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China Pequim & arredores

O Templo do Céu em Pequim, em detalhes

Eis uma das vistas e atrações mais emblemáticas de Pequim: o Templo do Céu, que não é bem um templo.

Yin Yang disassembled
O yin yang, de complementaridades, é provavelmente o mais famoso dos símbolos tradicionais chineses.

Erigido em 1420 sob o imperador Yongle da Dinastia Ming e tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, este é um altar para cerimônias e sacrifícios orientados ao céu (tian), este conceito fundamental da mística chinesa.

Para os chineses, não existe um Deus personificado, nem eles tampouco são exatamente ateus. Na sua crença tradicional de milênios, há uma realidade espiritual de forças divinas invisíveis aos olhos, mas que regem este mundo e o que os ocidentais convencionamos traduzir por “céu”; e, interligada a ela, há em paralelo a realidade terrena, onde o imperador era visto como Filho do Céu (Tianzi, ou Son of Heaven em inglês), o representante dessas forças divinas na Terra.

O feng shui é a harmonização dessas energias no espaço — na sua casa, no local de trabalho ou em todo um território. O tai chi, assim como o kung fu, o wushu e outras variantes são movimentos em consonância com essas vibrações e energias, e assim por diante. Há toda uma metafísica na visão de mundo tradicional chinesa e que em certa medida se mantém, apesar do foco atual em bens materiais e dinheiro.

À época imperial, era considerado essencial que o Filho do Céu — o imperador — realizasse impecavelmente certos rituais em honra a essas forças celestes, para que as coisas se passassem bem na Terra. Elas incluíam sacrifícios animais (gansos, ovelhas ou bois, como no Ocidente antigo), coisa que os taoístas e budistas, em tempo, começaram a criticar como dissonantes da verdadeira harmonia necessária, e os sacrifícios foram diminuindo.

Hoje, temos aqui um complexo preservado que é das atrações mais imponentes e belas em toda a capital chinesa. Venhamos ver de perto.

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O imponente Templo do Céu em Pequim, erigido no século XV sob a Dinastia Ming (1368-1644).

Pequim, Pequim

“Quando eu cheguei por aqui eu nada entendi”, rimou Caetano Veloso em Sampa. Talvez eu pudesse dizer a mesma coisa sobre quando eu cheguei a Pequim, mas isto não seria bem verdade.

Talvez se pudesse falar também “da dura poesia concreta de tuas esquinas” ou “da deselegância discreta de tuas meninas” na China, mas a realidade é que eu reconheci mais do que imaginava.

Tendo já ido à Ásia Central e à Sibéria, com suas cidades excessivamente extensas — parques enormes, ruas larguíssimas, calçadas às vezes mais largas que as ruas de outros lugares — que parecem emular a vastidão das estepes centro-asiáticas, Pequim me era algo familiar, ainda que eu não o esperasse. Adoro fazer esse liga-pontos cultural quando viajo.

Este era meu dia final em Pequim, antes de finalmente zarpar alhures nesta China, e portanto a minha postagem final por ora na cidade. Refletir é preciso.

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Distâncias vastas caracterizam Pequim. Você nem via o final deste parque onde se insere o Templo do Céu. É uma característica desta Ásia Central e adjacências, desde aqui até a Rússia. Embora tenha aproximadamente a mesma população de 21 milhões de pessoas na sua área metropolitana, Pequim tem o dobro da área da Grande São Paulo. Apesar de tudo o que se imagina da China, você se sente mais apertado na capital paulista que aqui.

Pequim tem um clima bastante seco. Você acha que começa a ficar com sede menos pelo calor que pela secura do ar. Típico, mais uma vez, desta Ásia continental de clima temperado que pouco nos aparece na imaginação e onde todo este norte da China está inserido.

Aqui, como cheguei a sugerir já na postagem inicial na cidade, misturam-se essa geografia centro-asiática, o urbanismo amplo e modernista soviético, e a presença — de matriz e inspiração japonesas — da tecnologia eletrônica em várias esferas da vida, mais que no Ocidente.

Não é uma coisa necessariamente boa, mas os asiáticos (os do Leste da Ásia pelo menos) têm essa fixação. Alguns talvez se lembrem do robozinho que eu lhes mostrei fazendo entregas de serviço de quarto no hotel onde eu fiquei. Deparei-me com ele no elevador e, mal-educado, ele já queria entrar antes mesmo de me deixar sair — e o pior é que você não pode pedir licença. Obesos não passariam.

Tudo isso, é claro, por cima da camada de religiosidade tradicional chinesa que só não é mais antiga que a geografia. Misture-se isso tudo numa tigela, e tem-se aí uma ideia de o que é Pequim.

