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China Pequim & arredores

Visitando a Grande Muralha da China em Mutianyu

A Grande Muralha da China é provavelmente o mais reconhecível dos monumentos do gigante asiático. Não, não é verdade que se possa vê-la da lua ou do espaço a olho nu, mas aqui da terra ela cria uma impressão e tanto.

A muralha serpenteia ao longo de nada menos que 21 mil quilômetros, desde o Oceano Pacífico a nordeste de Pequim até os desertos do interior da China. A ideia, como se sabe, era proteger esta civilização agrícola das constantes incursões de nômades mongóis — e outros — vindos das estepes no norte ou centro da Ásia. 

Construída em etapas, a maior parte do que se vê hoje é do século XIV, muralhas de pedra e tijolo cuja espessura varia de 7m a 16m — o que permitiria a dois carros andarem lado a lado. Sua altura alcança 14m, embora todas estas medidas variem de acordo com o trecho. E dito tudo isso, o mais belo, eu lhes adianto, é paisagem em redor, com a muralha seguindo a perder de vista por sobre as verdes colinas. 

Vir aqui é ponto de honra para quem vem até Pequim — um bate-e-volta de um dia relativamente simples de fazer. É visita obrigatória, e provavelmente o lugar onde mais se encontram estrangeiros na China. Abaixo, eu falo um pouquinho mais sobre a História da muralha, os aspectos práticos para se vir aqui, e narro os detalhes desta minha visita. 

Grande Muralha no mapa da China
A Grande Muralha no mapa da China atual. Ela se estende por mais de 21 mil Km, do oceano até os desertos no interior. É possível visitá-la hoje em diversos pontos distintos onde há acolhida ao turista.
Grande Muralha no mapa da China antiga
Olha como era antigamente, nos idos da Dinastia Qin (230-206 a.C.), que iniciou a construção da Grande Muralha na sua fronteira norte. Xianyang, onde hoje está a cidade de Xian com seus famosos guerreiros de terracota, era sua capital.

Um pouquinho sobre a Grande Muralha

Antes de mergulhar na parte prática, permitam-me dar um pouco mais de contexto e da significação deste monumento.

QinShiHuang19century
Qin Shi Huang (259-210 a.C.) é considerado o primeiro imperador da China — e que deu o nome pelo qual nós ocidentais o conhecemos. (Ele aparece no recomendável filme Herói, de 2002 com Jet Li.)

A Grande Muralha começa a ser posta em prática ainda no século III a.C., quando da primeira unificação da China como um império em 221 a.C. Esse primeiro imperador, Qin Shi Huang, acabaria por dar o nome do país como o conhecemos no Ocidente através dos séculos: China.

(Em chinês, eles se chamam de Zhongguo, que costuma ser traduzido como “Império do Meio”. Como os gregos antigos, eles aqui também se viam como os civilizados circundados pela barbárie, daí o nome.)

Dentre esses “bárbaros” que atormentavam os chineses, destacaram-se sempre os povos nômades das estepes mais ao norte — não só os mongóis, como também os manchus e uma diversidade de povos túrquicos.

Nessa época da construção da Muralha, século III a.C., a querela dos chineses era com os xiongnu, que alguns creem ter sido da mesma matriz cultural dos hunos, que foram depois perturbar os romanos no século IV d.C. 

A muralha, nesse tempo, era nada mais que uma barreira de adobe, bem mais modesta que aquela que se vê hoje em dia. Ela certamente ajudava os chineses a se defender, mas não impediu que os saques de salteadores a cavalo permanecessem recorrentes, nem que os mongóis de Gêngis Khan chegassem ao ponto de conquistar a China no século XIII. 

Os mongóis governaram a China de 1271 a 1368, naquela que ficou conhecida como Dinastia Yuan. No bom espírito de mandar suspender o muro da casa depois que o ladrou já entrou, foi na Dinastia Ming, que veio em seguida, que se ordenou a ampliação substancial da Grande Muralha, agora a ser feita com pedras e tijolos.

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A estrutura que se vê hoje, este sólido e alto paredão de pedras e tijolos, começou a ser construída no século XIV, quando chega ao poder a Dinastia Ming, que destrona os descendentes dos invasores mongóis. Era preciso assegurar que uma nova invasão não ocorreria no futuro.
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Esta é a largura média da porção da muralha que eu visitei. Estima-se que mais mil torres de guarda foram construídas ao longo dos séculos XV e XVI.

Uma curiosidade, precisamente, é como Marco Polo e outros dos primeiros europeus que vieram à China por terra — como o franciscano Giovanni da Pian del Carpine ou o flamengo Guilherme de Rubruck — nada falam sobre uma Grande Muralha, pois vieram durante o período de domínio mongol, século XIII, quando os restos da muralha velha separando as suas estepes de origem e a recém-conquistada China não eram dignos de nota.

