(Este será um post longo.)
Eis aqui uma das grandes atrações da capital chinesa: o Palácio de Verão (Summer Palace ou Yíhéyuán) da antiga família imperial chinesa.
Digo “família” num sentido bem restrito, de família nuclear, pois não era raro que os irmãos do imperador ou outros parentes — possíveis candidatos a destroná-lo — fossem proibidos de se aproximar da capital. A eles eram dadas terras para viver bem, mas lá longe no interior do país.
Já a família nuclear com seus descendentes, eunucos, servos e concubinas viviam desde 1420 no complexo palaciano apelidado de Cidade Proibida em Pequim (antes disso, houve outras capitais, mas chegaremos lá). Quando o tempo permitia, vinham cá despachar deste aprazível complexo palaciano — com templos, lagos, natureza e distrações — que hoje a gente visita.
Não há necessidade nenhuma de reservar entradas antecipadamente ou online. Basta tomar o metrô e vir, como eu fiz nesta manhã quente de primavera.


Chegando de metrô ao Palácio de Verão & a logística
Uma coisa de que eu gosto na China é que a grande maioria dos lugares você acessa em transporte público. Aplicativos à là Uber existem e são muito úteis aqui, mas hoje ainda não seria dia deles.
O ponto de partida, obviamente, vai depender de onde na cidade você está, mas a melhor estação onde desembarcar é a Beigongmen. Ela fica próximo ao Portão Norte deste complexo. Eu entraria por ele e depois sairia pelo Portão Leste, lá embaixo perto do lago.
Uma vantagem deste Portão Norte é que ele fica no alto, de modo que ao longo da visita você mais desce do que sobe. O Palácio de Verão está longe de ser plano; pelo contrário, é uma visita cheia de degraus, sobes e desces por entre os templos e os rochedos que os circundam.


Eu cheguei a tratar do metrô de Pequim no meu post inicial pela cidade. Além de custar uma pechincha (50 centavos de euro ou R$ 2-4 a depender da distância), ele é imenso e tem abundante informação tanto visual quanto em áudio em inglês e chinês. Não tive nenhum problema pra navegar, e ainda não o vi cheio (nem quero).
Os guardinhas, à sua maneira, são prestativos. A passagem é específica para o dia, e o preço depende de qual será o seu destino final. É preciso informá-lo (à pessoa ou à máquina) na hora da compra.
Nesta manhã, quis o destino que o metrô que eu tomei não fosse até o destino final. Ele terminou numa estação intermediária, como já deve ter-me ocorrido numa dúzia de cidades.
Uma chinesa arredondada com aquele uniforme policial azul-claro entrou aos berros anunciando, basicamente e em tons universais, que todo mundo se pusesse dali para fora, pois o metrô terminaria ali. (Os chineses, nem os coreanos, definitivamente não têm aquela polidez dos japoneses. Por outro lado, são mais espontâneos. É uma coisa ambivalente.)
Ouvindo um áudio, eu fui o penúltimo a me levantar, seguido apenas por um casal idoso com ares de vindo da roça e cujo homem usava muletas. A guarda depois se dirigiu a eles a explicar como fariam pra chegar aonde queriam, e eu tomei meu rumo.
Precisei esperar o próximo, mas ninguém morreu. Eu logo estaria em Beigongmen.




