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China Pequim & arredores

Tomando o trem na China: A caminho de Pingyao

(Este é um post de primeira experiência. Depois, virá um outro com explicações detalhadas sobre os tipos de trens, dicas de como reservar e o compilado geral.)

Chegada era a hora de eu deixar Pequim, de me aventurar pelo interior da China. Agora que eu havia me familiarizado com a capital chinesa e passado a me sentir à vontade nela, era a hora de mais novidades. Tomar o trem era algo incontornável. 

A quem não sabe, a China tem a maior rede de trens de alta velocidade do mundo. São mais de 40 mil Km de ferrovias interligando todo o país, com trens confortáveis, frequentes e pontuais — além de muito rápidos. 

Um trem de alta velocidade é aquele que viaja acima dos 200 ou 250 Km/h. É comum que se chegue a 300 Km/h, e isso você encontra também na França, na Alemanha, no Japão e em outros países do mundo já há um tempo (vide o famoso trem-bala japonês, cujo primeiro modelo saiu ainda em 1964).

O diferencial chinês, francamente, não é a velocidade, mas a acessibilidade, já que as passagens saem muito mais em conta, e o fenomenal é que o país tenha erigido toda essa malha de alta velocidade de 2008 para cá. Antes das Olimpíadas de 2008, não havia um sequer no país. (Enquanto isso, no Brasil, estamos ocupados com greves de caminhoneiros e coisas assim de ponta). 

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A tecnologia dos trens-bala ou de alta velocidade está bem estabelecida mundo afora — o que falta é vontade política ou dinheiro em alguns países. Na China, eles são semelhantes ao que encontramos no Japão, na Coreia do Sul ou em alguns países europeus. Chega-se a 300 Km/h ou até um pouco mais. O diferencial são a frequência e o preço, que na China são relativamente camaradas.

Porém, este post não é sobre a tecnologia dos trens de alta velocidade (para um relato mais virgem sobre minha primeira experiência e impressões num trem-bala, no Japão, veja aqui), nem tampouco é ainda um post com todos os detalhes sobre como comprar passagens etc. 

A grande novidade aqui para mim não eram os trens de alta velocidade, já conhecidos meus de outros carnavais, mas as estações ferroviárias chinesas, que mais parecem aeroportos e são mesmo uma experiência diferente daquela que temos no restante do mundo. 

Além disso, hoje foi o meu primeiro dia chamando carro por aplicativo chinês, o DiDi. 

Eu estava pronto naquela manhã no hotel para tomar o meu rumo. Eu ia, a saber, em direção a Pingyao, uma hiper pitoresca cidade histórica chinesa a coisa de 4h de Pequim em trem. (4h num trem chinês, isto é. São os mesmos 580 Km de São Paulo – Belo Horizonte ou Salvador – Maceió).

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Hora de tomar rumo. Aqui estava eu numa das estações de trem de Pequim — vasta como tudo na cidade. As estações ferroviárias na China funcionam quase como aeroportos, como lhes mostrarei.

Chegando e entrando numa estação de trem chinesa

Esqueça as estações de trem europeias ou indianas, à moda antiga. Ponha de lado também as estações japonesas, assemelhadas a centros comerciais. As estações ferroviárias chinesas têm algo de semelhante às nipônicas no seu tamanho e modernidade, mas têm um esquema de segurança mais forte e funcionam de maneira similar aos aeroportos.

Algumas estão conectadas a linhas de metrô, mas a depender de onde em Pequim você estiver, às vezes é um caminho tortuoso que inclui conexões carregando bagagem, então eu achei mais conveniente chamar um carro de aplicativo — o DiDi. Funciona sublimemente, e não é caro. 

O DiDi faz as vezes do Uber na China. (O Uber não opera na China, nem tampouco o europeu Bolt). Ele é uma ferramenta do WeChat (chamado Weixin pelos chineses), que se utiliza para mil funções: bate-papo, realizar pagamentos, chamar carro de aplicativo, etc. Os chineses já se habituaram a esta coisa assim de várias ferramentas dentro de um único aplicativo.