Já os europeus que mais tarde vieram por mar durante a Dinastia Ming, a começar pelos portugueses e uma trupe de jesuítas no século XVI, comentam, sim, sobre a existência de tal muralha — ainda que não a tenham necessariamente visto.

Joao de Barros
João de Barros (1496-1570), que escreveu um livro Décadas da Ásia em 1563 sobre o continente, dentre muitas outras obras, é considerado o primeiro grande historiador em língua portuguesa.

O relato mais antigo dela por um ocidental é, precisamente, do português João de Barros (1496-1570), grande viajante e escritor que veio a ser considerado o primeiro historiador da pátria de Camões.

Quanto a ver a muralha, o primeiro teria sido o jesuíta português Bento de Góis (1562-1607) em 1605, ele que foi pioneiro em chegar à China cruzando os Himalaias por terra a partir da Índia, onde os portugueses tinham colônia.

O jesuíta foi o responsável por atestar de uma vez por todas aos europeus da época que Cathay, de que falara Marco Polo, era o mesmo lugar aonde os navegadores tinham agora chegado pela costa, ao contrário do que diziam alguns.

Para finalizar, devo dizer que a Grande Muralha em muito ajudou os Ming a defender a China dos seus novos inimigos, os manchus, do nordeste do continente. 

Entretanto, a resistência não foi eterna, e em 1644 os manchu trespassariam a muralha e conquistariam Pequim para destronar os Ming e estabelecer aquela que foi a última dinastia imperial chinesa, a Dinastia Qing (1644-1911). 

A muralha, partir do século XIX, abriu-se ao turismo estrangeiro à medida que os europeus invadiam a China para conhecer os seus tesouros, legado e cultura. Talvez nenhum desses, de fato, os tenha impressionado tanto quanto a Grande Muralha. 

Grande Muralha da China em 1907
A Grande Muralha da China numa fotografia de 1907.

Como — e onde — visitar a Grande Muralha da China: Badaling vs. Mutianyu

É hora de virmos nós mesmos aqui à Grande Muralha da China. Este é um bate-e-volta simples de executar, que toma um dia inteiro e visita praticamente obrigatória para quem vem até Pequim.

Primeiro, é preciso definir onde na extensa Grande Muralha você irá. Não dá para chegar aleatoriamente em qualquer lugar, é preciso — ou, pelo menos, mais factível — visitá-la num dos vários trechos abertos à visitação, com infraestrutura e acesso permitido.

Os principais trechos visitáveis são Badaling e Mutianyu, ambos a uma distância que permite um bate-e-volta de Pequim. A primeira é mais acessível em transporte coletivo e por isso é a preferida dos chineses — com mais multidões, portanto. Já os estrangeiros quase todos preferem Mutianyu, que eu visitei e recomendo. (Um comparativo mais detalhado entre os dois lugares você encontra aqui.)

Mutianyu é mais trabalhoso para visitar por conta própria — o que é uma vantagem, pois tem menos gente —, mas fica facílimo de vir organizando um tour com uma empresa local, como a MuBus, que eu utilizei e recomendo. 

(Dica: Se puder, evite os fins de semana, quando vêm mais visitantes.)

MuBus webpage
Página da MuBus (https://www.beijingmubus.com/), empresa que realiza tours de Pequim para a Grande Muralha. Não repare na simplicidade, os chineses são mais dados a aplicativo de celular, e seus websites são muitas vezes simplórios. A empresa, entretanto, é eficaz, e o tour não é caro.

O melhor é reservar direto com a MuBus pelo site oficial. Sai coisa de 20% mais em conta que por revendedores feito o Viator. Você será redirecionado na hora do pagamento para a Botrip, empresa responsável.

O mais curioso é que, como os chineses pouco trabalham com cartão de crédito, você faz a reserva e só paga no dia pessoalmente, em espécie em yuan (¥) ou por aplicativo (WeChat ou AliPay).

O que você fornece são as informações do seu passaporte (número, nacionalidade, etc.). Como em quase tudo aqui na China, é a ele que as suas reservas ficam todas vinculadas — então se certifique de não errar nenhum algarismo.

Significa também dizer que, aqui na China, aquela coisa mui brasileira de “deixar o passaporte no hotel” é ao reverso. Aqui, você precisa estar sempre com seu passaporte no bolso, inclusive para vir à Grande Muralha, pois ele será o seu tíquete de acesso. Os chineses, pra muita coisa, já não trabalham mais nem com ingresso de papel nem digital no celular — eles põem você no sistema, e a sua identificação é o seu ingresso. 

