, mas desta vez eu não quis me furtar. Ademais, achei que ajudaria a transmitir melhor o que foi o meu curto, porém intenso, período em Camarões.
Às vezes a gente ouve falar destas ditaduras da África e não se dá conta do que a ausência de uma cultura democrática significa na prática, ou acha que ela se limita apenas à parte policialesca, como censura, detenções etc.
Não é só ao elemento repressor que a coisa se resume. O buraco é mais embaixo — tem elementos culturais e do dia-dia. Eu próprio fui surpreendido por algumas coisas apesar de toda a minha vivência mundo afora.

Camarões é um país que foi colônia da Alemanha, da Inglaterra e da França — os três países europeus mais ricos que há. Não lhe ajudou em nada. Pelo contrário, o país africano foi sugado, e os europeus têm grande culpa pela sua pobreza atual, que vos mostrei em abundância no post anterior.
Entretanto, que não se caia em leituras maniqueístas. Muito das mazelas daqui são frutos da atualidade ou coisas arraigadas do próprio Camarões, que saiu de um passado monárquico, patriarcal, tribal, dali para ser colônia e então a uma ditadura, sem jamais ter experimentado democracia na sua História.
Creditar toda a responsabilidade pelo que é bom ou ruim aos colonizadores é negar a existência de qualquer arbítrio ou agência por parte dos africanos e, portanto, outra forma — mais velada — de eurocentrismo.
O que eu lhes relato é uma vivência do dia-dia aqui, sobretudo minha participação num evento. Há beleza também, então se preparem para as várias faces da moeda. Eu não gosto de histórias simples — a vida real raramente o é.

O carro, o auditório e o restaurante: O carro
Quem manda?
— “Aqui quem manda é o presidente ou o primeiro-ministro?”, perguntei-lhes eu, ao que íamos no carro avistando bem longe o palácio presidencial.
Há ambas as figuras políticas em Camarões, e eu procurava saber se era como na Alemanha e Itália, onde manda o primeiro-ministro e o presidente é uma mera figura simbólica, ou como na França onde o presidente é de fato o chefe de governo.
— “O presidente”, respondeu um deles com um certo tom de que a pergunta havia sido boba. Talvez só conheçam o sistema francês. Apesar de ter sido colônia alemã entre 1884 e 1918, foi a França quem governou esta terra por mais tempo e mais recentemente, de 1918 até 1960. É o que está na memória de muitos.

Ou talvez seja que o presidente de Camarões é uma figura tão onipresente e notável na vida do país há tanto tempo que a hipótese de não ser ele quem manda soa exótica.
— “Vocês gostam do presidente?”, indaguei.
— “O cara está aí há 42… não, 43 anos. Como é que vai gostar?”, respondeu um dos outro na tampa.
O longevo Paul Biya, com 92 anos ao que lhes escrevo, é o presidente do país desde 1982.
Ele recebe apoio e investimentos dos franceses no que interessa aos franceses (petróleo e outros hidrocarbonetos), dos Estados Unidos, da Holanda, de outros tantos e também da China no que interessa aos chineses (minérios e madeira tropical de desmatamento).
Em 2024, inaugurou-se o novo prédio do parlamento camaronês dado pelos chineses como um agrado. Eu passei pela frente dele, e os rapazes no carro me indicaram que era presente da China, num tom que sugeria que eles sabiam bem como estas coisas se dão.

