(Este será um post longo.)
China, o país que hoje não sai mais das manchetes. Ganhou grande número de apologistas, e acho que nunca deixou de ter seus críticos. Eu, aqui, não me insiro em nenhum dos dois grupos.

A China, antes de tudo, é uma civilização antiga e pela qual eu tenho respeito, curiosidade e admiração. Vir aqui é a realização de um sonho, como foi ir à Índia ou ao Japão pela primeira vez.
Dito isso, minha visão — como sempre — é realista.
Não esperem portanto elogios rasgados nem tampouco críticas constantes como se o Ocidente em tudo fosse melhor ou pior. Em verdade, incomoda-me enormemente que hoje em dia quase tudo tenha virado proselitismo, com gente querendo fazer a sua cabeça contra isso ou a favor aquilo.
Aqui, vocês não encontrarão nem aquela coisa idealizada da propaganda nem o suposto horror pintado pelos seus detratores. Aliás, eu lhes prometo que verão como a China de verdade é muito mais interessante, cheia de nuances e de algumas coisas melhores que outras.
Todos temos imagens sobre a China e sobre os chineses, às vezes com base em interações com eles no estrangeiro, e o que eu posso dizer é que uma vivência presencial cá muda bastante isso — como toda boa viagem faz. Venhamos, portanto. Vamos embarcar numa aventura estas semanas.

A política temporária de isenção de vistos para visitar a China em 2025-2026
A China, famosamente, sempre teve um dos processos de emissão de visto de turista mais chatos que há — junto com os Estados Unidos, e ao contrário da facilidade que é viajar à Europa —, mas não mais.
Nestes idos de 2025-2026, num gesto de boa vizinhança e tentativa de trazer os turistas estrangeiros (e seu dinheiro) de volta no contexto pós-pandemia, quando muito da sua imagem perante os ocidentais e parte da sua economia ficaram um tanto queimadas, Pequim está isentando uma pá de nacionalidades da necessidade de visto para turismo.
Nesta altura de 2025, portugueses e portadores de vários outros passaportes europeus têm isenção de visto de turismo até o fim do ano, enquanto que brasileiros e vários outros sul-americanos estão isentos da exigência até 31 de maio de 2026. (Esta página tem essas datas sempre atualizadas).

Há uma expectativa de que isso pode ser prorrogado, mas quem quiser se garantir, organize-se para vir logo.
Eu vim ainda antes de a isenção começar a valer em 1 de junho de 2025. Tive que solicitar o visto — o que exige passagens de avião já compradas, todas as reservas de hotel feitas, e o pagamento de uma taxa. Não é o fim do mundo, mas bem melhor não ter esse trabalho nem esse gasto.
Conto-lhes agora da experiência de viajar cá com a Air China e o processo de imigração no aeroporto, antes de passar às minhas primeiras impressões e bordejos em Pequim.

Minha experiência da vinda
Prólogo: Antes do voo
Eu não consegui fazer meu check-in online. Que atire a primeira pedra quem não sentiria um certo frisson antes de ir à República Popular da China, com tudo o que ela significa. Suas companhias aéreas são um tanto exóticas; seus websites, um tanto estranhos, com um ar demodê; os aplicativos, nem sempre essa Brastemp toda. Você procura se assegurar de que nada dará errado, e eu fiquei meio cabreiro que não tivesse sido possível fazer o check-in online.
Liguei para o número da Air China cá da Suécia, onde moro. Eu não costumo fazer isso, mas desta vez, fiz. Atendeu-me uma jovem de voz eficaz e ligeira. Assegurou-me de que tudo estava certo e que eu, simplesmente, fosse fazer o check-in no aeroporto. Não teve tempo para aquela coisa latina de “Nossa, que bom, eu estava preocupado!“, foi-me perguntando se eu ainda precisava de mais alguma coisa, e me despachou para poder atender o próximo cliente e bater sua meta de teleatendimentos.
Cá no meu chão, Estocolmo se mostrava mais quente que o de costume neste fim de maio. Ao que eu me dirigia de mochila e cuia ao aeroporto, um etíope ao telefone entrava e saía do metrô a cada estação. Abanava-se a mãos nuas contra o calor sueco. Óculos, camisa social branca meio folgada e um ar de profissional de TI saindo do trabalho. Era uma tarde de sábado, todavia.
Fazia 26 graus com uma umidade da beira-mar lá fora, e o ar condicionado do metrô apenas agora começava a dar sinais de estar funcionando. Famílias jovens com crianças pequenas pareciam estar voltando do festivalzinho de beira de estação de metrô no meu bairro, Fruängen. Isto tudo era talvez um treinamento para o calor e movimento maiores que me esperavam na China.