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O ônibus é bem padrão, e confortável para viagem de 1h30 entre Pequim e o centro de recepção turística da Grande Muralha em Mutianyu. Há um guia a bordo fluente em inglês — já que a clientela é quase toda de estrangeiros — que conta um pouco sobre a muralha e como se estrutura a visita.

Os custos e a logística do passeio

As partidas são da saída B da estação de metrô Dongzhimen em Pequim — o que convenientemente era no meu bairro, a mesma estação de onde eu havia emergido no dia anterior ao chegar a Pequim do aeroporto.

A ida custa ¥180, o que equivale a US$ 25 ou R$ 135, incluindo aí basicamente o transporte de ida e volta e o ingresso. É um dinheiro muito bem investido. Caso você queira o almoço incluído (buffet livre), o valor sobe para ¥240 (US$ 35 ou R$ 180). 

Há duas opções de horário, a depender de se você prefere (A) almoçar cedo e daí bater perna ou (B) primeiro bater perna e almoçar mais tarde, no final. Isso porque os lugares de almoço são na área de recepção ao turista, aonde você primeiro chega. Na Grande Muralha em si só há bebidas e lanches básicos à disposição. 

Você portanto pode:

  • Sair às 8:00h, chegar à Grande Muralha às 9:30, perambular por ela e depois voltar à área do centro de acolhida aos visitantes para almoçar às 14h, sair às 15h e estar de volta em Pequim às 16:30; ou
  • Sair às 10:00h, chegar à Grande Muralha às 11:30, almoçar e então ir perambular, para sair de lá às 17h e estar de volta em Pequim às 18:30. 

Eu optei pela segunda alternativa e não me arrependi, por algumas razões importantes.

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Há toda uma área de recepção ao turista com lojas e restaurantes quando se chega a Mutianyu, antes de se utilizar o ingresso para chegar à Grande Muralha propriamente dita. Um ônibus interno (shuttle bus) pelo qual você não paga adicional o leva desde aqui até os portões da atração mais no alto.

Para vocês entenderem por que eu preferi o horário das 10h, eu preciso explicar como esta visita está estruturada.

Mutianyu se reparte entre um lado oriental e um lado ocidental. Seu ingresso lhe permite visitar ambos — se você quiser e tiver perna.

Note, entretanto, que a Grande Muralha da China não é plana. Como vocês viram nas fotos acima, ela serpenteia por colinas, sobe e desce, e o centro de recepção aonde o ônibus chega fica bem cá embaixo. Então se preparem para queimar calorias.

Do ponto de vista da logística, trate como um passeio de trilha que acontece de ser pavimentada e num monumento histórico; não trate como uma visita habitual a um sítio histórico de ruínas ou coisa assim. Sobem-se e descem-se escadas constantemente. (Tem horas em que mais parece que você está pagando uma penitência.)

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Quem precisa da escadaria da Penha?
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Muito do trajeto é assim, subindo ou descendo escadas. As crianças adorarão.
  • O lado oriental toma cerca de 1h30. Você sobe num teleférico ou na força das suas pernas, e lá no alto caminha um tanto até uma última torre de guarda aonde há acesso, depois desce novamente em teleférico ou num tobogã divertido. 
  • O lado ocidental é mais extenso e toma cerca de 2h30. Você sobe e desce num bondinho panorâmico ou na força das suas pernas. 

O preço do teleférico e do bondinho não estão incluídos — e não há um “completão”, pois os dois lados são operados por duas empresas diferentes. Cada lado sai por ¥140 (US$ 20 ou R$ 105), novamente pagos em espécie ou por aplicativo chinês — esqueça cartão. 

Não é barato, mas enfim: quantas décadas você levou para vir à Grande Muralha da China? Vai ficar regateando? Para mim, a questão nem era o vigor, mas o tempo que se gasta subindo a pé no que pode ser coberto pelo teleférico.

É claro que eu queria fazer os dois lados, e para isso é praticamente obrigatório usar os transportes e guardar sua energia e horas disponíveis para perambular lá por cima. 

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Meu ingresso para um dos lados. Você não precisa comprá-los antecipadamente com a reserva — sobre isto você só decide e paga aqui no dia. Eles oferecem também a opção de transporte só de ida (só a subida) por ¥100 (US$ 14 ou R$ 75), mas não vale a pena, pois você gasta do seu precioso tempo pra descer até a entrada. Novamente: se você não quiser tomar estes transportes, só terá tempo de visitar um dos dois lados, então já inclua o valor destes ingressos no seu orçamento.

Qual lado visitar primeiro? Não é uma questão crucial, mas eu optei por ir ao lado oriental primeiro, terminar com ele — que é mais curto — e depois ajustar o passo do lado ocidental de acordo com o tempo que eu tinha. 

