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Alemanha Saxônia-Anhalt

Wernigerode, Alemanha: Inspiração estética para as Serras Gaúcha e Catarinense?

Senhoras e senhores, bem-vindos a Wernigerode, uma das cidades mais charmosinhas da Alemanha. Estamos na região das Harz [Hartz], colinas centrais no que são hoje os estados alemães da Baixa Saxônia e Saxônia Anhalt. (Dado: aqui passava a linha de separação entre as antigas Alemanha Ocidental e Oriental na Guerra Fria, mas deixemos para tratar disso depois.)

Dizem ter sido nesta região que surgiu o povo alemão enquanto tal, ele que na Antiguidade foi encontrado pelo Império Romano e que, durante o medievo, migrou também a leste para áreas das atuais Polônia, Romênia, Áustria, entre outros.

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Casinhas de enxaimel.

Esta geografia, portanto, é algo sempre muito cara aos germanistas e aos admiradores em geral da cultura alemã. Meu post na vizinha Goslar abordou como a partir do século XVIII os românticos começaram a incensar esta região, a ponto de ela ser vista como o nascedouro da cultura germânica.

Sabe a estética das casinhas de armação em madeira (enxaimel), colinas verdes e trens maria fumaça que hoje tanto caracterizam certas cidades turísticas das serras da Região Sul? Muito leva inspiração daqui, mesmo que a ancestralidade das pessoas não provenha especificamente desta região.

Eu não tenho a pretensão de reconstruir a História das serras gaúcha e catarinense — até porque nem parentesco alemão eu tenho. O meu olhar é externo, de um mero viajante de fora, observador e que aconteceu de estar de passagem nestas terras. 

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Canteiro de flores, telhados íngremes, casas pitorescas de armação de madeira… o brasileiro médio poderia achar que estamos em Gramado (RS), mas esta é Wernigerode, na Alemanha. Aquela casa da esquina data de 1680.
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Bem-vindos. Esta terminação rode quer dizer clareira ou área desmatada para cultivo. Daí também, por exemplo, Pomerode (SC), o “Pome” aqui devido aos imigrantes oriundos da Pomerânia, além de uma pá de outras cidades alemãs.
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Do trem, a vista sobre os agora onipresentes campos de canola neste interior da Alemanha estava nublada hoje. A primavera aqui estava assim, ora sol, ora um resíduo de inverno. Ainda havia um friozinho no ar.

Chegando nestas terras

Saído de Goslar, tendo visitado também Hildesheim e Hamelin, eu vinha tranquilo e faceiro no trem quando estourou um quiprocó do meu lado. Não comigo, mas com outros germânicos.

Os alemães soam estressados mesmo quando não estão. Há algo no humor e no jeito de expressar-se, um destempero rápido, um expressivismo no que tange a implementação da ordem. Acho que há uma coisa até de deleite estético nisso, uma coisa meio narcísica. Eu tenho a impressão de que nada ou poucas coisas excitam tanto um alemão que trabalha com o público que retificar os outros, pôr as pessoas na linha. 

O pomo da discórdia foi alguém com um bilhete regional da Baixa Saxônia sendo feito ver que aqui já não estávamos mais na Baixa Saxônia e, portanto, o bilhete não era válido. A região das Harz é a mesma, mas ela acontece de estar dividida entre dois estados, duas unidades administrativas diferentes. (A Alemanha é uma federação, como o Brasil.)

Não seja você a cometer este erro. Baixa Saxônia, adieu. Auf wiedersehen. Saxônia Anhalt, hello!

Mapa da Alemanha com Wernigerode
Estamos no coração da Alemanha, áreas ancestrais habitadas por germânicos há milênios. Note as divisas regionais internas no mapa e como Wernigerode fica quase na linha, logo no começo do estado da Saxônia Anhalt, a leste da Baixa Saxônia.

Esta divisa em particular, como lhes disse no começo, data da Segunda Guerra Mundial, com a partição do país num comunista e noutro capitalista.

Estamos, portanto, entrando agora no que era a antiga Alemanha Oriental.

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Do ponto de vista geográfico, é assim. Serras e mais serras. Brocken é cume mais alto, que Goethe famosamente escalou no século XVIII e sobre o qual escreveu um poema que ajudou a deflagrar o movimento romântico alemão. Wernigerode está bem no meio do mapa, com Goslar mais a ocidente. É uma linda região.

Voltas por Wernigerode: Um passeio fotográfico

Desci ali, e logo vi do meu lado as maria fumaça — os trens clássicos do século XIX, estes de 1897, dos tempos da industrialização imperial alemã. O Sul do Brasil bebe dessa mesma nostalgia daquele tempo da imigração.

Aliás, é possível ir de maria fumaça até o Monte Brocken — caso não queira subi-lo a pé como Goethe fez. Nesta página oficial da secretaria de turismo, você pode ver as informações práticas sobre os horários.

Eu, entretanto, hoje tinha como destino a própria Wernigerode, que estava ainda deveras quieta nesta manhã, como as cidadezinhas germânicas tipicamente são nos fins de semana. Era sábado, eu quase sozinho entre as casas de armação de madeira.

