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Alemanha Saxônia-Anhalt

Quedlimburgo: a mais bela cidadezinha da Alemanha?

Quedlimburgo (Quedlinburg) é séria competidora a ser a mais bela cidadezinha da Alemanha, a mais pitoresca, mesmo num país tão famoso por suas cidades e vilarejos charmosos de construções tradicionais.

Claro, chega um ponto em que vira questão de gosto. Há concorrência acirrada.

Já para quem veio aqui conhecendo apenas a Alemanha de metrópoles como Munique e Frankfurt, vale conhecer também Bamberg, Rothenburg ob der Tauber, Goslar, Wernigerode e tantas outras… mas não se pode esquecer Quedlimburgo, ainda que mesmo muitos alemães não a conheçam. 

Ela caiu no meu radar por conta de uma dessas postagens aleatórias de Instagram. “Nossa, que cidade é essa?“. E de nome curioso. Pronto. Aquele desejo ficou lá alojado até eu poder finalmente vir conhecê-la nesta primavera e apresentá-la a vocês. A bordo. 

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Quedlimburgo é um charme, das cidades mais belas da Alemanha, com uma originalidade medieval que lhe rendeu tombamento pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.
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Quedlimburgo vista do alto, da basílica medieval de São Servácio.

Quedlimburgo: sua história

Comecemos por localizar Quedlimburgo um pouco no tempo e no espaço. Nós estamos aqui no miolo da Alemanha, num lugar até de difícil acesso — são necessárias duas a quatro baldeações de trem, numa viagem de mais de 5h só de vinda, para se chegar aqui desde qualquer cidade de porte, mesmo na hiperconectada Alemanha. Ou seja, fazer bate-e-volta é quase impossível. É preciso dormir na região.

Mapa da Alemanha com Quedlimburgo
Quedlinburgo fica à beira das colinas Harz, bem no meio da Alemanha. Não está longe de Berlim, mas o acesso é difícil. Não há trens diretos vindo de longe.

Outra coisa é que muita gente hoje — inclusos aí muitos alemães — nem sabe que Quedlimburgo existe. Só recentemente é que as pessoas estão tomando conhecimento dela.

Nem sempre foi assim. Quedlimburgo chegou a ser cidade central de um principais reinos medievais do Sacro-Império Romano Germânico. 

Foi aqui em Quedlimburgo que surgiu a primeira dinastia de reis de um Estado alemão, pelo qual ela é chamada por alguns de “o berço do [primeiro] Reich germânico“, já que foi aqui que os duques saxões aclamaram como rei Henrique, o passarinheiro (876-936). (Daqui a pouco eu explico o porquê do nome.)

Fundou-se uma Abadia de Quedlimburgo por obra de Santa Matilda, a sua esposa e depois viúva em sua memória, e em torno da qual a cidade emergiria como um dos principais centros políticos e comerciais desta região durante o medievo.  

Sua impressionante basílica românica de São Servácio de 1129 segue de pé, ainda que a abadia não exista mais enquanto instituição. E são mais de 2000 casas tradicionais de armação de madeira, com um plano medieval preservado de ruas que sobem até o castelo.  

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A vista para o antigo castelo de Quedlimburgo com a Basílica de São Servácio, do século XII. Como de hábito, havia uma fortificação na colina, em torno da qual surgia um vilarejo que depois se convertia em cidade. A esta altura, você vê que o que um dia foram passadiços, muralhas e torres se converteram em casario com floreios renascentistas — as as fundações permanecem.

Um bônus aos curiosos da História, que queiram se situar melhor na Idade Média.

Mapa da Europa apos o Tratado de Verdun 843
Carlos Magno, rei dos francos, é coroado pelo papa no ano 800 como um novo imperador romano. Seu território, entretanto, se fragmenta entre os seus netos em três partes: Francia Occidentalis, Francia Media e Francia Orientalis. Assim fica o mapa da Europa após o Tratado de Verdun (843) feito entre eles.
Mapa da Europa apos o Tratado de Meerssen 870
Adiantemos para 870, com o Tratado de Meerseen alterando novamente o mapa. A Francia Media foi engolida pelas vizinhas, e você começa a ter um desenho que lembra o mapa atual. Começa a se ver uma separação entre as futuras França, Alemanha e Itália.