Foi assim que eu cheguei nesta manhã a Beijing Fengtai, uma das várias estações da cidade, a 23 Km do hotel, numa jornada de 38 min segundo o aplicativo. Nestas grandes cidades, nunca demora muito a alguém pegar o seu pedido, então em instantes em fui notificado de que lá vinha Du me buscar. Eu me despedia deste bairro de Dongzhimen, onde estava hospedado, e me preparava para adentrar a China.

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Pequim nesta manhã, com seu ar árido deste norte da China.

Como estes nomes chineses enganam o ocidental desavisado, Du revelou ser uma moça. Era uma espécie de morena dos lábios de mel, versão chinesa e de óculos.

Du tinha uns lábios carnudos irretocáveis. Veio toda coberta numa roupa dessas de malha fria de uma cor só, de um cinzento etéreo à là o planeta do Super-Homem. Vinha com um chapeuzinho, de modo que só se via seu rosto e os dedos. Ah, os lábios de Du! Dava para fazer um poema.

Estes motoristas aqui às vezes conversam, às vezes, não — na minha experiência não há uma regra geral, mesmo com o sexo oposto —, mas Du não deu um “ai” sequer. Silenciosa na sua máquina (um carro elétrico chinês), deixou-me diante da gigantesca estação onde eu precisava entrar.

A prudência sempre manda se chegar com 1h de antecedência às estações ferroviárias chinesas, pois você precisa passar por uma segurança e mais de uma checagem até chegar à plataforma de embarque.

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Chegando à imensa estação ferroviária Beijing Fengtai. Como outras na China, ela parece um aeroporto, com entradas assim marcadas. Toda a sinalização está em mandarim e em inglês

De imediato, é preciso passar por uma segurança, em que você apresenta seu passaporte e a bagagem passa por um raio-x. Você não pode viajar com canivetes etc., mas não há restrição a líquidos. Também não tive problemas por ter gilete de barbear nem tesoura lá dentro do mochilão. Então venha na paz.

Uma vez dentro do prédio, encontrei umas maquinetas onde achei que teria que imprimir a minha passagem de trem, à moda japonesa com aquelas tirinhas magnéticas que você mete pela catraca. Eu estava enganado.

Aqui na China, viagem de trem é sem tíquete nenhum — nem impresso, nem no celular, nem QR code nem nada. Você informa o número do seu passaporte quando compra a passagem antecipadamente online (depois eu vou explicar como fazer), e só. Chegando aqui, apresenta seu passaporte e eles reconhecem você no sistema.

(Não recomendo tentar deixar para comprar a passagem na hora de viajar. Os trens lotam, e comprá-la pessoalmente dá mais trabalho que online.)  

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Estas máquinas ficam antes das catracas, para quem ainda não tem passagem ou quer modificar o bilhete ou pedir reembolso. Não se meta com elas. Eu me bati um pouco ali inutilmente nesta primeira vez. Só servem se você quiser imprimir um recibo como souvenir.
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O necessário é se dirigir às catracas, para poder aceder aos saguões principais da estação.
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Catracas assim. Algumas leem passaportes estrangeiros, que você lê como em aeroporto automatizado, com a página da foto voltada pata baixo. Muitas vezes, porém, há máquinas mais antigas que só leem documentos chineses. Neste caso, é só se dirigir ao guardinha. Sempre há um.

O processo de embarque

Os saguões eram amplos, com muito lugar onde se sentar, plantas, lojas de conveniências e alguns lugares onde comer algo. A disponibilidade de restaurantes aí vai variar a cada estação. (Em alguns casos, há opções tanto antes quanto do lado de dentro das catracas).

Havia grandes telões mostrando cada uma das partidas, com o número do trem, horário de saída, local de origem e o destino. (Atente que talvez o seu destino não seja o destino final do trem). Tudo é muito semelhante ao que se tem na Europa ou no Japão.

A grande diferença é que, se na maior parte do mundo você identifica qual será a sua plataforma e vai direto para lá esperar o trem, aqui na China há “portões de embarque”, feito em aeroporto, para checar que todos acedendo à plataforma são mesmo passageiros daquele trem.

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Painel mostrando as saídas naquela manhã em Beijing Fengtai. Fica alternando entre mandarim e inglês. Note que eles não falam em plataforma, mas em Check in. Não é um check in estilo avião, que você faz com antecedência, mas basicamente um apresentar-se com o seu documento para embarque no portão 3A ou 29B ou o que for.