E por que, afinal, o ônibus das 10h? Porque a maior parte dos visitantes chega cedo, e no fim da tarde já não sobra quase ninguém na muralha. Você curte muito mais a visita — quase sozinho —, além de gastar menos tempo nas filas para esperar sua vez no bondinho. 

Além disso, chegado do Ocidente, você terá um jet lag na China e acordar cedo dará mais trabalho. Para que me comprometer a estar lá já às 8:00? Estar mais cedo de volta a Pequim é meio inútil — eu não sugiro tentar encaixar mais nenhuma visita neste mesmo dia da visita à Muralha. 

Por fim, eu achei mais conveniente bater um almoço chinezão reforçado ao meio-dia e à tarde apenas me distrair com lanches, em vez de ter que me fiar num café da manhã às 7h, para sair no ônibus das 8h, e ter que me segurar para só fazer outra refeição digna às duas da tarde. Como diz o ditado, a fome é inimiga da diversão. 

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Bom dia, Pequim. Esta era a vista da janela do meu quarto para a floresta de prédios no bairro de Dongzhimen ao amanhecer neste dia.

Um dia feliz

…começa com um bom café da manhã

Oh happy day. Como fiquei feliz de ter escolhido ficar num bom hotel neste começo de estadia na China. Lembro-lhes que eu havia chegado no dia anterior, como detalhei na minha postagem inaugural, e esta portanto era minha primeira manhã no país.

Num amplo salão onde tocava Albeniz, naquela pegada de violão espanhol clássico, enquanto eu via uma quantidade até razoável de ocidentais — bem mais que nas ruas, onde eu não via quase nenhum. Desses, eu acho que metade eram russos. 

O café da manhã se mostrou abundante, um buffet impressionante, superior a quase todos os que já vi na Europa ou no Brasil (onde se instalou uma mania enfadonha de pão de queijo, ovo mexido e molho de cachorro-quente todas as manhãs, sobretudo no Centro-Sul.). 

Havia uma vastidão de coisas, doces ou salgadas, quentes ou frias, que eu levaria toda a minha estadia em Pequim para provar.

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Toda uma área de raízes cozidas, bolinhos no vapor, e coisas que mudavam a cada dia.
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Fui enganado por isto, que achei que era batata-doce roxa, mas era tipo um inhame — de textura semelhante a uma batata-doce, só que sem doce. Acho que era um tipo de taro, que é da mesma família. Viajando e descobrindo.
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O que eu gosto nos buffets asiáticos é que há comida de verdade disponível. (Nunca vou me esquecer da filipina que certa vez conheci e que indagou “eu não entendo por que é que os europeus comem sobremesa como café da manhã“.)
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Leite de soja com arroz preto e tâmaras vermelhas. Vamos usar a biodiversidade, oh pá! Estava gostoso.
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Pela primeira vez na minha vida, vi litrão de coca-cola à disposição no buffet de café da manhã.

Rumo à muralha

Não me demorei. Eu pude tomar meu café da manhã à vontade, e umas nova e pouca tomei rumo, uma caminhada breve de seus 20 minutos até a estação de metrô de Dongzhimen. 

No caminho, passei pela Pequim de verdade — não aquele pandemônio que a mídia ocidental mostra. (Ó mídia, como podes tanto criticar as fake news de hoje se tu também fazes tal seletividade para representar errado certas realidades como tu queres?

As ruas amplas e ensolaradas pela primavera tinham gente, mas nem tantas. Algumas motos e carros passavam lá e cá nos largos bulevares de múltiplas pistas, extensos de atravessar, ao que os pedestres andávamos nas amplas calçadas. 

Fazia um sol digno, até fortinho, prometendo um dia em que eu iria suar. Agradeci por ser um dia com o céu limpo, de tempo bom.  

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Pequim nesta manhã — talvez diferente de como você a imaginava.
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À saída da estação de metrô, lá estava — de vermelho — o cidadão da MuBus acolhendo os turistas.

Os chineses não são muito de e-mail, então na reserva você fornece o seu número de WhatsApp para eles lhe mandarem lembretes e os detalhes do ponto de encontro, etc. 

Como o WhatsApp normalmente não funciona na China (o povo dá empresa dá um jeitinho, usando VPN), o ideal é que você tenha o WeChat instalado (depois eu darei os detalhes de como arrumar todos os aplicativos necessários para uma viagem à China), e aí a comunicação fica mais fácil. 

Dito isso, não houve contratempo. Já estavam lá dezenas de outros turistas formando fila. A coisa é organizada, e a MuBus tem vários ônibus saindo a cada horário. 

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Dezenas de turistas — praticamente todos estrangeiros — formando fila para o ônibus das 10h.
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Todos a bordo.
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Após 90 minutos tranquilos de estrada, chegamos.

