A maioria de vocês já deve ter visto — em algum livro, filme ou desenho animado — a noção de ratos sendo hipnotizados pelo som de uma flauta. Nem todos sabem que isso remonta a uma lenda cá de Hamelin, no interior da Alemanha.
Trata-se de um dos muitos contos cá do medievo da Europa Central. Digo “da Europa Central” e não exclusivamente alemão porque à época os povos andavam misturados — germânicos, tchecos, poloneses, húngaros e outros co-habitavam um mesmo espaço e co-criavam um mesmo caldo cultural.
Dito isso, este parece ser alemão mesmo, de algo que se passou aqui nas festas de São João e São Paulo em fins de junho de 1284. Os detalhes eu conto a seguir, junto com outras belezas e “causos” desta cidade ainda pouco encontrada pelo turismo estrangeiro.
Há um museu sobre esta lenda na cidade com suas diferentes versões (algumas inusitadas), que nós visitaremos, além de mais coisa bonita para se ver.


A lenda do flautista de Hamelin
Estamos na Baixa Saxônia, terra ancestral dos alemães. Foi aqui que, segundo contam, no verão de 1284 houve uma infestação de ratos que alarmou a pequena cidade de Hamelin.
Hamelin havia surgido em 851 como um mosteiro nestas recém-convertidas terras da Saxônia, mas à altura da nossa história ela já havia se convertido numa digna cidade de pequeno porte no coração do Sacro-Império.
Uma curiosidade é que a peste bubônica ainda não havia batido às portas da Europa — ela só apareceria em 1347 —, mas quem sabe se isso posteriormente não ajudou a dar volume ao “causo” do flautista de Hamelin no medievo? Ademais, com ou sem peste, cidade nenhuma gosta de ratos (exceto Bikaner, na Índia, onde há o famoso templo dos ratos).
Sem saber o que fazer, o prefeito e a gente da cidade aceitaram a oferta de ajuda de um misterioso flautista, que apareceu em colorida roupa dizendo que era capaz de dar cabo do problema mediante pagamento.

O flautista realiza o prometido: toca a flauta e todos os ratos da cidade emergem das suas tocas para segui-lo até o rio Weser — aquele que os românticos nacionalistas germânicos depois chamariam de “o mais alemão dos rios alemães”. Lá, o flautista leva todos os ratos a se afogarem nas águas e, assim, livra a cidade.
Os cidadãos de Hamelin, entretanto, agora se viram arrependidos de ter prometido uma soma grande de dinheiro ao flautista, sem saber que ele, de fato, executaria a tarefa. Deram-lhe um calote, o que não acabaria bem. O flautista foi embora de mãos vazias e jurando vingança.
Foi assim que, dia 26 de junho de 1284, quando os cidadãos de Hamelin estavam na igreja celebrando o Dia de São João e São Paulo (não os santos mais conhecidos com esses nomes, mas um par de irmãos — João e Paulo — martirizados no século IV), o flautista retornou à cidade.
Desta vez, não foram os ratos de Hamelin a ser hipnotizados e levados embora por sua música, mas as crianças da cidade.

O fim da história varia de acordo com a versão. Há o bom, o ruim e o inusitado.
O final bom é a versão que hoje virou conto infantil adequado às nossas sensibilidades do século XXI. Nele, há uma criança cega, que não consegue acompanhar o flautista; uma surda-muda, que não é enfeitiçada pela música, mas vai ver aonde iam as demais crianças; e em algumas versões há até uma criança que primeiro passa em casa pra ir buscar o casaco e fica pelo caminho.
Neste final, o flautista leva as crianças para uma caverna na montanha fora da cidade, aonde depois os cidadãos de Hamelin — arrependidos da perfídia para com o flautista — vão ao seu encontro pedir perdão e dar-lhe o pagamento prometido. Tudo aí acaba bem, e a moral da história é que se devem honrar os compromissos.
Só que os contos medievais centro-europeus, frequentemente, eram originalmente mais trágicos e violentos. Vide o lobo em Chapeuzinho Vermelho, por exemplo. Na versão narrada pelos Irmãos Grimm, as crianças desaparecem na caverna para nunca mais serem vistos. Noutra, o flautista as afoga no rio Weser, como feito com os ratos.

Na realidade, estes povoamentos germânicos a partir do século XII na Hungria, Polônia e demais países se deram num misto de conquista pelos cavaleiros teutônicos na região do Báltico e convites feitos pelos reis húngaros para que os alemães viessem e trouxessem os seus saberes às regiões fronteiriças de seu reino, onde ameaçavam os turcos “infiéis”. Isso foi o caso especialmente da Transilvânia, hoje na Romênia, mas de larga minoria húngara e até hoje alguns vilarejos de falantes de alemão.
Sabe-se atualmente que esses germânicos que foram para lá não se originaram de Hamelin, mas de outras regiões. Seja como for, a narrativa de que a tragédia de Hamelin e o povoamento no leste estavam interligados perdurou por séculos.
Após as guerras mundiais, a maioria dos germânicos acabaram expulsos do que vieram a se tornar os países bálticos ou os estados-nacionais dos tchecos, poloneses, húngaros e romenos, mas alguns poucos ainda persistem.
E Hamelin segue aqui com a sua fama. Dizem que, até o século XVIII, havia uma rua onde era proibido tocar música e onde até as procissões ficavam silenciosas, em respeito a ter sido supostamente ali o lugar onde o misterioso flautista ultrajado levou as crianças embora.