No voo da Air China
Para a surpresa de poucos, boa parte da equipe da Air China é chinesa, embora não todos. Sobretudo em solo, havia gente também aqui da própria Suécia.
Os chineses, até o momento, me pareceram prestativos — mas aquele prestativo que põe ênfase na resolução rápida da coisa, pra lhe ajudar com eficiência. Fica um pouco seco ou cru, um tanto curto, diferente do jeito caloroso latino ou cerimonioso japonês, mas resolve.
Tudo correu pura seda com o check-in no balcão, e em tempo eu cheguei ao avião. Ao entrar, estavam disponíveis cópias do periódico oficial em língua inglesa, o China Daily. (Se bem que eu não vi ninguém mais se servir de um, só eu mesmo).
A tripulação era jovem, prestativa à sua maneira fast-paced (a passos rápidos). Enquanto nos aprontávamos para sair, tocava uma música de fundo daquelas de restaurante chinês com piano e violino, todas iguais. Não vai demorar a produzirem isso por inteligência artificial, se é que já não o fazem.

Ao fim dos habituais avisos de atar cintos e não fumar, em vez da coloquial fala costumeira “Aqui vos fala o capitão, o nosso tempo estimado de voo até…”, como em praticamente todas as demais aerolinhas em que voei, na Air China entrou no ar uma elegante voz mecânica alertando às pessoas que o avião é tratado como “espaço público” e que comportamentos disruptivos que perturbassem a harmonia não seriam tolerados.
“I am in charge of the security on board” [eu sou o responsável pela segurança a bordo], disse a voz do Big Brother, com ares do livro 1984 e aquela noção de uma máquina estar encarregada da vigilância.
Não deixou de ser exótico, nem inusitado, mas na prática tudo decorreu com tranquilidade. Assistimos às instruções de segurança com figuras cartunescas, como é típico nas culturas da Ásia, e nos serviram um digno jantar chinês até 21:30.
Para o meu choque, agora só faltavam 5h para aterrissar, já que as companhias aéreas chinesas podem sobrevoar a Rússia e o trajeto fica mais curto que o das aerolinhas europeias, que agora têm que contorná-la.
Isto era, para todos os efeitos práticos, um red eye como dizem os norte-americanos, um voo corujão destes em que você mal dorme e fica com os olhos vermelhos no dia seguinte. Mas não eu.


A chegada ao aeroporto de Pequim e os rituais de imigração
A chegada foi mansa. Desembarcamos no que é o amplo Terminal 3 do Aeroporto Internacional da Capital (PEK), como chamam o aeroporto mais tradicional de Pequim. Há um outro, mais novo — e bem mais distante — chamado Daxing (PKX), mas se o seu propósito é desembarcar em Pequim (em vez de fazer uma conexão doméstica), PEK é a melhor escolha.
O aeroporto é todo bem sinalizado em mandarim e em inglês. Não há como se perder. Vamos aos passos:
1. Você primeiro passa por uma área de checagem de saúde, basicamente desativada, remanescente dos tempos da Covid-19. Ainda há gente lá, e não sei se às vezes pegam um passageiro aleatório, mas não restam mais exigências. Só evite, por supuesto, estar espirrando ou muito com cara de doente ali. Acho que se pegarem você com febre, por exemplo, é capaz de rolar algo.
2. Daí você chega numa área onde quem ainda não tem visto pode tirá-lo, num balcão lateral (pro pessoal que chega naquelas conexões de até 72h), e todos se dirigem a umas máquinas onde escanear seu passaporte e fornecer suas impressões digitais, como em tantas fronteiras.
Você põe o passaporte num scanner e a máquina lhe dá as instruções no idioma do seu país — super fácil. Ela então cospe um comprovantezinho que ninguém vai lhe pedir, mas que você guarda consigo.



3. Siga, e mais adiante há a área de imigração propriamente dita. Há funcionários por toda parte, prestativos o bastante e que falam inglês o suficiente.
Antes de ir ter com o oficial de imigração, todavia, é preciso preencher um Cartão de Desembarque, daqueles convencionais onde você escreve seus dados pessoais, número do voo em que veio, nome do hotel, e número do voo em que irá embora.
Esse cartão você obtém aqui — ele não é dado nem preenchido no avião, tampouco no celular. Nesta hora, a China deixou de lado a sua fixação por QR codes.
Bom ter uma caneta consigo, e note que aqui se escreve a data de nascimento de trás para frente, começando pelo ano, depois mês e por fim o dia.