Wernigerode não é uma cidade de grande peso histórico ou de acontecimentos. Sua significação está mesmo em encorpar bem o charme e a beleza desta região. Este é o que eu chamo, portanto, de um passeio fotográfico.

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Eu quase sozinho em meio às casas tradicionais de Wernigerode no início daquela manhã de sábado.
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O charme é encantador. Aos poucos, as primeiras pessoas iam aparecendo.

O autor e jornalista alemão Hermann Löns escreveu sobre este lugar da seguinte forma:

“Todas as cidades da região de Harz têm os seus tesouros e preciosidades, mas nenhuma é tão rica ou colorida como Wernigerode. Ali, você encontrará tudo o que o seu coração deseja: movimento, ao mesmo tempo em que paz e tranquilidade, elegância urbana e vilarejo simples, um fluxo de visitantes e moradores que não mudam, edificações e arquitetura antiga. É uma cidade de coloridos contrastes que se fundiram para constituir toda uma atmosfera”.

Uma curiosidade? Esse depoimento data de 1909. 

As palavras, curiosamente, seguem verdadeiras.

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Onde mais você ainda vê assim um senhor indo fazer compras com a cesta no sábado de manhã?
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A quietude de um pitoresco vilarejo noutras ruas.

Wernigerode — a quem, como eu, não resiste em saber algo do contexto histórico — é uma cidade que remonta ao século XIII, como Goslar.

Aquela foi a época em que os então vilarejos desta região começaram a ganhar o status de cidade e, com isso, maior autonomia para estabelecer leis próprias e fazer comércio. 

Não há falta de edificações góticas nem de casas em arquitetura tradicional datadas dos centênios seguintes, quando nos idos dos séculos XV e XVI a cidade se desenvolveu.

Há, ainda hoje, um prédio da prefeitura (rathaus) de 1498 que é um dos principais emblemas da cidade.

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A gótica prefeitura de Wernigerode na praça principal da cidade. Sua edificação data de 1498.
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Esta, bem mais recente, de 1848 e já no estilo neogótico, é a chamada Fonte do Benfeitor (Wohltäterbrunnen).
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Ali naquele ambiente, na ainda fria primavera alemã.

Eu acho até que já fiquei hospedado em Gramado num hotel que emulava um pouco essa arquitetura. 

O original e o antigo, obviamente, têm um garbo de autenticidade que não se reproduz com facilidade.

Aqui, também se destaca a diversidade destes enfeites. Pelo número de cores que se veem por entre os feixes das armações de madeira, Wernigerode é às vezes apelidada na Alemanha de “cidade colorida”.

Hoje, em especial, isso era um contraste bem-vindo com o céu cinzento.

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A viva arquitetura tradicional de Wernigerode no seu centro.
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Árvores que adicionam à beleza da arquitetura de enxaimel.
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Cores e pontas da torre da igreja.
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A antiga Igreja de Nossa Senhora (Liebfrauenkirche) em Wernigerode, de que se tem registro desde 1230. Hoje, esta edificação reconstruída no século XVIII após um incêndio é uma casa de concertos de música clássica.

No Sul do Brasil, é claro que há influências de outras partes do mundo germânico, como dos Alpes — assim como, naturalmente, de outras proveniências, como dos imigrantes italianos, e dos brasileiros que lá já havia antes do século XIX.

Entretanto, esta região das Harz “enfeitiçou” o mundo germânico com seu charme e simbologia cultural no século XIX, foi o berço do movimento romântico alemão, e portanto contribuiu sobremaneira para a romantização desta paisagem de cidadezinha com o trenzinho e e as colinas verdes em redor. 

No Brasil, claro, não tem castelo medieval, e aqui tem.

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O castelo no horizonte.
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O Castelo de Wernigerode data originalmente da Idade Média, mas este foi erguido — no bojo do movimento romântico de resgate das raízes medievais alemãs — no século XIX. Estava fechado para restauração.

Eu circulei curioso por ali, vendo um exemplar autêntico desta região que, direta ou indiretamente, inspirou muito da estética que se encontra no Sul do meu país.

A Alemanha tem seus charmes. Graças a Deus — e a eles — há mais no país do que aquele estereótipo do cidadão inflexível. Há beleza, arte e romantismo também.

E falando nisso, minha estadia aqui em Wernigerode era curta. Eu já ia tomar o trem rumo a Quedlimburgo, mais a leste, e talvez de beleza ainda mais impressionante. Eu reencontro vocês lá.

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Wernigerode, uma das mais benquistas cidadezinhas tradicionais alemãs nesta região de colinas das Harz.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Wernigerode, Alemanha: Inspiração estética para as Serras Gaúcha e Catarinense?

  1. Belissima essa linda e colorida cidadezinha. Um encanto seus tons e cores,
    Uma graça essas construções. Lindinhas. encantadoras…
    Acho lindas essas cidadezinhas alemãs.
    Bem movimentadas, lindamente estruturadas.
    Uma graça…
    Esse coração da Alemanha é um espetáculo.
    Adorável.
    Um charme de cidadezinha.

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