Eu quase não via outros ocidentais, faça-se saber. Eram centenas de asiáticos e eu, basicamente.
Dito isso, não há longas filas. Acho que a maior parte dos chineses compra por aplicativo, de maneira que o caixa presencial aqui fica relativamente livre.
Um tio parado entre os transeuntes me perguntou com aquela fala pausada e as palavras redondas na boca: “Olá senhor, precisa de guia?” [Hello sir, do you need a tour guide?], ao que eu agradeci e disse que não. Hoje, visitaríamos por conta.
Um grande painel eletrônico de letras vermelhas — daqueles de rodoviária ou de bolsa de valores — dispunha os preços no alto. Há um combo por ¥60 (aproximadamente € 7 ou R$ 45) já com tudo incluído ou você pode pegar ingressos fracionados só para este ou aquele pedaço do palácio. Melhor incluir tudo de uma vez que ficar de euro em euro nesta e naquela atração. Surpreendentemente, podia-se pagar até com cartão de crédito.
A primeira dessas atrações especiais de dentro do palácio estava logo ali após a entrada por este Portão Norte, a Rua Suzhou (Suzhou street), onde se fingia ao imperador estar na cidade homônima no sul da China, aonde ele pessoalmente não podia ir.


Visitando o Palácio de Verão da China de outrora
A Rua Suzhou — simulacro do sul da China
Quem talvez achar que a China nominalmente comunista de hoje apaga ou rejeita o seu passado de outrora, um tanto à moda dos soviéticos em rejeição a tudo o que era da Rússia imperial, estará enganado. Os chineses são, acima de tudo, nacionalistas. Ou civilizacionistas, se quiserem um palavra um pouco mais pernóstica, seguindo a observação de que a China é toda uma civilização, fingindo ser uma nação.
As coisas aqui são bem preservadas, e não faltam chineses visitando, interessados em como eram as coisas de antigamente — e, inclusive, com o hábito curioso de às vezes vestir-se àquela maneira antiga quando visitando estes ambientes. Veremos alguns. É algo que eu já havia visto também no Japão.
Eu portanto entrei, e vim ter com os visitantes chineses na Rua Suzhou, um simulacro da vetusta cidade comercial do sul da China, famosa pelos seus canais e seu comércio.
O imperador Qianlong (1711-1799), que esteve em Suzhou (1.100 Km a sul daqui), pelo visto gostou tanto da cidade que ordenou a construção desta versão de faz-de-conta, onde os funcionários do palácio atuavam como comerciantes em dezenas de lojas e tavernas.



Tudo isso aqui foi destruído em 1860, quando da Segunda Guerra do Ópio (1856-1860).
A quem já ouviu falar no nome, mas não sabe exatamente o que ocorreu, naquela segunda metade do século XIX os europeus estavam em franca expansão imperialista Ásia e África afora. A China era uma espécie de prêmio: vetusto império, famoso há séculos, populoso e de rica cultura que vinha já influenciando os europeus, mas que havia caído no atraso tecnológico àquela altura.
Os europeus vieram dominar a China com tamanha sanha que até concordaram em compartilhar o butim. Aliavam-se aqui como jamais haviam feito. À altura de 1900, chegaram até a formar a chamada Aliança de Oito Nações (Alemanha, Japão, Rússia, Grã-Bretanha, França, Estados Unidos, Itália e Áustria-Hungria), todas em cima da China.
Ainda antes disso, porém, foram os britânicos a dar a partida. Lucravam horrores com o comércio de ópio, uma droga relaxante e que vicia, e que portanto o império chinês os havia proibido de vender nestas terras. Entrou em cena a famosa “diplomacia do canhão”, em que os ingleses ameaçavam bombardear as cidades portuárias chinesas se não houvesse concessões.

Aquela Primeira Guerra do Ópio resultou no Tratado de Nanquim (1841), o primeiro dos chamados “tratados desiguais” que a China se viu obrigada a assinar.
Não satisfeitos, os europeus usavam-se de qualquer pretexto — confisco de alguma mercadoria sua, assassinato de algum estrangeiro em solo chinês, tratamento recebido pelos cristãos na China — para apertar o cerco e subjugar este império ainda mais. Foi aí que em 1860 resolveram pilhar este Palácio de Verão — e levar obras de arte que hoje estão em museus de Paris e Londres — para punir a pessoa do imperador.
Quase tudo o que se vê aqui hoje é fruto da reforma e expansão feita a partir de 1886 sob as ordens da imperatriz-mãe Cixi, personagem de que falaremos mais depois.
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Há mesmo um certo ar de faz-de-conta naquela rua comercial fake preparada para o imperador. É como as lojas nunca tivessem mesmo sido lojas, apenas fachadas. As lâmpadas, entretanto, enfeitavam bonito o ambiente. A luz era verdadeira, do sol passando ali pelas folhas e sobre a água. A sensação é mesmo a de se estar num parque público.


