Era uma vez uma cidadezinha de que poucos já ouviram falar fora da Alemanha, mas que é tombada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade pelo seu valor histórico e arquitetônico: Hildesheim [Rildes-rráim].
Ela é tão pouco visitada — acho que mesmo dentro da Alemanha — que uma amiga alemã, para frisar que eu sou o tipo de viajante que vai para tudo que é canto, me soltou “Eu não imaginava que fosse visitar, sei lá, Hildesheim“, gesticulando com a mão. (Acho que ela própria ainda não esteve aqui).
Mas Hildesheim se revelou um lugar e tanto na Alemanha. Essa basílica que vocês veem na foto de abertura, por exemplo, é mais de um século mais antiga que Notre-Dame de Paris. Data de 1022, no estilo romanesco anterior ao gótico.
E a cidade tem outros chamarizes também, para além de igrejas de época. A sua riqueza e beleza são muito pela arquitetura, mas esta também inclui belo casario de enxaimel (aquelas armações transversais de madeira) no centro. Suas pracinhas são das mais aconchegantes de toda a Alemanha.


Hildesheim na fila do pão
Quem é Hildesheim, esta cidade de que a maioria dos leitores nunca tinha ouvido falar, afinal?
Hildesheim é uma cidade que data do ano 815, quando se fez uma diocese aqui. Estávamos em pleno processo de cristianização dos saxões, que iam sendo efetivamente integrados ao Sacro-Império Romano iniciado por Carlos Magno no ano 800.
Assim sendo, as urbes surgiam basicamente em torno dos bispados, onde se dava a governança das terras. Eu sei que costumamos no Brasil aprender que uma coisa era o clero e outra eram os senhores feudais da nobreza, mas nestas terras da Europa Central, era muito comum que o senhor feudal fosse o próprio bispo.
Foi somente em 1249 — após quatro séculos sendo governada pelo clero — que este povoamento ganhou o status de cidade, uma prefeitura, e a possibilidade de seus cidadãos se gerirem. (Em tempo, ainda mesmo antes da Reforma Protestante, eclodiria uma grande briga entre a nova administração civil e a Igreja aqui).

Onde estamos?
Hildesheim viria a se tornar uma das maiores cidades do norte da Alemanha no medievo. Estamos no que é hoje bem o miolo do país, terras ancestrais dos germânicos, mais próximos do Mar do Norte que dos Alpes lá ao sul.
Atualmente, isto aqui faz parte do estado alemão da Baixa Saxônia, e tem conexões comerciais seculares com as demais cidades que também vieram a fazer parte da chamada Liga Hanseática, de que lhes falei mais no post anterior em Lübeck.
Hildesheim pertenceu brevemente à Prússia e, antes disso, ao Reino de Hanôver no século XIX, mas durante séculos isto aqui foi um ente próprio dentro do Sacro-Império. Embora houvesse a administração civil da cidade, a autoridade maior sob o imperador era um bispo-príncipe de Hildesheim.
Quem tocava a economia da cidade, entretanto, era a burguesia, composta por diversas guildas de mercadores — açougueiros, padeiros, carpinteiros e outros. Era como a economia medieval das cidades europeias se organizava. Muitas das belas edificações de época que vemos hoje em Hildesheim são antigos salões onde esses distintos mercadores se reuniam.




Bordejando pelas igrejas históricas de Hildesheim — e suas ruas no caminho
Eu vou deixar para lhes contar depois como eu cheguei até aqui. Basta saber que era uma manhã de sol, fim de primavera, quando desembarquei para o meu passeio pela cidade.
Hildesheim Hauptbahnhof — a sua estação ferroviária principal — é de uma feiúra incrível, comparável a outros blocos de pedra insossos que destoam em meio à formosa arquitetura de época da Europa (como Roma Termini), mas vá lá. De 1961, ela não pertenceu àquele período de glória da Hildesheim medieval.
A saber, Hildesheim rende um bom bate-e-volta vindo de algum lugar que não seja muito longe — não é preciso pernoitar aqui. Umas belas horas pela cidade são o suficiente para absorver sua beleza e riqueza histórica com os olhos.
Afora esse centrinho gostoso, eu quis dar umas voltas e ver as três igrejas que compõem o patrimônio tombado da cidade: A milenar Igreja de São Miguel (Michaeliskirche), a Catedral de Nossa Senhora (Mariendom), e a Basílica de São Godardo (Basilika St. Godehard). Todas elas são dos idos dos séculos XI ou XII.




Não se demora até chegar à Basílica de São Godardo, um santo de que os latinos, em geral, nunca ouviram falar. Ele foi bispo aqui nos albores de Hildesheim, entre 1022 e 1038. Em 1133, acharam razões para canonizá-lo, e o seu sucessor Bernardus de Hildesheim de pronto ordenou a construção de um mosteiro beneditino e uma igreja em sua homenagem.
Consagrada em 1172, ela conseguiu a proeza de escapar praticamente ilesa dos bombardeios britânicos aqui durante a Segunda Guerra Mundial. Segue em muito da sua arquitetura românica original, seus belos arcos redondos hoje adornados por pinturas neobizantinas feitas pelo ilustrador Michael Welter na década de 1860.