As novas trocas antigas
A gente fica às vezes preso no colonialismo histórico e se esquece de olhar para as relações desiguais dos países africanos com as potências de hoje, sobretudo Estados Unidos e China — embora aqui a França siga mantendo um certo imperialismo econômico também.
Isso inclui até outros países insuspeitos, aos quais raramente se aponta o dedo. Na quase vizinha Namíbia, mais ao sul, o ministro da pesca caiu recentemente em desgraça ao se descobrir que ele concedeu os recursos pesqueiros do país para serem explorados pelos islandeses em troca de um celular de dois chips, que ele havia visto na internet e queria um.
Qual é a diferença entre isso e as famosas trocas de terras por panelas e espelhos na América do século XVI? Só a tecnologia parece ter mudado; os padrões de troca seguem incrivelmente semelhantes.
![]()
Enquanto isso, na Sala de Justiça, eu esperava que os camaroneses com quem estávamos trabalhando viessem me apanhar no hotel. Você tem uma reunião às 10:30, acertam de passar às 10:00h, mas às 10:35 ainda não tinham aparecido.
Você manda mensagem e dizem que estavam procurando gasolina para o carro. Vinte minutos depois, me escrevem dizendo que tinham que agora ir colocar ar nos pneus. (Falta previdência ou o que?)

No imponente Hotel Hilton, onde eu estava hospedado, eu via daquela cortesia impostada — não no sentido de impostor ou de falsidade, mas dos modos à francesa bem postos que tantos africanos francófonos caracteristicamente adotam, sobretudo os mais velhos.
Como diz a sociologia, neste mundo regido por brancos, você vê os negros constantemente tendo que buscar ser reassegurados da sua decência e humanidade no dia-dia, já que estão sempre sob risco de serem tratados como menos dignos.
Veem se, ao adquirir e utilizar os modos da elite francesa de outrora, eles são assim respeitados e tratados de igual para igual como gente.
A carência emocional por respeito e consideração salta aos olhos, seja entre os que demonstram humildade, seja de outra forma entre aqueles que põem saltos altos e andam feito aves, com aquele excesso de altivez que — eles talvez nem se deem conta — trai uma necessidade de ser visto e reconhecido. Quem é bem-resolvido consigo e seu lugar no mundo não tem precisão disso.
![]()
Machismos traídos
De volta ao carro, numa das vezes quando finalmente me apanharam e não havia mulher no carro, um dos camaroneses jovens resolveu indagar como ia minha atividade sexual aqui em Camarões. Não é algo que me perguntem em todo lugar do mundo.
“Ver aí um dia para você fazer uma massagem com uma camaronesa antes de você viajar. Não pode ir embora sem degustar da raça local”, disse ele com naturalidade, como se estivesse falando da feijoada da sua tia.
Não dá para colocar tudo na conta dos europeus. Como eu já havia observado também no Benim e noutros lugares, a África frequentemente é deveras patriarcal, com um machismo explícito pior que no Brasil.
Uma das minhas colegas é mulher, mulata, e uma das suas frases mais marcantes foi precisamente de que “não é fácil ser mulher em Camarões“, dizia ela com uma sobriedade sentida. Às vezes, certas reuniões só andavam quando eu chegava. Não por eu ser eu — embora eu seja eu e licuri seja coco pequeno —, mas por ser homem.

O carro, o auditório e o restaurante: O auditório
Vamos ao meu evento, de que participei por dois dias no honroso auditório de um instituto universitário em Yaoundé. Coisa fina com muita gente de paletó e gravata, quase todos camaroneses somados a uns gatos pingados estrangeiros.
Ainda que o prédio fosse velho, com ares dos anos 70, havia longos bancos de madeira e o lugar tinha sua dignidade. No entorno havia jardins e um restaurante do instituto, um pouco como nos campi universitários brasileiros — porém sem lanchonetes. Havia até wi-fi, só que ninguém sabia a senha.
Na primeira manhã, vários estudantes começaram a se pôr ali sentados, aguardando as falas terem início no que já íamos com mais de 1h de atraso. Sendo um instituto que envolve diplomacia, os rapazes estavam empedernidos de terno, e com o ar condicionado desligado suávamos todos, mas sem perder a pose. (Lamentei que tantos dos camaroneses tivessem escolhido vir sem tomar banho, mas c’est la vie.).