A pessoa na imigração não conversa com você, e eu gosto que seja assim.
Dei meu cartão de desembarque preenchido e o passaporte. Ela verifica novamente as suas digitais e carimba seu passaporte. Não houve longas filas (uns 10 minutos no muito), e o trâmite foi mais rápido do que é na Europa, para nem falar da Anglosfera (EUA, Canadá, Austrália e outros).
Já imigrado, tomei um trenzinho daqueles internos de aeroporto até o lugar onde eu acharia minha bagagem. Não demorou; ela já estava por ali rodando quando cheguei às esteiras.
Passa-se tudo por uma máquina de raio-X na aduana e pronto — não me perguntaram nada.

Ainda no aeroporto — e rumo à cidade
Não sei se porque era manhã de domingo, mas tudo parecia deveras pacato. Quem tem uma imagem da China como esse lugar de balbúrdia, 1 bilhão de pessoas em meio a buzinas, poluição e quiçá galinhas na rua terá de se atualizar e se corrigir rapidamente.
O aeroporto nem sequer estava muito cheio. Ele era vasto, amplo, de tetos altos no estilo destes aeroportos mais recentes. Certos aeroportos do Brasil ou e de Lisboa são muito mais agoniados.

Tomei a minha bagagem após o trenzinho interno e segui rumo, mas eu tinha ainda duas coisas a fazer aqui no aeroporto antes de entrar no Capital Airport Express até a cidade.
A primeira coisa era sacar dinheiro. Eu depois lhes explicarei melhor como se dão os pagamentos aqui na China, mas a súmula é que quase não se usa cartão de crédito. A população pulou dos pagamentos em dinheiro para pagamentos via aplicativo (Alipay e WeChat), que se assemelham ao Pix brasileiro, só que aqui mediados por duas empresas privadas, a AliBaba ou a TenCent.
(A indignação dos norte-americanos com o Pix é, precisamente, porque gostariam que estivéssemos utilizando os aplicativos deles em lugar do nosso próprio sistema. Como resultado, WhatsApp Pay, Google Pay e Apple Pay ficaram às moscas no vasto mercado brasileiro — perderam o bonde. Aqui na China, o governo deixa as empresas chinesas operarem os sistemas, mas as tem na corda curta.)
Eu já tinha ambos — Alipay e WeChat — devidamente instalados no celular e vinculados ao meu cartão de crédito estrangeiro, mas ter dinheiro em espécie é sempre providencial. Na China, é proibido por lei recusar pagamento em dinheiro, então ele é sua segurança caso o aplicativo dê pau — ou, Deus livre e guarde, algo indesejável aconteça ao seu celular.


Chip de celular é outra coisa que frita a cabeça das pessoas em relação à China, e há quem recomende obter um chip local. Havia até máquinas automáticas onde adquirir um, mas registrá-lo é uma novela, e você ficaria à mercê de todas as censuras online que o governo da China impõe — adeus Instagram, WhatsApp, Google, etc. O pobre do usuário ocidental ficaria a se perguntar o que sobra da internet então. É uma discussão que teremos depois.
Por ora, vale dizer que — de longe — o mais prático é adquirir, antes de viajar, um chip virtual (e-sim) da Airalo, Holafly ou outra empresa internacional para a China. Funciona tudo normalmente, sem censura.
Quando meu 4G se ativou ainda dentro do avião e as mensagens foram chegando, eu quase dei pulos de alegria vendo tudo funcionar.
Como prometido, num outro post eu depois detalharei melhor estas considerações práticas.

A segunda e última coisa que eu tinha ainda a fazer aqui no aeroporto, portanto, não tinha nada a ver com o celular: era tomar um café — pois eu sou filho de Deus — e aproveitar para com isso quebrar as notas do dinheiro sacado.
A saber, eu não vi uma quantidade grande demais de amenidades na área de chegadas do aeroporto, mas havia caixa automático do Bank of China (aceitando cartões estrangeiros) para sacar dinheiro, uma cafeteria da Manner Coffee, banheiros, etc.
Vale dizer que a coisa toda é mais humilde que no Japão — para fazer a inevitável comparação entre as duas grandes economias da Ásia, sobretudo eu tendo revisitado o Japão recentemente. Na China é comum, por exemplo, fedor de cigarro no banheiro masculino — o que é proibido, mas ocorre.
O que não foi humilde foi o preço do café. Também na China quase tudo é excessivamente caro no aeroporto. Por um reles café americano — supostamente da Etiópia e não sei o quê mais, pra justificar o preço —, eu tive que pagar a bagatela de 50 yuan, o equivalente a uns US$ 6 ou R$ 40. (O que não faz a pessoa viciada. Depois se surpreendem que o viciado em cocaína venda as coisas de dentro de casa pra comprar.)