Na Europa, em tese qualquer um consegue entrar em qualquer trem, e depois eles passam checando se todos os passageiros têm mesmo a passagem adequada (e há ocasionalmente aquelas rebordosas com gente que está ali sem a passagem correta). Na China, eles verificam todo mundo no portão de embarque, antes de entrar, e dentro do trem já não há mais checagem nenhuma.

Há anúncios no sistema de som também, tanto em mandarim quanto em inglês neste caso aqui de Pequim, então vale ficar atento. Eles chamam de Ticket check for boarding. Eu é que estou falando em “portão” por se assemelhar ao que se vê em aeroportos. 

Coisa de 45 min antes da hora de partir, já havia gente formando fila — e a funcionária, num uniforme policial azul, falou no microfone com ares de quem mandava todo mundo sentar, mas pode ter sido só impressão minha.

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Há portas numeradas assim para chegar às plataformas de cada trem. Ali, há uma checagem de documentos como em portões de embarque de aeroporto. Só mais perto da hora de saída do trem é que se permite ir à plataforma.

A saber, não se bebe água da torneira aqui na China, mas eu achei bons sinais de civilização que houvesse ali não apenas bebedouros como também dispensário de água quente para botar na térmica, fazer um chá, um café solúvel, um miojo ou um chimarrão aos viajantes gaúchos.

Os banheiros também são dignos, e com vaso sanitário. (Há a opção sem vaso também, a quem preferir).

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Nas modernas estações de trem chinesas, há lugares onde comer, banheiros bons (e gratuitos), e também dispensário de água tanto natural quanto quente para quem quiser fazer um chá ou um chimarrão.

Faltando 35 min para o a hora de saída do trem, abriram a porteira. Soou o aviso de som em mandarim e inglês, e as pessoas já ali postas em longas filas diante do portão se movimentaram. 

Havia pelo menos uma meia dúzia de catracas onde os chineses, simplesmente, escaneavam suas carteiras de identidade plásticas e faziam um reconhecimento facial. A nós estrangeiros, porém, eles recomendam usar o dito canal manual — isto é, a fila onde quem checa a documentação é um funcionário.

Nem perca seu tempo nas demais filas, você verá o anúncio em toda parte: “Aos portadores de passaporte é recomendado usar o canal manual” (Passport holders are advised to use the manual channel).

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As filas para aceder à plataforma nesta manhã na estação Beijing Fengtai. Havia muita gente, mas nada do outro mundo. A coisa andou relativamente rápido depois que liberaram o acesso, e as pessoas respeitaram as filas.

Eu olhava ao redor e não via nenhuma outra cara pálida — nem escura — que não fosse asiática naquele espaço todo. Onde estavam os turistas? Viajando de que? Ou não viajando?

Verdade é que muitos dos poucos que vêm à China se limitam a Pequim e Xangai, e não vão conhecer o maravilhoso interior da China. Este pecado não cometeremos. Entendo que é às vezes porque as pessoas nem sabem bem aonde ir, e isso nós também resolveremos nas próximas postagens.

Acho que não há outro país no mundo que se compare à China neste contraste: alta organização, porém vazio de turistas estrangeiros. Não sei se é a dependência do Google Mapas ou do Instagram que faz tantos milhões irem ao vizinho Japão e não virem aqui, sendo que a sensação de estar lost in translation é semelhante. 

De volta cá ao portão, a funcionária vestida de policial olhou meu passaporte, escaneou-o na máquina, e me mandou seguir. Uma escada rolante e lá estava eu com os outros na extensa plataforma ao lado do trem, encaminhando-nos a entrar cada qual no seu vagão. Neste trens de alta velocidade, há sempre assento e vagão marcados.

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Na plataforma ao lado do trem-bala chinês que me levaria a Pingyao, a 580 Km de Pequim, em 4h de viagem.

Como nem tudo é perfeito, eles permitem que se fume aqui na plataforma, e vários homens chineses davam uma tragada final. 

Acho um certo despautério que seja permitido fumar ali, naquela plataforma de ambiente semifechado — coberta, e aberta só la no fundo. Deus benza! Como é proibido fumar dentro dos trens, o que rola ali na plataforma é basicamente uma despedida de solteiro, com os fumantes a se acabarem.

