(Este será um post longo.)
Uma viagem a Pequim não está completa sem uma vinda à Cidade Proibida (Forbidden City ou Zǐjìnchéng), e houve hora em que eu tremi nas bases achando que não conseguiria.
Estabelecida na era Ming em 1420, esta cidadela perdurou por mais de meio milênio como a inacessível morada de 24 imperadores da China, até a 1924. Viviam aí ele, sua família imediata, um largo número de concubinas e muitos eunucos — homens castrados que tradicionalmente cuidavam da administração e eram os únicos com acesso ao harém.
Erroneamente às vezes se crê que a designação de “Cidade Proibida” foi dada pelos ocidentais, mas não. Desde pelo menos o século XVI, já era público e notório na China que a entrada não-autorizada neste complexo retangular de 960m x 750m era punida com a pena de morte.
Hoje, visitar este complexo palaciano é algo feito diariamente por milhares de pessoas. O sistema de reserva online requer cuidados — ainda que não renda pena de morte —, e sobre o lado prático da vinda eu tenho algumas dicas a compartilhar. É uma visita quintessencial da China que eu vim fazer naquela manhã de sol em Pequim.


Como visitar a Cidade Proibida
Adquirindo os ingressos online
Deixem-me iniciar pela parte prática — até mesmo porque o processo para vir aqui começou antes mesmo de eu chegar à China. Não é complicado nem caro, mas requer prontidão.
Os ingressos para vir à Cidade Proibida precisam ser comprados online. Não existe mais bilheteria física. Sites como Viator e Trip.com vendem tours guiados de meio dia pela bagatela de €100 — fica aí de acordo com a profundidade do bolso de cada um —, mas o mais simples definitivamente é adquirir o seu próprio ingresso direto no site oficial.
A entrada custa 60 yuan (¥), o equivalente a €7 ou R$ 45 — praticamente a metade do preço de uma visita ao MASP, por exemplo.
Você fornece seu número de passaporte na hora da compra e, como em quase tudo na China, ele se torna o seu ingresso. Não há ingresso de papel nem e-ticket no celular nem nada. Seu ticket é seu passaporte original, que precisa levar consigo. (Certifique-se umas três vezes de inserir os dados corretamente).

O “tchan” é que os ingressos só podem ser adquiridos no máximo com 7 dias de antecedência, e eles se esgotam muito rápido. Isso significa que você precisará estar de prontidão para realizar a compra online exatos sete dias antes da data planejada para a sua visita.
Sete, não oito dias. Ou seja, comprei numa quinta para a quarta da semana seguinte. Mais antecedência do que isso, não vende. Menos antecedência que isso, já estará esgotado. Portanto, você terá uma janela de oportunidade de um dia que se abre e logo fecha.
Sugiro ter vários dias em Pequim para ser mais fácil acomodar, se não num, noutro dia. Eu tive o atrevimento de planejar esta visita para meu último dia em Pequim, e consegui, mas nem todo mundo deve viver perigosamente assim.
Por fim, você precisa escolher se quer sua entrada para de manhã ou de tarde. De manhã você entra das 8:30 até as 12:00 — mas isso é o horário de entrada; uma vez dentro, você fica o quanto quiser, ninguém vai caçá-lo para o colocar para fora. No da tarde, você entra das 11:00 às 15:30. O lugar fecha às 17:00, e note que ele está sempre fechado às segundas-feiras ou em comemorações especiais.

A Praça da Paz Celestial e a saga para entrar na Cidade Proibida
Comprado o meu ingresso ainda antes de eu chegar à China, era uma quarta-feira pela manhã quando eu cheguei lépido e faceiro para tentar entrar na Cidade Proibida. Seu único acesso é pelo portão sul, onde está a famosa Praça da Paz Celestial (ou Praça Tiananmen, que leva o nome do portão).
A quem não perdeu aquela aula de História, foi aqui que houve os protestos estudantis de 1989, quando no clamor do fim da Guerra Fria, reclamou-se por liberdade de associação, de imprensa, e maiores direitos democráticos na China. Os protestos, como se sabe, não foram atendidos e resultaram numa resposta armada por parte do governo.
A coisa se estendeu por meses, com negociações que não chegavam a um acordo, e os estudantes a fazer greve de fome. A coisa foi se acidificando, com repetidos confrontos com a polícia, até que dia 2 de junho se decretou lei marcial, e nos dias seguintes veio o exército para debelar os protestos à força.
Muita gente reconhece a imagem do homem que se pôs diante da coluna de tanques numa das largas avenidas deste centro de Pequim.