Dando início aos trabalhos da mesa
Tínhamos todo um programa pela frente com falas e apresentações intercaladas por coquetel, almoço e à tarde uma pause café — que você deve ler em bom francês, como se fosse “pôze” que não é do rodo.
Um compenetrado sujeito de paletó, gravata e o habitual ar de importância nos dava as boas-vindas e fazia aquela mise-en-scène de reconhecer a presença dos dignatários ali presentes, enquanto no centro da mesa um digníssimo professor — um camaronês roliço de seus 45 anos e ar de quem comeu muito pirão — permanecia estático e com aquele olhar perdido de quem espera as coisas acontecerem.
Entre uma fala e outra, cantorias por este coral de moças da foto acima, regidas por um maestro de quem eu virei fã. As vozes eram poderosas, como cheguei a registrar no vídeo abaixo.
(Embora encantando pelas vozes femininas e pela empolgação do maestro, eu não pude me furtar a achar engraçadas as caras desempolgadas dos engravatados estudantes na audiência, com um ar de marasmo solene, treinando para ser elite.)
A saber, os ilustríssimos palestrantes — exceção feita a uma professora alemã convidada, que por ser branca tinha gabarito para estar ali à mesa — todos eram homens, no que em inglês se apelida de manel (man + panel, de painel, portanto um painel só de homens).
Eu, de toda forma, já calejado destas formalidades, começava a olhar para o relógio e a antecipar o tal do “coquetel” que teríamos às 11h. (Achei estranho um coquetel de manhã, mas vá lá.)
Antes dele, porém, fomos todos convidados a sair do auditório e vir até a entrada do instituto para tirar as fotos oficiais do evento.
Eu descobriria que aqui em Camarões o “para inglês ver” é ainda mais forte que no Brasil.

Suprimiram o coquetel matinal, e o almoço ia pela janela
A manhã havia avançado meio “à migué”. Depois de as falas se iniciarem com 1h30 de atraso, o programa parecia se dar conforme as pessoas em questão davam o ar da graça, apareciam ou sumiam. Parecia um pouco sala de aula quando o professor saiu e não disse a hora que voltaria.
Retornamos ao auditório após a foto oficial, e já dava meio-dia sem que houvesse qualquer notícia do coquetel. Nem cafezinho houve. Até o momento, nossa segurança alimentar estava limitada a garrafas de água mineral extraída do Monte Camarões. (Eu até então nem sabia que tal monte existia — penando e aprendendo. A saber, não é o monte que dá nome ao país, mas o país que dá nome ao monte.).
Às 12:20, um dos mangangões ao microfone começou a ler o programa em voz alta, explicando o que não precisava de explicação. Frisou que até então havíamos tido as falas de abertura e que começaríamos a sessão inaugural às 13h — “e começaremos de fato às 13h”. O coquetel havia sumido sem ninguém lhe fazer menção, como que por respeito.
Só quem chegou mesmo foi a tempestade e, antes mesmos dos pingos, caiu a luz. Ficamos todos no escuro, sem comida e agora também sem eletricidade.


O professor continuou a ler alto o programa mesmo no escuro, e enchia linguiça com uma habilidade digna de parlamentar. Comia o tempo pra segurar até dar o horário das 13h sem dizer nada de necessário.
Eu fiquei ali tentando entender aquilo. Sumiram com o coquetel sem dar satisfação, e pelo visto tampouco teríamos almoço. Sem cerimônia, emendavam o programa da manhã com o da tarde e não tocavam no assunto, como se fosse tabu.
Eu comentei com um jovem colega camaronês que, no Brasil, isso além de inconcebível teria causado um levante ou no mínimo protesto por parte dos participantes. Ele sorriu com certa surpresa. A ideia de contestação lhe pareceu exótica.
“Às 15h tem marcada uma pausa para o café“, indicou ele com o dedo na brochura do programa em tom de consolo, como se esperasse que eu fosse responder “Ah, sim, então não tem problema não almoçar”. “Dá para aguentar, não?“, indagou com naturalidade. Ficou parecendo até que o que eu estava cobrando — refeição e respeito aos participantes — era um luxo.

