Quedlimburgo (Quedlinburg) é séria competidora a ser a mais bela cidadezinha da Alemanha, a mais pitoresca, mesmo num país tão famoso por suas cidades e vilarejos charmosos de construções tradicionais.
Claro, chega um ponto em que vira questão de gosto. Há concorrência acirrada.
Já para quem veio aqui conhecendo apenas a Alemanha de metrópoles como Munique e Frankfurt, vale conhecer também Bamberg, Rothenburg ob der Tauber, Goslar, Wernigerode e tantas outras… mas não se pode esquecer Quedlimburgo, ainda que mesmo muitos alemães não a conheçam.
Ela caiu no meu radar por conta de uma dessas postagens aleatórias de Instagram. “Nossa, que cidade é essa?“. E de nome curioso. Pronto. Aquele desejo ficou lá alojado até eu poder finalmente vir conhecê-la nesta primavera e apresentá-la a vocês. A bordo.


Quedlimburgo: sua história
Comecemos por localizar Quedlimburgo um pouco no tempo e no espaço. Nós estamos aqui no miolo da Alemanha, num lugar até de difícil acesso — são necessárias duas a quatro baldeações de trem, numa viagem de mais de 5h só de vinda, para se chegar aqui desde qualquer cidade de porte, mesmo na hiperconectada Alemanha. Ou seja, fazer bate-e-volta é quase impossível. É preciso dormir na região.

Outra coisa é que muita gente hoje — inclusos aí muitos alemães — nem sabe que Quedlimburgo existe. Só recentemente é que as pessoas estão tomando conhecimento dela.
Nem sempre foi assim. Quedlimburgo chegou a ser cidade central de um principais reinos medievais do Sacro-Império Romano Germânico.
Foi aqui em Quedlimburgo que surgiu a primeira dinastia de reis de um Estado alemão, pelo qual ela é chamada por alguns de “o berço do [primeiro] Reich germânico“, já que foi aqui que os duques saxões aclamaram como rei Henrique, o passarinheiro (876-936). (Daqui a pouco eu explico o porquê do nome.)
Fundou-se uma Abadia de Quedlimburgo por obra de Santa Matilda, a sua esposa e depois viúva em sua memória, e em torno da qual a cidade emergiria como um dos principais centros políticos e comerciais desta região durante o medievo.
Sua impressionante basílica românica de São Servácio de 1129 segue de pé, ainda que a abadia não exista mais enquanto instituição. E são mais de 2000 casas tradicionais de armação de madeira, com um plano medieval preservado de ruas que sobem até o castelo.

Um bônus aos curiosos da História, que queiram se situar melhor na Idade Média.


Uma observação, entretanto, é que todos esses territórios eram governados ainda por descendentes do finado imperador Carlos Magno (764-814), o que por virtude do seu nome entrou para a História como Dinastia Carolíngia. (Daí também é que vem o nome Carolina, viu gente?)
Os bárbaros francos — que, portanto, são de origem germânica — haviam passado séculos misturados aos gauleses (de origem celta) e aos romanos na atual França, se convertido ao cristianismo com Clóvis na cidade de Reims em 508, derrotado os invasores árabes em Poitiers em 732, e com isso ascendido naquela Europa como grandes protetores da Cristandade ocidental.
Quando os netos de Carlos Magno dividem aquele território todo entre si, tínhamos ainda um rei franco governando uma Francia Orientalis que, entretanto, era povoada essencialmente por outros povos germânicos, como os saxões.
É somente em 919 que isso muda, com a aclamação do duque saxão Henrique, o passarinheiro (876-936), como novo rei — aqui em Quedlimburgo.