Se você ainda tem essa imagem um tanto soviética da China, desse cinzento comunista e de pessoas mobilizadas em protesto por democracia — meio no espírito das Diretas Já no Brasil —, atualizar-se é preciso.
Como versou Camões lá atrás no século XVI, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Não é que tudo aquilo tenha se apagado, mas a China de hoje é um tanto diferente, e os jovens de hoje também. Como tantos mundo afora, também os chineses estão hoje mais preocupados em acumular dinheiro, ocupar-se ao telefone celular e com vaidades pessoais.
O que também mudou é que nunca mais se permitiram protestos aqui na Praça da Paz Celestial, e ela é hoje um lugar com forte esquema de segurança, o que dificulta um pouco o acesso à Cidade Proibida. Foi algo que eu não havia levado propriamente em conta naquela quarta-feira.

É uma uma novela de segurança para se entrar na Cidade Proibida, que continua de certa forma a fazer jus ao nome.
Às 9:15 da manhã, eu desembarquei do metrô aí na estação Qianmen achando-me com tempo suficiente para atravessar a Praça da Paz Celestial e estar na bilheteria até as 11h, hora limite para eu adentrar o complexo com meu tíquete matinal. Note que agora eles expandiram até as 12h, então você terá mais tempo que eu tive.
A saída do metrô já incluiu uma checagem da documentação de todos. Os chineses mostravam seus cartões de identidade e reconhecimento facial numa máquina. O meu passaporte o guarda se contentou em dar uma olhada breve e me indicar que passasse.
Saindo à superfície, eu achei que teria a praça aberta diante de mim, como em qualquer lugar do mundo, mas não aqui neste centro de Pequim, onde — como me disse certa vez um amigo meu — é “onde você realmente sente a presença do governo“.

Foi preciso descer novamente por outras escadarias e emergir numa das ruas ao fim da praça, que eu sequer podia atravessar.
Embora tudo estivesse ali relativamente perto em tese, as barreiras postas faziam com que fosse necessário dar uma enorme volta até para cruzar ao outro lado da rua. Eu via massas humanas em movimento, as famosas bandeirinhas de grupos turísticos, e começava a me preocupar.
Ao meu redor, um pouco da Pequim mais velha aqui neste centrão, com coisas — poucas — restantes de fins do século XIX ou começo do XX.
À moda soviética, quase tudo foi demolido nos anos 1950 e refeito à imagem e semelhança dos estetas de Moscou, no urbanismo monumentalista de prédios neoclássicos lisos e amplas avenidas como em Bucareste, Almaty e tantas urbes dessa banda do mundo e dessa época, quando suas vontades coincidiam.


Havia mais algumas ruas e prédios com cara de 100 anos atrás. Seria certamente interessante, não fossem as enormes limitações impostas pela segurança.
Eu via-me ter que me distanciar da Praça da Paz Celestial para — oxalá — alcançar o acesso de segurança, que eu esperava ter identificado corretamente. Andei pelo lado oposto da rua até o fim da longa quadra, como se estivesse indo embora, para poder atravessar de volta e me juntar às centenas de pessoas que andavam aos poucos.
Adiante havia detectores de metais, e cá duas longas filas: uma para grupos (que parecia ir mais rápido) e outra para nós reles mortais. Os ocidentais éramos raros, acho que uma em cada 500 pessoas, mas eu via outros por ali.