Essa igreja é um templo de tranquilidade. Apesar de seu quilate histórico e beleza artística, quase ninguém vem aqui — como quase ninguém vem a Hildesheim, porque a desconhecem.
Mais tarde, depois de um pouco zanzar por aquele miolo do centro histórico das casinhas bonitas, eu me dirigi à Igreja de São Miguel (Michaeliskirche), das mais antigas que há de pé na Alemanha.
Embora também seja no estilo romanesco da Basílica de São Godardo, ela a precede em cerca de 150 anos. Sua consagração data de 1022, ainda que o término da construção tenha se dado somente em 1033, quando foi inaugurada por nenhum outro que não o próprio bispo Godardo que depois viraria santo.
Esta igreja fica numa breve colina um pouco fora do centro da cidade, onde se dizia à época ter havido uma aparição do arcanjo Miguel.




Pois bem. Vamos a São Miguel, que remonta a um passado mais rústico da cidade — a meio milênio antes dessa mansão.

Esta igreja traz bastante do que a gente encontra nas basílicas italianas daquela época, do estilo romanesco: colunas como na Roma antiga, arcos circulares, pinturas de inspiração bizantina, e enfeites curiosos muito parecidos com aqueles encontrados nas mesquitas árabes daquele tempo — de onde, segundo alguns autores, os europeus cristãos adquiriram certas tendências estéticas.
Quem já se deu o prazer de visitar a Catedral-Mesquita de Córdoba na Espanha, por exemplo, notará alguns desses traços assemelhados.

Linhas que lembram os arabescos, a intercalação de cores parecida. Note a Mesquita de Córdoba, por exemplo.



Se olharmos para cima, temos um dos raros tetos de madeira ilustrados ainda preservados da Alta Idade Média.
As ilustrações datam de 1130, sobre tábuas de carvalho, e retratam a chamada Árvore de Jessé, o nome que se dá às tentativas de se estabelecer uma árvore genealógica vinculando Jesus até o Rei Davi, do Antigo Testamento, e ao seu pai, Jessé de Belém.
Vejam nas fotos abaixo, primeiro uma visão geral e depois em detalhes.


Belas obras de arte e coisas interessantes nesta pouco conhecida cidadezinha alemã.
Faltava-me ainda visitar a sua catedral, a igreja mais antiga da cidade, construída entre 1010 e 1020, também no estilo romanesco. Estamos falando da Catedral de Nossa Senhora, aqui conhecida como Mariendom.
Reza a lenda que, um belo dia, o então rei dos francos Luís I, o piedoso (778-840), estava caçando nas matas desta região quando perdeu seu relicário da Virgem Maria e depois o encontrou numa roseira. Há variantes mais enfeitadas da lenda, contando de visões etc., mas a conclusão é que neste lugar ele ordenou — em 815 — que se edificasse uma igreja a Maria.
Em tempo, essa primeira igrejinha acabaria sendo substituída pela catedral atual no começo do século XI. A curiosidade é que até hoje há uma enorme roseira selvagem ali, que se crê ser a roseira mais antiga de que se tem notícia no mundo.



Uma curiosidade é que, muito embora boa parte da Alemanha tenha se convertido ao luteranismo no século XVI, Hildesheim se manteve como um bastião vinculado à Igreja Católica — como se manteriam também a Baviera e algumas outras regiões.
Esta catedral, portanto, ainda funciona como catedral, embora também seja um museu com acesso à área do seu antigo claustro e à milenar roseira.



Seja como for, eu acho sempre fascinante estar na presença destes seres vivos que tanto presenciaram ao longo da História.
(Aos curiosos, a mais antiga árvore plantada de que se tem notícia fica no Sri Lanka, num templo budista em Anuradhapura, que eu visitei e mostrei aqui).
Deixo-lhes aqui com estas breves histórias e atrações de Hildesheim, das cidades mais antigas da Alemanha, e o nosso périplo por esta região do país continua.






Belissima a arquitetura dessa basílica. Portentosa.
Sim sim parece encantada!…
Lindíssima, e pelo visto Vetusta…. e histórica….uauu…
Que inusitado e interessante, o Senhor Feudal pertencer ao alto escalão de Roma.
Linda a Prefeitura!
A pracinha acolhedora!…
Maravilhosas essa edificações…
Essas guildas , pelo dito aqui, eram fortes. A História fala delas, mas en passant , Pelo visto deveriam ser mais valorizadas ao se falar delas nos livros didáticos.
Surpreendentes o poder dos padeiros nessas Ligas…
Vilgen ,que destoante com o lugar ,o estilo dessa Estação Central… hahaha insossa…feia…. nada a ver com a cidade… parece que foi plantada no lugar errado… horrível…haha.
Lindinhas as ruas e o casario… Gosto muito desse estilo. Parece um pouco a Holanda e redondezas. Um encanto a torre…
Lindo o ambiente assim como o estilo da basílica.
Simples e belo o interior…
Curioso o lustre tipo roda de carroça…hahaha
Lindas as iluminárias …
Que bela e charmosa essa casa do ricaço… e quantos andares… Jesus… haja perna… e será que tinha ocupantes para todos esses andares???
Uau…lindos os termos latinos…
Simm muito semelhantes essess arcos, com aqueles outros citados. Mas para mim a Mesquita é mais bonita.
Belíssimo o teto…
Lindíssima a catedral, com esse telhado verde…
O Claustro parece muito frio…
Interessante a lenda.
Nossa …que roseira enorme…
Muito bonita e charmosa a cidadezinha.
Gostei,