Dizem que Henrique estava de boa, armando a sua rede para capturar pássaros, como gostava de fazer, quando chegaram os mensageiros dos nobres da Saxônia dizendo que ele estava sendo escolhido como o novo rei da Francia Orientalis, para que finalmente deixassem de ser governados por francos. Foi o primeiro monarca alemão da Idade Média, por assim dizer.
Dada a circunstância aqui em 919, pegou o pouco glamuroso apelido de “Henrique, o passarinheiro”, mas eu não sei se ele se importava.
Ele seria assim o fundador daquela que ficou conhecida como Dinastia Otoniana, já que seu filho Otto ficaria ainda mais famoso ao se casar com a rainha do que era o então Reino da Itália (visto em cor-de-rosa no mapa acima) e fundar o novo império que convencionamos chamar de — *tambores* — Sacro-Império Romano Germânico, em 962.
Quem diria que isso havia começado com um pegador de passarinhos aqui em Quedlimburgo. O lugar onde dizem que Henrique foi pego armando a sua rede é hoje uma esquina famosa, que eu lhes mostrarei junto com o restante da cidade.

Chegando a Quedlimburgo hoje
Chegar a Quedlimburgo hoje não é tarefa fácil, mas vale a pena. Há milhares de casas antigas bem preservadas, não apenas daquele tempo medieval, como também dos idos de 1450-1700, quando a cidade veio a integrar a famosa Liga Hanseática como um importante entreposto comercial do interior alemão.
Eu deixei Goslar pela manhã de mochila e cuia, passei a manhã em Wernigerode no caminho, e depois vim cá passar uma tarde — o que é o suficiente para vê-la, embora pernoitar seja possível. Eu, entretanto, hoje dormiria em Halle (a cidade do compositor Handel) após encontrar uns amigos lá.
Advirto, entretanto, que não encontrei guarda-volumes nesta pequenina estação ferroviária de Quedlimburgo, então tive que zanzar com o mochilão nas costas. Valeu a pena mesmo assim. Encontrei minha amiga Anna, que julgou a cidade movimentada demais em comparação a quando esteve aqui anos antes, mas da minha parte eu não achei que estivesse além da conta.
As pessoas estão redescobrindo Quedlimburgo. Talvez o fato de ela ter ficado na antiga Alemanha Oriental (1945-1990) tenha reduzido o alcance da sua fama turística — ao contrário de lugares da Baviera, por exemplo, com a sua Rota Romântica assim nomeada por guias de viagem norte-americanos no pós-guerra. A outrora Alemanha Oriental não gozou de nenhum esforço promocional comparável, mas nós estamos aqui para descobri-la.


Como tantas cidades europeias, ela tem uma casca externa mais nova, e vai aos poucos retornando no tempo. Neste caso de Quedlimburgo, temos uma seção da cidade com cara dos séculos XVIII e XIX (de ruas já largas, como essa da foto acima), e conforme penetramos seu miolo, o jeitão vai regredindo no tempo.
Regressemos pouco a pouco à Idade Média.




Por Quedlimburgo: Os seus pontos principais
A camada de casas menos antigas, nos tons pasteis da Europa Central
Ao que vamos adentrando Quedlimburgo, começamos a voltar no tempo.
As casas, de início para quem entra, são uma digna combinação de edificações de enxaimel (armação de madeira) e outras, sem madeira, coloridas nos tons pasteis que tanto caracterizam a Europa Central.
Nesse sentido, Quedlimburgo distancia-se do que era a antiga Alemanha Ocidental (de Goslar e Hildesheim, por exemplo) e se aproxima mais do antigo Leste Europeu, como a República Tcheca ou a Hungria — ou ainda da Áustria.
Quem conhece a Alemanha sabe que as divisões leste-oeste seguem presentíssimas no âmbito histórico, socioeconômico, político e cultural mesmo passados 35 anos da reunificação.



A Igreja de São Benedito
No meio do caminho, havia pedras, e no meio da cidade, havia uma igreja.
Eu segui cidade adentro até me deparar com ela, a Igreja de São Benedito, onde entrei.
Hoje convertida em luterana como tantas igrejas originalmente católicas Alemanha afora, ela fica bem no centro de Quedlimburgo e talvez seja a segunda igreja mais visitada da cidade — atrás apenas da Basílica de São Servácio, lá no alto do castelo.





Rolando e a prefeitura
Não muito distante dali, temos a secular Prefeitura de Quedlimburgo, uma das mais antigas de toda a Alemanha, com registros já desde 1229.
Como sempre, são edificações dignas de nota neste país. Embora tenha sofrido reformas e reconstruções diversas ao longo dos séculos, ela preserva um charme mágico — sobretudo para quem vier nesta época da primavera-verão, quando as heras diante dela estão verdes.