Dentro, que é o mais importante, eu estaria a salvo. Não me demorei.

Por dentro de um trem de alta velocidade chinês

Há tipos diversos de trens de alta velocidade na China. Eu hoje ia num da categoria G, que imita o design dos trens japoneses, com assentos em 3 x 2 com um corredor no meio. Há mesinhas estilo poltrona de avião, como em tantos trens de alta velocidade mundo afora.

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Bem-vindos, senhoras e senhores.
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Os trens da categoria G na China (ao menos na segunda classe) têm este desenho de três assentos de um lado e dois do outro. Compre as suas passagens com antecedência enquanto há muitos assentos para escolher, para não acabar no famigerado assento do meio.

Os assentos se revelaram um pouco apertadinhos. Eu tinha espaço amplo para minhas pernas, mas o espaço entre um assento e outro não é muito largo. Você vai quase acotovelando o vizinho.

No meu caso, eu ia no corredor, no lado com apenas dois assentos, e no assento da janela ao meu lado ia uma senhora idosa conversadeira, de bengala. Animadíssima, ainda antes de o trem partir ela fez uma chamada de vídeo com um senhor que parecia ser seu marido do outro lado.

Falava em chinês animadamente, até que me cutucou com o cotovelo para eu olhar para a tela, como quem estava a contar ao marido “olha aqui quem vai sentado comigo”. Deu umas risadas, e continuaram. Mais tarde, um rapaz de seus 30 anos que parecia ser seu neto sentado noutra parte do trem apareceu para dar um oi à avó e sorriu. 

Saímos com precisão no horário, às 10:38 em ponto, e não demoraríamos a atingir a velocidade de 300 Km/h.

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Os trens de alta velocidade chineses desta categoria G podem chegar a 350 Km/h. A velocidade vai variando ao longo do trajeto, subindo e descendo, e o painel ali mostra.

Vi uma tomada tampada para cada dois passageiro, debaixo dos assentos, e espaço razoável para as bagagens na parte de cima do assento, como nos trens japoneses ou nos melhores trens europeus. Cabem mochilões e malinhas daquelas de cabine que se levam como bagagem de mão em avião sem problema. Já malões eu não vi onde alojar.

Nas telas ao fim de cada vagão, entre propagandas e outras coisas, volta e meia passava um videozinho cartunesco educativo, mostrando um cidadão esbravejando com o condutor e depois sendo levado pela polícia. A mensagem era clara: não arme barraco, desses que brasileiros ou estadunidenses gostam de às vezes armar e gravar em vídeo pra botar na internet e fazer polêmica.

Havia dois banheiros por vagão: um mais simples sem vaso, aquele banheiro de chão, e um acessível ao cadeirante — ou a quem precisa estar sentado para fazer suas necessidades. Semelhante aos trens da Europa, há um botão que você aperta para fazer deslizar uma porta arredondada. Lá dentro há papel, pia etc. Só não vi sabão. (Nos trens japoneses eu tampouco vi, diga-se de passagem).

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Joinha para o banheiro espaçoso do trem de alta velocidade chinês.

Neste trem eu não vi carrinho de comes & bebes — noutros depois eu veria. Tudo o que passou aqui foi um carrinho vendendo perfumes de marca e coisas estilo duty free, só que sem ser duty free

Sendo assim, levantei-me e fui bordejar, passar a visita num balcão que fazia as vezes de vagão-restaurante. Era, na verdade, um fundinho do vagão onde eu estava. Lá, os funcionários ficavam de prosa quando não tinham o que fazer. Havia uns quatro, entre moças e rapazes, todos na casa dos seus 25-35 anos.

Comecei a inspecionar do que havia: bebidas na geladeira de porta transparente, potinhos de macarrão instantâneo, umas bolachinhas salgadas daquelas de aperitivo de bar para beliscar com cerveja, e uns pacotes de salsicha crua que os chineses gostam de merendar. Nada realmente que me apetecesse.

Antes que eu fizesse qualquer sinal de conclusão, o rapaz detrás do balcão me perguntou algo em chinês. Boiei, embora soubesse o que ele queria. “Which one do you want?” [Qual você quer?], disse animada e num bom inglês a comissária que estava ali posta ao balcão pelo lado de fora deste, matando o tempo.