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Robozinho que realizava entrega de serviço de quarto no meu hotel. Mal-educado, já ia entrando no elevador antes de quem estava dentro desembarcar. As pessoas aqui do Leste Asiático têm certa fascinação maior pelo eletrônico que noutras partes do mundo.

Dito isso, ainda há aquela China “raiz” nas ruas de Pequim. As pessoas — essencialmente os homens — fumam mais que no Ocidente e mais até que no Japão.

Notam-se também ainda coisas típicas de país menos desenvolvido, para o bem ou para o mal. Lembro-me do cheiro de frutas maduras no supermercado, como numa feira, e de passar por uma esquina com um senhor pobre da zona rural vendendo periquitos e filhotes de coelho em gaiolas.

É, claramente, um país em transição apesar de toda a pujança econômica que se alardeia. 

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Visitando o Templo do Céu

O complexo do Templo do Céu seria a minha atração final em Pequim nesta viagem. 

Não se trata apenas da edificação na foto de capa, mas de toda uma área ancestral que desde 1918 é aberta ao público dentro de um (grande) parque. Antes, tudo isto era restrito ao imperador e ao seu séquito mais próximo.

Você não precisa de muito tempo para esta visita. Eu diria que bastam umas 2h por aqui, sem contar o tempo de deslocamento no metrô para vir até estas imediações.

Eu vim logo após a visita à Cidade Proibida. (É um par bom de encaixar, já que a Cidade Proibida toma uns ¾ do seu dia). Há mais de uma estação de metrô nestas bandas, e a melhor dependerá do seu ponto de origem. Oriundo lá da Cidade Proibida, eu desembarquei na estação Tianqiao.

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Ilustração na estação de metrô Tianqiao, na entrada oeste do Parque do Templo do Céu. Parece mostrar uma procissão imperial, talvez das que ocorriam quando, uma vez ao ano, o imperador vinha realizar sua cerimônia em honra ao Céu.

O Parque do Templo do Céu

Desembarquei, e a tarde havia ficado nublada. Já não tínhamos mais o sol de quando eu estava na Cidade Proibida pela manhã.

Agora, havia um cinza meio diáfano, que eu não sabia se eram bem nuvens ou poluição, mas que contrastava com o verde e as flores cá debaixo, na terra.

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O Parque do Templo do Céu tem amplas calçadas assim. Da estação de metrô Tianqiao até o templo propriamente dito, eu andei uns bons 2 Km. Parecia que nunca ia chegar.

Eu, como o único ocidental ali em vista, achei curioso que aqui na China se pague para entrar em certos parques como este. Para a gente ver como essas generalizações de “comunista” ou “capitalista” contam muito pouco.

(Uma amiga europeia ficou chocada que esse fosse o caso, mas lhe fiz ver que, por outro lado, os banheiros públicos aqui são gratuitos — como também na Coreia e no Japão —, ao passo que na Europa se cobra do pobre indivíduo que precise obrar). 

O preço varia um pouco de acordo com a época do ano, mas é módico para quem está em viagem turística: o equivalente a coisa de US$ 2 (R$ 10). Os chineses se resolviam com seus aplicativos, mas eu precisei ir ao guichê — onde a pessoa estava tirando uma soneca.

Fiz ver isso que, à catraca, me cobrava o tíquete, ao que ele ficou ligeiramente espantado e ficou curioso.

Quando fiz mímica para indicar que o vendedor tinha dormido a um dos guardinhas à catraca, ele achou aquilo inusitado e veio então bater no vidro para acordar o cidadão. Coisas da China. Via de regra, as pessoas são prestativas.

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Todo o ambiente é bem família, e quase não vi ocidental nenhum. (É impressionante como a mídia ocidental pinta a China como um monstro e assusta as pessoas sobre um lugar tão rico de história e cultura.)
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Nas laterais, jardins de flores, bancos onde se sentar e um ambiente aprazível.

As estruturas outras no Templo do Céu

Após andar uns bons 2 Km dentro do parque naqueles caminhos de chão liso, finalmente começam a se avistar as estruturas religiosas que marcam este lugar. Como dito, são altares, não exatamente templos.

Quem criou tudo isto foi o imperador Yongle (1360-1424), o terceiro imperador Ming e responsável também pela criação da Cidade Proibida, que lhes apresentei no post anterior. A ideia aqui era ter um lugar adequado onde honrar o céu e pedir bons auspícios.

Quando você chega a esta área, há mais bilheterias internas para além daquelas lá de fora da entrada do parque — pois os chineses gostam desta coisa assim meio boneca russa, de um tíquete dentro do outro a depender áreas que você quiser visitar.