Uma observação, entretanto, é que todos esses territórios eram governados ainda por descendentes do finado imperador Carlos Magno (764-814), o que por virtude do seu nome entrou para a História como Dinastia Carolíngia. (Daí também é que vem o nome Carolina, viu gente?)

Os bárbaros francos — que, portanto, são de origem germânica — haviam passado séculos misturados aos gauleses (de origem celta) e aos romanos na atual França, se convertido ao cristianismo com Clóvis na cidade de Reims em 508, derrotado os invasores árabes em Poitiers em 732, e com isso ascendido naquela Europa como grandes protetores da Cristandade ocidental.

Quando os netos de Carlos Magno dividem aquele território todo entre si, tínhamos ainda um rei franco governando uma Francia Orientalis que, entretanto, era povoada essencialmente por outros povos germânicos, como os saxões. 

É somente em 919 que isso muda, com a aclamação do duque saxão Henrique, o passarinheiro (876-936), como novo rei — aqui em Quedlimburgo.

Louis the Pious (right) blessing the division of the Carolingian Empire in 843 into West Francia, Lotharingia, and East Francia; from the <i>Chroniques des rois de France</i>, fifteenth century
Esta é uma ilustração medieval de 1450 mostrando a divisão do império carolíngio em três partes: Francia Occidentalis (que daria origem ao Reino da França), Francia Media (que duraria pouco), e Francia Orientalis, que daria origem à futura Alemanha — mas que a esta altura ainda era governada por francos. (Note também como, apesar de toda a rivalidade que surgiria posteriormente, são nações irmãs separadas há 1000 anos atrás.)

Dizem que Henrique estava de boa, armando a sua rede para capturar pássaros, como gostava de fazer, quando chegaram os mensageiros dos nobres da Saxônia dizendo que ele estava sendo escolhido como o novo rei da Francia Orientalis, para que finalmente deixassem de ser governados por francos. Foi o primeiro monarca alemão da Idade Média, por assim dizer.

Dada a circunstância aqui em 919, pegou o pouco glamuroso apelido de “Henrique, o passarinheiro”, mas eu não sei se ele se importava. 

Ele seria assim o fundador daquela que ficou conhecida como Dinastia Otoniana, já que seu filho Otto ficaria ainda mais famoso ao se casar com a rainha do que era o então Reino da Itália (visto em cor-de-rosa no mapa acima) e fundar o novo império que convencionamos chamar de — *tambores* — Sacro-Império Romano Germânico, em 962. 

Quem diria que isso havia começado com um pegador de passarinhos aqui em Quedlimburgo. O lugar onde dizem que Henrique foi pego armando a sua rede é hoje uma esquina famosa, que eu lhes mostrarei junto com o restante da cidade.

Mapa da Europa ano 1000
O Sacro-Império Romano Germânico, como veio a ser chamado, com a junção dos reinos da Alemanha e da Itália, na altura do ano 1000. Pelos séculos seguintes, nobres diversos — duques, condes e reis — viveriam, nominalmente, sob a égide de um único imperador abençoado pelo papa.

Chegando a Quedlimburgo hoje

Chegar a Quedlimburgo hoje não é tarefa fácil, mas vale a pena. Há milhares de casas antigas bem preservadas, não apenas daquele tempo medieval, como também dos idos de 1450-1700, quando a cidade veio a integrar a famosa Liga Hanseática como um importante entreposto comercial do interior alemão. 

Eu deixei Goslar pela manhã de mochila e cuia, passei a manhã em Wernigerode no caminho, e depois vim cá passar uma tarde — o que é o suficiente para vê-la, embora pernoitar seja possível. Eu, entretanto, hoje dormiria em Halle (a cidade do compositor Handel) após encontrar uns amigos lá.

