Bem-vindos ao MASP (Museu de Arte de São Paulo), talvez o maior e mais importante museu de arte do Brasil.
Reestruturado em 2024, ele reabriu de cara nova em maio de 2025 com um novo prédio anexo batizado de Pietro Maria Bardi, responsável pela fundação do MASP junto com Assis Chateaubriand lá em 1947.
Embora eu já tivesse vindo incontáveis vezes a São Paulo, nunca tinha me dado ao trabalho de visitar o MASP, e que bom foi que minha curta estadia desta vez coincidiu com a inauguração da nova estrutura, agora em dois prédios.
O que encontrei foi um grande acervo — superior mesmo ao de muitos museus europeus, com obras de grande quilate como do imortal Rafael, de Goya, Degas, sem falar em toda uma coleção do impressionista francês Renoir, além de obras de outras matrizes, como a africana, e de arte contemporânea. Dito isso, a organização é das mais loucas que eu já vi.



Visitando o MASP
Eu até tive a oportunidade de visitar numa terça-feira (e economizar a bagatela de R$ 75, preço europeu), mas bobeei e já de antevéspera as entradas — que precisam sempre ser reservadas — se esgotaram.
Eu achei que na quarta-feira, sendo dia pago e miolo da semana, o museu estaria um ermo, mas me equivoquei: havia até uma quantidade razoável de gente. Eu fiquei satisfeito, e orgulhoso, de ver meus compatriotas visitando museu. Era uma quantidade mediana de pessoas, que tampouco prejudicava a qualidade da visita.
Reservei para uma janela de horário logo após o almoço — a fazer aquela proverbial digestão enquanto apreciava umas obras de arte e, de quebra, matava a curiosidade de finalmente conhecer o MASP. Amigos paulistanos comentavam também comigo sobre a inauguração do prédio novo, que não haviam ainda visitado. Vim eu — sempre batedor — à frente deles.
O acervo surpreendeu-me. Eu não sabia que tantas obras de arte de autores consagrados e de renome internacional tinham morada no Brasil. Você está lendo sobre a História do MASP, com um videozinho de Assis Chateaubriand sendo projetado à parede, e de repente vê um Rafael original ali.



Meu queixo caiu que obras tão consagradas — e caras, sob todos os aspectos — estivessem assim apenas adereçando uma eulogia (fadada a interessar a poucos) sobre os criadores do MASP e suas idas e vindas no processo de formação do museu.
Rafael não é Seu Zé da esquina. Eu lembro de ter visitado um museu na Alemanha (em Dresden, que recomendo) que tinha uma única obra de Rafael como âncora principal do museu inteiro.
Aqui, a única obra do renascentista em todo o hemisfério sul da Terra é apresentada num paredão misturada com dezenas de outras, numa altura em que a maioria das pessoas não conseguirá visualizar direito, misturada a fotografias e com um video passando do lado. O que esta curadoria tinha na cabeça?





Faltaram aqui textos explicativos que destacassem o valor, o contexto histórico e as características de cada obra — até para que o visitante passe a conhecer. É em grande parte a função de um museu, não só mostrar.
Como é que você inaugura um prédio de 10 andares e não consegue organizar um espaço adequado às suas principais obras, eu não sei.
Renoir, um andar dedicado a ele
Tomei rumo e desci ao 5° andar, todo dedicado ao impressionista francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Esta é talvez a maior coleção de obras de Renoir que eu já vi num único museu, excetuando-se o Musée d’Orsay em Paris.
Este foi talvez o melhor andar de toda a exposição permanente do museu.


O quadro também leva o nome alternativo de Rosa e Azul (Rose et bleu), pelas cores dos dois vestidos, que Renoir conseguiu detalhar de modo maestral nas pinceladas características do impressionismo.
Típico do seu estilo próprio de retratista — diferentemente de Monet, por exemplo, que priorizava as paisagens —, Renoir comunicava também as emoções da pessoa retratada, ainda que crianças.
Se os retratistas da tradição artística clássica sempre costumavam enfatizar alguma virtude ou heroísmo na figura retratada (quase sempre um nobre ou alguém importante), Renoir gostava de transmitir a simplicidade. Ou talvez melhor dizendo, a mundanidade do real, das coisas e das pessoas como elas são, aproximando-nos como nós estávamos do realismo já na virada do século XIX para o XX.

Teria sido bom haver um pouco mais sobre o impressionismo e sobre o autor, já que há todo um andar dedicado a ele. Muitos museus mundo afora fazem isso, com um texto geral de contexto para cada sala e às vezes algumas considerações principais bem grande na parede, fácil de ler e para valorizar a visita.
Aliás, falando em ler, aqui neste andar há boas e detalhadas legendas. Eu só não entendi a ideia duvidosa de colocá-las atrás dos quadros, de modo que você vê o quadro e precisa dar a volta se quiser entender melhor o que está vendo — memoriza tudo e depois vem olhar de novo ou precisa ficar alternando.
Não é sem razão que na grande maioria dos museus a legenda fica logo do lado da obra, para que a leitura acompanhe a interpretação visual.