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O cidadão que passava com um carrinho a vender perfumes e coisas estilo duty free. Comida que era bom, eu tive que ir buscar lá no fim do vagão. (Já noutros trens, mais adiante, eu depois vi carrinho vendendo comes e bebes).

Eu não quis desapontar a hábil e prestativa funcionária — e eu estava começando a ficar mesmo com fome —, então pedi uma garrafa de suco de limão da geladeira, que eu já havia visto noutros lugares e estava mesmo há uns dias querendo experimentar.

Estava escrito 10¥ bem na tampa à minha vista, mas a prestativa moça estava empolgada. “São 10 yuan”, declarou sem perder o ânimo. Cogitei puxar uma nota de dinheiro no bolso, mas mudei de ideia e resolvi pagar pelo aplicativo à moda.

Oh, Weixin!”, exclamou ela com a outra moça, depois usando o termo mais internacional do aplicativo “WeChat!”, como quem diz “esse ocidental aí sabe das coisas”. Sorri também, e apontei para a cabeça dizendo que aqui não era só um rostinho bonito não, era também muita cuca no lance.

Weixin is very good!”, declarou ela fazendo o joinha e sorrindo, feito líder de torcida asiática. Foi simpática. Soltou um “You are welcome” após o meu “obrigado” em chinês (xie xie).

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Meu suco cítrico, que inclusive estava bom. Tinha gosto de suco de verdade, diferentemente daquelas onipresentes bebidas artificiais japonesas.

Pouco depois de eu retornar ao meu assento com esse suco de limão (limão-filipino, chama-se em português essa fruta), a velhinha ao meu lado acordou, com aquela cara amassada de sono, de quem dormiu pregada à janela, e de repente se encurvou toda para frente antes de me dizer algo em chinês.

Naquele breve instante, achei que ela estava delirando — desses delírios que gente idosa tem às vezes quando acorda, antes de se recolocar no mundo — e tivesse se esquecido de quem eu era. Aí foi que vi que ela havia se encurvado para poder enxergar o meu relógio de pulso e saber que horas era.

Ia dar 13h, e o gesto que os chineses fazem para dizer 13 com uma mão — um aro com o indicador e o polegar fechando o zero do 10, mais os outros três dedos estirados para sinalizar os 3 — parecia que ela estava me mandando ir tomar, até que antes de completar este pensamento eu entendi. Ela voltou a cochilar.

Ali por perto, um trupe de soldados amorenados da exposição ao sol, todos de uniforme, dormia como quem tinha perdido a noite. Seguíamos todos caminho China adentro, a sudoeste de Pequim.

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A vista que tínhamos do lado de fora, aqui já na província de Shanxi, uma das 22 províncias desta República Popular da China. Há, além disso, cinco regiões autônomas, quatro municípios de administração direta pelo governo central e duas chamadas Regiões Administrativas Especiais (Hong Kong e Macau). É um mundo isto aqui.

Chegando a Pingyao, cidade histórica em Shanxi

Era começo da tarde, uma tarde quente de final de primavera, quando chegamos — no horário — a Pingyao, em Shanxi. O trem ainda ia mais além.

Na saída, me despedi da velhinha e do pessoal no balcão-restaurante por onde passei. Todos me deram tchau, e eu me senti quase o personagem principal de Big Fish — filme de 2003 sobre um contador de histórias que, quando está para se despedir, todos os personagens de quem ele falou aparecem para vê-lo ir.

A comissária em traje policial feito aquelas de seriado japonês dos anos 80, séria em efígie na posição quase militar do lado de fora à porta, ainda sorriu sem quebrar a pose.

Eu segui meu caminho. Desembarcar era preciso. Desci pela estação, mui diversa da moderna edificação que eu havia visto em Pequim — esta aqui bem mais à moda antiga, e bem mais vazia. Ao que se desce da plataforma para o saguão principal, eles verificam novamente seu passaporte, para ver se você está saindo no lugar certo. Feito isso, eu agora estava por conta.

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Na plataforma, desembarcando em Pingyao, cidade histórica na província de Shanxi, a 580 Km de Pequim, no interior da China.
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A estação ferroviária daqui, bem mais à moda antiga.
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Pingyao cidade histórica, aonde eu chegava nesta tarde. Na próxima postagem eu conto sobre minhas andanças cá.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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