A fila ia devagar, e numa dada lixeira eu via um cemitério de isqueiros. É proibido trazer uma pá de coisas cá à Praça da Paz Celestial e à Cidade Proibida, incluindo isqueiros, objetos cortantes, panfletos, sprays, etc. É um tanto como aeroporto quase, só que sem a restrição a líquidos. Eu, como geralmente ando livre, leve e solto, não me preocupei, mas quem gosta de andar de mochila deve averiguar bem o que traz.
Quando chegou a minha vez na segurança, quase 1h já havia se passado desde minha chegada no metrô — por aí você avalia. Mais de um segurança quis ver meu passaporte, me deixou esperando, foi buscar outra pessoa, eu mostrei no celular a reserva feita para esta data na Cidade Proibida, e enfim me deixaram passar.
Às 10:15, aleluia, eu estava finalmente na Praça da Paz Celestial. “Definitivamente”, ouvi a voz de um outro brasileiro dizer num diálogo lá com alguém outro — a única outra voz tupiniquim que eu escutaria cá neste dia.
Poder andar agora mais livremente e no meu próprio passo era um gozo, ainda que muitas pessoas rumassem na mesma direção, peregrinando aos poucos à Cidade Proibida.

Eu não quis me demorar demais aqui na praça. Ela, que é a maior praça do mundo, é um amplo vazio, uma extensão de chão liso um tanto morta e sem atrativos, exceto pela sua significação histórica e as edificações ao redor.
No horizonte, via-se já a figura de Mao Tsé-Tung, o seu retrato posto sobre o Portão da Paz Celestial (Tiananmen), que dá nome à praça. Por ali eu seguiria rumo à bilheteria.


Estávamos prestes a mudar de ambiente, a deixar esta China maoísta para trás e regressar à China imperial dos séculos XV ao XIX — e com certos toques da contemporaneidade do século XXI entre as pessoas.
Às 10:35 eu estava, pois, passado já por debaixo do Portão da Paz Celestial com essa figura de Mao e saído do outro lado, à entrada do Palace Museum. Ali, outra longa fila — agora de Ticket check — me esperava. Ai Diós. Eu sabia que se eu chegasse à máquina que leria meu passaporte após as 11h, correria o sério risco de ser mandado de volta.
Não titubeei: vi algumas pessoas com crianças falando com o guarda, e ele mandando seguir à segurança por um caminho sem fila, e fiz o mesmo. Mostrei a minha reserva no celular, que ele nem olhou e preguiçosamente fez com o braço que eu seguisse. Segui sem cerimônia por essa via vazia e já me pus lá na frente na segurança.
Passei, a máquina leu meu passaporte sem problemas, e às 10:40 eu estava dentro. Ufa! Agora eu podia pensar no que estava por ver.


A visita pela Cidade Proibida
Os grandes pátios de entrada
A visita pela Cidade Proibida é algo extenso, que vai lhe tomar umas boas 3-4h se você quiser ver as coisas em detalhes. Há muito o que ver, recantos distintos, coleções, pavilhões com isto ou aquilo dentro para você admirar.
Há bastante gente? Há, e a sensação se assemelha àquela dos eventos de rua no Brasil. Não o Carnaval, mas aqueles eventos mais família, tipo desfile de 7 de setembro ou procissão. Nada de música, mas aquele monte de gente andando junta debaixo do sol, no calor de 30 graus com sol, e hoje tivemos até certa umidade na seca Pequim para assemelhá-la ainda mais às minhas experiências em Pindorama.
Só que, como os espaços são vastos, um tanto também à maneira desses festejos de rua do Ocidente, há onde quase todo mundo se concentra e há os cantos mais afastados, onde é possível se sentar, chupar um picolé enquanto se vê as crianças dos outros brincarem, e onde dá até para escutar o vento nas folhas enquanto se toma um fôlego para continuar.
Comecemos aos poucos, pelos pátios cerimoniais da entrada da Cidade Proibida, que eram proibidos às mulheres — mesmo a imperatriz-mãe Cixi (1835-1908), que efetivamente governou a China por décadas, jamais pisou aí — e gradualmente eu lhes mostrarei os diversos atrativos deste lugar.





Uma coisa interessante é que não havia plantas nestes pátios frontais reservados aos homens na Cidade Proibida. Até hoje não há.
As plantas eram consideradas algo suave, feminino, adequado aos cantos de trás mais reservados deste complexo, não a esta fronte dedicada a demonstrar o poder imperial.