Na esquina ali, uma presença muito caea e que também remonta à era medieval: Rolando, que os italianos chamam de Orlando. Não sabiam de onde vêm este nome próprio e suas derivações?
Rolando teria sido um dos 12 paladinos de Carlos Magno (748-814), isto é, 12 cavaleiros mui nobres e valorosos que faziam parte do seu círculo mais próximo. Há indícios de que vários deles existiram de verdade, tal qual o imperador, mas ao longo da Idade Média foram se compondo versos líricos, contos e canções épicas a dourar as suas histórias.
A francesa Chanson de Roland, do século XI, versa sobre uma batalha que este teria liderado contra os bretões no século VIII. É das mais antigas canções épicas medievais de que se tem registro, predecessora dos contos do Rei Arthur (que, por ser de língua inglesa, se disseminou mais na mídia de massa entre nós) assim como dos bardos e trovadores das cortes europeias, inclusa aí a corte portuguesa.
Aquele ideal do cavaleiro honrado e valoroso se constrói nessa época, e Rolando com sua espada Durendal é dos principais exemplos que mais tarde inspirariam tantos personagens da ficção. Isto depois, na Renascença, vai ganhar ainda mais volume com novas obras impressas, como as italianas Orlando Innamorato (1495) e Orlando Furioso (1516).

Casas mais antigas e a Münzenberg
Daquele miolo da Quedlimburgo atual é preciso andar um pouco por entre as casas de enxaimel para chegar ao miolo da Quedlimburgo de mil anos atrás. Basta orientar-se pelo castelo lá no alto. As casas vão, aos poucos, ficando ainda mais antigas. As ruas, mais tortas, e breve com algumas subidas.
Passa-se, não posso deixar de mencionar, pela Carl-Ritter-strasse, a rua em homenagem a um dos pais da geografia moderna, nascido aqui em Quedlimburgo em 1779.
Almoçamos um flammkuche simples — uma espécie de pizza sem molho de tomate, característica da Alsácia, Lorena e cá de partes da Alemanha —, e nos imiscuímos ali entre as casas antigas até chegar à área elevada conhecida como Münzenberg.
Entre outros, não pudemos deixar de passar pelo local onde dizem que Henrique, o passarinheiro, estava quando recebeu a notícia de que seria rei.



Uma pausa para respirar para aqueles que ficaram com pena dos passarinhos e, possivelmente, estão desencorajados de jamais entrar ali para pedir informação. (Não se preocupem, não cai graveto nenhum e não é o Hotel Califórnia.)
Havia muito pior na Idade Média, senhoras e senhores.
Como dizia o autor francês Jean-Baptiste Alphonse Carr (numa frase frequentemente atribuída erroneamente a Abraham Lincoln), nós podemos nos queixar que a rosa tem espinhos ou ficar contente que um arbusto espinhento tenha rosas.
Vamos então ver mais algumas rosas medievais.



As ruas ficam um tanto íngremes quando nos aproximamos da área do centro histórico chamada de Münzenberg assim como do antigo morro do castelo.






A Colegiada de São Servácio: No alto do castelo
Não há mais propriamente um castelo medieval no sentido em que costumamos imaginar. Essas coisas foram mudando com o tempo, convertendo-se em moradas renascentistas e depois barrocas por sobre aquelas antigas pedras.
Quem se mantém é a milenar Colegiada de São Servácio (Stiftskirche St. Servatius), que foi consagrada ainda em 997, danificada num incêndio e depois reaberta em 1129. Toda a sua arquitetura é romanesca, de arcos redondos e colunas de inspiração mediterrânea — o estilo que precedeu o gótico na Europa.
Uma “colegiada”, a quem não sabe, é uma igreja católica que possui quase que a mesma autoridade de uma catedral, só que é governada por um conselho, um colégio de cônegos em lugar de um bispo. Informalmente, há quem chame esta de Catedral de Quedlimburgo (Quedlinburger Dom), mas é impreciso.
Vamos subindo. Você pode tomar o caminho mais curto e subir 67 degraus ou tomar o caminho mais longo — mais pitoresco — por ruas entre as casas, que foi o que eu preferi. De uma forma ou de outra, chega-se aos antigos portões das muralhas.