Bordejando por Hamelin hoje
Foi uma primavera europeia destas em que eu visitei Hamelin, saindo de Goslar e passando por Hildesheim no caminho até de lá tomar um trem cá para esta cidade do pegador de ratos.
A cidade segue sendo de médio porte, com menos de 60 mil habitantes, mas goza precisamente dos charmes de uma cidade alemã do interior.
Quando cheguei — quase 750 anos após o ocorrido —, encontrei uma animada cidadezinha plena de visitantes e alemães a passear, gente pela rua nos seus calçadões sem qualquer sinal de tristeza. Os tempos eram outros.
Pela cidade, não se demora a ver uma estátua do flautista diante do Museu de Hamelin, com detalhes da cidade, e casario de época por toda parte.

Descendo na estação ferroviária naquela manhã, eu segui na rua moderna de casas, carros e as características barracas de hortifruti dos imigrantes do Oriente Médio até chegar ao miolo histórico de Hamelin, onde mora o seu lado pitoresco.




Não se demora a passar pelo Museu de Hamelin, com as histórias e a escultura do flautista ali defronte, mas a ele nós voltaremos daqui a pouco.
Há outros lugares de interesse em Hamelin também. Por exemplo, fui ver a Igreja de São Bonifácio, a mais antiga da cidade. Ali há uma igreja desde os idos do ano 800, dos primórdios do cristianismo na Alemanha. No século XIII, fizeram a edificação gótica que se vê hoje, atualmente uma catedral luterana.
Quem sabe se não foi ali que estavam os cidadãos de Hamelin a celebrar São João e São Paulo quando as crianças foram levadas?



Também do século XIII, ainda que de outro aspecto, tem-se também a Igreja de São Nicolau bem na praça principal da cidade (Marktkirche St. Nicolai).
Esta foi completamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e refeita nos anos 1950.



Falando em religião, uma curiosidade é que o episódio do flautista tinha uma conotação bem mais religiosa originalmente. Embora o caso tenha supostamente ocorrido em 1284, é somente a partir das versões do século XVI que aparece qualquer menção a ratos.
Nos primeiros séculos, o caso era apenas de 130 crianças abduzidas por um flautista e desaparecidas numa colina fora da cidade chamada de Calvário, com referência também aos prantos das mães que perdiam seus filhos, numa clara alusão cristã.
Supõe-se que as crianças talvez tenham se afogado no rio Weser, ou sido vítimas de algum soterramento nas colinas, ou ainda que algum flautista de seita pagã as tenha levado embora. Uma leitura mais leve é que esses “filhos de Hamelin” — não mais crianças — tenham emigrado, o que ainda assim teria levado suas mães às lágrimas pela despedida.
Somente a partir de 1559 — e pode-se dizer que muito provavelmente por causa da peste bubônica transmitida por ratos, àquela altura já um fenômeno na Europa — é que surge a primeira versão sugerindo que antes de abduzir as crianças o flautista havia livrado a cidade dos roedores e tomado um calote. Um floreio literário posterior, portanto.


O Museu de Hamelin
Todo o centro da cidade é bonitinho, e o lugar que nenhum visitante pode deixar de ver é o Museu de Hamelin (€6). Ainda que simples e pequeno, ele vale a pena para compreender melhor a História daqui e saber detalhes sobre estas distintas versões da lenda.
Há, inclusive, uma apresentação de luz e sons de 15 minutos sobre o flautista e o ocorrido. É divertida.



Mais recentemente na História, Hamelin ficou famosa por razões bem mais sombrias.
Era nos arrabaldes aqui da cidade que o Partido Nazista realizava todos os anos o seu grande Festival do Reich de Ação de Graças pela Colheita (Das Reichserntedankfest). Como detalhei no post anterior em Goslar, desde o século XVIII os românticos alemães passaram a identificar esta região aqui da Baixa Saxônia — e, mais especificamente, as colinas Harz — como o berço do povo e da cultura germânica.
Não demorou assim a um outro flautista, no século XX, aparecer prometendo livrar a sociedade da sua suposta escória e acabar por levar as crianças embora.

Eu deixava Hamelin contente por ter visitado a cidade do famoso conto. Retornava de trem até Hildesheim e de lá a Goslar, onde estava hospedado.
Eu agora juntava as minhas coisas e tomava rumo um tiquinho mais a leste, a conhecer outras cidades deste coração alemão.






Muito interessante e conhecida a lenda desse flautista. Chegou aqui ao Brasil através dos livros infantis.
A cidadezinha, pelo visto guarda com carinho suas lembranças.
Muito bonitinha.
Uma graça o museu do flautista.
A arquitetura é mesmo especial, lindinha e se parece com algumas do sul do Brasil.
Região charmosa e histórica.
Essa e outras lendas ultrapassaram o mundo conhecido de entao e ganharam o mundo descoberto, fazendo o encantamento das crianças.
Importante sob o ponto de vista da conduta ja que cobra a manutenção dos compromissos assumidos.
Importante também sobre quem se segue.
Tudo isso como parte da formação das pessoas.
Muito interessante.
Belas igrejas e construções antigas.
Gostei muito da cidadezinha.
Pretendo ir por lá…