O Capital Airport Express
Um ou outro ainda me ofereceu táxi, mas eu não demorei a identificar o caminho até o Capital Airport Express, linha que leva à cidade em meros 25 minutos. Note que eles aqui o chamam de subway (metrô), não de trem.
A passagem custa 25 yuan, cerca de €3, mais barato que uma passagem de metrô em Estocolmo — e metade do que custou o café. Você pode comprá-la diretamente numa das máquinas. Ele sai a cada 10-15 minutos ao longo de todo o dia, das 06h às 23h.
O expresso o leva até várias estações de metrô da cidade, mas note que se você for daí usar o metrô para se deslocar dentro de Pequim, precisará adquirir uma passagem de metrô lá.
Como meu hotel convenientemente ficava já no bairro de Dongzhimen, onde seria uma das paradas, bastaria-me chegar e ir a pé dessa estação até o hotel. A área se revelaria bem boa, por sinal, e eu a recomendo.




Primeiras impressões
Agora eu estava propriamente na cidade. Pequim não tem um centrão ou coração da cidade onde tudo acontece (como eu depois veria em Xangai, por exemplo). Ao contrário, ela é uma cidade bem espalhada, e aqui, eu reconheceria alguns aspectos e teria algumas surpresas.
Primeiro, é preciso rever a imagem que se tem da China e de Pequim especificamente. Pra começar, a sua densidade populacional é menor que a da cidade de São Paulo. Sim, Pequim tem 22 milhões de habitantes como a capital paulista, mas a cidade é bem mais vasta, de ruas amplas, e você não tem a sensação de sufocamento. Pelo contrário, os espaços são bem abertos, e alguns bairros são quase rarefeitos de pessoas na vastidão.
Segundo, aquelas imagens que se viam de ruas hiper congestionadas, pessoas com máscara e poluição que nem deixava ver o horizonte são cuidadosamente selecionadas pela mídia de certos picos no ano — e, mais importante de tudo, estão desatualizadas.
Há 15 ou 20 anos atrás esse era o caso, mas não mais. Construiu-se um transporte coletivo de massa digno — dever de casa que o Brasil ainda não fez — e as ruas hoje são bem tranquilas. Você circula de metrô e ônibus pagando até menos que no Brasil, cobrindo distâncias muito maiores e com um serviço melhor.


O ar estava bom e as ruas, bem tranquilas. Eu ouvia mais pássaros que buzinas de carros. Os carros elétricos desfilavam quase em silencio pelas ruas. Uma hora ou outra, umas motinhas elétricas confundiam-se com pedestres meio na doida no passeio ou na faixa de pedestres, mas nada demais.
Daí reconheci algo que não esperei encontrar: o inconfundível urbanismo soviético, de incontáveis cidades russas e outras da época da Guerra Fria, como Bucareste na Romênia ou Almaty no Cazaquistão: quadras imensas, calçadas largas e arborizadas, com prédios extensos e por vezes antigos. Avenidas em que passariam seis carros lado a lado em cada direção — hercúleas de atravessar.
Isto não é característico da China toda, é algo de Pequim e deste norte do país que cheira a Ásia Central. Era possível sentir no ar que Ulaanbaatar — a capital da Mongólia, que visitei anos atrás — não estava distante. Há como que a mesma atmosfera física nas duas cidades, talvez o mesmo clima meio árido e de geografia plana onde sopra o vento das vastas estepes.
Pequim e Ulaanbaatar, curiosidade ao leitor, estão mais perto entre si do que está Salvador de São Luís do Maranhão.

Como país imenso que é — o terceiro maior do mundo, atrás somente da Rússia e do Canadá —, a China tem marcadas diferenças regionais, que mostrarei um pouco nesta viagem. Depois a gente falará mais dos seus grandes rios, etc. Por ora, eu guardarei segredo sobre aonde mais no país nós iremos.


O urbanismo soviético permaneceu, mas nos prédios se via um contraste entre os mais novos e modernos e aqueles de 50 anos atrás.
É como se viesse uma mão de tinta nova, moderna, sobre a capital da China, sem que ela cobrisse — ou sequer tentasse cobrir — os resquícios de uma mão mais antiga, da influência cultural russa de outrora.