Eu cheguei a mencionar que aqui se fundou uma Abadia de Quedlimburgo no ano 936, após o falecimento do rei Henrique, o passarinheiro, o primeiro alemão a governar esta Francia Orientalis que depois o costume passaria a chamar de Reino da Germânia — Regnum Teutonicorum.
Ninguém ficará surpreso ao saber que os restos mortais de Henrique estão aqui nesta basílica, mas talvez fiquem admirados de saber que esta era uma abadia feminina, governada ao longo dos séculos por uma abadessa que às vezes fazia frente ao governantes temporais da cidade, e que a primeira delas foi a própria neta do passarinheiro. Ela se chamava Mathilda como sua avó, a idealizadora do lugar.
No plano religioso, como a abadessa respondia diretamente ao papa e podia passar ao largo das decisões do bispo da vizinha Halberstadt, em cuja diocese Quedlimburgo em princípio se encaixava, as brigas políticas com ele eram comuns.
Tudo isso, claro, mudou com a Reforma Protestante nos idos de 1600, mas tudo o que ocorreu foi que a abadia se converteu ao luteranismo, mantendo sua estrutura. Ela perdurou até esta região ser absorvida pelo Reino da Prússia no século XIX, que lhe retirou a autonomia.






Na cripta, aqui debaixo, estão os restos mortais de São Servácio, do rei Henrique, o passarinheiro, e da sua esposa Santa Mathilda, a fundadora desta abadia.
O lugar tem um ambiente bastante calmo e retirado — fiquei com a impressão de que a maioria dos que vêm a Quedlimburgo falham em vir aqui. É como se você viajasse através dos séculos.


Circulamos por aqui e fomos ainda ver os antigos jardins da abadia, de onde se tem uma bela vista para a cidade.




Epílogo
Quedlimburgo era, de certa forma, o ápice deste meu breve périplo por esta região da Alemanha. Fiquei contente de conhecer as Harz, após ler a respeito — e de finalmente vir a Quedlimburgo depois de tanto ouvir falar dela e do seu charme. Não me decepcionou. (Isto aqui no Natal deve ser de um charme irresistível.)
Voltei zanzeando por aquelas mesmas ruas, tentando buscar também outras, de casas que eu ainda não tivesse visto — pois a gente, guloso, quer sempre ver tudo. Logrei o que procurava, e antes de voltar à estação parei-me com Anna na tal da Torten Lust. Era preciso saciar aquele desejo por açúcar que bate em nós cristãos às quatro da tarde.
Pedi uma torta redondinha de amoras, que se revelou uma torta instagrâmica — daquelas lindas na foto, mas deficitária no gosto. Triste tortinha, ó quão dessemelhante, sem fazer jus à tradição vetusta dos padeiros alemães. Tempos de Instagram corrompendo até as cozinhas de Quedlimburgo.
Vida que segue, eu segui. Auf wiedersehen, até mais ver, Alemanha. Até a próxima — pois contigo sempre há uma próxima. Deixo vocês com mais algumas imagens, e retorno de alhures.








Nossa, que fofura…. belíssima….a cidadezinha…
As construções ,seu estilo magnifico, seus belos tons, sua conservação, impressionantes… belas e vetustas igrejas, nessa cidadezinha escondida no coração da Alemanha. Um charme.Adorei os coloridos das belas casinhas. Lindinhos os telhadinhos vermelhos.
Uma graça as ruelinhas tortas e bonitinhas.
A prefeitura é um encanto.
Lindas as flores e o verde.
tudo agrada a quem chega.
Belissimo o interior dos templos, com suas pinturas, vitrais e arquitetura.
Amei a cidadezinha, com seus arcos, muralhas, belas e vetustas construções e sua movimentação.
parabéns pela escolha da região. linda.
Valeu, jovem viajante.