A quem quiser ter uma breve sensação do movimento num dos pátio de entrada, abaixo vai um vídeo curto que eu fiz em meio às pessoas.
Entre símbolos chineses e ocidentais
Há um sem fim de pavilhões e de pátios laterais na Cidade Proibida. Embora a maioria dos turistas — e grupos — siga pelo centro, atravessando aqueles pavilhões principais um após o outro quase em linha reta pelo eixo principal do complexo, muito do seu charme está nas suas zonas mais quietas.
Você passa pelos portões laterais, e ali tem árvores, lugar onde se sentar e até vendinhas. Não há propriamente um lugar digno onde almoçar aqui na Cidade Proibida, mas há merendas simples disponíveis, onde comprar água (¥4-5 ou R$ 4 por uma garrafinha de 500ml), e há banheiros em abundância. Não conte com limpeza impecável nem papel higiênico, mas eles são funcionais.
E você tem também as exposições opcionais (algumas delas temporárias) que você pode escolher adicionar ao seu ingresso na hora da compra online. A principal delas é a Coleção Imperial de Relógios ocidentais, embora quando eu vim estivesse acontecendo também uma exposição sobre as relações culturais entre a China e a França.
Aqui, estes esta presença ocidental que foi se acentuando a partir do século XVI com as grandes navegações se mistura à simbologia chinesa, que está por toda parte — em especialmente em certos marcos aqui da Cidade Proibida pelos quais não se pode passar batido.



Vamos agora atentar mais para os símbolos.


Uma curiosidade é que, apesar do nome, via de regra a imperatriz na China não mandava quase nada, nem se metia oficialmente com os assuntos públicos. Ela era, basicamente, a esposa oficial do imperador e a abelha-rainha do seu harém, por assim dizer.
Que a sociedade tradicional chinesa era — e de certa forma ainda é — patriarcal e machista, não há discussão, mas é preciso compreender que esse harém não era um depósito de prostitutas cativas.
Havia toda uma hierarquia feminina na corte, com quase 10 níveis distintos, e a imperatriz era a que estava acima de todas e era a responsável por assegurar a harmonia dentro do grupo.
Entretanto, por exemplo, não era raro — e era perfeitamente legítimo — que o imperador tivesse filhos com as concubinas, de modo que os príncipes tinham vários meios-irmãos. Todos eram acolhidos oficialmente, sem aquela distinção ocidental drástica entre filho legítimo e filho bastardo. A imperatriz aí passava a ser a mãe oficial do rebento ainda que não fosse sua mãe biológica.



Para todo lugar que você olha, vê algo rico de simbologia.

A partir do século XVI, os europeus — que até então só apareciam aqui esporadicamente, os raros que faziam a distante travessia por terra — chegaram por mar e se encantaram com a cultura chinesa.
É claro, o seu interesse era, antes de tudo, fazer comércio direto com os chineses e convertê-los ao cristianismo, mas não deixou de haver um forte intercâmbio, maior do que o que se imagina.
Por exemplo, os portugueses (que foram os primeiros a chegar) e os espanhóis (que tinham já a partir de 1565 uma colônia aqui perto nas Filipinas) introduziram na China no século XVI o milho e a batata, cultivos latino-americanos que alteraram radicalmente a agricultura e a segurança alimentar na China, já que podiam ser cultivadas em áreas inadequadas ao arroz ou ao trigo.
Levou também a desmatamento, erosão, enchentes, e há inclusive quem diga que o aumento populacional resultante foi chave para os reboliços sociais que acabaram derrubando Dinastia Ming em 1644. Derrubados pela batata.

O maravilhamento dos europeus com a China foi tal que, a partir de 1700, o rei-sol francês Luís XIV (1638-1715) adotou a moda da chinoiserie (“chinesaria”) entre a aristocracia europeia.
Isto é, o costume de colecionar porcelanas, ter às vezes todo um salão ou pavilhão chinês no palácio, nos jardins, e tomar influências das artes chinesas para os tons e papeis de parede que veremos nos palácios europeus a partir do século XVIII.
O entusiasmo foi muito com a estética chinesa, mas não apenas. Houve também um esforço de finalmente se compreender a História da China e os seus valores filosóficos, com os acadêmicos ocidentais a traduzir os Analectos de Confúcio e outras obras.