Ainda antes da chuva, eu havia zanzado pelo campus a ver se achava pelo menos algo para comprar, mas não havia nada disponível — nenhuma lanchonete. Só havia mesmo o restaurante, onde bati e me disseram que estava fechado em preparação “para algo que haveria depois“, mitologicamente às três da tarde, embora não houvesse consenso sobre isso.
Eu entendia — embora lamentasse — até certo ponto a resignação das pessoas, habituadas a uma vida sem voz, onde manda quem pode e obedece quem tem juízo. O que me indignava era a displicência dos organizadores, sem qualquer sentimento de que precisassem cumprir o planejado ou se explicar.
O professor ao microfone chegou a ter a cara de pau de dizer — sem pedido de desculpas ou explicação — que todos aguentassem um pouco mais e que haveria a pause-café às 15h após mais duas horas de bolodório da sessão inaugural.
Ironicamente, quem nos salvou foi a queda de energia, pois às 13:30 desistiram de esperar a luz voltar e resolveram nos mandar todos ao restaurante. Almoçaríamos, enfim.

O carro, o auditório e o restaurante: O restaurante
Ao que entramos no restaurante, a luz voltou. Que bom que agora já era tarde para regressarmos ao auditório — estávamos já todos a postos nas mesas, esperando só darem o sinal para avançarmos no buffet.
Uma colega asiática habituada a trabalhar aqui em Camarões espertamente me alertou que eu pusesse já de uma vez no prato tudo o que quisesse, pois “não haveria segunda chance”. As pessoas, segundo ela, raspariam o tacho de tudo já na primeira leva. Foi um pouco assim mesmo.
O que eu achei mais curioso foi notar que havia uma high table, ou seja, aquela mesa alta à moda dos banquetes da Idade Média europeia, onde os dignatários se sentam só de um lado e voltados para os demais convidados. “Feito em Game of Thrones”, comentei eu sem cerimônia, ao que os camaroneses me olhavam.
Como na Idade Média, os dignatários se serviam primeiro — o buffet não abria simultaneamente para todos, mas por estamentos. Havia alguém que dava sinal verde primeiro para esta mesa, depois para aquela mesa, até abrir geral para o Terceiro Estado. Eu fui na segunda leva.

Alimentados, retornamos às 14:30 para a tal da sessão inaugural marcada originalmente para as 13:00. Pelo menos agora tínhamos algo no bucho. Com esse atraso, a pause café das 15h foi então jogada para o final do dia. Transformava-se num café da tarde de encerramento, sabe-se lá que horas, já que íamos com 1h30 de atraso e sem grandes esforços para retificar.
Às 14:45 a energia foi embora de novo, e o programa teve seguimento no escuro. Eu cheguei a comentar aquilo com uma tia camaronesa e perguntei se as coisas estavam pelo menos aos poucos melhorando. Ela foi uma das que me disse que, pelo contrário, pareciam estar decaindo.
“Eu, se eu tivesse que escolher um colonizador, escolheria a Alemanha”, ponderou comigo um camaronês.
Envoltos por retratos do rei, digo, do presidente por toda parte — naquele estilo de antigamente dos ancestrais, como se ele fosse o avô dos donos da casa —, ouvimos o camaronês roliço da manhã acordar do seu aparente estupor e de fato fazer uma bela fala. Há talento em Camarões, por suposto.
O que falta é organização, equidade, instituições e democracia. E diante de um país que não avança, eu tive que escutar — como já havia ouvido no Togo — um certo saudosismo da colonização alemã que ninguém aqui conheceu pessoalmente.
“Eu, se eu tivesse que escolher um colonizador, escolheria a Alemanha”, ponderou um camaronês comigo num dos interstícios do evento. “Eles eram duros, mas mais eficazes que os franceses”, foi continuando. “Os franceses depois tiveram só um mandato da Liga das Nações a partir de 1918 e usaram a infraestrutura que os alemães já tinham construído: ferrovias, pontes, que estão aí até hoje.”
Na ausência de progresso real nas últimas décadas ou de muita perspectiva, o passado colonial que eles não viveram fica idealizado e soa até nostálgico para alguns.