Antes de tomar caminho, eu preciso dizer que me divertia com os fotógrafos muitos aqui.
O canal não tem barreira de proteção nenhuma, e eu portanto via a hora de alguém dar um passo para trás na hora errada e jogar um outro dentro da água — quiçá eu.


A Colina da Longevidade e seu budismo
Tomei caminho. Estávamos aqui na área mais alta deste complexo do Palácio de Verão — ou quase. Mesmo com a ajuda de ter entrado já pelo elevado Portão Norte, era preciso subir umas escadinhas aqui e ali.
Navegávamos, vários turistas chineses e eu, por entre meandros de rochas escarpadas que se mesclavam a estruturas com ar de fortaleza e detalhes de arquitetura chinesa, sobretudo nos telhados.
Não é um lugar onde se entrar em muitas partes; é mais uma área onde se navega pelo lado de fora e contempla as estruturas.
Subir é preciso.




Tenho-lhes, inclusive, a notícia de que subir isto aqui não é facultativo: este é o caminho para se chegar ao outro lado da colina, onde estão o lago e a maior parte das pessoas.
Em comparação, este entorno cá é bastante quieto. Acho, inclusive, que a maioria dos visitantes nem vem cá — entram pelo Portão Leste lá embaixo e por lá ficam.
Era possível, portanto, contemplar quase que a sós os detalhes da arquitetura e do exterior do pavilhão budista que eles chamam de Mar de Sabedoria (Sea of Wisdom ou Zhìhuìhǎi). Ele contém mais de 1000 estatuetas de Buda nas paredes.






A beira do lago e o corredor de 700m
Vamos descendo. Tudo o que sobe desce. Embora haja exceções, nós não éramos uma delas aqui hoje.
Os degraus de pedra o levam por entre o bosque deste palácio como numa trilha, até que você afinal chega à base de tudo, que é o Lago Kunming.
A ironia é que, depois, para ver outras atrações como o a Torre do Incenso Budista e o Salão da Dissipação de Nuvens é preciso subir de novo metade do caminho colina acima — mas não há jeito, não dá para vê-las na rota para baixo, é preciso descer e subir de novo. São, como a Rua Suzhou, das áreas que têm ingresso próprio, e que você pode deve cobrir adquirindo já o tíquete-combo.
Lá embaixo, depois de um pouco trilhar descendo por entre a vegetação, eu cheguei ao Corredor Longo, nome adequado para o decorado corredor coberto que se estende por 728m à beira do lago. É onde a maior parte dos turistas se concentram.







Fazia um dia de calor, um apagar das luzes de maio que já nos impunha seus trinta e poucos graus com umidade. Não era exatamente um fim de manhã aprazível para se sair num barquinho de madeira sozinho debaixo do sol, avaliei.
Preferi apenas contemplar o lago daqui, e nele vi o que é uma das peças mais curiosas deste complexo do Palácio de Verão: o barco de mármore da imperatriz-mãe Cixi.

Eu provavelmente não preciso dizer que esse barco de mármore não navega, ele é meramente decorativo.
Isso era originalmente um pavilhão de madeira decorado em formato de navio, feito em 1755, na época do Imperador Qianlong — o idealizador deste Palácio de Verão. A obra se tornaria uma das vítimas da pilhagem britânica de 1860, no que eles viam como uma expedição punitiva para castigar a monarquia chinesa por sua resistência às suas investidas comerciais.
Ele seria reconstruído, agora neste estilo marmoresco, em 1893 por ordens da imperatriz-mãe Cixi.
A crítica, entretanto, foi que ela usou dinheiro que deveria ter sido destinado para modernizar a marinha imperial chinesa, já tão defasada e surrada pelas potências ocidentais nas guerras do ópio.
A China estava ainda na metade do que viria mais tarde a chamar de seu Século de Humilhação (1839-1945) — mas que ele é bonito, é.