África e indígenas na pegada da arte contemporânea
Descemos ao piso 4, um espaço dedicado a uma arte contemporânea demais pro meu gosto sobre “geometrias”.
Não estava muito povoado, então não acho que fosse só eu. Havia algumas coisas mais interessantes que outras.



Descemos ao piso 3, de artes da África, que também tem coisas bonitas — embora, como de costume, tenham generalizado “África” como um grande misturão, perdendo a oportunidade de mostrar ao visitante as distinções que há dentro daquele enorme continente.
Ficou aquele cheiro de tokenismo no ar — um esforço só simbólico para parecer includente — ou seja, de botar alguma coisa só pra dizer que tinha um andar sobre a África, pra não dizer que não falou das flores.
Ainda assim, havia belas peças, embora uma esquisita trilha sonora desnecessária de fundo.



Eu sou um amante da criatividade, mas acho que no Brasil as pessoas às vezes se esquecem de que nem tudo o que vem à cabeça ou é inovador é boa ideia.
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Enfim, o que restava neste prédio nos andares inferiores era apenas mais eulogia e resgate sobre a fundação do MASP. Neste caso, um vídeo sobre a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, que agora dá nome ao prédio antigo do MASP.
Como no Brasil há esse personalismo e essa necessidade por homenagens — de modo que se homenageiam as pessoas até em nome de praça de alimentação de shopping —, ficam as orientações do MASP agora a todo momento ensinando aos visitantes qual é o prédio Lina Bo Bardi e qual é o Pietro Maria Bardi.
Mais uma vez, o museu parecia mais preocupado em ensinar aos visitantes ao seu respeito que a respeito das obras do seu acervo.

A Ecologia de Monet – exposição temporária
Eu dei a sorte de vir durante a exposição temporária A Ecologia de Monet (16/05 a 24/08 de 2025), esta sim muito boa e que foi um bálsamo — não só pela qualidade das obras, mas também de organização, mostrando que é perfeitamente possível, e nem tão difícil, pôr as legendas no lugar adequado e trazer a atenção do visitante às obras e seu contexto.
Isso fez parte de uma série de exposições temporárias que o MASP tem abrigado sobre “a ecologia de” distintos autores. A ecologia aí precisa ser apreendida de modo bastante amplo, sobre como diversos artistas — cada qual no seu tempo e espaço — captou e retratou o ambiente, no sentido geral da palavra.
Claude Monet (1840-1926), que viveu a transição à vida urbana industrial nos fins do século XIX na França, registrou um misto de paisagens naturais do lugar, as nascentes vistas industriais das cidades poluídas, assim como os inspiradores jardins de onde morava em Giverny.
Foi uma obra sua, Impression, soleil levant (1874), que acabou por involuntariamente dar nome a todo o movimento que a imprensa de então passou a designar de impressionista.


A exposição temporária é eficaz em trazer muitas obras do pintor que ficam, normalmente, espalhadas mundo afora. Havia várias que eu jamais havia visto sequer pela internet.

A sala “depósito” – tudo junto e misturado
Eu encerraria esta minha visita ao MASP pelo outro tanto da exposição permanente, no 2º andar do prédio antigo, onde estão aglomeradas — com ares de depósito e, novamente, legendas no fundo do quadro — dezenas de obras que misturam desde quadros medievais a arte contemporânea.
A sensação é a de que não houve espaço — ou imaginação — para dispor adequadamente das obras ali presentes, nem ao menos distribuí-las por tipo, estilo ou época, e aí as puseram todas ali juntas.
Na mesma sala você tem críticas políticas contemporâneas, panfletos e fotografias, a alguns passos de Goya, Degas e outros. Acho que eu nunca tinha visto obras de arte tão prestigiosas apresentadas de modo tão amontoado, sem aviso nem explicação. Qualquer museu provincial na Europa organiza isso melhor.




Resumo da ópera: o acervo é muito rico, superou as minhas expectativas, mas a apresentação ainda deixa muito a desejar.
Eu acho inconcebível que a instituição tenha originais tão célebres e não invista num espaço de diagramação mais à altura das obras — ainda mais agora, com 10 andares de espaço novo à disposição. Já que o MASP trabalha com ingresso a preço europeu (R$ 75), poderia bem ir lá se inspirar sobre como organizar melhor o acervo.
Isso ajudaria e muito a experiência do visitante — depois de ir, percebi muita gente nas avaliações do Google fazendo queixa parecida.
Portanto, de quebra, o MASP cumpriria mais eficazmente o papel de promoção das artes a que se propõe. Sempre é tempo.





Que pena que um acervo tão interessante e valioso esteja tão misturado e mal distribuído.
E que ideia de por as legendas explicativas longe das obras.
Espero que eles reconsiderem e disponham melhor suas obras.
O MASP merece e os visitantes também.