Às 18:45, estávamos lá finalmente tomando a prometida pause café, que deixou de ser pausa e se transformou num autêntico café da tarde, só que básico, “à camaronesa”, com versões simples de coisas de padaria francesa nas quais algumas moscas avançavam, acompanhadas café solúvel e chá de saquinho. Há de se contentar com a humildade deles.
Concluindo o evento
Este foi um evento de dois dias, e o dia seguinte se provou ainda mais duro que o primeiro. Destruídas foram minhas ilusões de que aquela bagunça tivesse sido apenas um lapso.
Hoje, teríamos a televisão local aqui presente, com câmeras a nos filmar. Filmavam a mesa e os dignatários de paletó e gravata. Não tomavam nota, claro, de que agora já não tínhamos mais nem água corrente no banheiro para lavar as mãos nem dar descarga. Apenas o lado pomposo seria registrado.
Saímos ao jardim nos meados desta segunda manhã para que alguns dos organizadores pudessem ser entrevistados ao ar livre. Ao fim disso — milagre —, resolveram nos chamar para um coffee break, só que os estudantes foram barrados no baile. Não foram admitidos no restaurante, porque pelo visto não tinha café pra todo mundo. Esses ficariam só com água.
Camarões é desde sempre um lugar hierárquico, senhoras e senhores. Nunca foi diferente. Tomara que um dia mude.

Minha colega italiana comentava há pouco que, pela sua experiência de trabalho aqui, acha que os camaroneses aceitam demais as coisas sem se levantar nem protestar muito. Acho que eles sentem que não resolve — embora talvez também por isso não resolva.
A propósito, o nosso almoço estava novamente por ser quietamente suprimido. Julgavam certamente que o café com pão do fim da manhã já havia sido o bastante.
Nós ficaríamos basicamente o dia todo, até as 18h, sem qualquer outra coisa. Quando questionei com um colega camaronês, em vez de se juntar à indignação e reivindicar, ele procurou tergiversar. “Mas teve o café às 11“, reagiu ele, como se aquilo justificasse.
A insegurança alimentar vira hábito; aquilo passa a ser o normal que as pessoas até justificam.

O intervalo do almoço estava marcado para as 12-14h, e às 13:40 ainda estávamos nas sessões da manhã — tudo sem o menor sentimento de pressa ou de tentar corrigir o atraso. Às 14h, ainda estava tendo início a última apresentação da manhã.
Às 14:30, ainda estávamos coletando mais perguntas para os palestrantes, como se estivéssemos na mais plena normalidade. O moderador tomou umas 10 perguntas como se não houvesse nenhum atraso, e depois ainda teve a temeridade de dizer que “por esta série está bom, depois vemos se ainda há mais perguntas 🙂”
Às 15h terminamos, e achei que íamos então finalmente ao almoço, mas ledo engano: o novo moderador tomou assento para dar início à mesa redonda da tarde. Incrível!
As pessoas estavam com a mesma fome que eu, só que sofriam resignadas, já habituadas a serem tratadas assim.
Foi aí que eu tive que começar a recorrer a todos aqueles lanches e sobras que às vezes a gente carrega na mochila — restos de coisas do avião, barra de cereal de emergência e até as balinhas naquele bolso escondido.
O leitor pode aí talvez estar pensando: “Você é que está habituado a fartura, Mairon. Para as demais pessoas, tudo estava bem”. Equívoco — as pessoas estavam com a mesma fome que eu, só que sofriam resignadas, já habituadas a serem tratadas assim.
As pessoas me viam, e eu comecei a de repente distribuir de todos os lanches que tinha. Senti-me meio que Jesus partilhando o pão. Minhas coisas iam passando adiante de um a outro, e até quem não me reconhecia me olhava com certa candura de gratidão em retorno, e num recôndito profundo me deu até uma vontade de iniciar uma revolução.