Cixi, a senhora destas paragens
Alguns de vocês já devem estar curiosos para saber quem, afinal, foi essa tal de Cixi (1835-1908).
Cixi era uma concubina do imperador Xianfeng (1831-1861), o jovem com o fatídico destino de governar a China durante ambas as guerras do ópio. Na segunda, descrente que os europeus se atreveriam a invadir Pequim, ele fugiu da cidade e morreu — dizem uns que de bebedeira, outros que de tuberculose, e ainda outros que devido ao consumo de ópio — seis dias depois, na tenra idade de 30 anos.
Deixou um só filho, nascido justamente dessa concubina. No seu leito de morte, deixou todo um decreto de como um conselho de regentes governaria a China durante a menor idade do garoto, de então apenas cinco anos.
Cixi, na prática, deu um golpe em nome do seu filho e aboliu o tal conselho. Como uma boa matrona, ela governaria a China por longos 47 anos, enterrando o filho (morto de varíola) em 1875 e depois o sobrinho, que o sucedeu como imperador e depois morreu um dia antes dela, em 1908.

O Pavilhão de Dissipação das Nuvens e a Torre do Incenso Budista
Vamos agora ao que é talvez a parte mais importante deste Palácio de Verão, onde a imperatriz-mãe Cixi tinha seus aposentos.
Adentra-se todo um pátio-jardim à moda chinesa, com água e plantas, escadinhas, pavilhões de teto curvo enfeitado, e no alto de tudo um pagode: a Torre do Incenso Budista (Tower of Buddhist Incense ou Fóxiānggé).
No caminho até lá é que se passa pelo Pavilhão de Dissipação das Nuvens (Hall of Dispelling Clouds ou Páiyúndiàn). Ele era onde Cixi recebia os convidados e realizava cerimônias.
Curiosamente, eu passei também por visitantes vestidas de Cixi.





Não há muito o que ver em termos de interiores aqui no Palácio de Verão — em parte pela pilhagem feita pelos europeus em 1860 e, mais tarde, de novo em 1900 pela Liga das Oito Nações.
A visita, eu me dava conta, é predominantemente por áreas externas. Salvou-se o que foi trazido depois que Cixi retorna ao palácio em 1902 ou o que foi restaurado.



As vistas são lindas, tanto para frente — à torre — quanto para trás — ao lago. O sol da primavera de maio ia ficando forte naquilo que já era o meado do dia, eu sempre a subir.
Havia uma potência naquele brilho do astro-rei por sobre as agulhas dos pinheiros, os telhados chineses e nós.




Merenda & prosa
Eu não vi propriamente onde almoçar aqui, mas talvez haja. Como eu tomei um café da manhã reforçado no hotel, vim disposto a passar as 3-4h de visita só à base de merendas e bobagem, e deixar para comer algo mais substancioso depois.
Calcule mesmo pelo menos 3h de visita — e isso porque eu sou rápido, e sem tomar o barco pelo lago. Há barracas onde comprar bobagem de comes e bebes, além de banheiros, e tendo parado para uma merenda eu levei ao todo quatro 4h inteiras neste complexo.
Isso foi quando eu, já descido de volta da Torre do Incenso Budista para a beira do lago, me detive numa lanchonete aprazível e pedi um sorvete de leite (leia-se aquele que no Ocidente nós chamamos de baunilha, só que sem acrescer essência de baunilha dentro) com manga — para o que seria o terror da geração da minha avó.
Tampouco acho lá que a manga era muito manga, mas tinha gosto. A funcionária de chapeuzinho branco botou daquele sorvete branco de máquina rodando num copo de papel e esguichou depois molho amarelo em abundância de um frasco como aqueles de ketchup em lanchonete. Não estava mau.