A visita à Grande Muralha da China

O almoço e a área de recepção aos turistas

Eu sei que é difícil já pensar em almoço assim de cara, tendo justo saído do café da manhã. Eram 11:30 da manhã, e nem tantas horas assim haviam se passado. Se quiser evitar o atropelo de refeições, tome o seu café da manhã cedo. 

O almoço aqui não seria nenhuma grande Brastemp chinesa — era um buffet chinês parecendo aqueles que há por tantos centros de cidade Brasil e América Latina afora, com macarrão frito, etc. Cumpriu seu papel, embora não tenha sido memorável. 

Não era a comida que me havia trazido à Grande Muralha, afinal. Valeu a pena já estar com o almoço arranjado e não ter que gastar tempo procurando — para provavelmente encontrar a mesma qualidade de comida noutro lugar.

Antes de nos determos para o almoço, porém, caminhamos todos atrás de Jessica, a nossa guia, para uma explicação geral no centro de recepção da MuBus. Foi inusitada a sensação de agora estar eu naqueles grupos — que a gente vê mundo afora — com guia chinês com uma bandeirinha vermelha.

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Há toda uma área assim simpática com os parassóis, com restaurantes, casas de chá e lojinhas de souvenirs (chineses).
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E falando em simpatia e em chineses, eis aí a nossa guia. Era a nossa vez de estar num daqueles grupos, com direito a bandeirinha e tudo.

O trabalho dos guias termina basicamente aqui. Disseram-nos onde ficava o almoço, como funcionavam as coisas, e que estivéssemos todos de volta até as 17h. AdiósEu gostei que fosse assim, pois você fica livre para visitar a Grande Muralha no seu próprio passo. 

Almocei e tomei rumo. Vamos agora à aventura: 5h de caminhada, com teleféricos e tobogãs. (Nada mais adequado para após um almoço buffet livre.)

Todos os ingressos — tanto o geral quanto aqueles para o teleférico e bondinho — você já paga e “obtém” com eles da MuBus. “Obtém” entre aspas porque tudo é com base em introduzirem as informações do seu passaporte no sistema, e lá na catraca você o coloca no leitor. (Deram-me apenas um ingresso de papel, para o lado leste, que ninguém nem quis ver — servia só de souvenir.)

Você caminha um tanto pela área calçada de lojas até chegar ao shuttle bus, o ônibus interno que o leva aonde interessa. 

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Nesta área você toma um transporte interno (shuttle bus) entre a zona de lojas e as bilheterias lá no alto para os lados oriental e ocidental da Muralha.
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O ônibus passa praticamente a cada 10 minutos, e leva só 5 minutos o trajeto. Não é preciso pagar.

O Lado Leste: Primeiros passos na Muralha, teleférico e tobogã

Desci do ônibus interno, subi um tantinho numa rua que sobe, e à minha direita estava a entrada para o lado leste da Grande Muralha em Mutianyu. Passada a leitura do meu passaporte — que eu agora ia me habituando a usar como ingresso — estava ali logo diante de mim o acesso ao teleférico.

Eu segui todo faceiro, determinado a conseguir visitar ambos nos lados no tempo que tinha, e me esqueci, claro, de certos detalhes, como a bela fila que havia aqui para tomar o teleférico e onde eu passei uma bela meia hora esperando (das 12:30 às 13:00). As crianças chinesas me olhavam curiosas. 

Este teleférico é daqueles de uma cadeirinha que basicamente passa, apanha você e leva. Eu não vou lhe dizer que estas cadeirinhas me inspiram lá muita confiança, mas é o que temos.

São aí quase 10 minutos ano teleférico até um trecho já alto da Grande Muralha da China, onde se caminha.

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A fila de meia hora que eu peguei para tomar o teleférico do lado leste de Mutianyu. Ingênuo, eu fui animado, disposto a ver os dois lados dentro do tempo de que dispunha e esquecido de que pegaria filas.
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Este teleférico é de cadeirinhas assim para duas pessoas, à moda antiga.
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São quase 10 minutos para chegar a uma porção já alta da Grande Muralha. Quem fica realmente sob risco aqui são os celulares — deve haver todo um cemitério deles lá embaixo.
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Bem-vindos cá ao alto da Grande Muralha da China.

A sensação de estar cá no alto era incrível. Dito isso, como eu lhes disse, isto aqui precisa ser encarado mais como um passeio de trilha, pois tínhamos aí extensas escadarias pela frente. E, como num bom passeio de trilha, o que encanta mais mesmo é a paisagem, ainda que a estrutura da Grande Muralha seja obviamente admirável.

Vamos em frente.

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Caminhando na Grande Muralha da China.
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São muitos sobes e desces, com degrauzinhos.
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Alguns trechos são bastante íngremes.
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O que mais encanta, sem dúvida, é a paisagem ao redor.