Depois dessa “partilha do pão”, eu e outros estrangeiros já estávamos de saco cheio das falas intermináveis, e resolvemos ir tomar fresco do lado de fora. Uma colega chinesa comentava comigo que, fosse isto na China, todos começariam a pedir comida por aplicativo. Claro que aqui, entretanto, não havia esta opção.
Voltamos ao interior do auditório só quando o sol já começava a cair — lá pelas 17h. Finalmente, começavam as extensas palavras de encerramento do diretor.
Eu digitava distraído no WhatsApp (graças ao sinal puxado de uma colega), quando de repente tomei um susto que chamassem o meu nome ao microfone. Eu quase dei um pulo, e os amigos ao lado riram da minha franca cara de surpresa aleatória.
A mídia gravava tudo e, claro, nada apareceria sobre termos passado o dia sem comida.
Era entrega de certificados, e quis a ironia do destino que começassem por mim.
Na prática, era quase uma cerimônia de entrega de medalhas, com câmeras, luz, aperto de mãos e todo o mais. Havia até um engravatado que instruía como portar o certificado corretamente para ele sair bem na foto. Tínhamos agora que esperar todos os participantes serem chamados, de três em três.
A atenção à mise-en-scène era tão grande que até me imprimiram dois certificados e me chamaram de novo no final. A mídia gravava tudo e, claro, nada apareceria sobre termos passado o dia sem comida.

Epílogo: Mais realistas que o rei
É sabido, cuspido e escarrado pela sociologia que as pessoas mais humildes às vezes abraçam as normas e crenças dos ricos com mais afinco que estes próprios, e aqui a África dá exemplos diários disso a qualquer um que queira ver — ou até a quem não quer, como eu no dia de ir embora.
Eu cheguei ao aeroporto de Yaoundé feliz com a experiência transcorrida, com os encontros de trabalho, mas também contente em ir embora. Camarões havia se revelado um país bastante pobre, perrengueiro e sem muito o que ver, ainda que algumas comidas típicas interessantes tivessem salvado um pouco a pátria.
O aeroporto se mostrava até ajeitadinho, só que com peculiaridades. Antes dos guichês, era preciso passar primeiro por um tiozinho com uma balancinha de chão de mercearia para ver se a soma da bagagem de mão com o acessório pessoal não passava dos 12 Kg permitidos pela Air France.
Fazia muito tempo que eu não via isso com empresa que não fosse daquelas de baixo custo. Desnecessário dizer que jamais vi isso ser feito na própria França nem em nenhum outro lugar, mas eles aqui queriam ser mais realistas que o rei.

Minha soma deu 17 Kg, até porque eu havia evitado trazer bagagem despachada para Camarões. Isso incluía água que eu teria que tomar antes de passar pela segurança, etc. O tiozinho me deixou passar, mas alertou que lá em cima ao portão de embarque haveria outra balança, e ali não haveria jeito.
A segurança em si foi sossegada, assim como a emigração. Do outro lado, pouquíssimas coisas: basicamente, apenas uma cafeteria com uns quitutes de maçã a preço de ouro (XAF 3.000 ou € 5 cada um) e bebidas. Quatro mangangões africanos com ares de reis da cocada preta tomavam uísque numa mesa.
Eu via a fiscalização a que uma funcionária submetia todos os passageiros que chegavam ao portão, e fui ao banheiro me aprontar. Até livro foi para os bolsos do casaco — eu estava muito pouco disposto a dar mais dinheiro à Air France só porque os funcionários daqui sublimavam as suas mágoas de opressão hierárquica nos passageiros, aplicando regras que a própria companhia não faz questão de aplicar mundo afora. Non.
Cheguei lépido feito Chapeuzinho Vermelho à sua presença para pesar as coisas, que ela fazia todo mundo empilhar na balança feito aqueles conquistadores da Antiguidade que espoliavam os vencidos. Ainda assim deu 12,52 Kg, e ela tergiversou, falando que o limite era 12 Kg.
“Voilà, 12,5 Kg c’est 12 Kg, madame. Merci ☺️”, e passei sem dar mais conversa. Adieu, Cameroun.