Advirto, entretanto, que não encontrei guarda-volumes nesta pequenina estação ferroviária de Quedlimburgo, então tive que zanzar com o mochilão nas costas. Valeu a pena mesmo assim. Encontrei minha amiga Anna, que julgou a cidade movimentada demais em comparação a quando esteve aqui anos antes, mas da minha parte eu não achei que estivesse além da conta.

As pessoas estão redescobrindo Quedlimburgo. Talvez o fato de ela ter ficado na antiga Alemanha Oriental (1945-1990) tenha reduzido o alcance da sua fama turística — ao contrário de lugares da Baviera, por exemplo, com a sua Rota Romântica assim nomeada por guias de viagem norte-americanos no pós-guerra. A outrora Alemanha Oriental não gozou de nenhum esforço promocional comparável, mas nós estamos aqui para descobri-la.

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Quedlimburgo, tombada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade na Alemanha.
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Bem-vindos, senhoras e senhores. Vamos, de mochila e cuia, Quedlimburgo adentro.

Como tantas cidades europeias, ela tem uma casca externa mais nova, e vai aos poucos retornando no tempo. Neste caso de Quedlimburgo, temos uma seção da cidade com cara dos séculos XVIII e XIX (de ruas já largas, como essa da foto acima), e conforme penetramos seu miolo, o jeitão vai regredindo no tempo. 

Regressemos pouco a pouco à Idade Média.

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A estação ferroviária de Quedlimburgo não é apenas aquele casebre tradicional que eu mostrei no começo, mas ela tampouco é muito grande e não tem guarda-volumes.
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A rua com ares do século XX. Charmosa — a primavera se fazendo presente pelo menos nas flores, se não no nublado céu —, mas não é ainda o centro medieval da cidade.
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Depois, ao final antes de ir embora, eu acabaria regressando a essa Torten Lust para comer uma torta.
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Quedlimburgo adentro, as ruas começando a se estreitar.

Por Quedlimburgo: Os seus pontos principais

A camada de casas menos antigas, nos tons pasteis da Europa Central

Ao que vamos adentrando Quedlimburgo, começamos a voltar no tempo.

As casas, de início para quem entra, são uma digna combinação de edificações de enxaimel (armação de madeira) e outras, sem madeira, coloridas nos tons pasteis que tanto caracterizam a Europa Central.

Nesse sentido, Quedlimburgo distancia-se do que era a antiga Alemanha Ocidental (de Goslar e Hildesheim, por exemplo) e se aproxima mais do antigo Leste Europeu, como a República Tcheca ou a Hungria — ou ainda da Áustria.

Quem conhece a Alemanha sabe que as divisões leste-oeste seguem presentíssimas no âmbito histórico, socioeconômico, político e cultural mesmo passados 35 anos da reunificação.

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Quedlimburgo tem casario tradicional que talvez lembre mais a Áustria ou o Leste Europeu do que as cidades da antiga Alemanha Oriental.
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Este casario colorido em tons pasteis poderia facilmente estar na Hungria, Eslováquia ou República Tcheca — ou mesmo em Riga, na Letônia, onde havia muitos alemães antes das guerras mundiais.
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Praça em Quedlimburgo, Alemanha. Passada esta camada com ares do século XVIII, chegaremos ao miolo de aspecto medieval.

A Igreja de São Benedito

No meio do caminho, havia pedras, e no meio da cidade, havia uma igreja.

Eu segui cidade adentro até me deparar com ela, a Igreja de São Benedito, onde entrei.

Hoje convertida em luterana como tantas igrejas originalmente católicas Alemanha afora, ela fica bem no centro de Quedlimburgo e talvez seja a segunda igreja mais visitada da cidade — atrás apenas da Basílica de São Servácio, lá no alto do castelo.

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A Igreja de São Benedito (Marktkirche St. Benedikti) data do século XII, embora já tenha passado por adições posteriores e reformas devido a incêndios.
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Seu interior é hoje pleno de enfeites barrocos, sobretudo dos séculos XVI e XVII. Este púlpito aqui na direita da foto, por exemplo, data de 1595.
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O altar-mor da igreja data de 1700. Ele substituiu um altar gótico anterior que havia.
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Arte sacra barroca na Igreja de São Benedito em Quedlimburgo.
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Praça central em Quedlimburgo, com a igreja em vista e a prefeitura ali ao fundo.