Naquele verde, estávamos rodeados de montanhas nesta paisagem já naturalmente rugosa onde os chineses Ming escolheram fortificar a Grande Muralha para se proteger dos mongóis. 

Hoje, éramos gente de todo o mundo visitando esta façanha de engenharia — acho que uns 60% estrangeiros vs. 40% de chineses, no olhômetro. Em retrospecto, eu acho que este foi o lugar onde — de longe — eu mais vi ocidentais durante toda a minha viagem pela China.

Suávamos com tantos degraus, ao que eu ouvia uma italiana falar em alto em bom tom que já não aguentava mais tanto subir e queria um helicóptero que a içasse daqui. Eu levaria cerca de 30 minutos nestas escadarias até chegar à última torre.

Era agora descansar um pouco, e às 13:40 eu comecei descer, voltando pelo mesmo caminho até a entrada para o tobogã.

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A paisagem rugosa desta região da China no entorno da Grande Muralha.

A volta é mais rápida, pois você agora mais desce do que sobe. Então refiz o trecho na metade do tempo, em meros 15 minutos.

Às 13:55, tarde de sol, estava lá eu já para mais uma fila. Elas são inevitáveis, mas vão diminuindo até praticamente desaparecer no final da tarde — vantagem de vir no ônibus das 10h em vez do das 8h.

Eu achava engraçado que as pessoas, turistas ocidentais aí inclusos, corriam do sol como quem corre do demônio. Para mim, que tenho bem menos dele do que gostaria lá na Suécia — nos arrabaldes do mundo — ele era muito bem-vindo.

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Levei 40 minutos na fila do tobogã em que você escorrega 2 Km de volta à entrada. Vale a pena! Como você vê na direita da foto, você senta num carrinho e desce por um percurso sinuoso.
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Assim.

Com um megafone — os asiáticos adoram megafone — um chinês azedo tentava organizar as coisas, dizendo às pessoas como se sentar e pedindo que não parassem pelo caminho.

Há uma espécie de marcha no meio, que você põe para frente para acelerar ou puxa como freio, para não engavetar todo mundo. 

Eu diria que tem graça quando dá para ir rápido. Depende aí da sua sorte, de quem estiver descendo naquele momento. Num dado momento, uma criatura lerda engarrafou cinco de nós, mas noutros momentos deu para ir livre. São aí uns 10 minutos divertidos até lá embaixo. 

Se quiserem ver, eu me filmei descendo. 

O Lado Oeste: Com a Muralha quase que só para mim

Eram umas 14:45 quando eu retornei lá embaixo, atento ao horário. Faltava-me agora o Lado Oeste, mais extenso. 

Peguei uma Sprite (ou o que me pareceu ser uma), fui ao banheiro, e 14:50 eu estava já na entrada do outro teleférico — este um bondinho de verdade.

Eu estava um pouco atrasado, mas a sorte foi não haver mais fila nenhuma. Em 5 minutos você chega ao alto. 

O número de visitantes ia diminuindo com o passar das horas, e eu ganhando a sensação de estar quase sozinho aqui na Grande Muralha da China.

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Bem-vindos ao Lado Oeste da Grande Muralha da China em Mutianyu. Alguns poucos visitantes ainda permaneciam nesta tarde.
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Eu começava a ter a sensação de ter a Grande Muralha quase que só para mim.
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Por entre os arcos de uma das várias torres.

Este Lado Oeste é mais extenso, você bate mais perna, e há mais segmentos sem muito sobe e desce. 

Entretanto, as longas escadarias não demoram a aparecer, sobretudo uma imensa num pedaço entre as torres 19 e 20 onde fica o que eles chamam de Monumento do Herói.

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A Grande Muralha da China extendida sobre as colinas.
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Esse serpentear é o que há de mais cenográfico neste monumento.
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As colinas se punham ali de tal modo que você começa a se imaginar em alguma fábula chinesa.
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É cenográfico.

Mesmo no meu passo relativamente rápido, eu ainda teria quase 1h de caminhada até o fim deste lado oeste. No caminho, vendedoras.

— “Olá senhor, cerveja fria, água gelada… Eu quero ir para casa. Uma gorjeta, senhor” [Hello sir, cold beer, ice water… I want to go home. Tip from you, sir],  disse-me uma delas ao que passei, naquela voz embolada que têm os chineses falando inglês, com a fala memorizada (como seria a minha tentando falar chinês).

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Com uma seleção de bebidas, a vendedora de chapéu se punha detrás de um dos parapeitos laterais da Grande Muralha.
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Por ora, o que eu queria era tocar meu caminho e admirar a paisagem.

Vários segmentos são assim quase planos, mas as escadarias nunca demoravam muito de aparecer. A última, em especial, vem com aquela pinta de final boss — de último chefão de video game. No alto, o dito Monumento do Herói.