A gente às vezes tem a impressão de que os chineses já eram mais avançados em tudo, porém isso não é verdade. Também eles começaram a se inspirar nos palácios franceses, como lhes comentei no post anterior, e buscaram aprender muito com os ocidentais que chegavam, sobretudo com os jesuítas, alguns dos quais foram trazidos a viver aqui na corte nesta Cidade Proibida.
Os chineses inventaram a pólvora, o papel, a bússola e a imprensa, mas todas essas haviam sido invenções ocorridas durante as dinastias Tang (618-907) e Song (960-1279), consideradas eras de ouro da China.
A esta altura destes idos dos séculos XVI e XVII, os chineses haviam caído num certo atraso tecnológico. Eles eram muito fracos em matemática e astronomia, por exemplo, e ficaram fascinados com as habilidades dos jesuítas, que trouxeram à China o calendário gregoriano, técnicas de navegação e de cartografia. Os chineses sabiam muito pouco sobre o restante do mundo em comparação.
Mais adiante, algo também que recebeu atenção aqui foram os relógios. Os relógios eram também símbolos estéticos da mecânica industrial que nascia, a manufatura, o poder que se abria com esta revolução de como fazer as coisas e que lançava a Europa ao estrelato diante dos vetustos demais impérios. Os imperadores chineses acumularam mais de mil relógios de época, numa coleção que exposta aqui na Cidade Proibida.


Os interiores e o Jardim Imperial
Que a Cidade Proibida é vasta, eu acho que todo mundo já entendeu. Você entra em beco, sai em beco, vai na próxima capela, não acende vela porque não pode, e vê um lanche aqui e ali para não passar fome. (Não há propriamente templos aqui dentro, mas a corte imperial tinha seus altares).
Não há quase nada de interiores aberto à visitação. A circulação é essencialmente toda por fora, exceto quando se está cruzando algum pavilhão.
Ali, veem-se tronos e decoração, onde os imperadores tinham audiências, atendiam seus oficiais, recebiam seus relatórios sobre isto ou aquilo, de Pequim ou dos confins deste império na Mongólia, no Tibete, ou lá quase na Ásia Central no oeste da China.
Eu lhes mostro aqui alguns destes ambientes por onde passei, e mais da arquitetura, antes de adentrarmos a Cidade Proibida até seu fundo, onde na parte de trás havia os Jardins Imperiais, reduto das mulheres.




Na metade de trás da Cidade Proibida, já não há mais grandes pátios centrais como na metade da frente.
Vemos agora plantas, a presença das mulheres já era permitida, e o que temos é uma miríade de ziguezagues, pátios pequenos conectados por portas e becos onde você se perde.



Os imperadores chineses frequentemente eram entretidos com espetáculos teatrais, o que às vezes se convencionou traduzir no Ocidente como “ópera”, mas que nada tem a ver com a ópera italiana.
A ópera chinesa são como peças de teatro com personagens caracterizados e, sim, às vezes algum canto. Era — e em bem menor medida ainda é — um entretenimento de todos na civilização chinesa, do vilarejo à corte imperial.
Em 1776, o imperador Qianlong ordenou portanto a edificação aqui de todo um palco elevado onde podiam se colocar músicos e atores para seu entretenimento. Dizem que, quando a imperatriz-mãe Cixi (1835-1908) completou 60 anos, foram 10 dias seguidos de “ópera” por aqui.
Você vê o chamado Belvedere dos Sons Agradáveis num destes pátios laterais.


Vamos enfim aos jardins, conforme nos aproximamos mesmo do fundão da Cidade Proibida. Ali, rochas porosas em formatos curiosos — e um certo aspecto zen — misturavam-se a plantas, flores e edificações tradicionais de arquitetura chinesa.
Figuras mitológicas ou imaginadas ali também se misturam, criando toda uma ambiência quase fantástica.