Rolando e a prefeitura

Não muito distante dali, temos a secular Prefeitura de Quedlimburgo, uma das mais antigas de toda a Alemanha, com registros já desde 1229.

Como sempre, são edificações dignas de nota neste país. Embora tenha sofrido reformas e reconstruções diversas ao longo dos séculos, ela preserva um charme mágico — sobretudo para quem vier nesta época da primavera-verão, quando as heras diante dela estão verdes. 

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A prefeitura de Quedlimburgo, das mais antigas que há na Alemanha. Seu primeiro registro é de 1229, ainda que a edificação em si tenha sofrido reformas e alterações ao longo dos séculos.

Na esquina ali, uma presença muito caea e que também remonta à era medieval: Rolando, que os italianos chamam de Orlando. Não sabiam de onde vêm este nome próprio e suas derivações?

Rolando teria sido um dos 12 paladinos de Carlos Magno (748-814), isto é, 12 cavaleiros mui nobres e valorosos que faziam parte do seu círculo mais próximo. Há indícios de que vários deles existiram de verdade, tal qual o imperador, mas ao longo da Idade Média foram se compondo versos líricos, contos e canções épicas a dourar as suas histórias.

A francesa Chanson de Roland, do século XI, versa sobre uma batalha que este teria liderado contra os bretões no século VIII. É das mais antigas canções épicas medievais de que se tem registro, predecessora dos contos do Rei Arthur (que, por ser de língua inglesa, se disseminou mais na mídia de massa entre nós) assim como dos bardos e trovadores das cortes europeias, inclusa aí a corte portuguesa.

Aquele ideal do cavaleiro honrado e valoroso se constrói nessa época, e Rolando com sua espada Durendal é dos principais exemplos que mais tarde inspirariam tantos personagens da ficção. Isto depois, na Renascença, vai ganhar ainda mais volume com novas obras impressas, como as italianas Orlando Innamorato (1495) e Orlando Furioso (1516). 

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Estátua de Orlando ou Rolando com sua espada na prefeitura de Quedlimburgo. A homenagem é em honra à origem carolíngia desta cidade, certamente. Tal estátua existe aqui desde pelo menos 1460, embora tenha sido destruída e reerguida várias vezes.

Casas mais antigas e a Münzenberg

Daquele miolo da Quedlimburgo atual é preciso andar um pouco por entre as casas de enxaimel para chegar ao miolo da Quedlimburgo de mil anos atrás. Basta orientar-se pelo castelo lá no alto. As casas vão, aos poucos, ficando ainda mais antigas. As ruas, mais tortas, e breve com algumas subidas. 

Passa-se, não posso deixar de mencionar, pela Carl-Ritter-strasse, a rua em homenagem a um dos pais da geografia moderna, nascido aqui em Quedlimburgo em 1779. 

Almoçamos um flammkuche simples — uma espécie de pizza sem molho de tomate, característica da Alsácia, Lorena e cá de partes da Alemanha —, e nos imiscuímos ali entre as casas antigas até chegar à área elevada conhecida como Münzenberg. 

Entre outros, não pudemos deixar de passar pelo local onde dizem que Henrique, o passarinheiro, estava quando recebeu a notícia de que seria rei.

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Aos curiosos, este foi meu flammkuche, comida rápida característica de partes da Alemanha e de partes da França que já foram Alemanha. É como uma pizza de massa fina sem molho de tomate. As coisas em cima variam a gosto.
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O casario antigo de Quedlimburgo.
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Dizem que aqui foi onde Henrique, o passarinheiro, estava armando sua rede quando lhe comunicaram que ele seria rei. Esta casinha pontuda — que alguns apelidaram de armadilha de pegar passarinho (Finkenherd), daquelas gaiolas com um graveto que o passarinho derruba quando come a isca e fica preso dentro — hoje serve de centro de informação turística. Foi erigida como marco nos idos de 1530.