Instalando-me no hotel
Depois de caminhar uns bons 20 minutos por calçadas aprazíveis, mas imensas e um tanto iguais, que pareciam que não iam acabar mais, cheguei ao meu hotel — um edifício alto à moda ocidental.
Se suas ruas dão um pouco os ares das diferentes influências culturais dos vizinhos em Pequim, os interiores destes prédios modernos são outros 500. Eles já não tem muito a ver com a textura urbana de 50 anos atrás.
Se a atmosfera das ruas puxa às raízes de Pequim na Ásia Central — mais vinculado aos mongóis que aos chineses do sul — e seu urbanismo puxa à Rússia, os interiores tecnológicos de hoje remetem à outra grande economia asiática que criou a moda moderna seguida continente afora: o Japão.
Aliás, os ambientes aqui têm o mesmo aroma de arroz cozido do Japão. Às vezes, eu acho que até as próprias pessoas cheiram a arroz cozido (da mesma maneira que os indianos cheiram a especiarias, quando tomam banho).

Abaixo, uma palhinha super curta no elevador do meu hotel, só para vocês verem as propagandas em vídeo.
Eu via aqui a mesma estética e paleta de tons e cores japonesa. Até algumas redes e a cultura de ter lojetas de conveniência por toda parte são semelhantes. Vê-se aqui, por exemplo, da mesma rede Lawson que se encontra em todo lugar no Japão.
Entretanto, as coisas aqui em Pequim me pareceram um tanto mais básicas, menos enfeitadas — tanto os lugares quanto o comportamento dos funcionários. Não há aquele jeito cerimonioso dos japoneses.
Os chineses se revelariam mais espontâneos — em todos os sentidos. Nas ruas, não há falta de pessoas que escarram alto e arrotam em público sem a menor cerimônia. Seus espirros frequentemente são aqueles de velha: barulhentos e volumosos.
Dentro no hotel, claro, tudo era dentro de um certo padrão de ordem e asseio. Atendeu-me de modo frio-prestativo alguém da recepção que falava um inglês básico. Fiz o pagamento em cartão de crédito — já que eu escolhi um hotel bom para começar, para acolchoar qualquer dureza que eu porventura tivesse na chegada ao país — e fui me instalar para, finalmente, chegar.



Meu primeiro almoço na China
As frutas ficariam para depois. Era hora de almoço, e eu precisava me resolver na China.
Engana-se quem acha que eu iria a McDonald’s ou alguma cadeia de fast food, até mesmo porque elas não se mostraram muito presentes nesta minha vizinhança. Eu queria aproveitar para experimentar algo mais autêntico.
Olhei pelo aplicativo de mapas da Apple — já que o Google Mapas aqui e nada são a mesma coisa, não só por ser bloqueado, mas também porque como consequência disso ele é desatualizado e sem informações úteis — e achei um restaurante de macarrão chinês com ares de estar bem cotado. Chamava-se 23 seats, assim em bom inglês.
Novamente, quem acha que restaurante na China se resume àquelas cozinhas onde rolavam brigas nos filmes de Bruce Lee precisa se atualizar. Inadvertidamente, eu rumava agora a um lugar meio “geração Z”, dos jovens da nova classe média chinesa.

Caminhei no muito duas quadras até o 23 seats, que se revelou um canto meio alternativo, com cheiro urbano daquela cultura skatista que se vê em partes de São Paulo ou Los Angeles, com chão de concreto, paredes cinzentas, estilo “orgulhosamente selva de pedra”.
Ali, aglomeravam-se jovens — todos chineses — bem vestidos, aquele ar descolado de propaganda de jeans. Quase todos invariavelmente ao celular enquanto conversavam, umas moças tiravam fotos de si por minuto. De repente, dei-me conta de que parecia não haver ninguém com mais de 30 anos na clientela.
Não demorei demais a perceber o sistema: era preciso entrar e tirar uma ficha numerada para daí aguardar ser chamado a tomar um dos 23 lugares (não contei, mas suponho) onde lhe servem lá dentro. Umas funcionárias menos jovens mas ainda jovens, já talvez na casa dos 30, geriam a coisa pra lá e pra cá. De tempo em tempo, vinham ao lado de fora chamar quando vagava lugar.
Sem saber como me expressar muito bem, entrei e fiz sinal de 1 com o dedo para entenderem que eu estava sozinho. Deram-me a ficha 49. Ótimo, mas e eu para saber como é que ela chamaria 49 em chinês? Só depois foi que me dei conta do detalhe.