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Como eu disse, tem horas que mais parece que você está pagando penitência.
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Este é o chamado Monumento do Herói, após uma daquelas escadarias avassaladoras. Ele é o ápice deste Lado Oeste de Mutianyu, na Torre 20. Não ficou totalmente claro, mas acho que o heroísmo é chegar até aqui.

Nessa plataforma lá no alto da Torre 20, estávamos nós os últimos moicanos da Grande Muralha da China. Todos os demais eram chineses.

Dependurada detrás da muralha numa estrutura de pau que me deu até arrepios, outra vendedora, desta vez uma velhinha, com sua bandeirinha da China e mais sua seleção de bebidas à venda — com uma traquitana de coisas. Viu-me, me deu um joinha, e ofereceu-me cold beer [cerveja gelada].

Pelo visto, acham que todo ocidental vive, primeiramente, por cerveja gelada a qualquer momento. Eu cheguei perto, e ela estendeu a mão para eu apertar. Perguntei por água, e ela foi buscar uma garrafinha gelada daquelas de 500ml.

Perguntei quanto era, e ela disse que eram 20 yuan (quase US$ 3 ou R$ 16). Nem a pau. Ela aí apontou um vilarejo lá embaixo na puta que o pariu no horizonte e que ela vinha até aqui pra trabalhar. Então me ofereceu por 10 yuan. Ainda era cara, mas pela velhinha (e por minha sede), eu topei.

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A estrutura precária onde trabalhava um casal de velhinhos, chineses à moda antiga, com sua bandeira e bebidas à venda, na última das torres do Lado Oeste deste trecho da Grande Muralha.

Mama, jiayou!“, gritavam animadas umas crianças atrás de mim, cá de cima empolgadas junto com o pai enquanto que a mãe lá embaixo ainda enfrentava a longa escadaria. “Jiayou, mama!“, repetiam os dois. Jiayou em chinês quer dizer algo como “Força! Coragem!”

A mãe enfim chegou, botando os bofes pra fora, as crianças celebrando em seu entorno, e era a minha hora de descer. Às 15:55, depois de ficar 15 minutos cá em cima no Monumento do Herói.

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Jiayou!

Aproveitando a deixa, eu desci desejando jiayou a um coroa chinês que passava por mim subindo cansado. Ele riu ligeiramente surpreso, respondeu algo animado e continuou.

Mais adiante, cruzei com um malaio que tirou uma foto para mim. Perguntou de onde eu era. Disse que era do Brasil, e ele se animou.

A tardinha é bem fotogênica e, após as 16h, a movimentação fica ainda mais rarefeita. Você quase que tem a Grande Muralha só pra si e mais uns gatos pingados, os vendedores já com aqueles ares de quem quer ir pra casa em breve. (Vindo no ônibus das 8h você perde isso.)

Abaixo, eu fiz um vídeo curto para vocês terem uma ideia ainda melhor.

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Quase só, na Grande Muralha da China e a paisagem.

Às 16:40, portanto após 45 min de caminhada, eu estava de volta tomando o bondinho de retorno. Eu já estava imundo de suado. Novamente, sem fila. 

Passei apenas por umas moças de seus vinte e poucos anos, que frequentemente têm aquela pinta de versão chinesa das Patricinhas de Beverly Hills, mas para tomar o bondinho já não havia fila. Deu tempo até de ir ainda ao banheiro.

Procurei por ali um sorvete para congraçar a mim mesmo, mas estava a preço de ouro, sem aparentar ter qualidade de ouro, e eu deixei pra lá. Às 16:55 eu estava no ônibus do traslado interno (o shuttle bus) de retorno à área turística com as lojinhas e o centro da MuBus aonde havíamos chegado no meado do dia.

O resumo da ópera é que é perfeitamente possível fazer ambos os lados da Grande Muralha em Mutianyu, mas prepare as pernas.

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Cá na área turística fora das catracas tudo é mais barato, e eu me consegui um picolé de manga. Até que não estava mau.

Às 17:30, após um tiquinho de espera, fomos rumo ao ônibus da MuBus para retornar a Pequim. Às 17:45, estávamos aguardando terminarem de chegar os últimos dos moicanos. O ônibus voltava semi-vazio. Acho que a maioria fez um lado só e foi embora cedo. Tolinhos.

Eu espero não estar me precipitando ao dizer isso, mas a China ia me parecendo ser um lugar arrumado de se visitar.

Epílogo

Eu cheguei de volta na hora do rush a Pequim. O pessoal da MuBus nos deixou na mesma estação de metrô (Dongzhimen) onde havia nos apanhado de manhã. As amplas ruas deste bairro estavam plenas de carros que já iam acendendo as suas luzes para a noite, mas sem nada do pandemônio que a mídia ocidental costuma pintar de Pequim.