Foi aí que se sentou do meu lado um rapaz asiático com pinta de quem grava comercial de roupa. Pela abordagem com que pediu licença para se sentar ali perto, eu vi que ele iria puxar conversa. Deixei acontecer, como às vezes é bom na vida.
Dali a cinco segundos ou menos, eu com o meu sorvete de “manga”, ele pergunta num inglês até fluente de onde eu era. Falei que era do Brasil, e ele perguntou se eu era estudante ou estava visitando. (Adoro quando as pessoas me acham assim com cara de universitário, sendo que eu terminei o doutorado há mais de 10 anos.)
— “Estou visitando”, respondi tranquilo. “Você é daqui?”
— “Não, eu também estou visitando. Eu sou do sul.”
— “Ah é? De que província?”
— “Anhui“

Passamos daí a ele me especificar onde exatamente a província fica. Eu já havia ouvido falar, mas não fazia muita ideia. Anhui é uma das 23 províncias da China, a oeste de Xangai, e ele estava em Pequim já há dois anos.
Perguntou o que eu estava achando, eu cheguei a comentar casualmente que estava gostando, e ele não teve cerimônia em dizer — ainda que com uma breve pitada de constrangimento — que não estava gostando tanto assim. Fiquei curioso, sobretudo por ele ter se referido a “nós do sul”, não a algo pessoal seu.
— “Este norte da China é estranho para nós. Você chega num lugar para almoçar, e em vez de arroz, eles perguntam se você quer pão ou macarrão de trigo. Para nós, almoço é sempre com arroz”, disse-me ele — que não costumava me olhar de frente — de repente me olhando diretamente, como quem trai certo convite ao “você me entende?”.
Eu depois diria a ele que no Brasil também se come bastante arroz, mais do que os demais ocidentais costumam comer.

— “Aqui tem esse clima estranho também“, continuou. “No verão é igual, mas em outras épocas do ano faz bastante frio, e tem neblina, tempestade de areia, tudo o que é coisa”, juntando ali uma série de queixas que minha avó terminaria dizendo “Deus me livre desses lugares”. Ele deixou sem a frase, mas a cara que fez comunicou o suficiente.
Deixei-o na lanchonete, dizendo que eu ainda precisava ir ver o Palácio de Verão Antigo (Old Summer Palace ou Yuanmingyuan), que é um complexo separado.
Ao Portão Leste, vi hordas de turistas chineses em grupo, que vinham — já almoçados —como massas humanas em direção contrária, dificultando a minha saída, mas dei um jeito.
Antes de sair, eu dei até uma passadinha ainda num pavilhão expondo mobílias de época, da Dinastia Ming (1368-1644) e da Dinastia Qing (1644-1912), e vi também uma escultura de Qilin, animal fantástico do bestiário chinês tradicional, antes de prosseguir rumo à catraca para saída formal — o ponto de não-retorno.


O Palácio de Verão Antigo (Old Summer Palace ou Yuanmingyuan)
“Peraí“, disse eu. “Tem um outro deixado em ruínas e anterior a este? Então não foi este o Palácio de Verão que os europeus famosamente queimaram e pilharam?“
Os europeus queimaram e pilharam ambos, em 1860 na Segunda Guerra do Ópio e em 1900, no ataque da Liga das Oito Nações à China.
Entretanto, o palácio que os historiadores registram que queimou ao longo de três dias em 1860 e que ficou completamente destroçado, por cortesia do britânico Lord Elgin, não foi este aqui que visitamos, senão um outro, que nunca foi restaurado, e do qual restam apenas umas ruínas de pedra em meio ao jardim.
Ele não fica longe, e eu não quis deixar passar a oportunidade de ver esse lugar histórico. Eu pensei até em fazer uma postagem distinta, mas acho que quem se interessa por visitar um Palácio de Verão vai querer saber do outro, então aguentem comigo, pois a tarde ainda continuava.