Adorei. A sua escrita é perfeita.
Obrigado
Meu jovem, que experiencia !… Difícil constatar essa realidade que, pelo visto não é só desse país, mas quase uma constante nesse continente.
Complexa essa situação…..
Parte responsabilidade dos países colonizadores, que os exploraram ,sem nada deixar de desenvolvimento e sem a menor preocupação com seus habitantes nem com o progresso do pais.
Parte do próprio povo, mantido pobre e subjugado, por aqueles que os sucederam, mesmo autóctones. E sem reação….
Continuaram passando de mão em mão, no mesmo esquema , de um manda os demais obedecem sem questionar. Vitimas, povo e país, de ditadores que se eternizaram no poder. Muitas vezes a serviço de terceiros, estrangeiros ou não…
O tempo passa e nada de novo acontece.
Continuam presos no subdesenvolvimento, na pobreza, na desorganização social, institucional, na subserviência, na desigualdade, na ignorância… e por ai vai… e o pior, sem se dar conta de que essa realidade poderia ser diferente, melhor, mais digna, se eles fossem diferentes, participassem das decisões, dos destinos do seu país, ou seja, experimentasse a democracia..
Talvez tivéssemos mais países menos pobres e menos desiguais… mais participativos e mais desenvolvidos….onde o povo fosse mais dono do seu nariz, de forma organizada, e participativa??? Os países mais considerados, mais ouvidos ???O seu povo mais feliz????
Quem sabe um dia chegaremos a essa realidade????
Quem sabe conseguiremos ver um mundo onde os países ex-colonizadores irão perceber que precisarão investir no desenvolvimento e independência real dessas antigas colônias, de forma a criar democracias e autodeterminação ?????
Esperemos que esse futuro promissor chegue…. e não demore.
ào
Toda essa realidade reflete no cotidiano.
Nessa postagem saltam aos olhos, a inércia, a alienação, a falta de bons hábitos de higiene, o marasmo, o machismo, a aceitação como normalidade de situações adversas e impróprias , inclusive à saude ,à nutrição, por parte dos participantes…Sem questionar…como se fosse o habitual e correto…
A desorganização, a desestruturação do uso do tempo, o descumprimento do acordado e previsto, o desrespeito, a falta de interesse pelo bem estar dos participantes por parte dos organizadores, submetidos que foram ã insegurança alimentar..
Acresça-se a falta de atenção para com eles em suas necessidades básicas como alimentos, banheiros descanso etc e tal….
Isso para não falar na quase ausência de participação , exceto pelas perguntas e pelos cantores. E pouca participação feminina.
E a falta de infra-estrutura:
Locais : locais para buscar alimentos , ja que não serviram, banheiros com água, para uso, janelas ja que o ar não estava ligado, senha do conhecimento e uso de todos, e o não uso de seleção e prioridades no restaurante e por ai vai….
E gerais: gasolina, pneus, atrasos etc
Essa realidade precisa ser revista e melhorada.
Que o povo ACORDE.. PARTICIPE.
Desenvolvimento, progresso, melhoria geral, saude, educação melhores, alimentação para todos, trabalho digno, se faz com a participação de todos, e governos eleitos pelo povo para trabalhar para melhoria do país e do povo. Com Democracia. Eleições livres e periódicas, como muitos países modernos.
Que relato incrível!! Parabéns pela crônica, pelo cuidado na descrição e detalhes!
Obrigado, Luisa!!