Poucas coisas neste mundo das viagens me irritam mais do que injustificada má-fama — ou boa fama — de um lugar. Por outro lado, desmistificar essas famas, vê-los e mostrá-los na realidade é das coisas que mais gosto de fazer.

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As ruas de Dongzhimen, Pequim, à tardinha quando retornamos do passeio à Grande Muralha. Tudo menos o formigueiro que a mídia ocidental gosta de fazer a China parecer.

Eu terminaria meu dia comendo as frutas de cortesia do hotel, entre elas um pêssego e uma nectarina, que são na verdade duas variedades da mesma fruta (uma com pelinhos na casca e a outra lisa), ambas originárias aqui da China.

Elas foram domesticadas aqui milênios antes de Cristo, e depois levadas via comércio à Índia e à Pérsia (Irã). Dizem que foi com a conquista dessa última por Alexandre, o Grande, que chegou a fruta até então inédita aos gregos, que tanto a apreciaram que lhe deram o nome de néctar divino — nectarina. Os romanos antigos também a aproveitaram, com o nome de “maçã da Pérsia” ou malus persicum, que virou pêssego.

Não sabiam eles que essas frutas vinham originalmente de mais a leste. Ex Africa semper aliquid novi (Da África sempre algo novo), escreveu Plínio, o velho (24-79 d.C.), que talvez tivesse dito o mesmo da China, se soubesse que dela é que vinham certas das coisas trazidas através dos persas — lá do outro lado da Ásia.

Minha última bocada foi mesmo de algo novo, ao menos para mim. Ziziphus mauritiana, que pelo visto chamam em português de jujuba indiana, embora seja originária do Sudeste Asiático — agora a China fazendo o papel de intermediário. Tem certo gosto de pêra, mas com uma textura mais aquosa, crocante, que lembra a parte branca da melancia.

Descobrir é viver, e na China há mesmo sempre algo novo, é o que esta viagem ia me mostrando.

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A quem ficou curioso sobre a Ziziphus mauritiana, que não tem propriamente um nome bem estabelecido em português. Alguns a chamam de jujuba indiana, mas os nomes casuais são vários, quase todos adaptados de outros idiomas. Tem certo gosto e textura de pêra verde.
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Na famosa Grande Muralha. Encerrava-se um dia e logo mais viria outro aqui na China.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Visitando a Grande Muralha da China em Mutianyu

  1. Meu jovem amigo viajante, estou impressionada com essa vossa postagem/ visita/escalada hahahah sobre/ à secular , histórica, famosa e patognomônica Muralha da Chinha, considerada uma das Maravilhas do Mundo Antigo.
    Impressionante… e arriscada,… a empreitada.. Monumental, apesar de reconhecer ser ela, a Muralha, bela, portentosa, fascinante, e pujante. Pelo visto continua a ser uma Maravilha…
    Adorando.
    Que monumento… que linda a natureza… que beleza de verdes e montanhosas paragens…
    Parabéns pelo riquíssimo levantamento histórico… O viajante brasileiro deu um banho hahaha.
    Meu jovem, assustei-me com as escadas… ave-maria… e os precipícios….terríveis…
    Hahaha adorei a interpretação do monumento ao herói.
    Belíssima, a paisagem. Uma beleza!…
    Misericórdia… e esse povo ai do lado de fora da muralha.. do lado do precipício vendendo coisa … Jesus… que risco…
    Também achei arriscado/pouco seguras as cadeirinhas e o tobogã…

    Em relação à cidade,
    Não gostei dessa selva de concreto armado vista da janela do vosso hotel.
    Não gosto de cidades verticais e concretadas… horriveis…
    Embora haja algumas áreas simpáticas na cidade, pelo visto.
    Ihhh amei essa área dos lindos e coloridos parassóis uma graça…uma riqueza…
    Foi a parte da cidade que mais gostei.

    No geral, fiquei sobremaneira impressionada pelo porte e conservação da Grande Muralha, e principalmente pela coragem e garra do jovem viajante brasileiro na empreitada. Congratulações.
    Excelente postagem…
    Valeu, meu jovem, mas cuide-se ….. hhahaha…não se arrisque tanto hahahaha

  2. Esqueci de me referir ao maravilhoso café da manhã asiático, presente ai na cidade.
    Amo a cozinha asiática. Gosto de cafés da manhã assim… adoro arroz e leite de soja e essas verduras de café, muitas delas comuns aqui no NE do Brasil. Os nordestinos adoram café da manhã assim, fortes.
    Não aprecio café da manhã cuja base é doce.
    Então, ponto para o café da manha ai de Pequim.
    Achando a China bem interessante hahaha

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