A gente acha que a Cidade Proibida nunca vai acabar, mas após umas 3h perambulando, você finalmente se depara com o paredão cor-de-telha dos seus fundos.
Ali, muitos pinheiros e bancos hoje colocados para os turistas. Viam-se já os visitantes um tanto cansados, aqui sabe-se lá desde que horas, muito a se escarrapachar nos bancos ou deitados mesmo, tirando um cochilo.
Os pavilhões são todos bastante semelhantes, num mesmo estilo, e depois de um tempo começa a bater realmente a sensação de mais do mesmo.



Os chineses de hoje são assim, ó meu povo. Aquela coisa de movimento estudantil e milhares de pessoas na praça, aqui, ficou um tanto para trás. Este pessoal por acaso tem cara de gente que vai se colocar na frente de tanque de guerra na praça pública?
Também à China chegou a chamada “sociedade de indivíduos”, onde o eu é o que conta e a sociedade é vista como um mero aglomerado de pessoas cujas existências são supostamente autônomas. O “nós” no muito vai até a porta de casa, e às vezes não existe sequer dentro dela. É uma coletânea de indivíduos, cada qual com seu celular, mas deixemos a sociologia para outra hora.
Agora, era hora de ir embora. Estávamos por volta das três da tarde, o sol ainda quente, minha camisa ligeiramente suada, a testa bastante, e eu enrolando o estômago. Não há direito onde almoçar aqui, mas eu havia chegado bem alimentado após o meu mega café da manhã do hotel. Fica aí a gosto de cada um.
Eu agora passaria pela porta de não-retorno no que é a única saída da Cidade Proibida, no seu lado norte, mas não iria para casa ainda, pois me faltava a vista para a Cidade Proibida, que obviamente só é possível ter de fora dela, e eu sabia de onde.


Epílogo: A vista para a Cidade Proibida do alto do Parque Jingshan
Saindo da Cidade Proibida, você ainda tem uma missão — caso decida aceitá-la: ver a Cidade Proibida em sua inteireza do alto, da colina do Parque Jingshan, aquela que você na foto acima através do portão.
Estes eram jardins imperiais, uma espécie de “anexo” da Cidade Proibida, que só em 1928 se tornou aberto ao público.
Mesmo já um tanto cansado, eu resolvi ir lá para fechar esta visita com chave de ouro.
O que encontrei foi uma área bem pacata, com vários visitantes chineses, mas nada demais, e com a vista para a cidadela imperial sob um céu que agora já estava acinzentado e sem sol.



Eu entrei, vi os penjing, e chupei um picolé. (Afinal, eu estava sem almoçar direito hoje. Crianças, não façam isso.)
Logo se apresentaram algumas rampas por caminhos que subiam a colina no centro do parque, onde me esperava uma edificação redonda que lembrava um coreto de praça. Ali, mais uma vez a arquitetura colorida e de tons azulados em madeira característicos da Dinastia Qing (1644-1912) e sua origem manchu.
(Os manchu eram, e de certa forma ainda são, um povo distinto do chinês, hoje absorvido, mas com língua e costumes próprios. Oriundos do nordeste da China, à fronteira com a Coreia, eles derrubaram os Ming no século XVIII e se instalaram como a última dinastia imperial, a Qing. Por exemplo, não tinham o costume de atar os pés das meninas).



O céu não deixava ver em que momento da tarde nós estávamos. Eram umas 16h, tempo ainda de eu ver uma — importante — atração neste que era o meu último dia em Pequim.





Gosto muito quando o post começa com o aviso de “este será um post longo”
Muito bacana!
Tô com uma dúvida sobre Jingshan . Precisou comprar ingresso com antecedência? No site oficial fala que precisa fazer uma reserva por telefone. Foi necessário mesmo?
Abraço
Obrigado pela mensagem, David, e bem-vindo ao site!
De maneira alguma. Não foi preciso nem comprar nada antecipadamente nem reservar nada por telefone pata visitar Jingshan. Bastou-me chegar lá e pagar a entrada normalmente com os aplicativos de pagamento chineses — e pimba.
Qualquer dúvida, estamos aí!
Abraço
Primeira vez aqui, gostei bastante do olhar e da forma que vc conseguiu expressar, voi assistor mais sobre.