Uma pausa para respirar para aqueles que ficaram com pena dos passarinhos e, possivelmente, estão desencorajados de jamais entrar ali para pedir informação. (Não se preocupem, não cai graveto nenhum e não é o Hotel Califórnia.)

Havia muito pior na Idade Média, senhoras e senhores.

Como dizia o autor francês Jean-Baptiste Alphonse Carr (numa frase frequentemente atribuída erroneamente a Abraham Lincoln), nós podemos nos queixar que a rosa tem espinhos ou ficar contente que um arbusto espinhento tenha rosas.

Vamos então ver mais algumas rosas medievais.

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No meio de Quedlimburgo, com o seu casario medieval.
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O charme das ruas impressiona — e são muitas ruelas assim. A cidade não é tão pequena.
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É um mergulho no tempo.

As ruas ficam um tanto íngremes quando nos aproximamos da área do centro histórico chamada de Münzenberg assim como do antigo morro do castelo.

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Subindo um pouco.
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Recantos mais quietos de Quedlimburgo. Este centro histórico é largo o bastante para acomodar o número de viajantes que vem cá.
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Você e as casas de enxaimel entre muros medievais.
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Diante das casas.
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Algumas delas, floridas.
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A vista para a Basílica de São Servácio e as antigas fortificações do castelo no alto.

A Colegiada de São Servácio: No alto do castelo

Não há mais propriamente um castelo medieval no sentido em que costumamos imaginar. Essas coisas foram mudando com o tempo, convertendo-se em moradas renascentistas e depois barrocas por sobre aquelas antigas pedras.

Quem se mantém é a milenar Colegiada de São Servácio (Stiftskirche St. Servatius), que foi consagrada ainda em 997, danificada num incêndio e depois reaberta em 1129. Toda a sua arquitetura é romanesca, de arcos redondos e colunas de inspiração mediterrânea — o estilo que precedeu o gótico na Europa.

Uma “colegiada”, a quem não sabe, é uma igreja católica que possui quase que a mesma autoridade de uma catedral, só que é governada por um conselho, um colégio de cônegos em lugar de um bispo. Informalmente, há quem chame esta de Catedral de Quedlimburgo (Quedlinburger Dom), mas é impreciso.

Vamos subindo. Você pode tomar o caminho mais curto e subir 67 degraus ou tomar o caminho mais longo — mais pitoresco — por ruas entre as casas, que foi o que eu preferi. De uma forma ou de outra, chega-se aos antigos portões das muralhas.

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O acesso ao alto é assim, por entre o que eram os antigos portões. Tipicamente, as cidades medievais tinham muralhas externas e também muralhas internas que protegiam apenas o seu cerne, caso as externas fossem penetradas.
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Adentrando o que era o coração de Quedlimburgo.

Eu cheguei a mencionar que aqui se fundou uma Abadia de Quedlimburgo no ano 936, após o falecimento do rei Henrique, o passarinheiro, o primeiro alemão a governar esta Francia Orientalis que depois o costume passaria a chamar de Reino da Germânia — Regnum Teutonicorum.

Ninguém ficará surpreso ao saber que os restos mortais de Henrique estão aqui nesta basílica, mas talvez fiquem admirados de saber que esta era uma abadia feminina, governada ao longo dos séculos por uma abadessa que às vezes fazia frente ao governantes temporais da cidade, e que a primeira delas foi a própria neta do passarinheiro. Ela se chamava Mathilda como sua avó, a idealizadora do lugar.

No plano religioso, como a abadessa respondia diretamente ao papa e podia passar ao largo das decisões do bispo da vizinha Halberstadt, em cuja diocese Quedlimburgo em princípio se encaixava, as brigas políticas com ele eram comuns. 

Tudo isso, claro, mudou com a Reforma Protestante nos idos de 1600, mas tudo o que ocorreu foi que a abadia se converteu ao luteranismo, mantendo sua estrutura. Ela perdurou até esta região ser absorvida pelo Reino da Prússia no século XIX, que lhe retirou a autonomia.