Eu não demoraria demais a perceber o forte contraste que há dentro da China, ou como a sua transformação socioeconômica das últimas décadas também afetou o comportamento das pessoas — o que não é de se surpreender.
O pessoal nascido de Malhação pra cá, leia-se do final dos anos 90, e que cresceu já com a China superpotência em ascensão são em geral cordatos e até um pouco com ares de jovem mimado, todos filhos únicos e com certo espírito de estrela.
Já o pessoal mais antigo, nascido da década de 70 pra trás, é aquele chinês raiz, aquele pessoal que matava galinha em casa, empurra na feira e fura fila sem olhar para trás.
Você encontra das duas gerações de chineses aqui e os intermediários, mas nós depois continuamos este papo. Voltemos ao meu primeiro almoço em Pequim.

Procurei no tradutor como eram os números 40 e 9. Duas vezes eu ouvi errado quando a funcionária veio chamar — ela havia dito quarenta e outra coisa. Numa dessas, ela sorriu com ar de “não é o senhor ainda não”. Torci para que a essa altura ela já tivesse memorizado que o número 49 era eu, o único ocidental ali e, de quebra, um ocidental barbudo, cabeludo e no sol. Sem dúvida, chamava mais a atenção que o chinês de cabelo pintado de loiro que ali passou.
Meia hora se passou e nada. Esqueci que era domingo e, certamente, mais gente comendo fora. Era melhor que esse macarrão daqui fosse bom.
Fosse como fosse, ali em meia hora eu havia aprendido alguns números com a pronúncia nativa e o inesquecível contexto — a cara da mulher de boné e máscara que vinha agoniada a toda hora chamar e os meninos a esperar. Realmente, a imersão com a vivência no ambiente é insubstituível. Não há livro nem Duolingo que substitua.
Enfim depois de um tempo, chegou a minha vez. Fui reconhecido fácil, ao que eu entrei e a funcionária me guiou até uma espécie de cubículo num longo balcão onde havia também outras pessoas. Ela me forneceu então uma caneta e uma espécie de formulário em inglês parecendo o cartão de desembarque.

A quem não está habituado, esta coisa de fazer o pedido marcando no papel o que vai querer é algo tradicional em restaurantes chineses — eu já o fazia há anos, num autêntico restaurante chinês em Amsterdã (o Oriental City Amsterdam). Curioso como o lápis e papel não envelhece, mesmo no país da inteligência artificial.
Este formulário, entretanto, era mais complexo do que os que eu havia usado antes. Era preciso marcar nas caixinhas até a dosagem que eu queria de cada ingrediente — como a pimenta, a quantidade de “coentro chinês”, etc. Como tudo pouco é bobagem, eu ainda rasurei o formulário, pois mudei de ideia no caminho. Falta de hábito de escrever.
Uma moça tomou o papel preenchido na minha mão, e depois vieram me perguntar em chinês, com coisa escrita no celular em inglês, se era ou não pra botar aquilo que eu havia rasurado. Ao fim, todos nos entendemos. Aliás, eles aqui já se mostravam bem mais simpáticos que aqueles funcionários de restaurante chinês no exterior.
Tomei meu assento e esperei que a parede cinza diante de mim se levantasse, meio que numa versão janela da Porta da Esperança.

Não me arrependi; valeu a espera. O macarrão que peguei era tipo talharim, e veio acompanhado de temperos mil e da pimenta que eu solicitei. (É um crime de lesa-pátria à China que tantos restaurantes “chineses” no Brasil sirvam comida sem pimenta nenhuma. Aquilo não é representativo nem ali nem na China.)
Em falar do tal “coentro chinês”, acho que só na minha tigela veio um molho inteiro de coentro dentro. Como não há comida baiana sem coentro (mesmo a do dia-dia), eu estava em casa.
(Fala-se tanto da raiz africana da culinária baiana, mas o coentro é do Mediterrâneo, viu gente? Já os macarrões são todos aqui da China mesmo — os italianos é que aprenderam destes depois.)