Há uma bilheteria ao norte, para ver a estrutura principal do Templo do Céu, e outra ao sul, para ver as demais estruturas. Eu sugiro começar por esta última, tanto para deixar o melhor para o final quanto porque cá no sul há uma bilheteria física que facilita sua vida. No norte, há apenas QR codes para lhe dar trabalho nos aplicativos chineses.

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A bilheteria física na parte sul deste “eixo monumental” do Templo do Céu. Foi o único momento em que avistei outros ocidentais. Você deve adquirir logo um ingresso-combo que dá acesso tanto à área sul quanto a norte.
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Na área sul, temos a Abóbada Imperial do Céu (Imperial Vault of Heaven) — ali por detrás do portal — e o Altar do Morrete Circular (Circular Mound Altar). Como noutros lugares, há as chinesas vestidas a caráter para entrar no clima daquele tempo imperial e tirar fotos de si.

Tudo isto foi construído sob o imperador Yongle no século XV, como lhes disse, mas foi somente com o imperador Jiajing (1507-1567) que este lugar ganhou a alcunha de “Templo do Céu”.

Isso porque no século XVI ele mandou construir novos altares em cantos distintos de Pequim e dedicar cada um deles a um elemento: um Templo da Terra, um Templo do Sol e um Templo da Lua, além deste que passou a ser então conhecido como Templo do Céu. Os demais nem de longe tem este garbo todo, daí serem menos famosos.

Mais tarde, sob o imperador Qianlong (1735-1796) no século XVIII já sob a Dinastia Qing — ele que foi o idealizador dos Palácios de Verão e último imperador a ainda gozar de receita para estes empreendimentos — o Templo do Céu foi ainda incrementado com parte do desenho arquitetônico que vemos hoje. 

Vamos adentrando.

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O portal que leva ao lado sul, com a Abóbada Imperial do Céu (Imperial Vault of Heaven 皇穹宇) lá atrás. A arquitetura tradicional chinesa encanta os olhos.
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Mais de perto, vista por entre o portal.

Como vocês já devem ter entendido, o Templo do Céu é todo este complexo aqui, não apenas aquela edificação arredondada. Por este espaço, o imperador e seu séquito realizavam uma procissão — longe dos olhos do povo, que era proibido de vir assistir — cerimonial na ocasião do solstício de inverno (dezembro aqui no hemisfério norte) para honrar o Céu.

Telhas de um azul-escuro postas ali nas reformas dos séculos XVI e XVIII acentuam ainda mais o charme do lugar e lhe dão um diferencial. 

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As telhas das edificações aqui do Templo do Céu em Pequim.
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Os detalhes.
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Telhados azuis cobrem a maior parte das edificações neste chamado Templo do Céu.
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O charme maior é talvez aqui, na Abóbada Imperial do Céu (Imperial Vault of Heaven 皇穹宇).

Esta edificação data de 1530, da reforma empreendida sob o imperador Jiajing (1507-1567). Aqui ficavam guardadas as tábuas com as orações, por assim dizer, a serem recitadas durante a cerimônia. 

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Seu teto redondo de telhas azuis mais de perto, parecendo um chapéu.
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Visto de frente. Às vezes, ele está aberto e é possível ver seu interior; mas não se preocupem, pois veremos o interior da edificação principal, e ela é semelhante — só maior.

Também ainda aqui nesta parte sul do eixo monumental do Templo do Céu, o chamado Altar do Morrete Circular (Circular Mound Altar). 

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Venhamos entrando.
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Portais brancos da cor do céu que tínhamos hoje dão o tom.
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O Altar do Morrete Circular (Circular Mound Altar), onde eram realizadas cerimônias no tempo imperial.
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É um programa família de sábado de tarde como outros, me pareceu — ainda que fosse quarta. Não sei se não eram chineses vindos de outras cidades para conhecer Pequim.
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Aliás, quem achar que os chineses todos levam aquele jeito fechado e algo compenetrado de quando os vemos no Ocidente, aqui se surpreenderá.

O Salão de Oração para Boas Colheitas — o que imaginamos como o Templo do Céu propriamente dito

O edifício principal deste Templo do Céu — aquele de três círculos concêntricos construído em 1420 — é chamado de Salão de Oração para Boas Colheitas (Hall of Prayer for Good Harvests), já que a agricultura era fundamental neste populoso império, antes de a China se tornar grande importadora de alimentos. À época imperial, a China pouco comprava coisas de fora.

São 38m de altura por 36m de diâmetro na base, numa breve elevação e por detrás de um colorido portal de telhas azuis.

Curioso fui eu na Coreia do Sul, tendo visto a imagem deste templo na internet muitos anos atrás e procurando por ele em Seul, achando que ele ficava lá. Ninguém sabia me dar notícia de tal templo com estas características. Foi preciso eu esperar até esta viagem a Pequim para vir vê-lo de perto, e valeu a pena.