Você pode ir até de um Palácio de Verão para o outro, mas atentem (melhor do que eu) se quiserem fazer isso, crianças.
Do lado de fora do Portão Leste do Palácio de Verão estava aquela solina vespertina característica, longas avenidas largas (até demais, dando certo ar de ermo) onde deslizavam alguns ônibus que por vezes detinham-se em pontos enfeitados por canteiros de rosas vermelhas. Havia pouca sombra, todavia.
Eu caminhei ali um tanto sem lenço e sem documento rumo à outra avenida, onde — segundo meus aplicativos de mapas — eu dali a um tempo encontraria uma entrada para o imenso parque do Palácio de Verão Antigo.
Iniciado ainda em 1707 sob o imperador Kangxi, era este a principal residência dos imperadores Qing nos séculos XVIII e XIX, daí a sanha britânica.

Eu virei dali numa avenida com cara de rodovia que me fez até questionar se eu estava no lugar certo, mas prossegui, até que enfim avistei com alívio o nome Ticket Office (bilheteria) por detrás de um gradeado.
Eu parecia estar entrando pela porta dos fundos do parque, pois as funcionárias da bilheteria e das catracas estavam ali sozinhas conversando umas com as outras, sem um outro visitante que fosse, e tampouco havia algo que ver do outro lado: só vegetação rasteira sem nenhum sinal de História.
Comprei a dinheiro o ingresso de ¥25 (€3 ou R$ 19) que dá acesso tanto ao parque quanto às ruínas — do contrário, para quem quer só perambular pelo parque, são meros ¥10.
Recebi meu troco, entrei pela catraca, e logo vi ali um carrinho vermelho onde umas 10 pessoas (todas chinesas) estavam já sentadas aguardando a partida. Caí na coisa de que isso era um daqueles carrinhos de golfe que deslocam as pessoas ao ponto de interesse nestes parques.

Só que o carrinho de golfe não é gratuito, a passagem custa ¥20, e eu a princípio não entendi isso. O motorista era um tio meio desses com aspecto de dono de bar (chinês) e palito que ele insistia em segurar com uma mão dentro da boca enquanto me falava (em chinês).
Ficou óbvio que eu não estava entendendo bulhufas, ao que uma mulher jovem já sentada no carrinho falou-me em inglês que era preciso comprar um ticket pra este carrinho, e que o fizesse via WeChat, que eles aqui chamam Weixin. Só que meu WeChat não lê, só faz produzir um código QR que o vendedor então pode ler, mas essa máquina de ler ele não tinha.
Brandi então uma nota de ¥50 yuan tirada do bolso (como disse e volto a dizer, ter dinheiro em espécie aqui na China é sempre útil), mas ele não tinha troco nenhum. Trocaram então eles várias ideias sobre o qual eu nada sei, até que concordaram que eu deveria subir no carrinho, e pagar lá quando chegasse.
Andamos uns bons 3 Km por paisagens nada interessantes neste vermelho carrinho de golfe, eu a me dar conta de como seria impraticável fazê-lo a pé, se eu não tivesse dado esta sorte.