Tomando o metrô em Pequim
Devidamente almoçado, chegada era a hora de eu tomar o metrô em Pequim para o meu primeiro passeio na capital chinesa — um breve programa de fim de tarde.
Eu iria ao templo Yoghe Gong e ao vizinho Templo de Confúcio, do outro lado da mesma rua. Isso exigia que eu tomasse o transporte público, pois nada em Pequim se faz a pé. A cidade é imensa demais para isso — às vezes, até para caminhar da estação de metrô mais próxima até o lugar você bate bastante perna.
Ainda assim, eu paguei o equivalente a meros R$ 2 para andar no metrô de Pequim. Menos da metade da passagem de ônibus em Feira de Santana. Agora ecoe pra você ouvir direito: a passagem de transporte coletivo em Feira de Santana custa o dobro que o metrô na capital da China.
O metrô de Pequim, aliás, embora muito bom, é dos mais antigos da China, e por isso carrega ainda consigo aquele cheiro de urbanismo soviético também. Por exemplo, grande parte das estações não tem elevador nem escala rolante — é preciso subir e descer longas escadarias, como na nossa Velha Infância.



Para comprar as passagens, é preciso fazer um tanto como no Japão. Os bilhetes são específicos da estação X para a estação Y — não há bilhetes acumuláveis com preço igual (como em tantas cidades europeias), nem passe disponível pra quem não mora aqui.
Você precisa a cada vez se dirigir a uma das máquinas para comprar a sua passagem — ou, caso nenhuma delas funcione, ao guichê com um funcionário, a quem você diz qual é a sua estação de destino. Há máquinas de tipos distintos, mas praticamente todas têm a opção de pôr em inglês.
No metrô de Pequim, eu consegui usar apenas as máquinas mais novas, com o rótulo de Internet Ticket Vending Machine. Nas outras, a máquina pediu que eu fornecesse a minha identidade para poder comprar uma passagem de metrô (!). Quando a estação só tinha destas máquinas mais velhas, eu comprei no guichê físico — geralmente bem vazio — e paguei no Alipay.
Certa vez, sem muita cerimônia um policial até me ajudou a comprar o ticket na máquina, indicando-me onde clicar quando viu que eu estava me batendo um pouco. As pessoas se revelavam surpreendentemente prestativas para a imagem que eu tinha dos chineses.

O Yoghe Gong (Lama Temple) e o Templo de Confúcio em Pequim
Vamos fechar o post com o que eu fiz ainda hoje, neste primeiro dia: uma escapadinha para ir conhecer o templo de budista tibetano Yonghe Gong e o Templo de Confúcio, fundado em 1302 e onde desde então os imperadores chineses prestavam suas homenagens ao venerável sábio da antiguidade. Eles são os templos mais importantes para se visitar em Pequim.
Desci do metrô na estação Yonghegong Lama Temple, e não demorei a perceber que aqui a quantidade de pessoas era bem maior que no meu bairro, Dongzhimen. Havia uma quantidade grande de gente, a grande maioria visitantes, mas nada do outro mundo. Era o mesmo que domingo de tarde no shopping no Brasil, só que mais interessante.
A saber, os ocidentais eu acho que éramos meros 1% do que eu via. Creio que somos mais raros hoje em dia que no tempo em que os jesuítas andavam por aqui, no século XVII.
Era uma linda tarde de domingo, e a fumaça dos incensos já se imiscuía entre as pessoas, transcendendo a folhagem das árvores e os muros do templo. Dei a longa volta até a entrada, paguei os ¥25 (o equivalente a €3) do ingresso via WeChat, e entrei.




O templo Lama e a religiosidade dos chineses
Eu já detalhei num outro post, em Hong Kong, como é equivocadíssima a acepção às vezes propagada no Ocidente de que os chineses são ateus. Balela.
O que eles predominantemente seguem é a religião tradicional chinesa, baseada no culto aos ancestrais e a espíritos diversos num misticismo profundamente enraizado na sua cultura. A isso somam-se elementos do budismo, num sincretismo religioso.
Lama, em particular, refere-se ao conceito tibetano de mestres espirituais praticantes do dharma, o caminho virtuoso. Como este era um mosteiro dessa orientação, ganhou o apelido de Templo Lama (Lama Temple).
Não faltavam aqui ao meu redor chineses em oração, suas mãos a segurar firme os molhos de incensos que cada um de nós recebia na entrada junto com o ingresso.