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O pavilhão que serve de portal de acesso. Vislumbra-se a edificação principal do século XV ali atrás.
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Ei-lo, de 1420, o Salão de Oração para Boas Colheitas (Hall of Prayer for Good Harvests) no Templo do Céu em Pequim.

É um edifício deveras harmonioso e que não destoa em nada da China antiga — e do Oriente em geral — da nossa imaginação. Um prédio imaginado da fantasia não conseguiria ser tão quintessencial.

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E cá estamos, senhoras e senhores. Demorou, mais eu cheguei.
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E hoje eu estava de amarelo, a cor imperial na China.

À minha volta, dezenas de chineses tiravam fotografias, alguns em trajes tradicionais.

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Os chineses se divertindo com seus trajes tradicionais nestes lugares históricos. Estes aqui mais perto são característicos dos Qing (1644-1912), a dinastia manchu, de raízes culturais no norte e centro da Ásia.
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Alguns refinados chamavam até a atenção.
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Eles enfeitam a visita, e as crianças em especial ficam bastante fofinhas.

Vamos chegar mais perto e dar uma olhada no interior.

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O interior deste Salão de Oração para Boas Colheitas, hoje decorado nas cores vivas e fortes que caracterizaram a estética da Dinastia Qing (1644-1912), tem quatro pilares principais a representar as quatro estações do ano. À volta, doze pilares representam os doze meses do ano. (Tradicionalmente, o calendário chinês já tinha 12 meses. Seu Ano Novo ocorre na segunda lua nova após o solstício de inverno, o que quase sempre cai entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro no nosso calendário).
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Por fora.
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Ali junto dele.

Epílogo: Encerrando minha estadia

Fiquei ainda um tempo pela área, tempo de ver um freezer de sorvetes em formato deste templo — como fazem hoje os chineses com tantos dos seus monumentos históricos, como lhes mostrei lá no Palácio de Verão — e devagar tomei rumo. 

Devagar não porque eu tenha andado vagarosamente, mas porque era mais uma légua desde aqui até a saída leste do parque, onde ficava a estação de metrô que agora me interessava para regressar ao hotel (a Tiantandongmen ou Temple of Heaven East Gate Station). 

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Os sorvetes no formato do salão. (São pitorescos, mas via de regra custam mais caro do que deveriam e não são lá muito dignos de nota no sabor. Acho que os fazem mais para a foto que para qualquer outra coisa).

Eu aqui completava esta minha estadia em Pequim, talvez a capital mais culturalmente rica e histórica que eu ainda não havia visitado no mundo. Era um sentimento de realização.

No caminho do hotel, pus-me numa movimentada esquina, os carros muitos a passar. Ônibus, bicicletas, e os transeuntes na calçada, além de outros sentados ali perto. Os chineses me olhavam casualmente, mas à noite todos os gatos são pardos — acho que depois de um tempo já não notavam que eu era de fora.

Pus para tocar La Maza, de que repente me deu ganas de ouvir. Não qualquer uma, mas uma versão ao vivo na voz de Mercedes Sosa, inigualável. É um verdadeiro hino a qualquer um que se dedique a viver a vida bem vivida e com autenticidade. E na margem da avenida de Pequim, eu fiquei de pé e chorei. Quem diria.

Vida que segue, meus jovens. O interior da China agora nos aguardava.

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La Maza
(Música de Silvio Rodríguez)

Si no creyera en la locura
De la garganta del sinsonte
Si no creyera que en el monte
Se esconde el trino y la pavura

Si no creyera en la balanza
En la razón del equilibrio
Si no creyera en el delirio
Si no creyera en la esperanza

Si no creyera en lo que agencio
Si no creyera en mi camino
Si no creyera en mi sonido
Si no creyera en mi silencio

¿Qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones
Un revoltijo de carne con madera
Un instrumento sin mejores pretensiones
Que lucecitas montadas para escena

¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?
Un testaferro del traidor de los aplausos
Un servidor de pasado en copa nueva
Un eternizador de dioses del ocaso
Júbilo hervido con trapo y lentejuela

¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?
¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?

Si no creyera en lo más duro
Si no creyera en el deseo
Si no creyera en lo que creo
Si no creyera en algo puro

Si no creyera en cada herida
Si no creyera en la que ronde
Si no creyera en lo que esconde
Hacerse hermano de la vida

Si no creyera en quien me escucha
Si no creyera en lo que duele
Si no creyera en lo que quede
Si no creyera en los que luchan

¿Qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones
Un revoltijo de carne con madera
Un instrumento sin mejores pretensiones
Que lucecitas montadas para escena

¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
Qué cosa fuera la maza sin cantera?

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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