Chegando aqui — depois de uns 15 minutos atravessando o parque de vastos capins e breves corpos d’água —, senti a leve impressão de que houve quem tivesse ficado com medo que eu fosse embora sem pagar. Apontaram-me de pronto a casinhola também vermelha num longo calçadão que se estendia a perder de vista em linha reta, a moça funcionária ali de pronto acolhendo os meus ¥50 e me dando o troco junto com o meu ticket formal de que eu já não precisaria mais.
Pus-me então a bater um pouco pernas por este complexo, bem amplo e muito mais humilde aos olhos que o Palácio de Verão de onde eu havia vindo.
Aqui, há mesmo basicamente rochas em ruínas. Lembram um pouco aquelas ruínas greco-romanas antigas que há no Mediterrâneo, só que com um décimo da antiguidade e talvez um quinto da beleza. Não há o mesmo charme das colunas gregas nem o portentoso ar das obras romanas.
Aqui, as coisas todas estavam também ao chão, em pedaços, ali postas pelos europeus do centro-norte em 1860, durante a Segunda Guerra do Ópio.



Um britânico da expedição chegou a observar que, à época, este palácio deveria ter “a maior concentração de tesouros históricos do mundo”.
Há registros de que os franceses discordaram da ideia de incendiar o lugar como punição ao império chinês, mas também não chegaram ao ponto de apagar o fogo.

Uma curiosidade, que talvez os leitores não imaginam, é que muito desta arquitetura palaciana já era de influência ocidental. Digo “já” porque, a partir do século XVI com o estabelecimento da rota marítima, de entrepostos comerciais e de missões jesuítas na China, começou a haver grande intercâmbio cultural entre chineses e europeus.
Vocês notam que, século XVIII adentro, já era comum que os palácios europeus tivessem um pavilhão chinês, ou sala chinesa, além de vasos e outras peças. Os próprios europeus começaram daí a fabricar porcelana com maior afinco, tentando imitar os chineses.
Enquanto isso, os chineses, que inicialmente eram avessos a tudo vindo de fora, começaram também a se encantar por certas peripécias europeias. Gostavam muito dos relógios, por exemplo, e não demorou a contratarem arquitetos e paisagistas — sobretudo italianos e franceses — para ajudar a modelar os seus palácios.
Foi assim com o Palácio de Verão que visitamos mais cedo, assim como com este Palácio de Verão Antigo, que tinha labirintos no jardim à moda europeia e fontes.




Andei andei, sem violão nem bandoleira, nem necessariamente saudade da Ribeira, mas absorvendo aqui o que este lugar representou e representava.
Andei por aquelas ruínas, e segui por vias extensas margeadas de flores, casais ao longe namorando à beira da água hoje dominada por plantas. Viam-se pontes mais novas aqui e ali, além de barquinhos nos quais se podia fazer um passeio.


Nesse âmbito, e sem ter almoçado propriamente, resolvi comprar um picolé. Eu descobriria que, na China, há sempre picolés caros e pouco dignos de nota tematizados às diversas atrações históricas país afora.


De quebra, não foi mau experimentar dessa tradição dos picolés temáticos chineses — embora eu em tempo fosse descobrir outras opções mais interessantes. Digno engodo, esse aí era basicamente a caixa que era tematizada.
Enfim, vida que segue. Seguiram os chineses, visitando o que se fez e o que restou dos seus palácios de outrora, e seguia eu agora à saída principal deste lugar, onde há uma estação de metrô.
Eu estava tranquilo, pois hoje o jantar seria especial. Revejo vocês lá.