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As vias de acesso ao topo de Quedlimburgo.
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No alto, a antiga Abadia de Quedlimburgo, com destaque para a milenar Colegiada de São Servácio. É das basílicas mais antigas a norte dos Alpes.
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Eis o interior romanesco da Colegiada de São Servácio. (São Servácio, a quem estiver a se perguntar, foi o santo de Maastricht (na atual Holanda) do século IV, cujos restos mortais foram trazidos para cá ainda no medievo.)
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Os detalhes bem preservados das colunas são impressionantes.
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Vitral de Jesus de branco. Parte destes elementos foram adicionados após a fundação desta igreja.
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O altar com um tríptico medieval, como se chamam estas pinturas de três partes. Eram características naquele tempo.

Na cripta, aqui debaixo, estão os restos mortais de São Servácio, do rei Henrique, o passarinheiro, e da sua esposa Santa Mathilda, a fundadora desta abadia.

O lugar tem um ambiente bastante calmo e retirado — fiquei com a impressão de que a maioria dos que vêm a Quedlimburgo falham em vir aqui. É como se você viajasse através dos séculos.

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O interior da Colegiada de São Servácio em Quedlimburgo, basílica fundada antes do ano 1000.
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Interior visto de outro ângulo, por detrás do altar, com destaque para as arcadas e colunas.

Circulamos por aqui e fomos ainda ver os antigos jardins da abadia, de onde se tem uma bela vista para a cidade.

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Os antigos jardins da abadia no alto de Quedlimburgo.
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A vista para os jardins e para as colinas mais além.
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A vista para a cidade.
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Hora de ir descendo.

Epílogo

Quedlimburgo era, de certa forma, o ápice deste meu breve périplo por esta região da Alemanha. Fiquei contente de conhecer as Harz, após ler a respeito — e de finalmente vir a Quedlimburgo depois de tanto ouvir falar dela e do seu charme. Não me decepcionou. (Isto aqui no Natal deve ser de um charme irresistível.)

Voltei zanzeando por aquelas mesmas ruas, tentando buscar também outras, de casas que eu ainda não tivesse visto — pois a gente, guloso, quer sempre ver tudo. Logrei o que procurava, e antes de voltar à estação parei-me com Anna na tal da Torten Lust. Era preciso saciar aquele desejo por açúcar que bate em nós cristãos às quatro da tarde.

Pedi uma torta redondinha de amoras, que se revelou uma torta instagrâmica — daquelas lindas na foto, mas deficitária no gosto. Triste tortinha, ó quão dessemelhante, sem fazer jus à tradição vetusta dos padeiros alemães. Tempos de Instagram corrompendo até as cozinhas de Quedlimburgo.

Vida que segue, eu segui. Auf wiedersehen, até mais ver, Alemanha. Até a próxima — pois contigo sempre há uma próxima. Deixo vocês com mais algumas imagens, e retorno de alhures.  

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Nos meandros da cidade.
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Bonitinha, mas ordinária.
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Já Quedlimburgo, esta merece todo o meu respeito. Estão apresentados.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Quedlimburgo: a mais bela cidadezinha da Alemanha?

  1. Nossa, que fofura…. belíssima….a cidadezinha…
    As construções ,seu estilo magnifico, seus belos tons, sua conservação, impressionantes… belas e vetustas igrejas, nessa cidadezinha escondida no coração da Alemanha. Um charme.Adorei os coloridos das belas casinhas. Lindinhos os telhadinhos vermelhos.
    Uma graça as ruelinhas tortas e bonitinhas.
    A prefeitura é um encanto.
    Lindas as flores e o verde.
    tudo agrada a quem chega.
    Belissimo o interior dos templos, com suas pinturas, vitrais e arquitetura.
    Amei a cidadezinha, com seus arcos, muralhas, belas e vetustas construções e sua movimentação.
    parabéns pela escolha da região. linda.
    Valeu, jovem viajante.

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