Senhoras e senhores, bem-vindos a Wernigerode, uma das cidades mais charmosinhas da Alemanha. Estamos na região das Harz [Hartz], colinas centrais no que são hoje os estados alemães da Baixa Saxônia e Saxônia Anhalt. (Dado: aqui passava a linha de separação entre as antigas Alemanha Ocidental e Oriental na Guerra Fria, mas deixemos para tratar disso depois.)
Dizem ter sido nesta região que surgiu o povo alemão enquanto tal, ele que na Antiguidade foi encontrado pelo Império Romano e que, durante o medievo, migrou também a leste para áreas das atuais Polônia, Romênia, Áustria, entre outros.

Esta geografia, portanto, é algo sempre muito cara aos germanistas e aos admiradores em geral da cultura alemã. Meu post na vizinha Goslar abordou como a partir do século XVIII os românticos começaram a incensar esta região, a ponto de ela ser vista como o nascedouro da cultura germânica.
Sabe a estética das casinhas de armação em madeira (enxaimel), colinas verdes e trens maria fumaça que hoje tanto caracterizam certas cidades turísticas das serras da Região Sul? Muito leva inspiração daqui, mesmo que a ancestralidade das pessoas não provenha especificamente desta região.
Eu não tenho a pretensão de reconstruir a História das serras gaúcha e catarinense — até porque nem parentesco alemão eu tenho. O meu olhar é externo, de um mero viajante de fora, observador e que aconteceu de estar de passagem nestas terras.



Chegando nestas terras
Saído de Goslar, tendo visitado também Hildesheim e Hamelin, eu vinha tranquilo e faceiro no trem quando estourou um quiprocó do meu lado. Não comigo, mas com outros germânicos.
Os alemães soam estressados mesmo quando não estão. Há algo no humor e no jeito de expressar-se, um destempero rápido, um expressivismo no que tange a implementação da ordem. Acho que há uma coisa até de deleite estético nisso, uma coisa meio narcísica. Eu tenho a impressão de que nada ou poucas coisas excitam tanto um alemão que trabalha com o público que retificar os outros, pôr as pessoas na linha.
O pomo da discórdia foi alguém com um bilhete regional da Baixa Saxônia sendo feito ver que aqui já não estávamos mais na Baixa Saxônia e, portanto, o bilhete não era válido. A região das Harz é a mesma, mas ela acontece de estar dividida entre dois estados, duas unidades administrativas diferentes. (A Alemanha é uma federação, como o Brasil.)
Não seja você a cometer este erro. Baixa Saxônia, adieu. Auf wiedersehen. Saxônia Anhalt, hello!

Esta divisa em particular, como lhes disse no começo, data da Segunda Guerra Mundial, com a partição do país num comunista e noutro capitalista.
Estamos, portanto, entrando agora no que era a antiga Alemanha Oriental.

Voltas por Wernigerode: Um passeio fotográfico
Desci ali, e logo vi do meu lado as maria fumaça — os trens clássicos do século XIX, estes de 1897, dos tempos da industrialização imperial alemã. O Sul do Brasil bebe dessa mesma nostalgia daquele tempo da imigração.
Aliás, é possível ir de maria fumaça até o Monte Brocken — caso não queira subi-lo a pé como Goethe fez. Nesta página oficial da secretaria de turismo, você pode ver as informações práticas sobre os horários.
Eu, entretanto, hoje tinha como destino a própria Wernigerode, que estava ainda deveras quieta nesta manhã, como as cidadezinhas germânicas tipicamente são nos fins de semana. Era sábado, eu quase sozinho entre as casas de armação de madeira.
Wernigerode não é uma cidade de grande peso histórico ou de acontecimentos. Sua significação está mesmo em encorpar bem o charme e a beleza desta região. Este é o que eu chamo, portanto, de um passeio fotográfico.


O autor e jornalista alemão Hermann Löns escreveu sobre este lugar da seguinte forma:
“Todas as cidades da região de Harz têm os seus tesouros e preciosidades, mas nenhuma é tão rica ou colorida como Wernigerode. Ali, você encontrará tudo o que o seu coração deseja: movimento, ao mesmo tempo em que paz e tranquilidade, elegância urbana e vilarejo simples, um fluxo de visitantes e moradores que não mudam, edificações e arquitetura antiga. É uma cidade de coloridos contrastes que se fundiram para constituir toda uma atmosfera”.
Uma curiosidade? Esse depoimento data de 1909.
As palavras, curiosamente, seguem verdadeiras.


Wernigerode — a quem, como eu, não resiste em saber algo do contexto histórico — é uma cidade que remonta ao século XIII, como Goslar.
Aquela foi a época em que os então vilarejos desta região começaram a ganhar o status de cidade e, com isso, maior autonomia para estabelecer leis próprias e fazer comércio.
Não há falta de edificações góticas nem de casas em arquitetura tradicional datadas dos centênios seguintes, quando nos idos dos séculos XV e XVI a cidade se desenvolveu.
Há, ainda hoje, um prédio da prefeitura (rathaus) de 1498 que é um dos principais emblemas da cidade.



Eu acho até que já fiquei hospedado em Gramado num hotel que emulava um pouco essa arquitetura.
O original e o antigo, obviamente, têm um garbo de autenticidade que não se reproduz com facilidade.
Aqui, também se destaca a diversidade destes enfeites. Pelo número de cores que se veem por entre os feixes das armações de madeira, Wernigerode é às vezes apelidada na Alemanha de “cidade colorida”.
Hoje, em especial, isso era um contraste bem-vindo com o céu cinzento.




No Sul do Brasil, é claro que há influências de outras partes do mundo germânico, como dos Alpes — assim como, naturalmente, de outras proveniências, como dos imigrantes italianos, e dos brasileiros que lá já havia antes do século XIX.
Entretanto, esta região das Harz “enfeitiçou” o mundo germânico com seu charme e simbologia cultural no século XIX, foi o berço do movimento romântico alemão, e portanto contribuiu sobremaneira para a romantização desta paisagem de cidadezinha com o trenzinho e e as colinas verdes em redor.
No Brasil, claro, não tem castelo medieval, e aqui tem.


Eu circulei curioso por ali, vendo um exemplar autêntico desta região que, direta ou indiretamente, inspirou muito da estética que se encontra no Sul do meu país.
A Alemanha tem seus charmes. Graças a Deus — e a eles — há mais no país do que aquele estereótipo do cidadão inflexível. Há beleza, arte e romantismo também.
E falando nisso, minha estadia aqui em Wernigerode era curta. Eu já ia tomar o trem rumo a Quedlimburgo, mais a leste, e talvez de beleza ainda mais impressionante. Eu reencontro vocês lá.






Belissima essa linda e colorida cidadezinha. Um encanto seus tons e cores,
Uma graça essas construções. Lindinhas. encantadoras…
Acho lindas essas cidadezinhas alemãs.
Bem movimentadas, lindamente estruturadas.
Uma graça…
Esse coração da Alemanha é um espetáculo.
Adorável.
Um charme de cidadezinha.