Uma curiosidade é que este espaço era uma das muitas residências imperiais, de um dos príncipes na dinastia Qing — a última, que governou depois da Ming, de 1644 a 1912. Daí a outra alcunha deste lugar: Yoghe Gong. Gong quer dizer “templo”, e Yong era o nome do príncipe que morou aqui a partir de 1703.
Mais tarde, em 1744, o lugar foi cedido pelo imperador para servir de espaço a um mosteiro budista, aonde então vieram muitos monges do Tibete e da Mongólia (que segue predominantemente a vertente tibetana do budismo), ambos os quais estavam entrando na órbita de uma China imperial em expansão.
Foi nesse século XVIII que a China consolidou seu domínio sobre os rincões mais distantes do então império, como a Mongólia, o Tibete e Xinjiang. Daí o atual governo, que recobrou o controle sobre muitas dessas áreas após a China perdê-las durante o chamado “século de humilhação” (1850-1950) nas mãos das potências europeias, não abrir mão delas.
(A Mongólia foi a exceção, que assegurou independência no século XX como um estado-tampão entre a China e a União Soviética, e porque esta última disse “não” às ambições chinesas de retomá-la.)


Vale observar que a dinastia Qing era manchu, isto é, original da Manchúria, região do extremo norte da China que fica precisamente entre a Mongólia e as Coreias. Este padrão estético então se tornou comum no período de 1650-1900 aqui na China.
A longo da viagem abordaremos em maiores detalhes os diversos momentos da História chinesa.



No interior de um destes pavilhões fica uma imagem do Buda Maitreya — uma das muitas versões do Iluminado — de 18m que é a mais alta estátua de madeira do mundo feita de um pedaço só, talhada a partir de uma única árvore de sândalo branco. Ela data de 1750.





O Templo de Confúcio em Pequim
Você é capaz de passar uma boa hora ou mais zanzando pelos diversos pavilhões e pátios do Templo Lama, mas eu quis também atravessar a rua e vir a este outro lugar sagrado: o Templo de Confúcio, de 1302, onde os imperadores da China realizavam seus rituais de homenagem ao velho mestre.
Pelo WeChat Pay, paguei ¥30 (R$ 23) para acessar o Confucian Temple & Imperial College Museum, e entrei. É um complexo que, além de pavilhões de arquitetura parecida e com a figura de Confúcio (551-479 a.C.), tem enormes pedras com inscrições dos seus escritos e os nomes dos funcionários imperiais de várias dinastias dos últimos mil anos.
Como sabe (ou não), na China imperial se utilizavam provas escritas — às vezes chamadas de “exames imperiais” — desde o século VII como uma espécie de concurso público. Enquanto a Europa vivia no “Quem Indique”, aqui havia uma certa medida de meritocracia que permitia um certo nível de ascensão social. Os concurseiros eram testados, precisamente, sobre os clássicos do confucionismo, seus elementos de política, filosofia, etc.
A visita aqui se mostraria tranquila, quase que só eu, uns gatos pingados e as memórias de outrora registradas na pedra.








Você circula um tempo por aquela vetusta área, deixando esta tarde de primavera cair por entre as árvores.



Assim foi o meu primeiro dia na China.
Eu espero ter-lhes apresentado bem este pouquinho inicial de Pequim. Há mais por vir. A capital da China é uma daquelas cidades que exigem uma estadia mais extensa que as outras.
Nos dias seguintes, eu tinha um encontro marcado com grandes atrações daqui, como a Grande Muralha da China e a antiga Cidade Proibida dos imperadores, entre outras.
Tomei o metrô de volta ao hotel, passei num supermercado no caminho para comprar umas besteiras, e finalmente me recolhi. O dia amanhã prometia, e a viagem também.






Ihhhhh adorei esse primeiro contato com a China.
Apesar de alguns lugares com ar de Moscou, gostei e apreciei outros com ar do Japào..
Amei os templos… Belísssimos…. bem coloridos… com belos interiores, muito incenso e maravilhosas figuras.
Magnifico esse Buda de cedro…espetacular…. e o ambiente maravilhoso…
Ao lado disso adorei aquela comilança que estava mesmo com a aparência de que estava saborossissima.
Achei meio complicada a chegada e a ida até o hotel, embora as avenidas fossem bem arborizadas e tranquilas.
Complicados tambem aqueles chips adquiridos antes, embora pelo visto práticos no dia a dia.
Algumas coisas parecidas com o Japão e parte do ambiente da capital tambem me agradaram.
Gostei do geral e de perceber certa influencia japonesa que apreciei ao ir por lá.
Mas achei o Japão mais leve e elegante, alem de ter ido em época de muitas flores.
Mas gostei de conhecer e ter esse primeiro contato com com a China.
Destaque para a beleza dos templos e para a cara da comilança, além das avenidas arborizadas e com ares de boullevares abertos..
Valeu.
O jovem amigo viajante, como sempre um batedor… vai na frente, abrindo e apontando caminhos…
Maravilha, meu jovem amigo. É isso aí.