Uau… que beleza ! … Que Portal!… Lindo!…
Arquitetura majestosa, elegante, charmosa, com uma decoração criativa e primorosa diante de uma natureza prodigiosa, fantástica.
Bela manifestação cultural de uma civilização secular!…
Lindo esse complexo chamado Palácio de Verão.
Além das belas imagens, o jovem amigo viajante brasileiro nos brinda com outro banho de História!… Maravilha….
Curiosa essa forma de ver e ser família… Está mais para adversários que para irmãos!…
Eu ja tinha ouvido referencia a essa Cidade Proibida, só não sabia a razão… que “clima”, heim hahah
Esses telhadinhos coloridos, verde, vermelhos, seu formato suas telhinhas arredondadas, suas paredes coloridas, tudo lindo!…
O sitio e o acesso la dentro são horríveis!… Jesus… pior que o da Grande Muralha. Compensam as paisagens , as edificações e meandros.
Curiosas essas ruas navegáveis, parecendo Veneza ou Amsterdam.Deve ser bonito esse sul. da China.
Belíssimo esse portal da entrada.
Lindas pontes belos canais. e que Natureza prodigiosa!…
Interessante essa cidade de faz de conta com seu comercio de mentira… Olhe seu menino… Excêntricos esses soberanos…
E que horror essa guerra do ópio…
Que vergonha para a história dessas nações do Ocidente, hoje consideradas desenvolvidas ,atacar, destruir, tomar para vender droga!… Que horror!… difícil de acreditar… Parecendo o que ocorre hoje quando o governante de um país ameaça o mundo com seu poderio politico e econômico. A História se repete…
Belíssimo esse paredão vermelho e bege na Colina da longevidade.
Horríveis as escadas.
Belíssima a visão dos arredores. Natureza prodigiosa.
Incrivel e belo esse pavilhão com as centenas de imagens do Buda, no Mar da Sabedoria.
Quanta beleza!…
Lindo pavilhão verde e bege com beirais verdes!. … magnifico. Linda decoração…
Maravilhoso esse outro pavilhão verde, rosa e bege…
O portal para o lago é um esplendor!… Magnifico!…
Bonito e charmoso o corredor decorado com motivos da Mitologia chinesa
Esplendoroso o pavilhão de entrada para o corredor longo. Lindíssimo nos seus tons vermelho verde e dourado.
Belo e simbólico painel com motivo mitológico chinês .
Linda a visão do lago artificial de belas e verdes águas. Paradisíaca a visão!…
Muito agradável essa avenida arborizada, ao longo do corredor.
Curioso esse barco de mármore.
Interessante a história dessa imperatriz de nome engraçado, que era concubina. Decidida, ela. E bem colorida. E com unhas grandes da elite hahahahah cheia de escravos e servos… Jesus hahah
Vergonhosa a participação dos europeus ,sobretudo ingleses, na queima dos monumentos históricos, edificações , deles próprios e de outros, como os franceses e outros ,no furto dos acervos culturais valiosos, muitos deles hoje nos museus da Europa. Lamentável.
Bonito o gosto chinês pela caracterização.. belos os coloridos. Com a curiosidade de estar a cor ligada aos ancestrais. Muito bom.
Belo pavilhão das Nuvens Preciosas , com riquezas também pilhado pelos europeus.
Belíssima a torre do Incenso Budista , com a majestosa vista do lago!…
O interior com seu Ser de vários braços com a significação de querer abraçar a todos.
Fenomenal esse Complexo.
Esse tal Lord Elgin, queimador mor de Palácios e seus descendentes, como seu filho que furtou belezas e riquesas chinesas, esse nome é conhecido aqui no Brasil como tipo de maquina de costura doméstica. A maquina de costura Eigin toda casa tinha, la pelos anos de 1950, no final do sec. XX.
Linda essa avenida arborizada de acesso ao Palácio Antigo queimado , furtado e destruído na guerra do Ópio pelos europeus.
Importante a expressão séria do jovem viajante diante do monumento em ruinas.
Importante o salientar da troca de influencias Oriente/Ocidente, a essa altura da História, com características francesas nos jardins dos Palácios Chineses.
Lindo o parque.
Resumindo:
Outra postagem impressionante…. pela beleza, pela localização acidentada, pela historia, pelos valores civilizacionais e culturais desse povo, e pela triste participação ocidental na subjugação do povo e da região, e pela destruição da sua cultura, e por razoes torpes..
Belíssimas as cores, a arquitetura, a disposição dos pavilhões, a criatividade, a decoração, representatividade da cultura , da civilização deles, e sobretudo pelas belas paisagens.
Outra postagem histórica e impressionante . Parabéns…